Garota, 11
Capítulo 38
Elle
19 de janeiro de 2020
Quando finalmente partiu em direção a Falcon Heights, Elle se
sentia meio grogue. Sua cabeça estava pesada depois de dormir
por algumas horas, sob muita insistência de Tina. Seu corpo
implorava para dormir mais, mas ela só podia responder com um
grande copo térmico de café para viagem que ela tinha na mão.
Enquanto tomava um gole, seu celular vibrou sobre o painel.
Ela recebia ligações e mensagens a todo minuto. Deu uma
olhada quando parou no semáforo: notificações de jornalistas e
blogs que ela entrevistara no passado tomavam sua tela. Havia
e-mails da rede de podcast, do detetive Sykes, de cerca de
milhares de ouvintes. Seu antigo nome, seu verdadeiro nome,
estava nos assuntos do momento no Twitter. A mensagem de
Angelica, irmã de Martín, foi a única que abriu.
.
,
.
— Merda — murmurou Elle. Ela respondeu com uma
mensagem curta, agradecendo e dizendo à cunhada que em
breve conversariam. Naquela manhã, ela tivera certeza de que
divulgar o episódio fora a decisão certa, mas ela não se dera
conta de que sua vida não seria a única a ser afetada quando ela
contasse ao mundo quem era de verdade. Não havia mensagens
de Martín, mas ele provavelmente estava recebendo muitas
delas também.
Ela desligou o celular e o colocou sobre o painel novamente.
Ela teria que encarar as perguntas em algum momento, mas
haveria tempo para isso mais tarde.
Quando chegou à casa do dr. Stevens, as cortinas estavam
fechadas e não havia carros à vista. Elle se aproximou e tentou
espiar pelas janelas da porta da garagem, mas estava muito
escuro para enxergar se havia algum carro lá dentro.
Ela se dirigia até a casa quando parou no meio do caminho,
olhando para o chão. Indo para o sentido oposto da porta de
entrada, havia pegadas levemente cobertas por neve fresca.
Olhando de relance para a porta outra vez, ela se virou e seguiu
as pegadas dando a volta na casa, feliz por estar usando botas.
Na lateral da casa, as pegadas pararam ao lado de um anjo de
neve no chão. Ela se lembrou de quando era criança, antes do
, antes de sua infância interrompida, quando corria para fora
depois de uma nevasca e se jogava no gelo, balançando os
braços e pernas para cima e para baixo para criar formas
angelicais na neve em seu quintal.
Dr. Stevens tinha um filho, ou talvez um neto, considerando
sua idade. Isso disparou algo no cérebro de Elle e ela foi tomada por dúvida. Talvez não devesse estar ali. Parecia que o dr.
Stevens nem sequer estava em casa, e ela não tinha certeza do
que perguntaria a ele se estivesse. Ele poderia se encaixar
vagamente na descrição de Danika, mas ela podia dizer o
mesmo de vários outros homens do corpo docente. Ele nem
sequer era completamente calvo; sua foto mostrava um anel
escuro de cabelo ao redor da cabeça. Um donut humano,
segundo Tina, o que fizera Elle rir até chorar.
Mesmo assim, deveria significar alguma coisa que tanto o
assassinato de Leo quanto as investigações do caso de Amanda
a tinham conduzido até ali. Ela tinha que, pelo menos, bater à
porta. Caso contrário, seria sempre algo não concluído em sua
mente.
— É só mais uma tarefa para ser riscada da lista — murmurou
para si mesma, caminhando de volta para a frente da casa. Ela
bateu à porta.
Um minuto mais tarde, uma mulher da idade de Elle apareceu.
Ela abriu a porta de entrada, mas não a tela, e olhou para Elle
através dela. — Sim? — perguntou.
Seu cabelo fino era um emaranhado de fios loiros. Ela tinha
olheiras cinzentas sob olhos vermelhos e usava apenas uma
camiseta e um shorts de algodão, apesar da temperatura
congelante.
