Garota, 11
Capítulo 4
Elle
9 de janeiro de 2020
Elle foi até a porta da cozinha e avisou a Martín e Sash que
voltaria logo, então subiu correndo até o estúdio no andar de
cima.
Ela abriu o e-mail no computador. Havia apenas uma linha de
texto além do assunto: um número de telefone. Ela discou o
número no celular e prendeu a respiração. No quarto toque, um
homem com um sotaque mexicano atendeu. — Alô?
— Oi, aqui é Elle Castillo do podcast Justiça Tardia. — Ela leu
o nome no remetente do e-mail. — Leo Toca?
Por um momento não houve resposta. Ela olhou para a tela do
celular a fim de verificar se a ligação havia caído, mas, não, a
chamada estava ativa. — Você me mandou um e-mail há alguns
minutos?
— Eu sei quem ele é.
A respiração de Elle ficou acelerada. É. Tanto no e-mail quanto
agora, ao telefone, o homem havia usado o verbo no presente.
Ela tentou manter a voz firme. — Como sabe?
Suas palavras jorraram, desordenadas devido à urgência. —
Eu sabia que havia algo de errado com ele, então comecei a
ouvir sua temporada mais recente há uns dias e percebi que
coisas batiam com o seu caso. Ele estava na área em que as
garotas foram mortas. Ele tem na casa dele aquele chá
sofisticado encontrado nas roupas de uma das garotas. Eu tenho
certeza. Eu tenho as evidências, mas sabia que ninguém
acreditaria em mim. Por isso entrei em contato com você. Precisa
me ajudar antes que seja tarde demais pra ela.
— Leo, por favor, se acalme. Tarde demais para quem?
Alguns segundos de silêncio se passaram, então ele disse: —
Quando pode me encontrar?
A voz de Elle estava rouca. — Agora. Agora mesmo. Você
mora na região? Vamos nos encontrar em Perkins ou algum lugar
assim.
— Não, eu… Por favor, precisa vir até onde eu estou. Meu
apartamento fica em St. Paul. Não é seguro eu sair de casa.
Seu cérebro fez um cálculo rápido, colocando de um lado da
balança o risco de encontrar um homem estranho em sua casa e,
do outro, o risco de perder o que poderia vir a ser uma pista
crucial.
— Por que não se sente seguro? Me diga o que está
acontecendo. Isso é coisa séria. É melhor que não esteja tirando
onda comigo. — Ela mordeu o lábio inferior, arrependida de quão
agressiva havia soado sua última frase. Lidar com dicas falsas
era parte desse trabalho. Assim como lidar com informantes
ansiosos.
— Dentro de uma hora. Me encontre dentro de uma hora, e eu
darei a você tudo o que precisa saber para pegá-lo. — Com
palavras atropeladas, ele ditou um endereço na avenida Hamline
e desligou.
Por um momento, Elle permaneceu sentada em frente à
escrivaninha segurando o telefone na orelha. Então o abaixou e
abriu o navegador no computador.
Havia algumas contas nas redes sociais de homens chamados
Leo Toca que residiam na região das Cidades Gêmeas, mas
apenas duas tinham configurações de privacidade abertas o
suficiente para que ela pudesse dar uma olhada nos perfis. Um
deles era um abuelo que usava no perfil uma foto com uma
penca de netos ao seu redor — definitivamente não era o rapaz
ao telefone. O outro tinha trinta e cinco anos e tinha dois
empregos de meio período, um de zelador na universidade local
e o outro de mecânico em uma oficina em Snelling. Partindo para
o Google, uma notícia do ano anterior chamou a atenção de Elle:
o nome de Leo ao lado de seu sócio, Duane Grove, quando eles
foram levados ao tribunal acusados de administrar um
desmanche de carros. Eles foram absolvidos e a única razão
pela qual virou notícia é que um dos carros que foram acusados
de desmontar e tirar as peças pertencia a um político local.
Desde o julgamento ele parece ter se mantido discreto.
Alguém bateu na porta do estúdio. Elle se levantou, apagou a
luz para esconder as fotos de cenas de crime na parede e abriu a
porta.
Natalie estava no corredor, brincando com uma de suas
tranças. — Mamãe disse pra te avisar que é hora do bolo. — Ela tentou espiar o quarto escuro. — Está trabalhando no podcast?
— Sim, mais ou menos. Desculpe, não deveria estar. Hoje é
seu aniversário. — Elle pousou a mão no topo da cabeça de
Natalie, acariciando a perfeita linha onde seu cabelo estava
dividido ao meio. Elas se dirigiram juntas para o andar de baixo.
