Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 16 de 50

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Garota, 11

Capítulo 14

 

Elle

15 de janeiro de 2020

 

A caminho da residência da garota desaparecida, Ayaan

atualizou Elle sobre o caso. Na manhã anterior, a caminho do

ponto de ônibus, uma garota de onze anos chamada Amanda

Jordan desapareceu. A polícia não conseguiu localizar nenhuma

testemunha e a motorista de ônibus relatou que Amanda não

estava no ponto quando ela chegou. Apenas uma das cinco

crianças esperando pelo ônibus se lembram de ter visto adultos

nas redondezas: era um homem jovem parado na calçada um

pouco mais adiante. Ele foi descrito como sendo alto, caucasiano

e de cabelos pretos. Os pais da menina haviam sido

questionados sobre isso no dia anterior, mas não conseguiram

pensar em ninguém que se encaixasse nessa descrição.

— Mas tive dificuldade para conseguir algo útil deles — disse

Ayaan enquanto entrava com o carro em uma rua residencial

tranquila. — Os dois estavam beirando a histeria. Tem um policial

com eles agora para o caso de uma ligação de resgate, mas

aparentemente eles mal abriram a boca desde que fui embora ontem à tarde. — Ela balançou a cabeça. — Nunca se torna fácil

lidar com casos como esse, mas os pais dessa menina parecem

particularmente instáveis. A mãe se culpa.

— Por quê? — perguntou Elle, examinando as anotações que

Ayaan havia feito sobre o caso até o momento.

— Ela normalmente fica de olho até que a menina entre no

ônibus, mas ontem ela recebeu um telefonema e por isso a

perdeu de vista por um momento. Quando voltou, o ônibus já

havia passado e ido embora. Ela simplesmente deduziu que

Amanda estava lá dentro.

Elle respondeu meneando a cabeça. Era natural que a mãe se

sentisse culpada, mas culpa era um sentimento inútil. Mais do

que isso, era prejudicial. Paralisante. Eles não conseguiriam tirar

nada dela até que pudessem fazer com que ela abandonasse a

culpa. Ayaan estacionou atrás da viatura na rua, longe o

suficiente do meio-fio para que Elle pudesse descer sem pisar

em um monte de neve. A comandante se posicionou em frente à

casa e apontou para um ponto do outro lado da rua, na diagonal

de onde estavam. — É aquele ponto de ônibus. De cinco a dez

crianças esperam o ônibus ali; o número varia já que as mães

que trabalham em meio período levam seus filhos para a escola

de carro em alguns dias. É possível enxergar o lugar onde as

crianças esperam pelo ônibus da porta de entrada dos Jordan,

mas apenas parcialmente. A sra. Jordan diz que normalmente há

crianças suficiente no grupo para que ela consiga ao menos

enxergar quando Amanda se junta a elas depois de atravessar a

rua.

Ela se voltou para a casa e Elle seguiu seu olhar. — Sandy

Jordan estava na varanda com a porta contra tempestades

fechada. Ela observava a filha pelo vidro. Assim que Amanda

saiu de casa, o telefone fixo tocou. Pelos registros telefônicos,

sabemos que a ligação aconteceu às 8h27. A motorista de

ônibus chegou menos de três minutos depois, às 8h30. Em

algum ponto desse intervalo de tempo, Amanda foi sequestrada.

— Ninguém viu o sequestro?

Ayaan se virou para o outro lado da rua novamente. O reflexo

brilhante da neve fez com que seus olhos castanhos cintilassem.

— Não até onde sabemos. Os policiais esquadrinharam a

vizinhança, mas nenhum dos outros pais viu nada. Como a casa

de Amanda fica depois dessa leve curva, acreditamos que haja

pontos cegos de onde os pais observam seus filhos.

Interrogamos os pais, a motorista de ônibus e todas as crianças

que estiveram no ponto ontem. Algumas das crianças pareciam

nervosas, é claro, mas só queriam ajudar. A única outra

informação que temos é da motorista de ônibus. Ela afirma ter

visto uma van desconhecida por perto. Uma van azul-escura,

sem identificação, sem placas. Ela fica de olho nesse tipo de

coisa. Ela assiste a Lei e Ordem demais.

Perguntamos aos vizinhos, mas até agora ninguém se

manifestou como dono ou conseguiu explicar a presença da van.

