Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 18 de 50

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Garota, 11

Capítulo 16

 

Podcast Justiça Tardia

2 de janeiro de 2020

Transcrição: Quarto episódio da quinta temporada

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Som de relógio batendo.]

NARRAÇÃO DE ELLE

Dr. Sage trabalha na Universidade Mitchell, uma faculdade local

em Minneapolis com um dos melhores cursos em psicologia

forense no estado. Essa entrevista aconteceu em dezembro de

2019, antes do lançamento do primeiro episódio, e obviamente

antes da revelação desse episódio sobre as identidades em

potencial dos corpos carbonizados no chalé. Tenho certeza de

que dr. Sage teria muito a dizer sobre essa nova informação, mas

enquanto aguardamos por possíveis identificações de acho

importante que mantenhamos o foco no . Quanto mais

informações tivermos sobre ele — quem ele é, o que o motivou a

fazer o que fez — mais chances teremos de encontrá-lo.

ELLE

Doutor, você estudou os casos do alguns anos depois de

ele ter sido arquivado, correto? Em algum ponto no início dos

anos 2000?

DR. SAGE

Isso mesmo. Sou um dos psiquiatras que falaram com o

sobre o perfil que haviam criado para ele antes que o caso

deixasse de ser investigado.

ELLE

Certo. Gostaria de saber sua opinião enquanto especialista sobre

como podemos interpretar o processo de assassinato dele. Para

fins de contexto, meu marido é médico-legista e ele abertamente

discorda da avaliação do médico que examinou Katrina Connelly.

Enquanto os relatórios oficiais reportam que ela foi morta em um

ataque de fúria por estar resistindo, meu marido teorizou que o

a matou daquela maneira porque ela não estava morrendo

com o veneno, já que, para se sentir realizado com o assassinato

dela, ela precisava morrer no dia designado por ele, o sétimo dia.

DR. SAGE

É possível. Com base em tudo o que vi sobre o Assassino da

Contagem Regressiva, fica evidente que ele opera em uma linha

do tempo restrita com critérios inflexíveis para seus assassinatos.

Ele é imensamente detalhista e é bastante possível que ele tenha

algum distúrbio compulsivo. Mas eu seria negligente se não

dissesse que isso provavelmente não teve nada a ver com as

razões pelas quais ele comete os assassinatos. A grande maioria

das pessoas com distúrbios compulsivos leva vidas plenas e

prósperas e causam tantos danos às pessoas ao seu redor

quanto aqueles que não têm distúrbio algum. Mas com base na

obsessão dele pelos números três, sete e vinte e um, parece

plausível que esses números funcionem como um gatilho para

que ele cometa o assassinato. Se for esse o caso, eles

provavelmente se originaram em alguma espécie de trauma para

ele.

ELLE

Espere, trauma para o assassino?

DR. SAGE

Sim, esse é muito provavelmente o caso.

ELLE

Mas… essa não é… não é possível que isso seja interpretado

como uma desculpa ofensiva? Muitas pessoas passam por

experiências traumáticas quando crianças. Se todos que

passaram por uma infância violenta usassem essa desculpa para

assassinar pessoas inocentes, haveria muito mais homicídios a

serem investigados.

DR. SAGE

É verdade, e você está certa. Não é uma desculpa, mas é um

fato. A maioria de nós não gosta de ver as pessoas que cometem

atos bárbaros de violência como pessoas que já foram vítimas

também, mas, na realidade, é o caso para grande parte delas. O

extenso número de pesquisas sobre serial-killers demonstrou que

quase todos eles têm ocorrências de abuso severo e negligência

na infância. É um contexto importante para se ter conhecimento

ao analisar os motivos de um assassino e ao tentar compreender

que tipo de pessoa eles podem ser. No entanto, há algo a ser dito

sobre isso. Existe um analista comportamental do chamado

Jim Clemente que diz: “A genética carrega a arma, a

personalidade e a psicologia servem de mira e as experiências

puxam o gatilho”. É necessário uma mistura perfeita e terrível de

circunstâncias para criar um serial-killer. Trauma na infância é

apenas uma parcela disso.

ELLE

Entendo, faz sentido. De volta aos números: passei anos

estudando-os e tenho certeza de que alguns de meus ouvintes

também. Tem alguma ideia sobre o que eles podem significar

para ele?