— Não te deixa triste trabalhar nesses casos de pessoas que
feriram crianças?
Elle se retraiu. Natalie sabia o que Elle fazia, da mesma forma
que ela conhecia informações fascinantes e macabras sobre o
trabalho de Martín. Mas pelas mesmas razões pelas quais ela
jamais teria permissão para entrar no necrotério, Elle fazia o
possível para mantê-la fora do estúdio do podcast, onde as
paredes eram cobertas por fotos das cenas de crimes e notas
sobre os casos. Ainda assim, não havia muito que Sash pudesse
fazer para impedir Natalie de ouvir o Justiça Tardia; a geração
dela não encontrava dificuldade alguma para driblar o controle de
acesso parental e para apagar o histórico do navegador. Elle
tinha quase certeza de que a garota havia escutado pelo menos
alguns episódios.
— Sim, me deixa triste. Sei que as famílias delas as amavam
tanto quanto eu amo você, e não consigo suportar a ideia do que
fizeram com elas. Mas se posso ajudar a encontrar essas
pessoas ruins e fazer com que elas paguem, então acho que é
algo bom. E é isso que tento fazer.
Ao chegarem no último degrau, Natalie olhou para ela. Havia
uma seriedade em seus olhos que não condizia com seus dez
anos de idade. — É boa nisso?
— Acredito que sim. Sim, eu sou. — Elle assentiu.
— Então deve continuar fazendo, mesmo que seja difícil. Isso
é o que minha mãe sempre me diz quando reclamo da natação.
Elle passou o braço pelos ombros delicados da garota e a
puxou para perto.
Quando elas entraram na sala de jantar, as luzes das velas de
aniversário bruxuleavam sobre a mesa. Com um sorriso radiante,
Sash puxou um “Parabéns pra você” pelo menos três notas
acima do tom e eles se esforçaram para acompanhar. Todos
bateram palmas quando a menina assoprou as dez velas.
Tentando ser discreta, Elle espiou o relógio de pulso nos
minutos que se passaram até que finalmente Sash anunciou que
era hora de ir embora, já que Natalie poderia acordar mais tarde
no dia seguinte. Elas haviam remarcado para hoje a aula de
piano que costumava ser às sextas-feiras para que pudessem
jantar e assistir a um musical no centro da cidade.
Quando elas se agasalharam e saíram pela porta, ela tinha
pouco tempo para encontrar Leo.
Elle subiu correndo até o estúdio, abriu o pequeno cofre que
havia debaixo de sua mesa e pegou sua arma. Ela conseguira
um porte de arma depois de um conflito com o pai do suspeito do
caso investigado na segunda temporada. Ela tinha evidências de
que o filho dele, por oito anos, colecionou e disseminou
pornografia infantil, mas o homem optou por ameaçar Elle em
vez de direcionar sua raiva ao lugar certo. Esse era o único caso
que ela havia investigado e que ainda não tinha sido resolvido.
Ela estava certa de que coletara evidência suficiente junto à
polícia de Alexandria para prender o rapaz, mas, até agora, nada
havia sido feito. Ainda assim, os protestos públicos haviam sido tantos que ela esperava que a vida dele tivesse se tornado
insuportável em uma cidade pequena como aquela. A frequência
das ameaças diminuíra com o passar dos anos, mas ela
continuou mantendo a arma por perto durante as investigações.
— Ei, preciso fazer algumas coisas — disse ela assim que
chegou ao andar térreo.
Martín desviou o olhar do reality show de culinária que passava
na . — Para onde vai?
Elle foi até o sofá e o abraçou por trás, beijando-o na nuca. —
Preciso verificar uma coisa para o podcast. Devo estar de volta
em uma hora.
— Quer companhia?
— Não precisa, você trabalhou o dia todo. Mas obrigada.
— Tudo bem — disse ele, olhando para ela com olhos
pesados. Ele já parecia estar morrendo de sono. Quando ela
voltasse para casa, ele estaria no mesmo lugar, capotado.
Ela sorriu e o beijou outra vez. Depois de se agasalhar, ela
saiu em direção ao vento noturno congelante.
Ela levou cerca de quinze minutos para chegar até o
apartamento de Leo em Falcon Heights. Ele morava em um velho
prédio de três andares que não tinha elevador, então ela estava
ofegante e de casaco aberto quando alcançou o topo da escada.