— Hm, olá. Meu nome é Elle Castillo. Gostaria de falar com o
dr. Stevens.
— Ele não está.
Elle franziu as sobrancelhas. Era estranho que ele não
houvesse mencionado essa mulher quando ela esteve aqui anteriormente perguntando por Luisa. Eles provavelmente já
estavam juntos se o homem confiava nela o suficiente para
deixá-la sozinha em sua casa. Mas, é claro, caso ele estivesse
mantendo um caso com uma de suas alunas era de seu
interesse manter isso por baixo dos panos.
A mulher se precipitou para fechar a porta.
— Não, espere! — Elle esticou o braço. — Por favor, preciso
só de um minuto de seu tempo. Posso entrar?
A mulher loira respondeu com um gesto de cabeça negativo,
seus olhos arregalados. — Não, ele não gostaria disso. Não
deveria estar falando com você.
Os pelos da nuca de Elle se eriçaram quando reconheceu o
medo nos olhos da mulher. Era algo que ela vira muitas vezes
nos acompanhamentos quando trabalhava no , depois de
ser informada pela polícia sobre casos de violência doméstica em
lares com crianças. Não era um medo desenfreado, era
cauteloso, como autodefesa.
Essa mulher estava se protegendo até mesmo da possibilidade
de deixar o parceiro com raiva.
Elle tocou a tela com os dedos cobertos por luvas, esperando
que seu gesto fosse visto como uma demonstração de empatia, o
que de fato era. — Você está bem? — perguntou ela.
Qualquer que tenha sido o sentimento percebido por Elle no
rosto dela, foi devidamente reprimido. — Estou bem. — Ela
exibiu um sorriso.
— Você está… está segura nessa casa? — Elle observou os
braços dela, as coxas, os pulsos, todos os lugares onde haveria
hematomas se eles existissem. Mas ela não viu nenhum. Talvez ele não a oprimisse fisicamente, mas a dominasse de outras
formas.
— Que tipo de pergunta é essa? — indagou a mulher. Ela
cruzou os braços para se proteger do vento gelado que entrava
pela tela, retesando o corpo e se afastando da porta. — É claro
que estou segura.
Elle tentou reformular. — Há quanto tempo você está com o dr.
Stevens?
— Não é da sua conta.
— Quando ele estará em casa?
— Quando chegar. Ele é professor universitário, não tem muito
tempo livre aos fins de semana.
— E você? — Elle inclinou a cabeça para encontrar os olhos
da mulher. — Parece que acordei você. Você trabalha no período
noturno?
— Sou estudante de doutorado — respondeu ela,
rispidamente. — Passei a noite em claro trabalhando na minha
tese. E você? Qual sua justificativa para aparentar estar há
semanas sem dormir?
Mais uma vez ela tentou fechar a porta.
— Espere, espere! — Elle vasculhou sua bolsa, puxou um
cartão e o inseriu na fresta entre a porta telada e o batente de
madeira. — Sinto muito por ter atrapalhado você. Caso sinta que
quer compartilhar alguma coisa, por favor, entre em contato
comigo nesse número. Não sou policial nem nada, mas vou
ajudá-la no que puder.
Com um olhar de desdém, ela pegou o cartão e bateu a porta.
Quando voltou para o carro, Elle ligou o motor e,
estremecendo, aguardou enquanto as saídas de ar aqueciam o
interior do carro. Ela ligou o celular e ficou surpresa quando viu
que tinha perdido nove ligações de Martín. Ignorando as demais
notificações, ela ligou de volta para ele. Ele atendeu no primeiro
toque.
— Elle, há algo que precisa saber sobre a autópsia de
Amanda.
— O quê? O que houve?
— Ela foi asfixiada, mas encontramos algo em seu estômago.
Parecem ser sementes de mamona.
No necrotério, Martín andava de um lado para o outro em seu
escritório. Quando viu Elle, correu até ela e a abraçou,
enterrando o rosto em seu pescoço. Ela relaxou em seu abraço,
aproveitando o alívio da proximidade de seu corpo por alguns
segundos egoístas. Era como se cem anos tivessem se passado
desde que eles encontraram o corpo de Amanda Jordan nas
primeiras horas daquela manhã.
