Garota, 11
Capítulo 44
Elle
20 de janeiro de 2020
Elas levaram quase meia hora para chegar a Stillwater, mesmo
sem respeitar o limite de velocidade e com a sirene ligada.
Depois da ligação para solicitar mais reforços naquele endereço,
Elle não conseguia suportar o silêncio e tentava conter o pânico
enquanto elas dirigiam em alta velocidade pela Rodovia 36.
— Por que acha que Douglas abriu mão da propriedade do
pai? Mesmo que ele tenha morrido sem fazer um testamento,
enquanto filho ele ainda tinha direito sobre o lugar, não?
Ayaan assentiu. — As leis estaduais automaticamente
atribuem a propriedade aos filhos vivos ou outros parentes
quando não há cônjuge. É raro que um bem seja revertido para o
estado por falta de herdeiros. Há duas explicações: os
advogados não conseguiram encontrar Douglas Jr. para a
transferência de bens, ou ele foi encontrado, mas abriu mão de
seus direitos.
— Não faz sentido. Se esse é o lugar onde ele comete os
assassinatos e se ele pretendia voltar a matar, por que abriria mão da casa?
Ao fazer a curva na entrada seguinte, Ayaan desligou as luzes
e as sirenes. — Talvez ele não tenha planejado cometer os
assassinatos aqui. Sabemos que ele usava o chalé onde você
ficou presa nos anos 1990. Seu pai estava vivo, então teria sido
muito arriscado usar a casa. Se ele matou Luisa e deixou seu
corpo naquele lugar abandonado em Shoreview, talvez tenha
planejado levar Amanda e Natalie para lá também.
Elle estava inquieta em seu assento, tremendo com a
adrenalina que percorria seu corpo.
— Talvez essa tenha sido a razão pela qual ele quebrou o
padrão. Ele acidentalmente matou Amanda antes do previsto, e
então, quando tentou levá-la para lá, um lugar seguro onde
poderia armazenar o corpo, viu os policiais e precisou mudar de
planos. — A casa de Elle não ficava muito longe dali. Talvez a
dor e o pesar que ele sabia que lhe causaria tenha sido um
substituto bom o suficiente, já que ele não conseguira seguir seu
padrão.
Elas ficaram em silêncio. Elle olhou pela janela. Uma súplica
ininterrupta se repetia em sua mente. Por favor, esteja viva. Por
favor, esteja viva, Natalie.
Após algumas curvas, o carro entrou em uma frondosa estrada
de terra pouco depois da saída da cidade, passando por enormes
casas de verão para pessoas que só conseguiam suportar
Minnesota de junho a setembro. As janelas estavam fechadas
como olhos cerrados contra o frio do inverno. Quando chegaram
à casa da foto, Elle respirava com dificuldade.
Natalie estava lá dentro. Ela podia sentir.
— Sam deve estar logo atrás — disse Ayaan. — Quero que
você espere no carro.
— Ayaan, disse que quer que eu confie em você, e eu confio.
Por isso vou te dizer a verdade: se me deixar aqui eu
simplesmente vou esperar até que esteja fora de vista e ir atrás
de você.
A comandante ficou em silêncio, cerrando a mandíbula. Elle
sabia que estava forçando a barra, mas levou a mão à maçaneta
da porta. Elas estavam perdendo tempo.
Por fim, Ayaan olhou para a arma de Elle. — Não toque na
arma a menos que eu diga para fazer isso ou a menos que haja
uma arma apontada para sua cabeça, entendeu?
Elle evitou o olhar de Ayaan quando assentiu com a cabeça.
Se o caminho estivesse livre para um tiro certeiro no , Elle
não perderia a chance. A morte era a única coisa capaz de detê-
lo.
Elas saíram do carro ao mesmo tempo e Ayaan pegou um
colete à prova de balas do banco de trás.
Sam chegou enquanto elas corriam em direção à casa e as
alcançou fechando o próprio colete. — Qual é o plano? —
perguntou ele.
Ayaan apontou para eles. — Vocês dois dão a volta por trás.
Eu fico com a entrada principal.
Eles se dirigiram à porta dos fundos. A neve quase alcançava
os quadris de Elle. Ela se movimentou o mais rápido que pôde,
imitando Sam e se abaixando ao passar debaixo das janelas.