Estamos procurando vídeos de segurança na área, mas nas

casas onde há câmeras, ela está posicionada para a calçada da

propriedade. A maioria das casas não tem sistema algum. Esse

bairro é considerado muito seguro.

O vento se tornou mais intenso e Elle cruzou os braços. —

Sempre são.

Elle inspecionou ambos os sentidos da rua. O sedan de Ayaan

e a viatura eram os únicos veículos na rua; todas as outras

pessoas tinham os carros estacionados na entrada da garagem

ou fechados dentro de garagens para dois carros. Os gramados

em frente às casas eram abertos, sem cercas, um terminando

onde o outro começava. Havia caminhos onde a neve fora

retirada que levavam aos decks de madeira ou às escadas de

tijolos que constituíam as entradas acolhedoras de casas em

estilo colonial. Essas casas pertenciam em grande parte a

famílias de classe média alta com filhos adolescentes ou já

adultos, considerando o número pequeno de crianças entrando

no ônibus. Até oito e meia era seguro dizer que a maioria deles

estaria no trabalho, mas não havia garantia. Se a maioria dos

pais observava os filhos até que entrassem no ônibus, isso

significava que o sequestrador precisaria saber exatamente onde

se posicionar para não ser visto. E ele talvez soubesse que a

mãe de Amanda estaria distraída.

Era uma forma arriscada de sequestrar uma criança, o que, por

si só, já era uma missão perigosa.

— Em que está pensando? — perguntou Ayaan.

— Ele deve ter feito aquela ligação.

— Tivemos acesso aos registros telefônicos hoje de manhã —

explicou Ayaan. — A ligação veio de um celular pré-pago

comprado há dois meses na Target da Shoreview. Um telefone

descartável, basicamente. O cliente pagou em dinheiro. Estamos tentando obter os vídeos de segurança, mas os gerentes não

sabem dizer se foram salvos.

Elle assentiu. — Provavelmente não foram, mas se tiverem

sido, aposto que ele foi até lá disfarçado. Ele planejou isso

cuidadosamente. Ele teria que conhecer o bairro, os hábitos dos

pais, o horário em que eles saem para o trabalho. Vamos supor

que a van azul de fato pertencesse a ele: se ele conseguiu fazer

com que Amanda entrasse no carro tão rápido, sabe o que isso

diz?

— Que ela o conhecia. — Ayaan olhou para Elle. — Talvez

você consiga algo dos pais que eu não consegui. Não temos uma

descrição muito detalhada e nem sequer sabemos se o homem

que a garota viu era o sequestrador, mas é a informação mais

relevante que temos no momento.

Elle se virou em direção à casa. — Vamos falar com os pais.

 

A casa dos Jordan era um sobrado aconchegante onde todas as

luzes ficavam acesas, mesmo com o sol da manhã entrando

pelas janelas. Como se talvez a filha deles apenas tivesse se

perdido e a luz fosse ajudá-la a encontrar o caminho de volta

para casa. Quando Ayaan bateu na porta da frente, um policial a

abriu. Ele as deixou entrar depois de confirmar a identidade de

Elle.

O casal branco encolhido no sofá eram Dave e Sandy Jordan.

O cabelo loiro de Sandy caía embaraçado sobre seus ombros e o

rosto dos dois estava vermelho e coberto de lágrimas. Sandy se

levantou assim que viu Elle, soltando a mão do marido. Por um

momento ela apenas a encarou enquanto lágrimas corriam por suas bochechas. Então ela se jogou sobre Elle, abraçando-a tão

apertado que ela sentiu pressão em suas costelas.

Elle teve um flashback de quando era criança: ela acordava

enrolada em lençóis úmidos de urina em meio aos próprios gritos

depois do susto de um pesadelo. Sua mãe vinha correndo,

pronta para atacar um possível invasor. Em vez disso,

encontrava a filha sentada na cama, sozinha. O único inimigo

naquela noite era a mente de Elle, e esse era um lugar que sua

mãe não conseguia alcançar. Exasperada, Elle chamava por ela,

esperando ser envolvida por braços aconchegantes como os de

Sandy nesse momento, mas a mãe apenas olhava para ela, seus

olhos ardendo com uma dor que Elle jamais compreenderia.

O abraço de Sandy se tornou mais apertado, despertando Elle

de seus devaneios. Desajeitadamente, ela deu tapinhas

solidários na costa da mulher.

— Tudo bem, tudo bem — tranquilizou Elle, fazendo

movimentos circulares nas costas da mulher. Seu corpo frágil

tremia. Elle deduziu que ela não havia comido ou bebido nada

desde a manhã do dia anterior.

