Garota, 11
Capítulo 6
Elle
9 de janeiro de 2020
Como Elle imaginara, Martín dormia um sono profundo no sofá
quando ela voltou para casa pouco depois da meia-noite. Na
ponta dos pés, ela se aproximou e apanhou a manta de
microfibra que estava na cadeira reclinável ao lado dele.
Pequenas faíscas de eletricidade estalaram no escuro, pinicando
seus dedos enquanto ela abria o cobertor e o esticava por cima
dele. Feliz por não o ter acordado, Elle pegou uma taça de vinho
na cozinha e se dirigiu ao andar de cima.
Ela tinha uma noite de pesquisa pela frente. Mesmo com o
buraco da bala em seu rosto, ela sabia que tinha encontrado o
Leo certo nas redes sociais. Ela inspecionou seu perfil outra vez,
com mais atenção. No ano anterior ele mudara seu status de
“casado” para “solteiro”, mas não havia nenhuma marcação com
o nome de sua ex-mulher. Os perfis das pessoas que ele tinha
como familiares no Facebook diziam que todas elas eram de
diversas cidades do México. Não seria a primeira vez que viajaria
para investigar um caso, mas ela não sabia se poderia justificar um voo internacional para seguir uma pista que ela nem sequer
sabia se era real. Além disso, se elas moravam no México, havia
grandes chances de que nenhuma delas conhecesse a pessoa
que Leo suspeitava ser o .
Para garantir, ela mandou algumas mensagens para as
pessoas na linha do tempo com quem ele interagira
recentemente: comentários em fotos, curtidas em status etc. Seu
filho/ irmão/ primo me disse ter informações sobre um caso de
polícia arquivado. Você sabe alguma coisa sobre isso?
Era algo de mau gosto mandar mensagens sobre ele no
mesmo dia de sua morte prematura, mas essa era a carreira que
ela havia escolhido para si. Ela estava aqui para descobrir a
verdade, não para fazer amigos. Caso seus familiares ainda não
soubessem do acontecido, ela decidiu evitar os pêsames.
Ela verificou a hora no computador. Cinco horas atrás ela
estivera cantando e comendo bolo com sua família. Quatro horas
atrás ela saíra em busca do que poderia ter sido a maior
informação sobre o caso em vinte anos. Ou talvez não
fosse nada. Talvez o chá fosse uma pista falsa, talvez Leo a
tivesse inventado para fazer com que ela fosse até a casa dele.
Talvez ele tivesse a intenção de machucá-la, e quem quer que o
tenha matado antes que ele pudesse fazer isso, na verdade,
fizera a ela um favor.
Ela começara a temporada sobre o Assassino da Contagem
Regressiva havia apenas um mês, mas os níveis de assédio on-
line com os quais ela lidava já haviam atingido um novo patamar.
Em vez dos haters fazendo comentários idiotas — que adoravam
dar opiniões imbecis sobre todas as fotos que ela postava do seu sistema de som ou dos montes de notas adesivas em volta de
sua mesa — havia agora uma agressividade sem rodeios. E-
mails agressivos zombando dela por ousar pensar que
conseguiria solucionar um caso grande como aquele, algo que
ninguém, incluindo alguns dos melhores detetives no mundo,
conseguira fazer. Alguns a advertiam para não trazer à tona as
décadas de dor que os assassinatos do haviam causado.
s no Twitter tão sexualmente violentas que ela tinha vontade
de vomitar; estas eram reportadas instantaneamente.
Se Leo estivesse entre essas pessoas, talvez ele tivesse um
plano completamente diferente. Talvez ele fosse jogar uma isca
falsa para que ela mordesse a fim de prejudicar sua credibilidade.
Ela fez uma rápida busca pelos e-mails ameaçadores que
arquivara só por via das dúvidas, mas nenhum deles continha
variações do nome de Leo. Era um pequeno alívio, mas não
significava nada no fim das contas.
Elle tomou um gole do vinho. Nenhum dos familiares dele
respondera. Já passava da meia-noite e seus olhos ardiam de
exaustão, mas seu cérebro estava inquieto demais para dormir.
