Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 43 de 50

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Garota, 11

Capítulo 41

 

Elle

20 de janeiro de 2020

 

Quando Elle voltou para casa depois da visita a Duane, tudo

estava estranhamente silencioso. Passava das duas da manhã.

Havia um policial em uma viatura do lado de fora, vigilante, como

Ayaan prometera. Ainda que ela não sentisse que sua vida

estava em perigo, Elle se sentia grata pela presença do policial.

Assim que entrou em casa, aumentou a temperatura no

termostato e desenrolou o cachecol do pescoço. Depois de

desabotoar o casaco, parou diante de sua imagem refletida no

espelho. Olheiras profundas sob seus olhos denunciavam quão

pouco ela vinha dormindo.

— Você chegou. — Martín apareceu no topo da escada. Seu

cabelo ondulado estava desgrenhado depois de um dia inteiro de

dedos inquietos correndo por eles.

Ela pousou a mão sobre o corrimão, olhando para ele lá de

baixo. — O que está fazendo acordado?

— Não consegui dormir sem você em casa. — Ele desceu as

escadas até ela, cobrindo a mão de Elle com sua mão quente. — O que Ayaan disse?

Elle suspirou, lutando contra uma onda de exaustão. — É uma

longa história. Ela não acredita em mim, mas já não estou tão

certa de que é Duane de qualquer forma.

Martín se sentou alguns degraus acima para que pudesse

olhá-la nos olhos. Ele esticou o braço e acariciou a bochecha de

Elle, traçando com o polegar as bolsas sob seus olhos. — Por

que acha que não é Duane?

Ela fechou os olhos, sabendo que, do contrário, Martín saberia

que ela estava mentindo. Ela não tinha energia para explicar o

raciocínio que a levara ao apartamento de Duane sozinha, com

ou sem arma. Eles acabariam tendo uma discussão sobre a

impulsividade dela novamente, o que Elle provavelmente

merecia, mas não havia tempo para isso. — É só um palpite. Vá

para a cama, Martín. Prometo que irei assim que fizer algumas

coisas que preciso fazer.

Ele ficou em silêncio, sondando-a com os olhos. Por fim, disse:

— Se serve de consolo, hoje finalmente consegui falar com a

srta. Turner. Com a filha dela, na verdade. Aparentemente ela foi

levada às pressas para o hospital depois de sofrer um ataque

cardíaco cerca de uma hora antes do horário em que seria a aula

de piano de Natalie. Uma pessoa anônima ligou para a

emergência com o endereço, mas ela estava sozinha quando os

paramédicos chegaram.

Elle sentia que seus joelhos poderiam ceder a qualquer

momento. Ela segurou o corrimão com mais firmeza. — Ela vai

ficar bem?

— A filha dela acredita que sim. Ela não tinha nenhum

problema cardíaco diagnosticado, então foi um choque.

— Acha que… acha que deram alguma coisa para ela?

Ele coçou o queixo e deslizou a mão até a nuca, olhando para

algo sobre o ombro de Elle.

— Você mesma disse que ele pode ter planejado tudo, que ele

saberia que Natalie teria que voltar sozinha para casa. Talvez

tenha sido assim que ele soube. Ele garantiu que isso

aconteceria.

Elle esfregou os olhos. — É possível.

Martín a observava, parecendo preocupado. — Precisa dormir,

mi amor.

— Não vou dormir hoje à noite — respondeu ela. — Tenho

algumas pesquisas a fazer.

Ele respirou fundo. Então bateu as palmas das duas mãos nos

joelhos e se levantou. — Tudo bem. Não vou questioná-la.

Apenas, por favor… por favor, me avise se precisar de ajuda.

Elle olhou para ele na esperança de que seu sorriso

disfarçasse a culpa que crescia por dentro. Ela teria tempo para

contar tudo depois, quando Natalie estivesse em casa e em

segurança. Ela assistiu enquanto ele subia as escadas e

desaparecia no corredor do andar de cima.

Munida de uma garrafa de café recém-preparado e duas

torradas com manteiga de amendoim, Elle levantou

acampamento em seu estúdio. Ela mandou uma mensagem para

Sam contando a ele o que Duane dissera sobre Luisa. Ele

poderia não ser o maior de seus fãs naquele momento, mas mesmo assim ele merecia saber que ela havia conseguido uma

informação importante sobre seu caso.

Então ela ligou o computador. O dr. Douglas Stevens estava

saindo com Luisa Toca. Luisa Toca estava desaparecida desde

pouco antes do assassinato de seu ex-marido. Ele fora morto no

intervalo de uma hora depois de ter dito a Elle que sabia quem o

era. Ainda que não fosse policial, Elle sabia o que era

necessário para acusar uma pessoa de assassinato. Na melhor

das hipóteses, Stevens se tornaria um dos suspeitos.

Elle já provara que Ayaan não poderia confiar nela. Ela

sugerira teoria atrás de teoria e errara em todas elas. Se ela

quisesse apresentar Stevens como um suspeito viável, precisava

de um caso incontestável, não um punhado de conexões que

pareciam coincidências. Mas algo na visita à casa dele aquela

manhã a incomodara: o medo nos olhos da namorada, a

linguagem corporal familiar de uma mulher vítima de agressão.

Elle tivera o mesmo sentimento de mau agouro quando estivera

na casa dele pela primeira vez.

Mas intuição não era evidência.