Sua rotina de exercícios estava deixando a desejar desde que
ela começou a trabalhar em casa. Depois de recuperar o fôlego,
ela bateu na porta de Leo, que abriu um ou dois centímetros com
um rangido. Não estava fechada.
— Olá? — chamou ela, batendo novamente. — Leo Toca?
— É a polícia? Não atire! — Um grito ecoou de dentro do
apartamento.
Elle segurou na coronha de sua arma, presa ao quadril, mas
não a puxou. — Não sou da polícia! — gritou ela de volta, logo
em seguida se dando conta de que talvez não fosse tão
inteligente dar essa informação a ele. Mas era tarde demais.
Respirando fundo, ela empurrou a porta, abrindo-a de vez.
Um homem estava ajoelhado no chão. Ele se debruçava sobre
um corpo e suas mãos estavam cobertas de sangue.
Elle ficou imóvel, atônita. O homem ajoelhado olhou para ela,
em choque. Seu rosto estava pálido. Então ela se lembrou de ter
visto a notícia com sua foto: Duane Grove, o suspeito sócio de
Leo Toca no desmanche.
Ela finalmente reuniu forças para falar: — Você o matou?
— Não! — gritou o homem. Então disse, mais calmo: — Não…
Eu… eu só vim aqui pra emprestar uma coisa e o encontrei
assim.
— Vou entrar. — Os dedos de Elle seguravam firmemente sua
Ruger e seus olhos estavam atentos e resolutos ao observar
Duane, preparada para qualquer movimento repentino. — Ele
está respirando?
Duane respirou fundo, trêmulo, erguendo os braços acima da
cabeça ao ver a arma. — Não, eu acho que não. Eu acabei de
encontrá-lo assim, eu juro.
No chão, a vítima jazia de barriga para cima e seus olhos
castanhos fitavam o teto. Não havia uma necessidade real de
que ela checasse seu pulso, mas quando o fez e sentiu a rigidez
sobre seus dedos, Elle soltou um palavrão.
Os tiros foram à queima-roupa, deixando uma marca de
queimadura ao redor do buraco em sua testa. Elle nunca havia
visto uma vítima de homicídio pessoalmente — apenas em fotos
de cenas de crimes —, então foi difícil dizer se todas elas tinham
essa aparência. Mas a expressão em seu rosto era inegável.
Leo Toca parecia ter avistado seu agressor enquanto ele
avançava, incapaz de acreditar em quem via.
— Ele está morto.
Assim que Elle disse essas palavras, Duane Grove fugiu às
pressas do apartamento antes que ela pudesse detê-lo. Ela se
sentou no chão, encarando o corpo por alguns minutos antes de
conseguir fazer com que seus membros se movessem.
Finalmente seus dedos pararam de tremer o suficiente para
que ela ligasse para a emergência. Depois de ter informado os
detalhes necessários e de um policial ter sido despachado, ela
mandou uma mensagem para sua amiga de longa data, Ayaan
Bishar. Por ser do departamento de Crimes Infantis, Ayaan
provavelmente não estaria envolvida na investigação do
assassinato de Leo, mas era melhor que ela soubesse que Elle
acidentalmente se envolvera em mais um caso do departamento
de polícia de Minneapolis.
Então Elle se agarrou ao celular, incapaz de desviar os olhos
do rosto de Leo, que lentamente adquiria um tom acinzentado.
Parece que todas as decisões de sua vida até agora já foram
tomadas por outros que não você.
As palavras proferidas pela dra. Swedberg no ano anterior
ecoaram na mente de Elle enquanto ela fitava o corpo. Ela tivera cinco terapeutas ao longo da vida, mas, por alguma razão, a dra.
Swedberg conseguiu penetrar sua desconfiança e iluminar uma
parte de sua mente que há muito tempo estava escondida nas
sombras. Naquele dia seu futuro nebuloso se tornou nítido.
Naquele dia ela decidiu que precisava parar de esperar que
outras pessoas consertassem o que havia se partido dentro dela.
Naquele dia ela decidiu que seu próximo caso seria o .
Agora, esparramada no chão à sua frente, havia mais uma
escolha que ela não havia feito, mais uma má decisão de outra
pessoa estragando seus planos — e encerrando a vida de Leo
Toca.