— Estou aliviado por estar bem. Estava desesperado tentando
falar com você. — Ele a segurou pelo ombro olhando para ela
como se quisesse ter certeza de que ela realmente estava ali. —
Eu pensei… pensei que talvez ele pudesse ter ido atrás de você.
— Realmente encontraram sementes de mamona no
estômago dela?
Martín se virou para apanhar um saco plástico de evidência em
sua mesa. Dentro dele havia um segundo plástico selado com
um conteúdo úmido e de cor marrom. Ela engoliu a bile que subira até a garganta. Havia uma etiqueta onde se lia: Jordan,
Amanda: substâncias encontradas no estômago.
— Tenho noventa por cento de certeza — disse ele. —
Passamos a tarde toda fazendo testes, mas, pelo que estamos
percebendo, é o que parece ser. E ela tinha sinais de problemas
gastrointestinais e de desidratação que são comuns no
envenenamento por ricina. Enviamos uma amostra para outro
laboratório que tem mais experiência nisso do que nós. Os
resultados devem sair durante a próxima semana.
— Até semana que vem não vai mais fazer diferença.
Fechando os olhos, Martín coçou a lateral dos olhos com o
polegar. — Eu sei, mas precisamos confirmar antes de colocar
isso no relatório oficial. Estou muito envolvido nesse caso. Nosso
departamento não pode cometer nenhum erro.
— Eu sei, você tem razão. Não quero que isso acabe trazendo
problemas para você. — Então ela balançou a cabeça. — Eu
contei a Ayaan sobre as ameaças que tenho recebido quando ela
me interrogou hoje de manhã. Mandei todas as informações para
ela, mas não tive tempo para ler minhas mensagens, não sei se
eles descobriram alguma coisa. Sam contou a teoria deles para
você? De que é um imitador?
Uma sombra passou pelo olhar de Martín. — Não. Então não
acham que é o de verdade? Esperava que as sementes de
mamona fossem ajudar a provar que era.
Elle olhou para o conteúdo retirado do estômago de Amanda
outra vez com lágrimas obstruindo sua visão. — A teoria do
imitador faz sentido, mesmo com as sementes de mamona. Ele
copiou os padrões da contagem regressiva do , por que não copiar os métodos de assassinato também? A asfixia pode ter
sido um erro, ou talvez quem quer que seja apenas tenha perdido
a cabeça.
Martín assentiu. — Talvez. Mas sabemos que o já
assassinou uma de suas vítimas por ter perdido a cabeça. Não
pode estar fora de cogitação, mas você está certa. Realmente
parece descuido, considerando o que sabemos sobre ele.
Elle desviou o olhar do saco plástico e olhou para Martín. —
Ayaan acha que meu podcast serviu de inspiração para ele. Que
ele pode ter tirado a ideia de copiar o dos detalhes que
forneci sobre os métodos dele no Justiça Tardia.
— Mas isso é…
— Não. — Elle o interrompeu. — Talvez eu tenha
sensacionalizado muito esse caso. Eu tive um foco maior no
assassino do que nas vítimas nessa temporada. Deixei que
minha relação pessoal com o caso me atrapalhasse, e agora
estamos pagando por isso. Os pais de Amanda estão pagando
um preço caro por isso.
— Mas essa é só uma teoria, Elle — argumentou Martín, ainda
segurando-a pelos ombros. — Ainda pode ser o em
pessoa. Pode ser que ele sempre tenha tido a intenção de ter
você como alvo para se vingar por ter escapado.
— Não importa! — gritou Elle. Então ela riu, sentindo-se à
beira da histeria. — De verdade, não importa quem seja. Quem
quer que esteja por trás disso está com Natalie, precisamos
encontrá-lo e detê-lo antes que ele a mate, e não faço ideia de
quando isso vai acontecer. Amanda morreu antes do previsto,
então não há razão para acreditar que ele vai respeitar o padrão dessa vez. Eu já analisei isso em minha mente incontáveis vezes
e ainda tenho muitas perguntas e nenhuma resposta.