— Obrigada por ter vindo — disse Sandy quando finalmente a

soltou. Seu corpo pendeu para a frente como se o simples ato de

estar de pé fosse doloroso. — Eu… Eu sou amiga da irmã mais

velha de Grace Cunningham. A menina do caso da sua primeira

temporada.

Elle assentiu. — Entendo.

— Vi o que fez por eles. Pensei que talvez pudesse ajudar.

Não é que eu não confie na polícia. — Ao dizer isso, Sandy

lançou um olhar desesperado na direção de Ayaan, como se estivesse tentando assegurá-la de sua fé nos policiais. — Senti

que precisava fazer alguma coisa. Nós dois fomos tão inúteis

tentando pensar em alguém que possa ter feito isso. Estou

enlouquecendo pensando no que pode estar acontecendo com…

Eu só… — Ela se perdeu no meio da frase e, sob soluços, voltou

para o sofá, desmoronando ao lado do marido. Quando Sandy

voltou a olhar para Elle, ela perguntou:

— Pode me dizer o que aconteceu?

Dave Jordan ainda não havia dito nada, mas ele colocou seu

braço forte em volta da esposa em um gesto que quase cobriu

todo seu corpo delicado. Ele olhou para Elle, desconfiado. — Eu

vi vocês lá fora. A comandante Bishar não estava atualizando

você?

— Sim, ela me explicou o que aconteceu, mas gostaria de

ouvir o seu relato. Por favor.

Por fim, Dave passou uma caixa de lenços de papel à esposa,

que estava muito abalada. Depois de usar uma mão cheia deles

para secar o rosto, Sandy voltou a falar. — Eu ia ficar olhando

enquanto Amanda caminhava até o ponto de ônibus, como em

todas as manhãs. Está muito frio, então fiquei aqui dentro como

costumo ficar no inverno. Enquanto ela atravessava o quintal, eu

fui… — Ela se interrompeu para secar uma nova enxurrada de

lágrimas. — Fui até a cozinha porque o telefone tocou. Ninguém

nunca nos telefona na linha fixa, então pensei ser algum tipo de

emergência. Eu atendi, mas não havia ninguém do outro lado da

linha. Quando voltei para a janela o ônibus já havia partido. Eu

apenas deduzi… Eu apenas deduzi que ela tinha entrado. Não

pensei duas vezes.

Sandy olhou para Dave balançando a cabeça. — Me desculpe.

Eu sinto muito.

Ele tensionou a mandíbula, mas esticou o braço e pousou a

mão sobre o joelho dela. — Não fez nada que eu não faria. Não é

sua culpa.

Elle tentou estabelecer contato visual com ele, tentando mantê-

lo presente enquanto a esposa se recompunha. — O que

aconteceu em seguida? Como perceberam que ela havia

desaparecido?

— A escola telefonou — respondeu Dave. — Eles ligaram

quando ela não apareceu depois da primeira aula. Obviamente

ficamos chocados, então ligamos para a emergência

imediatamente. Quando os policiais procuraram pela rua,

encontraram a mochila dela descartada. Não conseguíamos ver

da nossa janela por causa do acúmulo de neve, mas estava lá,

duas casas adiante.

— Então não era um problema para quem quer que a tenha

sequestrado que fosse óbvio que ela estava sendo levada. —

Elle falou consigo mesma, mas quando levantou o olhar

percebeu que Ayaan a estava observando de onde estava,

apoiada contra o batente. Ela fez um gesto com a cabeça em

resposta.

Ayaan disse: — Os policiais encontraram a mochila assim que

chegaram aqui, mas nada além disso. Estava na mesma altura

da van que a motorista do ônibus achou suspeita.

Elle sentiu um arrepio correr pelos braços embora a casa

estivesse muito bem aquecida. — Então se a van foi usada para sequestrar Amanda, isso quer dizer que ela estava dentro do

veículo quando o ônibus chegou?

O coração de Elle estava apertado com o pranto de Sandy, que

voltara a soluçar. Ayaan simplesmente gesticulou positivamente

com a cabeça, seus lábios comprimidos em uma linha.

Elle se inclinou para a frente, suas mãos unidas diante do

corpo. — Sr. Jordan, você e sua esposa têm algum dinheiro?

Alguma grande quantia que possam ter recebido recentemente e

sobre a qual alguém sabia?