DR. SAGE

Exceto por significados pessoais ou manifestos, que é o que

vemos nos assassinos várias vezes, é impossível afirmar. No

entanto, a vítima que escapou relatou haver símbolos do

cristianismo no chalé onde foi mantida. Bíblias, crucifixos nas

paredes, cartões-postais com a Escritura. Isso me levou a revisar

o significado dos números na Bíblia. Pesquisadores bíblicos e

teólogos encontraram significados em todo tipo de números ao

longo dos séculos — em alguns mais do que em outros. Mas os

dois primeiros números nas séries do são universalmente

considerados importantes. O três simboliza a trindade: o Pai, o

Filho e o Espírito Santo. Também representa o número de dias

pelos quais Jesus desceu ao inferno antes de voltar depois da

crucificação, e é um dos que são considerados números

espiritualmente perfeitos, assim como o número sete. O sete

significa inteireza, perfeição. O mundo foi criado em seis dias, e

no sétimo dia Deus descansou.

ELLE

E quanto ao vinte e um?

DR. SAGE

Bom, a primeira coisa a ser levada em consideração é que ao

multiplicar sete por três temos vinte e um como resultado. Isso

pode ser importante. Na verdade, pode ser que seja a única

razão pela qual ele escolheu esse número. Mas se estamos

seguindo a linha de raciocínio do simbolismo bíblico, em

Timóteo, Paulo lista vinte e um pecados que demonstram a

perversidade em um indivíduo. Vinte e um é visto como a

combinação do número treze, o número da depravação e do

pecado, e do número oito, o número dos novos começos. Usados

juntos, eles simbolizam um empenho novo e ativo relacionado à

rebeldia e à perversidade. Se acredita na ideia de que o foi

motivado por uma visão deturpada do significado bíblico desses

números — como muitos investigadores originais acreditavam,

considerando os itens no chalé e o contexto religioso

conservador da área naquela época —, faz sentido ele ter

escolhido o vinte e um como seu terceiro número. Sugere uma

decisão consciente de se rebelar, de se desviar da Palavra de

Deus. No entanto, se estivermos certos em relação a isso, é

difícil explicar as razões pelas quais ele começaria com uma

garota de vinte anos e não com uma de vinte e um. Dentro do

padrão dele, todo o resto relacionado aos números é consistente,

então é estranho que ele tenha se desviado disso com algo tão

importante quanto a idade de sua primeira vítima.

NARRAÇÃO DE ELLE

Dr. Sage traz um ponto que nós discutimos nos episódios

anteriores — uma coisa que, alguns ouvintes devem se lembrar,

também é uma obsessão para o detetive Sykes em certo nível.

Eu e minha produtora temos trabalhado muito nisso nos

bastidores, e hoje estou muito entusiasmada em poder dizer a

vocês que temos uma pista promissora. Ainda é cedo demais

para confirmar, mas espero poder falar mais sobre nossas

descobertas em breve. Continuem conosco. De volta para a

entrevista.

ELLE

Com base no que disse, parece acreditar que o padrão é uma

decisão, não uma compulsão que ele não consegue controlar.

Está correto?

DR. SAGE

É como avalio. Ele é um assassino muito meticuloso e isso fica

evidente em vários aspectos de seus crimes, desde sua escolha

de vítimas até a maneira como ele deixa seus corpos ao terminar.

Ele tem controle total de suas capacidades, e uma posição de

poder, na verdade, ocupa um importante lugar em seus crimes.

Desde o padrão minucioso estabelecido por ele até a forma como

ele força essas mulheres a obedecê-lo, ele demonstra controle

demais em seus assassinatos para que eles se resumam a uma

ação impulsiva e desenfreada.

ELLE

Vamos falar sobre isso. Entendo, com base em minhas próprias

pesquisas, que há dois tipos diferentes de serial-killers. Pode dar

uma ideia geral aos meus ouvintes de quais são eles?

DR. SAGE

A razão pela qual eu tenho uma carreira é John Douglas, o pai da

análise do comportamento criminal. Já viu aquela série,

Mindhunter? É mais ou menos baseada no início de sua carreira.