Sam a olhou por cima do ombro. Seus olhos estavam
vermelhos de cansaço. — Sinto muito por não ter acreditado em você, Elle.
Incapaz de pensar em qualquer coisa que não fosse em
Natalie, ela simplesmente acenou com a cabeça e eles seguiram
em frente.
O silêncio era paralisante. Ela não ouvia nenhum som vindo do
interior da casa, nenhum carro passando, nenhum pássaro
cantando ou aviões voando no céu. Nada que sugerisse que eles
não estavam no meio do nada, mesmo estando a apenas cerca
de dez minutos da região central de Stillwater. Assim que Sam
chegou ao outro lado da casa, parou para espiar o que havia do
lado oposto antes de avançar. Elle se aproximou dele, seguindo
seu olhar. Havia um caminho livre de neve que ia da porta dos
fundos para um galpão a quase trinta metros de distância. Havia
também um varal coberto de neve esticado entre dois postes de
metal. Fora isso, o quintal estava praticamente vazio — ou o que
quer que houvesse lá estava coberto por metros de neve branca.
O caminho parecia estar limpo. Sam acenou para ela e eles
correram para a porta dos fundos. Ele tentou a maçaneta, que
estava destrancada. Não era surpresa considerando o fato de
que estavam na área rural, mas ainda assim era burrice.
Tentando ser o mais silencioso possível, ele abriu a porta. Ela
olhou para dentro e se deparou com um comprido e estreito
corredor que dava para a porta da frente, por onde Ayaan
silenciosamente entrava na casa. Seus olhos se encontraram
e ela levantou o queixo em direção a Elle. Sam tomou a frente e
Elle o seguiu de perto, protegida atrás de seu porte grande.
O hall de entrada estava sujo. Tudo o que havia nele estava
coberto por uma camada de terra. Havia casacos velhos pendurados nas paredes, botas de chuva empoeiradas
abandonadas no canto e jornais velhos empilhados contra a
parede do lado oposto. Era como se nada daquilo tivesse sido
tocado em décadas.
Saindo do saguão, Sam foi para a direita e Elle virou à
esquerda, entrando em uma cozinha antiquada, típica dos anos
1970. Os azulejos brancos eram decorados em padrões de
laranja e marrom e as paredes eram revestidas por painéis de
madeira. Uma velha chaleira jazia sobre a boca fria do fogão. Ela
andava na ponta dos pés e suas pernas tremiam pela
combinação de músculos tensos e neve derretendo contra a
pele.
Ela voltou ao corredor e Ayaan já não estava mais lá. Ela notou
o cômodo em frente à cozinha e, ao entrar nele, encontrou uma
sala de estar. Elle olhava ao redor, atenta ao mínimo sinal da
presença de Natalie. Quase não havia móveis na sala, como se
parte da casa tivesse sido limpa antes de os novos compradores
desistirem até o verão seguinte. Uma velha cadeira de rodas
estava escorada no canto, aguardando o retorno de seu dono.
Um fraco raio de luz entrava pela janela suja. Quando Elle olhou
para fora através do vidro, um vulto em movimento chamou sua
atenção.
Ao longe, logo após o galpão, havia uma silhueta grande
erguendo-se no escuro em contraste com a neve. Seu estômago
despencou quando ela o viu levantar um braço.
— Natalie! — gritou ela. E então correu. Ela saiu da sala,
passou pela porta dos fundos e correu o mais rápido que pôde
até o galpão. O único som além de seus batimentos pulsando em seus ouvidos era o de suas botas se chocando contra o chão.
Aquela não era uma abordagem muito sutil e ocorreu a ela que
isso era um problema, mas já era tarde demais. Quando ela
estava perto o suficiente, viu Douglas pairando sobre o pequeno
corpo de Natalie, amarrado a um velho trator. Ela percebeu que
ele claramente os tinha ouvido chegar e não estava nem um
pouco preocupado. Sua pele ardeu em fúria quando ela avistou
os vergões vermelhos nas costas trêmulas e pálidas da garota.
— Fique onde está — ordenou ele.
— Arma! — Ayaan gritou.
Elle ficou imóvel. Embora não ouvisse nenhum movimento
atrás dela, sabia que Ayaan e Sam estavam lá, olhando para a
mesma coisa que ela.