Descendo a barra de rolagem na página de amigos de Leo, ela
encontrou o nome que procurava.
O perfil de Duane Grove era relativamente trancado, mas havia
alguns posts e atualizações de status que ele mantivera públicos.
A última foto era um post compartilhado do Instagram feito duas
semanas antes: ele usava um boné de beisebol virado para trás
e óculos de sol e fazia uma pose divertida para a câmera, com os
dedos em sinal de paz e amor. Ela pensou em enviar uma
mensagem para ele, mas seria perda de tempo. Se ele estivesse fugindo da polícia haveria zero chance de ele estar acessando as
redes socias. Se não estivesse, provavelmente já estaria numa
cela nesse momento.
Uma notificação surgiu em sua tela — uma chamada de vídeo
de Tina.
Tina Nguyen era uma ex-fã que virou produtora do Justiça
Tardia que morava em Chicago. Ela também era uma
investigadora on-line brilhante e ajudara Elle a encontrar muitos
registros que outras organizações garantiram estar perdidos para
sempre.
Quando Elle atendeu a chamada, Tina surgiu sentada em seu
lugar de sempre: cercada de monitores, seu rosto banhado por
uma luz brilhante branco-azulada. — Como vão as coisas, Elle?
— perguntou ela enquanto digitava. — Viu as reações ao
episódio de hoje? Molly não para de me mandar mensagens toda
vez que passamos mais dez mil downloads.
— Ainda não tive tempo.
Tina olhou para a câmera, as íris pretas de seus olhos
refletindo a tela. Algo na expressão de Elle fez com que ela se
acomodasse em sua cadeira de rodas e parasse de digitar. — O
que houve?
Elle levou a taça de vinho à boca para esconder o rosto. — Por
que acha que houve alguma coisa?
— Ah, para com essa merda. Você vai mentir pra mim?
— Tá bom.
Tina ouvia com os braços cruzados sobre sua camiseta do
Paramore enquanto Elle contava sobre o e-mail de Leo, sobre o
telefonema e sobre tê-lo encontrado morto e terminou com um resumo sobre a pesquisa que havia feito até agora sobre a vida
dele.
— Acho que agora estou me perguntando se será uma perda
de tempo continuar tentando descobrir qual era a informação que
ele iria me dar, caso a informação existisse, para começo de
conversa. Há chances de o cara que encontrei na cena do crime
ter sido quem atirou nele. Aparentemente os dois administravam
um desmanche juntos, e, de acordo com seu perfil, ele parece
ser um imbecil. É muito provável que Leo não tivesse ideia do
que estava falando. Talvez eu deva continuar com os episódios
conforme já estão planejados.
Quando Elle parou de falar, Tina olhava para além da câmera,
tamborilando os dedos sobre os lábios. — Mas e se estiver
errada?
— Se eu estiver errada, Leo provavelmente sabia de alguma
coisa que provavelmente está no pen drive em seu bolso.
— E você não pode dizer a eles que sabe que isso existe sem
se meter em problemas. E você provavelmente nunca vai ficar
sabendo o que encontraram nele, porque não há motivos para
que a polícia o dê a você.
— Isso.
— Hm… — No momento seguinte Tina olhou diretamente para
a câmera. — Mas e se estiver errada sobre o sócio?
— Como assim?
— E se ele realmente tiver sido encontrado no lugar errado e
na hora errada enquanto o assassino fugiu antes de vocês dois
chegarem lá? E se Leo foi morto porque alguém sabia que ele
estava prestes a te dar uma informação crucial sobre o ?
A possibilidade havia passado pela mente de Elle centenas de
vezes nas últimas horas, e em todas as vezes ela tentara calar
esse pensamento. Se Leo tiver sido morto por causa da
informação, essa seria ao mesmo tempo a coisa mais terrível e
mais emocionante que já acontecera desde o início do Justiça
Tardia. Significaria que o que ele sabia era verdadeiro, e que ela
devia a ele encontrar seu assassino.