Douglas entrevistou centenas de serial-killers em todo o território

nacional, descobriu por que e como eles fizeram o que fizeram e

usou esse conhecimento para ajudar o e outros órgãos de

segurança a pegar assassinos ativos. Depois de um tempo, ele

percebeu que havia diferenças cruciais entre muitos dos homens

que entrevistava, e passou a categorizar os assassinos com base

em vários fatores: o que os motivava, como eles matavam suas

vítimas, quão organizados eram etc.

Assim, temos os assassinos visionários, que normalmente

estão vivenciando uma ruptura com a realidade e acreditam estar

sendo instruídos por Deus ou pelo demônio a cometer

assassinatos. Temos os assassinos hedonistas, que matam pela

adrenalina sexual, pelo prazer de controlar e em seguida destruir

um indivíduo. Se o indivíduo sente prazer ao exercer poder ou

autoridade sobre suas vítimas e ao prolongar suas mortes, o

chamamos de assassino de poder/ controle. E, por fim, temos os

assassinos missionários, que cometem seus assassinatos

motivados por um senso de dever de livrar o mundo de um tipo

específico de indivíduo.

ELLE

E, normalmente, os serial-killers se encaixam em apenas uma

categoria? Porque mais de uma dessas remetem ao .

DR. SAGE

Alguns se encaixam em mais de uma categoria, sim. Geralmente,

assassinos de poder/ controle cometem atos de violência sexual

com suas vítimas como um penúltimo exercício de poder antes

de matá-las, mas não vemos isso com as vítimas do . No

entanto, como eu mencionei, controle é um elemento-chave para

o que ele faz, então eu ainda diria que ele é um assassino de

poder/ controle. Ele as degrada não as alimentando, fazendo

com que elas cuidem da limpeza — que o sirvam, basicamente

— antes de envenená-las e açoitar seus corpos. A maneira como

a violência dele é voltada especificamente a garotas me faz

pensar que ele sofreu algum tipo de abuso enquanto criança e

que ele, de alguma forma, culpa uma mulher em sua vida por

esse abuso, provavelmente a mãe, quer ela seja realmente

culpada ou não. Ele não parece encontrar prazer sexual matando

suas vítimas então eu não o classificaria como um assassino

hedonista, e ele me parece ser organizado demais para ser um

assassino visionário. Mas eu diria que sua escolha de vítimas,

seu critério rigoroso, faz alusão às características de um

assassino missionário. Ainda que ele não selecione vítimas de

um grupo marginalizado como muitos dos assassinos

missionários, ele escolhe o mesmo tipo de vítimas de novo e de

novo: pessoas do sexo feminino de famílias de classe média alta.

Apenas as idades são diferentes, e isso obviamente também é

intencional.

Esse homem, quem quer que seja, é muito inteligente. É bem

provável que tenha educação superior, talvez até um diploma de

mestrado ou doutorado. Ele é branco, como Nora Watson o

descreveu. E ele sem dúvida estaria ciente da conotação de

escolher uma jovem mulher branca como sua vítima. Elas são

historicamente consideradas o símbolo da inocência, algo que, é

claro, está enraizado em clichês nocivos de discriminação de

classes, supremacia branca e do patriarcado.

Também é importante ressaltar que embora o adágio popular

seja de que assassinos apenas matam pessoas de sua própria

raça, isso nem sempre é verdade. Samuel Little é possivelmente

um dos serial-killers mais prolíficos do país e aparentemente

matava mulheres de maneira indiscriminada, sem dar

importância para sua idade ou raça. A questão era o acesso.

Estatisticamente, indivíduos de fato tendem a matar pessoas de

suas próprias raças, mas isso comumente se trata mais de

proximidade do que de psicologia.

ELLE

Você mencionou que ele não sentia prazer ao matar suas

vítimas, mas e quanto à maneira como ele as torturava e

torturava psicologicamente o público?

DR. SAGE

O que quer dizer?

ELLE

Bom, depois dos primeiros assassinatos, todos sabíamos qual

seria o padrão dele. Sabíamos que quando uma garota era

sequestrada por ele, ela tinha uma semana de vida. Havia a

forma como ele as torturava, é claro — com uma morte lenta e

dolorosa somada ao tormento de trabalhar por cada migalha de

comida que ele dava a elas. O veneno. O açoitamento. Mas

também havíamos nós, as pessoas da comunidade, assistindo e

nos preparando para o inevitável. É como se ele estivesse

torturando a nós também, como se ele soubesse que estávamos

todos sentados em nossas respectivas casas, assistindo ao

jornal no sétimo dia, esperando pela notícia de que um corpo fora

encontrado. Os corpos não eram escondidos, eram posicionados

de forma a serem encontrados, eram deixados expostos em

locais públicos. Eu era criança, mas me lembro da sensação do

sétimo dia. Era como se uma sirene tivesse sido disparada nos

avisando de que um tornado se aproximava e nós estivéssemos

nos preparando para o desastre iminente.