Douglas não segurava mais o cinto. Ele segurava uma arma
apontada para a orelha esquerda de Natalie. Elle pegou sua
própria arma com a intenção de mirar no peito dele, mas gritou
de dor com o movimento e deixou o braço cair ao lado do corpo.
Ela sentia espasmos de dor em seu ombro devido à queda no
porão de Douglas. Ela podia tentar usar a arma com a mão
esquerda, mas não conseguia confiar em sua mira, não quando
ele estava a apenas alguns centímetros de distância de Natalie.
Seu corpo foi dominado pelo terror. Ela não conseguia ver o
rosto de Natalie, mas o corpo da menina estava tenso e tremia e
ela vomitara sobre a neve.
O veneno. Ela estava morrendo.
As pernas de Elle quase cederam com o pensamento, mas ela
se obrigou a permanecer em pé quando Douglas finalmente se
voltou para ela.
Ele estava completamente diferente do homem que ela
conhecera na semana anterior: rosto impassível corado pelo
esforço, olhos azuis livres das lentes e brilhantes sob a luz do sol
refletida pela neve. Uma touca preta de lã protegia sua cabeça
calva do frio. Ele estava indiferente, imóvel, ofegante pelo esforço
das cintadas que dera contra a pele de Natalie. O cinto de couro
marrom estava abandonado na neve ao lado de seus pés,
enrolado como uma cobra morta. Ele provavelmente não
conseguira encontrar uma vara fina devido à grossa camada de
neve. Em sua bochecha direita havia sangue seco, pegajoso e
espesso ao redor de uma ferida recém-aberta que parecia ter
sido causada por um objeto afiado. Ela se perguntou se fora
causada por Natalie e sentiu uma combinação insana de orgulho
e horror ao imaginar a garotinha lutando contra ele.
— Ah, Eleanor.
O som de seu antigo nome vindo dos lábios dele a fez
estremecer. Ele a chamava pelo nome frequentemente: algumas
vezes como uma maldição, em outras como uma bênção. Ele
dizia o nome dela a cada instrução dada, dizia o nome dela
quando a punia, dizia o nome dela quando ela o agradava. Ele
fez com que ela temesse e desejasse isso em medidas iguais,
tudo isso em poucos dias. Ela nunca entenderia como.
Ela queria desesperadamente olhar para Ayaan ou Sam, a fim
de entender se eles tinham um plano, mas ela não ousaria
interromper o contato visual com Douglas agora que ele olhava
para ela. A arma dele ainda estava apontada para a cabeça de
Natalie.
— Elle, sinto muito — chorou Natalie. — Eu tentei fugir. — Elle
resistiu ao impulso de correr em direção a ela. Natalie só sairia
viva se Elle mantivesse o controle, se não cometesse mais
nenhum erro. Ela errara o suficiente no que se tratava do , o
suficiente para uma vida inteira.
— Está tudo bem, querida. — Sua voz soou estridente no ar
gelado do campo. Ela engoliu em seco, tentando soar firme. —
Vai ficar tudo bem.
— Ficaria orgulhosa, Eleanor. Ela tentou me matar há algumas
horas. E quase conseguiu — contou Douglas. — Ei, ei. Eu não
faria isso se fosse você. — Ele olhou na direção de Sam, que
agora estava ao lado de Elle e tentava avançar lentamente.
Elle estendeu o braço, impedindo-o. — Não o provoque.
Ayaan gritou, alguns metros atrás: — Douglas Stevens, você
está preso pelo sequestro e assassinato de Amanda Jordan, bem
como pelo sequestro e lesão corporal qualificada de Natalie
Hunter.
Seu tom de voz era o mesmo de sempre, preciso e assertivo.
— Solte sua arma e nos acompanhe pacificamente. Não vamos
machucá-lo.
Enquanto Douglas olhava para Ayaan, Sam correu em direção
a Natalie. Antes que Elle pudesse se dar conta do que acontecia,
Douglas levantou a arma, apontou para Sam e atirou.