— O quê? Não. Eu sou empreiteiro. Minha esposa é dona de

casa. — Os olhos de Dave voltaram a ficar marejados e ele

esfregou as lágrimas com os nós dos dedos. — Tudo o que

temos é essa casa e dois filhos lindos. Eu… Isso não pode estar

acontecendo.

— Não consegue pensar em ninguém que poderia querer levar

Amanda? Nenhum familiar ou conhecido que tenha demonstrado

interesse especial nela? Ninguém estranho seguindo vocês

recentemente?

Os dois negaram com a cabeça e então Sandy voltou a chorar.

— Não sei! As pessoas não param de me perguntar isso. Eu não

sei. Não sei. Eu não sei quem poderia ter feito isso conosco. —

Sua última palavra se alongou e se emendou em um lamento.

Pensando em dar um momento ao casal, Elle olhou em volta

buscando o policial que as recebera na porta. Ele provavelmente

estaria na cozinha. — Com licença — murmurou ela, deixando o

cômodo.

O policial estava enchendo uma chaleira de água na pia da

cozinha e a ergueu, exibindo-a, quando Elle entrou. — Pensei em fazer um chá. Tentei duas vezes, mas nas duas eles deixaram

esfriar sem tomar. Eles basicamente têm chorado e me

perguntado se fiquei sabendo de alguma coisa. — O homem

baixo de pele escura estalou os dedos depois de ligar o fogão

sob a chaleira.

— Imaginei… — Elle interrompeu. — Como se chama?

— Hamilton. Antes de ele ficar famoso. — Ele sorriu, piscando

um olho.

— Acho que Alexander Hamilton ficaria ofendido com essa

ressalva, mas tudo bem — disse ela. — Sou Elle Castillo. Sou

consultora da polícia. — Ela se sentiu bem ao dizer essas

palavras, mas conteve um sorriso. — Está me dizendo que está

aqui há, o que, quatro horas? E eles não disseram nada?

Hamilton verificou seu relógio de pulso. — Estou dizendo,

troquei de turno com o policial Eastley às oito da manhã e esses

dois não disseram nada que não fosse uma resposta para uma

pergunta direta. O cara fica olhando pela janela o tempo todo e a

moça está alternando entre dormir e chorar. Nunca vi duas

pessoas tão devastadas.

— O que perguntou a eles?

— Só se eles viram alguém estranho no bairro recentemente

ou se alguém tinha algo contra algum deles. Sabe, talvez alguém

no trabalho ou coisa assim?

Elle assentiu. — E o que disseram?

Hamilton riu ironicamente e balançou a cabeça, parecendo

desapontado. — Nada de útil. Eles não conseguem imaginar uma

razão pela qual alguém faria isso com a filha deles. — Ele olhou

para Elle, seus olhos castanhos carregados de preocupação. — Já vi muita coisa, mas nunca vi pessoas abaladas dessa maneira

antes. Espero que possamos encontrá-la.

Ele permaneceu na cozinha quando Elle voltou para a sala.

Dave estava em pé ao lado da janela agora, olhando para fora

como se Amanda pudesse aparecer a qualquer momento,

caminhando em direção à casa. Ayaan estava sentada em frente

a Sandy. Seu corpo estava ereto e ela parecia desconfortável em

uma poltrona reclinável de uma maneira que Elle nunca vira

antes. Seu rosto se suavizou em uma expressão esperançosa

quando Elle voltou para a sala, mas ela balançou a cabeça

negativamente. Ayaan assentiu de maneira quase imperceptível.

Em vez de se sentar na cadeira ao lado de Ayaan, Elle ocupou

o lugar no sofá ao lado de Sandy. O corpo dela se levantou com

o novo peso sobre as almofadas e pendeu em direção a Elle. Foi

o suficiente para despertá-la de seu torpor. Sandy finalmente

endireitou o corpo e ergueu a cabeça, que antes estivera apoiada

no encosto do sofá. Ela olhou para Elle e seus olhos levaram um

segundo para focá-la.

— Aonde foi? — perguntou ela com a voz embargada.

— Só conversar com o policial — respondeu Elle. Ela olhou

para a comandante. — Ayaan, você mencionou que uma das

crianças descreveu alguém que foi visto na área, não é?