Lágrimas correram pelas bochechas de Elle. — Falhei com ela.
Fui fraca, frágil. — Uma lembrança invadiu sua mente como um
veado entrando na frente dos carros em uma rodovia. Ele dissera
que ela era frágil ao secar o suor em sua testa enquanto fingia
estar cuidando dela. Ele parecera tão cuidadoso, tão distante do
homem que a obrigara a polir os sapatos dele com suas
lágrimas.
Os olhos castanhos de Martín estavam marejados quando ele
segurou as mãos dela. — Sim, você está certa. Mas você não é
frágil, mi vida. Não falhou com ela. Você tem todas as
informações possíveis sobre o , e mesmo que esse seja um
imitador, você vai conseguir pegá-lo. O original não foi
páreo para você. Não foi o que disse em seu podcast hoje?
Elle olhou para ele, aturdida. Martín respondeu com um sorriso
cansado e gesticulou em direção ao celular dele. — Sei que
provavelmente ia me contar hoje à noite, mas acho que milhares
de pessoas fizeram isso primeiro. Estou recebendo ligações e
visitas de repórteres o dia inteiro.
— Eu… Me desculpe. Devia ter ligado para você.
— Sempre incentivei você a contar para as pessoas quem é de
verdade — disse ele. — Sei que imaginou que isso faria com que
a vissem como uma pessoa fraca ou traumatizada, mas para
mim é o oposto. Quando me contou o que passou, pude enxergar
com muita clareza quão forte você é. Só fiquei surpreso por ter
divulgado dessa forma.
Elle apertou a mão dele. — Depois que Ayaan me disse que
ele pode ter se inspirado no podcast, me exaltei. Assim que vi as
notícias sobre a morte de Amanda sendo divulgadas, gravei o
áudio e pedi para que Tina publicasse.
— Consegue entender por que não me agrada muito a ideia de
você desafiar um serial-killer diante de seus milhares de
ouvintes?
Elle mordeu o interior da bochecha. — Entendo o que quer
dizer, mas não é como se ele já não soubesse onde eu moro.
Quero que ele saiba que não tenho medo dele.
Martín suspirou, balançando a cabeça. Então ele levou uma
mão à nuca de Elle, puxando-a para um beijo. — Você é muito
corajosa, ninguém pode negar isso. Mas há uma diferença entre
ser corajosa e ser imprudente.
— O que acha que estou sendo?
— Não sei ainda. — Ele pausou por um momento, observando
o rosto dela. Então perguntou: — Ayaan e Sam já sabem sobre a
sua revelação?
Elle desviou o olhar, fitando o chão. — Não contei para eles
diretamente.
— Eles vão descobrir uma hora ou outra, mesmo que não seja
pelo podcast. Já está por toda parte na internet.
— Eu sei. Vou lidar com isso quando for a hora.
Elle sentiu o celular vibrando no bolso do casaco. O nome de
Tina surgiu na tela e ela atendeu. — Alguma novidade?
Descobriu alguma coisa sobre os sujeitos da Mitchell?
A voz de Tina soava preocupada. — Não, por enquanto nada.
Mas achei que devia saber… Elle, eu finalmente consegui rastrear o de onde estão vindo vários dos e-mails com
ameaças. — Ela pausou para respirar. — É da Simple Mechanic.
A oficina de Duane e Leo.
Elle olhou para Martín, que conseguiu ouvir claramente o que
Tina dissera. Ele empalideceu. De repente ela teve uma
lembrança e compreendeu a razão pela qual as palavras em uma
das mensagens que ela enviara para Ayaan a incomodava tanto.
Cuidado com o que você deseja.
Duane dissera a mesma coisa quando ela e Sam o
interrogaram na oficina.
— Acho que Duane pode ser o imitador.