— Não! — gritou Elle, avançando, mas Douglas já voltara a
encostar a arma na cabeça de Natalie. Ela emitiu um som agudo
quando o metal quente queimou sua pele e seu corpo se
contorceu. Então ela desmoronou sobre o trator. Elle rezou para
que ela tivesse ficado inconsciente. Não havia nada que ela pudesse fazer a menos que ele soltasse a arma. Elle olhou de
relance para a esquerda. Sam estava estirado no chão,
parcialmente coberto por neve. Ele não emitia nenhum som.
Quando Elle olhou de volta para Ayaan, a comandante estava
de pé, resoluta, de lábios franzidos e olhos bem abertos. Elas
haviam perdido a deixa que Sam havia tentado criar: o breve
segundo em que a arma de Douglas não estava apontada para
Natalie. Tudo acontecera depressa demais, como um bloco de
neve se estilhaçando contra o concreto.
Elle voltou a encarar Douglas. Ela estava alguns metros mais
perto, perto o suficiente para enxergar a frieza em seus olhos.
Ele estava com raiva porque as coisas não estavam indo de
acordo com o planejado. Nada, até agora, tinha ido de acordo
com o que planejara. Ela enxergou uma oportunidade.
— Você parou por tantos anos. — Ela balançou a cabeça como
se estivesse incrédula. — O que o fez perder a vontade de
matar? Conheceu uma mulher que amava de verdade?
Douglas riu. — É isso o que pensa? Que eu era celibatário
contra minha vontade, que eu era solitário, que poderia ter
encontrado a cura com uma mulher em minha cama? Ah,
Eleanor, eu esperava mais de você a essa altura do campeonato.
Eu não tenho nenhuma dificuldade com as mulheres. Todas elas
acreditam em tudo o que eu digo, inclusive minha falecida
esposa. Se lembra dela, não é? Eu disse a ela que você e
Jessica eram minhas sobrinhas num dia em que ela chegou mais
cedo e encontrou vocês esfregando o chão.
A maneira como ele disse Jessica trouxe à tona uma
lembrança que cortou sua memória como faca quente. Ele soou exatamente como costumava soar há vinte e um anos. Ela tentou
dissipar a névoa em sua mente, tentando se lembrar de ser vista
por uma mulher enquanto limpava. Elle não conseguia se lembrar
de tê-la visto um dia. Ela estivera com tanta fome e com tanto
medo que, quando tudo passara, cada uma das lembranças
parecia ser uma carta de baralho em um monte que alguém
misturara e arremessara pelos ares.
Então ela se lembrou dos corpos no chalé incendiado.
— Eu sei que você a matou.
— Minha esposa tirou a própria vida. Eu apenas a cremei de
uma forma pouco convencional.
— Ela foi baleada.
— Ela estava ciente de quais seriam as consequências por ter
me traído. Sendo assim, ela causou a própria morte. — Ele
sorriu. — Convenientemente, o amante dela acabou sendo um
excelente dublê de corpo.
Aturdida, Elle pensava nos dois corpos carbonizados,
enterrados sem identificação. Ela imaginou Luisa, esquecida em
uma cova solitária atrás de uma casa abandonada, na angústia
de sua mãe a quem não restara nada além de perguntas. E havia
também a mulher no porão de Douglas, provavelmente dopada
com o mesmo tranquilizante que ele usava com as garotas que
sequestrava. Talvez fosse a mesma droga que ele usara nela
anos atrás, quando ela não parou de chutar a parte de trás de
seu banco enquanto o carro que ele dirigia a levava para longe
de sua vida, de sua infância. Elle pensava na facilidade com que
aquele homem extinguira vidas a fim de encontrar realização em
sua própria. Ele provavelmente fazia isso há anos: encontrava mulheres vulneráveis que o admiravam, que ansiavam por sua
aprovação, e lentamente destruía suas vidas até que não
restasse nada. Talvez essa tenha sido a razão pela qual ele
parara de matar por tanto tempo, por ter estado temporariamente
satisfeito com o controle que conseguia exercer sobre aquelas
mulheres.
Uma rajada de vento soprou, fazendo com que a pele exposta
de seu rosto ardesse. Lutando contra a dor no ombro, Elle
levantou a arma novamente, mas só conseguiu levantar o braço
em um ângulo de quarenta e cinco graus antes que a dor se
tornasse lancinante. Ela tentou dar um passo adiante, mas
Douglas balançou a cabeça.