— Elle, vê se para. Tô vendo você se culpando daqui.
— Não estou!
— Está, mas não é sua culpa. Quem quer que o tenha matado,
a decisão foi dele, não sua.
Elle assentiu olhando para a tatuagem em seu pulso direito:
um ponto e vírgula. Por sugestão de Sash, Elle fizera a tatuagem
dois anos antes, na época em que desistiu de engravidar e caiu
em depressão profunda. Era seu lembrete, sua esperança, de
que mesmo os piores momentos da vida não precisavam ser o
fim da história. Por mais que ela quisesse ir para cama naquele
exato momento e desistir, ela não podia. Não quando ela poderia
estar mais perto do que nunca.
— Eu só… eu preciso saber o que ele ia me contar — disse
Elle. — Preciso saber se ele realmente sabia alguma coisa.
Tina permaneceu em silêncio por um momento. Então ela
olhou para a câmera novamente. — Eu sei que esse caso é mais
importante para você do que os outros, Elle.
Ela retribuiu o olhar de Tina, engolindo em seco. — O que quer
dizer?
— Eu sei sobre seu “incidente” de infância. — Tina ergueu a
mão quando Elle abriu a boca para protestar. — Antes que fique brava comigo por investigar seu passado, saiba que fiz isso anos
atrás, na época em que eu ainda era só uma fã do podcast. Se te
consola, foi muito difícil achar informações sobre você. Você as
escondeu muito bem.
Diante do silêncio de Elle, Tina continuou. — Está tudo bem,
Elle. O que aconteceu com você foi horrível. Eu li as notícias, os
relatórios da polícia. Eles não estão no Google, mas sabe como
é, você não é a única que quebra algumas regras. Não quis me
intrometer, de verdade. E quero ajudá-la. Qualquer coisa que eu
possa fazer, de verdade, pode me pedir.
Elle tocou a mesa com os dedos, lutando contra a vontade de
fechar o laptop e encerrar a chamada de vídeo. Se é que isso
faria com que ela se sentisse melhor. Tina poderia muito bem ter
encontrado fotos íntimas de Elle publicadas em um site de
pornografia de vingança — ela se sentia tão violada quanto.
Perguntas cheias de raiva sobre onde ela pesquisara e o que ela
vira ardiam nos lábios de Elle. Não importava. Se Tina sabia
sobre o abuso sofrido por Elle quando criança, ela sabia o que a
fazia ser tão empática com as vítimas do . Era tarde demais
para fazer algo sobre isso. Elle reprimiu sua raiva e olhou de
volta para a câmera.
— Como pode me ajudar? — As palavras soaram hostis, mas
Tina não pareceu desconcertada.
— Bom, vou começar tentando entrar em contato com os
colegas de trabalho de Leo para checar se algum deles sabe
alguma coisa. E vou cuidar de todos os e-mails que chegarem
sobre o podcast por ora, pra que você possa manter foco total.
Mas quero que me prometa que não vai esconder de mim se receber novas informações. Não ligo para o crédito, só quero
ajudá-la a pegar esse infeliz. — Ela sorriu e seus olhos brilharam
mesmo na tela escura do computador.
Por mais que ela se sentisse traída pela espionagem de Tina,
Elle precisava da ajuda dela. Se existia alguém capaz de
convencer a família e os amigos relutantes de Leo a falar, essa
pessoa era Tina.
— Tudo bem. Enquanto faz isso vou investigar a vida
romântica dele. Verificar se era romanticamente próximo de
alguém desde sua separação no ano passado. Mas vamos fazer
isso de maneira discreta, tudo bem? Não quero divulgar nada até
saber se Leo realmente tinha informações reais para mim.
Unindo o polegar ao indicador, Tina fingiu fechar sua boca
colorida de batom com um zíper. — Deixa comigo.
Elle forçou um sorriso, reprimindo a ansiedade. — Ótimo —
disse ela, finalmente. — Me avise assim que souber de alguma
coisa, por favor.