Depois de algumas buscas, ela encontrou um artigo sobre o dr.

Douglas Stevens com uma pequena biografia. Ele cresceu na

região sudeste de Minnesota e se formou como um dos melhores

alunos de sua turma em física e matemática em Harvard, em

1992. Ele então entrou no doutorado para estudar matemática

aplicada em Yale, mas concluiu seus estudos na Universidade

Mitchell, em Minneapolis.

Era algo estranho de se fazer, frequentar duas das melhores

universidades no país e então retornar ao estado onde crescera para concluir os estudos em uma universidade de nível médio.

Ela só conseguia pensar em duas razões pelas quais alguém

faria isso: problemas familiares ou relacionamentos românticos.

Talvez um de seus pais tenha morrido ou ficado doente,

precisando de seus cuidados. Talvez ele tenha retomado um

relacionamento e renunciado às universidades da Ivy League

para estar com ela. As possibilidades eram infinitas, mas

independentemente do motivo de seu retorno, ele ficara.

Douglas Stevens não se encaixava no perfil de um imitador.

Ele era velho demais, inteligente demais, maduro demais para

ser consumido pelo desejo de obter a fama que pertencia a outro

homem. Por isso só restava uma opção.

Na biografia havia uma foto de alguns anos atrás, e Elle a

encarou por alguns instantes. Ela queria desesperadamente

reconhecer o rosto dele, queria ser atingida em cheio pela

lembrança de seus traços. Mas não conseguia. Havia um borrão

onde as memórias sobre ele deveriam estar. Ela abriu mais uma

vez o retrato falado feito com a ajuda de Danika e o posicionou

ao lado da foto no monitor. Ela cerrou os olhos, inclinou a

cabeça. Poderia ser. Ele não era completamente diferente do

retrato falado, embora ela acreditasse que não o reconheceria

com base nele. Mas Danika era só uma garotinha. Elle pensou

na menina — cabelos finos em contraste com a pele castanha,

marias-chiquinhas firmes presas com um elástico azul e um

elástico roxo. Ela se sentara ao lado da mãe descrevendo o

homem para o desenhista com uma voz trêmula, tímida. Quão

precisa ela teria conseguido ser?

Stevens não estava nas redes sociais, mas tinha um perfil

completo no site da universidade. Era bastante monótono, cheio

de resumos de artigos que ele escrevera ou coescrevera, com

equações e linguagens que ela não compreendia. Mas, ao

mesmo tempo, fornecia um resumo mais detalhado de seu

currículo. Quando chegou até as datas de seu doutorado, Elle

pausou: 1995-1999.

Se ele começou o doutorado em agosto de 1995, ele teria se

mudado de volta para Minnesota seis meses antes de a primeira

vítima do Assassino da Contagem Regressiva ser morta.

O ar no estúdio pareceu rarefeito.

Balançando na cadeira, Elle estudava a Parede do Luto e as

fotos das vítimas, cuidadosamente organizadas em duas fileiras

de cinco.

Kerry Presley. Beverly Anderson. Jillian Thompson. Todos

eram estudantes universitários.

Respirando de maneira irregular, Elle olhou as anotações que

fizera sobre cada uma das vítimas. Kerry e Beverly eram

estudantes da Universidade de Minnesota, Jillian era de Bethel.

Apesar da riqueza de faculdades e universidades em

Minneapolis, as comunidades acadêmicas não eram isoladas

nelas mesmas. Havia várias razões pelas quais estudantes de

diferentes universidades se conheceriam: eventos esportivos,

musicais, debates, clubes de matemática.

A primeira vítima frequentemente fornece muitas informações

sobre um assassino. Com ela, o assassino estava aprendendo,

aprimorando suas habilidades, e por isso estava mais propenso a

cometer erros. Também era a pessoa que o fazia perder o controle, a pessoa que desencadeava um instinto que estivera

adormecido até então.

Elle abriu o arquivo que organizara sobre Kerry. Ele estudava

física e estava a meses de distância da formatura. Tinha acabado

de terminar com a namorada na noite em que desapareceu. Saiu

do restaurante onde estavam jantando juntos e deixou o carro

para que ela pudesse voltar para casa. Ele estaria abalado,

andando sem rumo. Com frio. A polícia está convencida de que

ele aceitou pegar carona com alguém. Homens são mais

propensos a entrar em um carro com uma pessoa estranha, mas

a mãe de Kerry parecia ter certeza de que ele não faria isso. Ele

era cauteloso e pequeno quando comparado com os biotipos

nórdicos da maioria dos homens da região.

Então Elle viu. O simples item no currículo do jovem pelo qual

ela já correra os olhos tantas vezes antes.

 

Ouvinte nas aulas de termodinâmica na Universidade Mitchell

— 1996

 

Elle cobriu a boca com as mãos, olhando fixamente para a tela.

Stevens estaria no programa de pós-graduação na Mitchell no

mesmo semestre em que Kerry participou como ouvinte em uma

aula do departamento de física. Como a maioria dos estudantes

de doutorado, ele provavelmente estava auxiliando professores

como parte de suas responsabilidades com a universidade. Era

isso. Essa era a razão pela qual o não quis receber o

crédito pelo assassinato de Kerry. Ele cometera um erro,

matando alguém com quem tinha uma conexão.

Com as mãos tremendo, Elle pegou o celular e deixou o

estúdio.