DR. SAGE

Suponho que tenha razão.

ELLE

Como sabemos que os números, os rituais e os padrões eram

compulsões reais? Como podemos saber se tudo não passava

de um plano para despistar as pessoas e fazer com que os

detetives andassem em círculos enquanto ele matava mais e

mais garotas?

DR. SAGE

Resumidamente, não sabemos.

NARRAÇÃO DE ELLE

Depois de tudo o que descobri conversando com o dr. Sage, o

detetive Sykes, Tina e Martín, tracei a minha versão de um perfil

do . Pode não estar à altura de um perfil traçado pelo ,

mas ainda assim é baseado em toda as evidências que

coletamos até agora. É importante se lembrar de que perfis

criminais não ajudam os investigadores a identificar uma única

pessoa. Perfis não são evidências, são suposições baseadas em

raciocínio dedutivo e em estatísticas. Mas em um caso sem

solução como esse, um feixe de luz apontado para uma direção

plausível é melhor do que tropeçar no escuro.

Quero que ouçam com atenção e pensem em tudo o que já

sabemos. Lembrem-se, as pessoas que investigamos e pegamos

nas temporadas anteriores do Justiça Tardia eram pessoas

comuns, pessoas normais com vizinhos, familiares e amigos que

nunca suspeitaram delas. É comum que pessoas que cometem

atos monstruosos não aparentem ser os monstros que são.

Caso tenha perguntas ou teorias, gostaria de ouvi-las.

Falaremos sobre elas no próximo encontro.

O Assassino da Contagem Regressiva é inteligente e tem

educação superior, talvez mestrado ou doutorado. É provável que

ele tenha sofrido abuso quando criança e que seja abusivo com

mulheres em sua vida cotidiana, possivelmente fisicamente, mas

com certeza emocionalmente. Ele tem interesse por números, o

que significa que pode ter uma carreira relacionada à matemática

ou uma carreira científica, embora, como pontuado pelo dr. Sage, todos os números escolhidos por ele pareçam ter relevância na

Bíblia. Pelo menos em algum momento da vida ele demonstrou

uma predileção por chás Darjeeling — Majestic Sterling, mais

especificamente.

Ele é branco, provavelmente estava entre os vinte e cinco e os

trinta e cinco anos quando matou pela primeira vez, o que

significa que hoje ele está entre os quarenta e cinco e os

cinquenta e cinco anos. A única descrição física que temos é que

ele era forte, robusto, tem olhos azuis e uma voz grave. Ele

usava roupas de cores vivas e acessórios nas pouquíssimas

vezes em que foi visto perto de uma vítima. Devido ao longo

tempo que acreditamos que ele passa observando suas vítimas,

assim como ao fato de que a maioria delas foi sequestrada

durante o dia, ele provavelmente tem um emprego flexível que dá

a liberdade de fazer suas próprias horas, ou também é possível

que ele trabalhe no período noturno. Ele provavelmente tem um

veículo, talvez vários, e talvez tenha experiência em furto de

carros. É até mesmo possível que ele já tenha sido detido por

isso sem que a polícia soubesse o que ele pretendia fazer com o

veículo.

Ele parece ter conhecimento sobre processos e iniciativas de

aplicação da lei, o que fez com que algumas pessoas

suspeitassem que ele é um policial ou algum tipo de investigador

particular. Mas ele também tem uma noção apurada do corpo

humano, de como aferir os sinais vitais de suas vítimas bem o

suficiente para que possa envenená-las na medida exata para

que morram no dia que ele deseja. Ele gosta de ter controle e de

fazer com que as pessoas o obedeçam e não sente empatia quando suas ações ferem outras pessoas. Na verdade, ele talvez

goste disso.

E nesse podcast trabalhamos a partir da suposição de que ele

esteja vivo, de que ainda esteja entre nós. E podemos encontrá-

lo para que a justiça seja feita.

No próximo episódio de Justiça Tardia…