Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 23 de 50

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Garota, 11

Capítulo 21

 

Elle

17 de janeiro de 2020

 

Elle estava no quarto outra vez. Deitada de costas, ela podia

sentir a aspereza dos lençóis cinza sob a pele de seus dedos

enquanto encarava o teto mofado. Havia mais de um dia desde

que ele viera pela última vez. A água havia acabado e seu

estômago doía de fome. Isso fazia com que ela… quisesse vê-lo.

Mesmo que soubesse o que seria obrigada a fazer quando ele

voltasse.

Ela fechou os olhos, e, quando os abriu novamente, estava

escurecendo e o débil feixe de sol que entrava pela única janela

pequena desaparecia como se fosse a luz de uma lanterna

prestes a ficar sem bateria. Ela já mal conseguia enxergar o teto.

De repente, ele estava no quarto com ela, a silhueta do corpo e

dos braços fortes em contraste com a luz que se esvaía.

O homem se sentou na cama, mas o corpo dela permaneceu

imóvel, congelado, enquanto ele se inclinou sobre ela. Ele retirou

o cobertor fino que estava sobre seu corpo, analisando seus

joelhos machucados. Ela queria dizer a ele que parasse. Ela queria implorar por um copo d’água. Ela queria que ele a

deixasse sozinha.

Ela não queria estar sozinha.

No crepúsculo, o rosto dele era um borrão de traços

indistinguíveis. Seus dedos correram por seu umbigo, por seu

esterno e pararam, por fim, em sua garganta. Ele fechou a mão,

pressionando, e isso era inédito, essa dor, essa força que ele não

havia usado até então e que dificultava sua respiração. Ela

ofegou buscando ar, sentindo a palma da mão dele em sua

garganta, sua respiração limitada de uma maneira que nunca

estivera antes. Seu peito se comprimia dolorosamente.

— Por favor. — O suspiro soou irregular no ar gelado do

quarto. — Por favor.

Elle acordou com um sobressalto e se sentou na cama. Seus

dedos pulsavam contra o travesseiro que sua mão agarrava. Ela

o soltou como se estivesse ardendo em chamas e se levantou,

vacilante. O quarto estava escuro e ela demorou um instante

para se situar. Ela não sabia por quanto tempo havia dormido,

mas algo parecia estar errado. Algo havia acontecido.

Então ela percebeu com um arrepio de ansiedade: ela devia ter

buscado Natalie na aula de piano hoje. O relógio preto na mesa

de cabeceira de Martín exibia o horário em números garrafais:

5h22.

— Merda! — Ela não conseguia encontrar o celular em lugar

nenhum. Ela desceu as escadas e revirou a bolsa. Como era de

se esperar, ela tinha seis chamadas de diversos números e tinha

recebido três mensagens de Natalie perguntando onde ela

estava. Embora estivesse apenas vinte minutos atrasada, a primeira mensagem de Natalie era de quase uma hora atrás,

pouco depois do horário em que ela normalmente chegava de

ônibus na casa da srta. Turner.

Algo estava errado.

Depois de calçar as botas e apanhar o primeiro casaco que

encontrou, Elle correu até o carro de Martín. Sem tempo para

esperar o motor esquentar, ela deu ré em direção à rua enquanto

o carro guinchava em protesto. Dirigindo até a casa da srta.

Turner em direção ao sol que se punha, Elle telefonou para

Natalie. A ligação caiu na caixa postal. Ao parar em um

semáforo, Elle digitou uma mensagem.

. .

O semáforo ficou verde e ela afundou o pé no acelerador,

fazendo com que os pneus derrapassem no sal e no gelo da rua.

A casa da srta. Turner ficava a apenas dez quarteirões de

distância, e nas vezes anteriores em que Elle fora buscar Natalie,

todas as luzes de ambos os andares estavam acesas. A mulher

idosa morava sozinha e tinha medo de escuro, por isso mantinha

todas as luzes acesas independentemente do cômodo em que

estivesse. Quando Elle parou em frente à casa, uma pontada de

mau pressentimento a atingiu em cheio, deixando-a sem fôlego.