Sabendo que os primeiros policiais chegariam ao apartamento
a qualquer instante, Elle despertou e se pôs em movimento. O
apartamento de Leo era simples: havia um sofá-cama, uma mesa
de jantar de pernas bambas acompanhada de duas cadeiras
diferentes, uma cozinha vazia com pratos de papelão e talheres
de plástico e uma lixeira vazia. Não havia sinal de um
computador ou de uma impressora, assim como não havia
nenhuma mochila à vista. Então restava apenas um lugar onde
ela poderia procurar, e isso poderia fazer com que ela fosse
presa. Mas se Leo realmente tinha ideia de quem era o e
tinha evidências para provar, ela precisava saber.
Espiando a porta semiaberta por cima do ombro, Elle se
agachou ao lado do corpo de Leo e apanhou uma caneta em sua
bolsa. Ela inseriu a caneta no bolso esquerdo da calça jeans de
Leo e ergueu o tecido delicadamente, se curvando para ver o que
havia dentro. Nada. Seus batimentos se aceleraram quando
ouviu o som de uma sirene à distância. Ela se dirigiu depressa para o lado direito do corpo e repetiu a tentativa. Algo feito de um
plástico de cor escura se destacava no interior branco do bolso
de Leo. Seus dedos estavam desajeitados e dormentes enquanto
ela lentamente usava a caneta para retirar o item de plástico e
levá-lo ao chão. Elle olhou em volta. Ela não poderia roubar o
pen drive. Seria demais até para ela. Por dois anos ela vinha
ganhando a confiança da polícia de Minneapolis, não poderia
jogar isso no lixo agora. A sirene se aproximava.
Ela se levantou e correu até o quarto à procura de um
computador. De frente para uma cama de solteiro havia uma
pequena mesa encostada na parede, mas não havia laptop ou
computador sobre ela. Ela abriu as gavetas da mesa, correu as
mãos por baixo do travesseiro, olhou no guarda-roupas — nada.
— Merda — xingou ela. Retornando à sala, ela correu de volta
para o lado de Leo. Alguém subia as escadas a passos firmes.
Usando um lenço de papel limpo encontrado em uma caixa no
balcão, Elle pegou o pen drive e, com as mãos trêmulas, o
devolveu ao bolso de Leo.
Ela estava em pé, de rosto vermelho e mãos para cima,
quando um detetive de cabelos castanhos encaracolados
irrompeu pela porta. Sua arma estava erguida, mas não na
direção dela.
— Meu nome é Elle Castillo — disse ela. — Eu fiz a ligação.
— Sou o detetive Sam Hyde. Tem mais alguém aqui? —
perguntou ele, enquanto outra policial, uma mulher branca com o
cabelo loiro e liso preso em um rabo de cavalo, entrava na sala.
Ela foi diretamente até o corpo de Leo para examiná-lo.
— Agora, não. Quando cheguei aqui havia outro homem, bem
ao lado do corpo. Acredito ter sido o sócio da vítima, Duane
Grove. — Elle explicou depressa a breve conversa entre os dois,
incluindo a alegação de Duane de que ele encontrara Leo
baleado ao chegar e também o fato de que ele pareceu abalado
quando ela confirmou que Leo estava morto. Ela não mencionou
o pen drive no bolso da vítima. Ayaan poderia não a intimar por
interferir na cena do crime, mas ela não sabia se podia dizer o
mesmo sobre o detetive Hyde.
— Está armada? — perguntou ele quando ela terminou.
Elle gesticulou com a cabeça em direção ao lado direito do
quadril. — Sim, eu tenho autorização para portar uma Ruger
. Pode pegá-la se isso o fizer se sentir mais confortável.
Ele assentiu e com um leve rubor nas bochechas afastou o
casaco dela e puxou o revólver do coldre. Sem cerimônias, ele
tirou o pente da arma e colocou ambos dentro do bolso da
jaqueta. — Desculpe, são as regras. Pode tê-la de volta mais
tarde. A comandante Bishar disse conhecer você. Ela me ligou
quando eu estava a caminho.
— Sim, eu e ela nos conhecemos quando eu estava no Serviço
de Proteção à Criança. E eu já trabalhei em um caso com ela
como investigadora independente.
A boca de Sam se retorceu ao ouvir isso e Elle precisou se
controlar para não revirar os olhos. Não era como se ela fosse
uma adolescente pesquisando casos em seu quarto na casa da
mãe — e mesmo se fosse, ela já vira detetives de internet
solucionando casos que, por anos, foram desafiadores para a
polícia. Era meio que a razão pela qual ela conseguira transformar seu podcast em uma carreira. Mas ela sempre
conseguia perceber quando alguém da força policial
imediatamente desmerecia seu trabalho porque ela não era uma
policial de verdade.