— Não, não. Fique por aí.
— Por que agora? — perguntou ela, obedecendo-o e parando
onde estava. Natalie ainda estava mole e imóvel. Seu corpo
deveria estar praticamente congelado. Ela estava
assustadoramente imóvel. Por favor, Deus. Não permita que ela
esteja morta. Não agora. — Poderia ter me procurado a qualquer
momento. Poderia ter se vingado de mil maneiras. Por que está
fazendo isso? Por que retomar a contagem regressiva depois de
tanto tempo, agora que as pessoas basicamente esqueceram de
você?
O comentário de Elle teve o efeito pretendido. Douglas cerrou
a mandíbula e o braço com que segurava a arma estremeceu.
Então ele riu outra vez. — Não vamos nos esquecer com quem
está falando, Eleanor. A história do meu trabalho te deixou
famosa. Ninguém se esqueceu de mim.
Ela estendeu o lábio inferior e encolheu os ombros. — Pode
ser, mas esse não é seu melhor trabalho. Digo, você está com
Natalie há poucos dias. E você estragou as coisas com Amanda.
Como elas vão cumprir seus respectivos propósitos na contagem
regressiva se não completaram os seis dias de trabalho antes do
descanso?
A cor deixou o rosto de Douglas. Ela acertara: o trecho da
Bíblia no chalé não era uma coincidência, era sua força motriz.
Ela estudou a ponta da arma pressionada contra a cabeça de
Natalie. Ele a segurava apenas com uma mão, então se ela o
desequilibrasse com um tiro, talvez bastasse para evitar que
Natalie fosse atingida. Mas Ayaan atirava melhor do que Elle, e
se ela ainda não tentara isso deveria significar que o risco era
grande. Mesmo que ele morresse, ele ainda poderia pressionar o
gatilho por reflexo e Natalie morreria também.
Elle teria que obrigá-lo a vir até ela. Se ele tirasse a arma da
cabeça de Natalie outra vez, Ayaan não perderia uma segunda
chance. Elle depositou em sua voz toda a fúria e toda a mágoa
acumuladas dentro de si por duas décadas ao dizer: — Então,
como isso vai terminar? Você mata Natalie fora da sequência, já
que fodeu com tudo e matou Amanda antes do previsto? Que
desleixo, Douglas. Não vai conseguir o que quer assim.
— É mesmo? — perguntou ele.
— A contagem regressiva já era. Você não está cumprindo um
grande propósito. Você é apenas um velho psicopata qualquer,
cego pela raiva e pelo próprio instinto. Foi preciso apenas alguns
registros de uma câmera de segurança e um zelador intrometido
para que pegássemos você.
— Cale a boca, sua idiota. Não sabe com quem está lidando.
Ela soltou um único riso ríspido ao ouvir a resposta dele. O
desejo que sentia de matar aquele homem miserável e minúsculo
se dissipou como fumaça. Elle deu mais um passo à frente,
provocando-o para que afastasse a arma da cabeça de Natalie,
para que ele atirasse nela em seu lugar. Mais quatro passos e ela
chegaria até ele. Podia-se ouvir sirenes à distância.
— Me obrigue a calar a boca, seu velho patético. Você não tem
mais controle sobre mim. Nós pegamos você. Duas mulheres
pegaram o brilhante, o incapturável Assassino da Contagem
Regressiva. Seus dias acabaram e eu mal posso esperar para
estar diante de um júri dizendo a eles exatamente quem você é.
Douglas fez um movimento brusco com o braço, sua arma se
movendo para longe da cabeça de Natalie. Elle se preparou para
a bala que sabia que viria.
Então houve um disparo. Douglas ficou imóvel, tentando puxar
o ar pela boca. Os cabelos da nuca de Elle se eriçaram quando
ela viu Ayaan avançando em sua visão periférica, a arma
estendida à sua frente. Mais dois tiros foram disparados,
formando um triângulo perfeito em seu peito. Ele cambaleou e
olhou para o próprio torso, em choque, enquanto a arma caía de
sua mão.
Elle não esperou que ele caísse. Tirando o casaco, correu pelo
chão coberto de neve. Ela caiu de joelhos e cobriu o corpo imóvel
de Natalie, protegendo-a com todo o calor que restava em seu
corpo.