Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 28 de 50

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Garota, 11

Capítulo 26

 

1978

 

Cada canto da casa estava brilhando.

Era um sábado no fim de setembro, mais de dois meses desde

a morte de seus irmãos, e as camadas de luto e sujeira

espalhadas pela casa estavam visíveis em todos os cômodos em

que ele entrava. Enquanto seu pai estava fora pescando,

abriu as janelas para deixar entrar a brisa de outono com cheiro

de adubo enquanto ele varria e passava o aspirador de pó no

chão. Ele encheu um balde com água morna e sabão e ficou de

joelhos para esfregar o chão de linóleo. até mesmo usou uma

escova de dentes velha para esfregar o rejunte e pequenos vãos

que juntavam sujeira. Ele levou seis horas para lavar cada peça

de roupa e cada roupa de cama na casa e pendurá-las no varal

para secar.

Agora a casa estava limpa, tomada pelo cheiro de roupas

quentes de sol e madeira polida. Ele se sentou na escada da

varanda esperando por Josiah. Seus dedos estavam vermelhos e

levemente irritados devido ao contato com os produtos químicos fortes que ele usara para limpar a banheira de meses de resto de

sabonete acumulado e bolor. Ele não encontrara luvas de

borracha no armário sob a pia, então aguentara a dor,

mergulhando a mão dentro do balde de novo e de novo para

molhar a esponja. Seu corpo doía, mas a banheira estava

brilhando.

Era quase noite quando Josiah chegou, estacionando a

caminhonete vermelha em um ângulo torto. O freio de mão

guinchou em protesto ao ser acionado. se levantou, ajeitando

a frente das calças para desamarrotá-la por ter ficado sentado

por tanto tempo. Ele havia até mesmo se arrumado e vestia suas

calças de ir à igreja e uma camisa de botões — a “enforcadora

de crianças”, como seu irmão a apelidara —, puxando o colarinho

quando era obrigado a fechar até o último botão para a missa de

Páscoa.

Josiah abriu a porta da caminhonete e saiu do carro.

observou enquanto ele dava a volta até a traseira do veículo e

apanhava um balde grande e branco. Apenas na metade do

caminho até a casa Josiah notou que seu filho estava nos

degraus, esperando por ele.

— O que está fazendo aqui? — perguntou Josiah, sua voz

beirando o ininteligível. Seu olhar estava em algum lugar à direita

do rosto de . Ele não olhara o filho nos olhos desde a noite em

que dera uma surra nele, dois meses atrás. Ele também não

tocara desde então, fosse com afeto ou com ira.

Depois de um momento, ele levantou o balde e se dirigiu ao

filho. — Não importa. Pegue isso, leve para o galpão e os limpe

como ensinei.

pegou o balde. A fina alça de metal machucava seus dedos

já feridos enquanto ele o carregava até o galpão. Ao chegar na

mesa que seu pai construíra especialmente para limpar peixes,

olhou pra sua camisa. Ele não queria correr o risco de sujá-la

com tripas de peixe e escamas, mas não poderia entrar em casa

de mãos vazias. Ainda estava quente, especialmente dentro do

galpão, longe da brisa noturna fresca. Como não encontrara

outra alternativa, ele despiu a calça e a camisa e as pendurou em

um gancho na porta. Então abriu o balde e pegou o primeiro

peixe.

Ele inseriu o dedo indicador dentro da boca do picão-verde

para segurá-lo firme antes de usar a extremidade pontuda da

faca na bochecha do peixe. O olho inexpressivo o encarava. Seu

pai o havia ensinado a sempre remover as bochechas primeiro, a

melhor parte do picão-verde, para ter certeza de que não

esqueceria de fazer isso mais tarde. traçou a circunferência

da bochecha com a lâmina até chegar na outra extremidade.

Então usou o dedo para abrir a pele e puxou a carne,

reservando-a. Levantando a barbatana, abriu as laterais e

subiu até a espinha do peixe, sua faca vibrando contra o osso

enquanto ele a deslizava sobre a pele do animal, da cabeça à

cauda. Quando conseguiu um bom filé, virou o peixe e repetiu o

mesmo movimento do outro lado antes de retirar os pedaços de

carne. Ele descartou a carcaça do primeiro peixe na lata de lixo

ao lado da mesa e pegou o segundo, piscando para afastar o

cansaço.

Quando terminou de limpar os sete peixes, o peito, os braços e

as mãos de estavam cobertos de escamas e de sangue. Havia pequenos cortes em suas mãos, mas ele tinha um prato

cheio dos filés mais bonitos que ele já cortara, então entrou na

cozinha pela porta dos fundos orgulhoso de si mesmo. Ele

finalmente veria a reação do pai diante da casa limpa.

Lá dentro, Josiah estava sentado à mesa. Segurava uma

cerveja e seu cabelo estava molhado do banho. guardou os

filés na geladeira e foi até a pia, onde lavou os braços com água

e sabão. Ele se secou com uma toalha e se virou em direção ao

pai, que o observava levando a garrafa à boca.

Josiah sorveu um longo gole da cerveja. Depois de pousar a

garrafa na mesa, olhou cabeça aos pés. — Que aconteceu

com as suas roupas?

— Não queria sujá-las.

— Então deixou suas roupas de domingo no chão do galpão?

balançou a cabeça. — Não, senhor. Eu as deixei no

gancho.

— Não seja insolente, garoto.

— Vou buscá-las.

— Não perca tempo. Já estão cheias de poeira, de qualquer

maneira. Terá que lavá-las amanhã.

mordeu o lábio e correu os olhos pela cozinha. Ainda

estava orgulhoso de seu trabalho. Ele não se lembrava de a casa

já ter estado tão limpa um dia. Charles e Thomas definitivamente

nunca limparam as coisas tão bem. Mas Josiah não parecia se

importar.

Depois de um momento, seu pai olhou para ele novamente. —

Bom, o que está esperando? Vá se limpar.

Assentindo com a cabeça, subiu as escadas em direção ao

banheiro. Ele ficou espantado ao acender a luz. Havia lama por

todo o banheiro. Tufos de grama e pedrinhas de cascalho

estavam espalhados pelo chão. A banheira estava vazia, mas

havia uma fina camada de areia e terra acumuladas em poças de

água no fundo. A pia estava suja de creme de barbear e havia

marcas de dedo no espelho. Josiah deixara uma toalha molhada

enrolada no chão.

O senso de injustiça cresceu em seu peito como uma

tempestade, mas ele mordeu o interior das bochechas para se

obrigar a ficar de boca calada. Josiah perdera tudo. Ele estava

fazendo o melhor que podia, e era tudo o que ele tinha.

Ele apanhou um pano no armário, o molhou na pia e se

ajoelhou para limpar a bagunça.