— Preciso levá-la para a delegacia para que eu e a
comandante Bishar possamos fazer algumas perguntas para
você. Tudo bem? — Pela maneira como ele perguntou, Elle sabia
que não tinha muita escolha. Ela concordou com a cabeça e
pegou sua bolsa.
Sam se dirigiu à policial que estava às costas de Elle. — Vou
conduzir a sra. Castillo até a delegacia. A equipe forense estará
aqui em cinco minutos. Tudo certo?
A policial assentiu e Sam saiu pela porta seguido por Elle.
A I-35W estava abarrotada de luzes vermelhas de freio e flocos
de neve rodopiantes. Havia quase oito centímetros de neve
fresca no chão, e, como era de costume, as pessoas estavam
dirigindo feito imbecis. Elle tamborilou os dedos no volante
enquanto observava os outros carros, pessoas costurando pelas
pistas, buzinas tocando. Quanto mais tempo passava sentada,
mais ela sentia vontade de gritar. Ela deveria estar falando com
Leo sobre o Assassino da Contagem Regressiva. Ela deveria
estar em seu estúdio se preparando para o episódio da semana
seguinte. Ela deveria ter um nome, uma direção, uma pista. Em
vez disso, ela está parada no trânsito — e parada no caso.
Trinta minutos mais tarde, eles finalmente chegaram à
delegacia. Elle estacionou ao lado do sedan de Sam. Sam estava
cerca de meio metro à frente, então ela precisou se apressar
para alcançá-lo. Ele a conduziu através das familiares portas duplas de vidro e pelo saguão até chegarem em uma sala de
interrogatório.
— Sente-se. Quer beber alguma coisa?
Elle balançou a cabeça, mas mudou de ideia e disse: — Sim,
água.
Sam deixou a sala e fechou a porta. Ela se perguntou por um
momento se estaria trancada. Ela não estava sendo presa, mas
também não estava acostumada a estar sozinha em uma sala
como essa. Quando esteve em uma sala assim no passado, ela
estava sentada ao lado de um policial do lado oposto de um
suspeito ou de um responsável negligente.
Momentos mais tarde, a comandante Ayaan Bishar entrou na
sala e se sentou no lado oposto de Elle, de frente para a câmera
oculta de segurança. Vê-la sentada na cadeira que Elle
associava ao suspeito era estranhamente inquietante, como
encontrar seu dentista em um bar.
Ayaan liderava a Divisão de Crimes Infantis, mas antes de se
tornar detetive ela costumava acompanhar Elle em chamados de
guarda protetiva para o Serviço de Proteção à Criança. Elas
também trabalharam no caso de Jair Brown no passado — o
garoto de cinco anos que desapareceu de casa e dois dias
depois foi encontrado em uma cova rasa a cerca de um
quilômetro e meio de distância. Ayaan conseguira sua primeira
prisão depois que Elle, Martín e os ouvintes de seu podcast
finalmente atribuíram as evidências ao tio do menino.
— Oi, Ayaan — disse Elle.
Ela tinha exatamente a mesma aparência: rosto redondo
emoldurado por um hijab roxo-acinzentado amarrado em um turbante; olhos castanhos e profundos, atentos e acompanhados
de sobrancelhas perfeitamente desenhadas. — Oi, Elle —
respondeu ela. — É bom ver você, embora eu preferisse que
fosse em circunstâncias melhores. Pretendia ligar para você para
dizer que estou gostando da nova temporada.
— Obrigada.
Sam voltou com uma garrafa de água e se sentou ao lado de
Ayaan, de frente para Elle. Ela se perguntou se eles a tinham
colocado de propósito do lado em que eles costumam ficar, como
se isso fosse deixá-la mais confortável. Elle se inquietou, se
sentindo boba. Ela não era uma suspeita ali.
— Você explicou brevemente ao telefone, mas pode me dizer
por que estava no apartamento de Leo Toca? — perguntou
Ayaan.
— Ele entrou em contato comigo pelo e-mail do podcast
dizendo ter uma informação para mim. Então fui encontrá-lo.
— Por que não se encontraram em um lugar público?
— Eu quis, mas ele me pediu para ir até a casa dele.
— Você sempre vai sozinha à casa de estranhos durante a
noite porque eles te pediram para ir? — perguntou Sam.
Elle conteve a vontade de revirar os olhos. — Não, mas eu
nem sempre recebo uma mensagem de alguém dizendo saber
quem é o serial-killer mais infame de Minnesota.
Sam arregalou os olhos levemente. — Você está trabalhando
no caso do Assassino da Contagem Regressiva?