A casa estava cinzenta sob o pôr do sol e suas cortinas estavam

fechadas. Parecia abandonada. Ela correu até a porta e bateu

mesmo assim, mas não ficou surpresa quando não houve

resposta. O telefone tocou quando Elle ligou de seu celular, mas

ninguém atendeu. Depois de a ligação chamar vinte vezes, ela

finalmente desistiu.

Ela tentou imaginar o que havia acontecido. Talvez a srta.

Turner tenha saído da cidade e esquecido de avisar Sash. Então

Natalie chegou para sua aula e telefonou para Elle quando

percebeu que a srta. Turner não estava em casa, razão pela qual

as chamadas perdidas e as mensagens começaram mais cedo

do que deveriam. Talvez a srta. Turner tenha levado Natalie para

algum lugar especial, e as ligações eram justamente para avisá-

la da mudança de planos. Mas isso não explicaria as mensagens

desesperadas de Natalie perguntando onde Elle estava.

Elle grunhiu, frustrada, e voltou para o carro pela calçada cheia

de gelo, se esquecendo de tomar cuidado e quase caindo duas

vezes no trajeto. Ela se obrigou a dirigir muito lentamente

enquanto seus olhos perscrutavam as calçadas em busca de

algum sinal de movimento. Se Natalie saiu de lá uma hora atrás,

ela deve ter chegado em casa a essa altura, mas talvez ainda

estivesse a caminho, brincando na neve ou algo assim. Ela

gostava de escalar os montes altos de neve que se acumulavam

no estacionamento de um posto de gasolina entre a casa da srta.

Turner e a casa dos Castillo. Talvez ela tivesse parado lá e Elle

não a tivesse visto no caminho de ida. Seus olhos estavam tão

atentos ao posto de gasolina que ela quase bateu na traseira de

outro carro que estava parado no sinal vermelho. Ela freou bem a

tempo e esticou o pescoço para examinar os montes de neve,

mas Natalie não estava em lugar nenhum.

— Está sendo paranoica — disse ela, em voz alta. Ela respirou

fundo lentamente, mas isso não ajudou a acalmar seus nervos,

que ricocheteavam em seu corpo. Ela se lembrava da última vez

que ficara brava com Natalie. Há cerca de um ano, a menina, então com nove anos, estava em seu modo obcecado por

pessoas em situação de rua em Minnesota. Sem dizer a

ninguém, ela pegou um ônibus para a região central de

Minneapolis e visitou um grupo de pessoas que estavam

acampadas perto da ponte, no Mississippi. Sash usara um

aplicativo para rastrear o gps do celular de Natalie e eles

finalmente a encontraram uma hora mais tarde. Enquanto Sash

ficara frustrada e preocupada, Elle estivera em pânico e depois

ficara furiosa. Ela gritara com Natalie pela primeira e única vez, e

isso fizera com que a menina ficasse três semanas sem falar

com ela.

Esse foi o momento em que Elle percebeu como se apegara a

Natalie — quando ela começou a entrar em pânico pensando em

todas as circunstâncias hipotéticas que poderiam levá-la embora.

Coisas normais que antes eram triviais agora pareciam cercadas

de perigo. Ir a festas de aniversário. Participar de excursões.

Caminhar de volta para casa.

Quando Elle era criança, ela e os amigos costumavam

perambular juntos pelo bairro fazendo coisas imprudentes como

descer trechos íngremes de patins ou andar de bicicleta sem

usar as mãos. Durante os verões de sua infância, ela

normalmente saía com alguns amigos logo depois do café da

manhã, voltava para um rápido almoço e depois ficava fora até o

sol se pôr. Ela nem sequer se lembrava do que eles faziam para

ocupar todas aquelas horas. Provavelmente ficavam de bobeira

durante a maior parte do tempo. Iam até o parque mais próximo,

brincavam no balanço e no escorregador por horas. Escalavam

os brinquedos do parquinho. Tentavam fazer acrobacias no trepa-trepa. Nessa época, brincar em um parquinho era uma aventura

arriscada. Eles eram construídos em metal e borracha. Os

balanços eram suportados por correntes que beliscavam os

dedos e os trepa-trepas causavam calos vermelhos na palma das

mãos. O que quer que fizessem, aonde quer que fossem, sempre

sabiam exatamente onde estava o limite entre as ruas do bairro e

lugares longe demais para ouvir o chamado de suas respectivas

mães. Os pais os deixavam livres e ninguém ligava.