Ayaan acenou positivamente com a cabeça, pegando seu

caderno e virando várias páginas antes de encontrar o que

procurava. — Isso mesmo, uma menina de dez anos nos disse

que viu um homem perto da rua quando ela estava esperando o

ônibus, embora ela não o tenha visto se aproximando de

Amanda. Ela disse que ele era bastante alto com cabelo preto e pele pálida, e que ele usava uma jaqueta bege. Ela não o

reconheceu.

Elle olhou para os Jordan. — Soa como alguém que vocês

conhecem?

— Não sei. A comandante Bishar nos perguntou isso ontem à

noite. Não sei… Eu não consigo. — O rosto de Sandy se

retorceu. Ela dobrou o corpo escondendo o rosto entre as mãos e

secando as lágrimas que voltavam a cair. — Não consigo pensar.

É como se… é como se meu cérebro estivesse dando um

branco.

Ayaan respondeu em tom suave. — Ninguém gosta de pensar

nisso, Sandy, mas algumas vezes as pessoas com quem mais

acreditamos que nossos filhos estão seguros são as que os

colocam em risco. Não vemos que nossos filhos têm medo delas,

que têm motivos para estar. Há alguém em sua vida, qualquer

pessoa, de quem Amanda possa ter demonstrado sentir medo

anteriormente? Um tio? Um primo? Um amigo que visitou vocês?

Alguém que trabalha com você, Dave?

Quando nenhum dos dois respondeu, Elle falou novamente. —

Tentem se lembrar se alguma vez já tiveram que incentivar

Amanda a cumprimentar alguém, a abraçar alguém, talvez.

Alguém com quem ela não queria interagir inicialmente em um

gesto que talvez tenha sido interpretado como desobediência.

Provavelmente não deve ter parecido estranho para vocês no

momento, mas crianças nem sempre nos dão informações

importantes de maneiras alarmantes. Mas havia algo nesse

homem, nesse homem alto, branco e de cabelos escuros, que Amanda não gostava. Ela não gostava dele. Conhecem alguém

assim?

A vermelhidão nos olhos de Sandy piorava, mas ela não piscou

enquanto duas lágrimas correram por sua bochecha direita. Dave

continuou a olhar pela janela, imóvel. Elle respirou fundo,

enterrando as unhas nas palmas das mãos.

Hamilton veio da cozinha segurando uma bandeja com um

bule, algumas xícaras e uma porção de bolachas. Ele pousou a

bandeja na mesa de centro e sorriu para Elle, sussurrando: —

Tentativa número três.

Dessa vez ele pareceu ter sucesso. Como se estivesse no

piloto automático, Sandy se esticou e se serviu de uma xícara de

chá. Seus olhos estavam focados em algum lugar no meio da

sala. Ela por pouco não espirrou o líquido escaldante sobre a

mão, mas por fim não derramou nem mesmo uma gota. Sem

desviar o olhar, ela levou a xícara aos lábios, soprou o líquido e

tomou um pequeno gole. Então ela respirou profunda e

ruidosamente, soltando o ar pelo nariz, e disse: — Se bem me

lembro, ela nunca gostou de Graham Wallace.

Todo o corpo de Elle se enrijeceu. Hamilton parou em meio a

um movimento e voltou a cabeça em direção a Elle, perplexo.

Ayaan foi a primeira a se mover. Ela buscou seu tablet e

começou a digitar, provavelmente procurando pelo nome na base

de dados da polícia.

— Quem é Graham Wallace? — perguntou Elle.

Mas antes que Sandy pudesse responder, Dave desmoronou

no chão com um longo e assolado gemido. Num salto, Sandy

deixou o sofá e correu até ele, segurando a cabeça dele em seu colo enquanto ele soluçava. As costas das mãos de Elle

formigavam. Ela olhou para Ayaan, mas a comandante estava

ocupada demais olhando para a tela do tablet. Hamilton olhava

para o casal no chão como se quisesse se certificar de que não

estavam fisicamente feridos.

Quando Dave se sentou, seu rosto estava marcado por

lágrimas. — Se foi Graham Wallace, é minha culpa. Eu o

contratei há três anos. Eu sabia o que ele era, mas o contratei

mesmo assim. — Seu corpo estremeceu, mas Sandy o puxou

para mais perto.

— O que quer dizer com “o que ele era”? — perguntou Elle. —

O que ele era?

— Ele é um agressor sexual — respondeu Ayaan, virando a

tela do tablet para que Elle pudesse ver. — Ele é um agressor

sexual que mora a cerca de três quilômetros daqui.