Ela levantou o queixo. — Sim, eu comecei a lançar os
episódios em dezembro. Recebi muitas informações desde
então, mas Leo pareceu particularmente convincente para mim.
— Por quê?
— Porque ele mencionou ter visto o chá específico de uma das
cenas do crime na casa do homem. E ele soou assustado, como
se estivesse certo de que alguém estava atrás dele — disse Elle,
se encostando na cadeira. Em meio a todo o caos, ela quase se
esquecera disso. Leo parecia apavorado.
Ayaan se inclinou para a frente e, com os cotovelos na mesa,
fez uma ponte com as mãos e apoiou o queixo sobre elas. —
Sinto muito. Deve estar muito frustrada.
— Ele… ele soou verdadeiramente amedrontado ao telefone.
Por isso não quis me encontrar em um restaurante. Pensei que
ele pudesse estar sendo paranoico, mas aparentemente ele tinha
motivos para estar com medo. — Se ele realmente sabia quem
era o , essa informação pode tê-lo metido em uma
enrascada. — É possível que alguém tenha grampeado a linha
dele? Como eles saberiam que ele entrou em contato comigo?
Sam anotou alguma coisa no bloco de notas que estava na
mesa à sua frente e então voltou seu olhar para ela. — Duvido
fortemente que Leo tenha sido morto por dizer que tinha uma
informação para a investigação de seu podcast. Você viu Duane
Grove ao lado do corpo momentos depois de Leo ter sido morto.
Acabei de falar com o proprietário que disse ter ouvido Leo e
Duane brigando por causa da oficina ontem à noite. Nesse
momento, o sócio dele é uma forte pessoa de interesse. Se
lembra do que ele disse quando você chegou?
— Só que ele tinha encontrado Leo daquele jeito. Acho que ele
disse que tinha ido até lá para emprestar alguma coisa e
encontrara Leo morto quando chegou. — Elle cerrou os punhos. Se Leo realmente foi baleado em uma discussão de negócios
minutos antes de ela chegar, ela deve ser a pessoa mais azarada
do mundo. — Não consigo acreditar.
— O que você fez depois de chegar e encontrar Leo morto?
— Verifiquei seu pulso para ter certeza e disse a Duane que
ele estava morto. Então Duane fugiu, eu liguei para a emergência
e mandei uma mensagem para Ayaan para contar a ela.
— E você não encontrou ou tocou em nada na cena antes da
minha chegada? Você não viu o que Leo supostamente ia
mostrar para você?
Elle ficou completamente imóvel, seus olhos focados nos dele.
— Não. Nada. Por isso estou tão irritada.
Ayaan assentiu e se levantou. — Bom, acho que é o suficiente
para uma noite. Eu ou o detetive Hyde entraremos em contato
caso tenhamos alguma outra pergunta. Está se sentindo abalada
de alguma forma? Temos um contato para quem pode ligar caso
queira boas indicações para acompanhamento psicológico.
Encontrar um corpo pode ser traumático.
— Já vi coisa pior — respondeu Elle. Em seguida ela
estremeceu ao perceber quão petulante aquilo havia soado. Mas
era verdade. A morte não era nem de perto a pior coisa que
poderia acontecer a alguém. Sam e Ayaan com certeza sabiam
disso. Ela se levantou e acompanhou Ayaan.
Depois de pegar sua arma e se despedir, Elle foi até o carro
como se estivesse no piloto automático. Talvez Sam tivesse
razão. Duane era o suspeito óbvio, e se ele e Leo haviam brigado
na noite anterior, as coisas não pareciam muito favoráveis para
ele. Mas ela não conseguia se desvencilhar da lembrança do medo na voz de Leo. Ele sabia que alguém estava atrás dele, e
não faria sentido que ele estivesse com medo de alguém com
quem ainda trabalhava. Mas se Leo soubesse que tinha uma
evidência crucial contra um serial-killer, isso, sim, seria uma
razão para sentir medo.
Ela desejou ter alguma forma de descobrir o que havia naquele
pen drive. Mas se Leo protegia seus arquivos, até mesmo a
polícia levaria semanas para conseguir acesso se eles sequer
fizessem disso uma prioridade. E mesmo que acontecesse, eles
não compartilhariam essa informação com ela. Elle só
conseguiria descobrir o que ele sabia se ela mesma o
investigasse.
Chegando ao carro, Elle aumentou a temperatura do
aquecedor e acelerou noite afora, rumo à sua casa.