As pessoas já não podiam mais fazer isso.

Pouco importava que o perigo naquela época fosse igual ao

perigo daquele momento, a pressão da sociedade era diferente.

Era esperado que se soubesse onde os filhos estavam a todo

momento e que eles pudessem ser localizados apenas apertando

um botão.

Sash deu um celular a Natalie para que ela usasse no caminho

entre a escola e sua casa, e ela devia sempre, sempre atender

quando um adulto telefonasse. Ainda dirigindo devagar, Elle

telefonou para ela novamente. Sem resposta.

A tela de seu celular se acendeu e Elle olhou para o aparelho,

ansiosa. Martín. Ela atendeu, sem fôlego, emitindo sons que mal

poderiam ser considerados palavras.

— Oi, dormilón.

— Você buscou a Natalie? — Sua voz tinha um tom agudo.

— Hm, não. Achei que você ia buscá-la.

— Eu ia. — As mãos de Elle tremiam, adormecidas. Um soluço

escapou de seus lábios. — Quer dizer, eu tentei. Eu dormi e me

atrasei, Martín. Ela não estava na casa da srta. Turner. Não havia

ninguém lá. E ela não está atendendo o celular.

Martín ficou em silêncio do outro lado. Os dois já haviam visto

coisas demais para não imaginar imediatamente o pior cenário

possível.

— Onde está?

Elle queria encontrar alívio nas lágrimas, mas elas não vinham.

— Perto de casa. Voltei dirigindo devagar, mas ela não estava na

calçada. Também não a vi a caminho da casa da srta. Turner.

Onde ela poderia estar?

— Tudo bem, mi vida, cálmate.

— Não me peça pra ficar calma. Sabe o quanto odeio isso.

— Certo. Desculpe. É que… Não sei. — Houve um som de

movimento do outro lado da linha e então Martín voltou a falar. —

Vou voltar pra casa. Foi até a casa dela? Talvez Sash tenha

chegado mais cedo ou coisa assim.

— Ela não deveria…

— Eu sei, tá bom? Eu sei. Mas tente mesmo assim. Preciso

cuidar desse corpo e depois descobrir como voltar pra casa.

Quando ele desligou, Elle telefonou para Sash. A ligação foi

diretamente para a caixa postal. Ela provavelmente estava no

tribunal.

Nenhum deles estava aqui quando ela precisava de alguém.

Uma onda de raiva percorreu seu corpo, ainda que fosse injusto.

Martín estava tentando ir para casa para encontrá-la e Sash

ligaria de volta assim que pudesse. Ela sabia disso, mas a raiva e

o medo persistiam.

Elle estivera congelando poucos minutos antes, mas agora

sentia que estava fervendo em um caldeirão. Ela estacionou na

casa de Sash e saiu do carro depressa, sem fechar o casaco. O único jeito de driblar o pânico cego e absoluto era ficando brava

com Natalie. Ela tentou conjurar a fúria maternal porque, ainda

que não fosse uma mãe, ora, ela poderia sentir a fúria maternal.

Porque, é claro, Natalie apenas voltara andando para casa

quando Elle não atendeu o celular para buscá-la. Eram apenas

dez quarteirões. Nada de mais.

Mas ela não fora encontrada em lugar nenhum. As luzes

estavam apagadas na casa, mas Elle caminhou pelo chão

congelado e bateu na porta mesmo assim. — Natalie? —

chamou ela, vasculhando sua bolsa à procura da cópia da chave.

Assim que a encontrou e abriu a porta, ela soube que Natalie não

estava em casa. A casa estava gelada, o aquecedor estava

programado para a temperatura diurna que era o suficiente para

impedir que os canos congelassem.

Elle voltou tropegamente para o lado de fora, seus olhos

finalmente sendo invadidos por lágrimas enquanto ela olhava

para os dois lados da rua, examinando a calçada ao longo do

quarteirão. O sol do fim de tarde era refletido pela neve fresca em

um pálido tom laranja. As luzes da rua iluminavam os galhos

brilhantes das árvores, os carros estacionados e uma dupla de

trenós de plástico abandonados. Mas não havia ninguém à vista.

Natalie desaparecera.