Garota, 11
Capítulo 39
Elle
19 de janeiro de 2020
Quando Elle chegou na delegacia, não havia ninguém no
escritório de Sam. Mas no de Ayaan, sim. Quando se aproximou
para abrir a porta, Elle viu que a comandante estava inclinada
sobre a mesa e tinha o rosto apoiado nas mãos. Ela hesitou.
Ayaan massageava as têmporas em movimentos circulares como
se estivesse com dor de cabeça. Havia alguns pelos brancos de
gato espalhados pelo blazer preto que ela vestia e ele estava
amarrotado. Era estranho vê-la de uma maneira que não fosse
perfeitamente equilibrada. Por fim, Elle bateu à porta. Ayaan
levantou o rosto em um sobressalto.
— Elle. Olá. — A comandante a convidou para entrar com um
gesto e Elle se sentou de frente para ela — Você me ligou?
Desculpe, não vi minhas chamadas.
— Tentei, mas só para saber se ainda estaria aqui. Que bom
que te encontrei.
— O que tem em mente?
Elle estava inquieta na cadeira. A lista que ela e Martín
organizaram juntos no necrotério parecia úmida em suas mãos.
Eram todas as evidências que encontraram conectando Duane
Grove aos assassinatos de Leo e Amanda, assim como ao
sequestro de Natalie. Tina prometera enviar para Ayaan as
informações que obtivera sobre o .
— Acho que sei quem é o imitador. — Elle pôs o papel sobre a
mesa e o arrastou para Ayaan. — Duane Grove. Ele era o
principal suspeito do assassinato de Leo, é o homem que
encontrei ao lado do corpo. Sam disse que vocês nunca tiveram
motivos para mantê-lo aqui e que ele foi visto nas câmeras de
segurança de um posto de gasolina alguns minutos antes do
assassinato, mas acho que há uma explicação para isso.
Enquanto criminoso, ele é sutil o suficiente para continuar imune
mesmo administrando um desmanche há anos, então tenho
certeza de que ele saberia como falsificar um álibi. Se ele sabia
que Leo tinha me ligado e que eu estava a caminho, ele poderia
ter cometido o assassinato, ido até o posto de gasolina para ser
visto nas câmeras e depois voltado para a cena do crime para
ser “flagrado” por mim.
Ayaan examinava os papéis. — E quanto aos sequestros?
Elle continuou, ignorando a expressão de dúvida no rosto da
comandante. — Você já sabe que o desmanche deu um sumiço
na van que acreditamos ter sido usada para sequestrar Amanda.
Eduardo era amigo de Duane e de Leo. Para salvar a pele de
Duane, ele poderia facilmente ter inventado a história sobre a
pessoa misteriosa que deu a van para ele. Além disso, Duane se
encaixa na descrição física fornecida por Danika: um homem branco e calvo. Mas a maior razão, Ayaan, é que Tina, minha
produtora, descobriu que vários dos e-mails hostis que temos
recebido vieram do endereço de da oficina de Duane. Eu
verifiquei. Ele tem enviado várias mensagens por dia desde que
encontrei o corpo de Leo.
Ayaan voltou os olhos para Elle. — Onde está essa
informação?
— Ela disse que encaminharia para você.
A comandante se virou para o computador, mexendo no mouse
para acender a tela. Depois de alguns minutos lendo em silêncio,
ela olhou para Elle novamente. — O problema, Elle, é que já
suspeitávamos de Duane. A conexão com o provável veículo
usado no sequestro e o desmanche o tornam mais suspeito
ainda. Sam passou o dia todo interrogando Duane, mas ele
insiste que não sabe nada sobre os sequestros. Fizemos buscas
no apartamento dele e na oficina. Não encontramos nada. Não
há evidências de Natalie ou de Amanda.
— Então ele pode estar escondendo-a em outro lugar —
argumentou Elle. Ela olhou para as notas sobre a mesa, todos os
caminhos claramente levando a Duane como ela e Martín
suspeitavam. — Só pode ser ele, Ayaan. Ele me detesta, detesta
o podcast. Leo disse que a pessoa de quem ele suspeitava bebia
o chá Majestic Sterling. Vocês procuraram por isso?
Ayaan balançou a cabeça. — Não, mas mesmo que
tivéssemos feito isso, não provaria nada.
Elle foi tomada por uma onda de ansiedade como se tivesse
sido atingida por uma corrente de ar gelado. Ela tentou se
controlar. — Seria mais uma evidência de que ele é obcecado pelo Assassino da Contagem Regressiva. A pessoa de quem Leo
suspeitava só pode ser ele, e por isso ele foi assassinado. Leo
viu todos os sinais e deduziu que ele fosse o , não alguém
que o tem como ídolo. Então ele entrou em contato com o
podcast. Duane descobriu de alguma forma e foi até lá para
matá-lo porque queria começar uma série de assassinatos como
a do , e sabia que Leo atrapalharia seus planos.
— É uma boa teoria, mas é puramente circunstancial. E há
outra questão. Encontramos um fio longo de cabelo preto no local
do assassinato de Leo Toca. Recebemos o resultado do
hoje. — Ayaan virou a tela para que Elle pudesse ver e abriu um
relatório ao lado de uma foto de ficha policial. — Luisa Toca, ex-
mulher de Leo, com quem ele supostamente não tinha contato
havia meses. Ela está no sistema por uma infração de trânsito de
alguns anos atrás. Não conseguimos localizá-la, mas seu carro
foi encontrado ontem à noite em uma casa abandonada em
Shoreview. Acreditamos que ela o tenha abandonado lá antes de
fugir com alguém, provavelmente o novo namorado sobre quem
seus colegas de trabalho nos contaram.
Elle encarava a foto da mulher. Seus olhos castanhos tinham
uma expressão desafiadora. — Não foi ela. Não sei onde ela
está, mas Leo foi assassinado por ter entrado em contato com o
podcast para falar sobre o . Estou certa disso.
— Elle… — Ayaan voltou seu olhar para um ponto às costas
de Elle.
Sam estava na porta do escritório de Ayaan. Havia manchas
avermelhadas em suas bochechas. — Realmente acha que sabe
mais do que todo mundo, não é, Elle? — perguntou ele, indo até ela. Havia círculos escuros em volta de seus olhos vermelhos e a
voz dele estava rouca de cansaço. — Temos evidências de
de uma pessoa suspeita que está foragida e você ainda está
pensando na droga do seu podcast?
— Posso estar enganada, mas há menos de doze horas vocês
é que disseram para mim que isso tinha algo a ver com a droga
do meu podcast! — respondeu ela, exasperada. — Não sei por
que o cabelo de Luisa estava na casa de Leo, mas há inúmeras
explicações. Pode ser, por exemplo, que o cabelo tenha ficado
grudado em algum móvel da casa onde eles moravam juntos. Ou
talvez ela tenha ido até lá para tentar reatar com ele. Ou talvez
Duane tenha plantado o cabelo no local para despistar a polícia.
Sam balançou a cabeça com uma risada áspera. — Nem todo
mundo tem um plano mirabolante, embora você queira insistir
nisso. Acho que faz sentido quando se leva em consideração o
fato de que você passou todo esse tempo mentindo sobre quem
é.
Elle mordeu a língua, fechando os olhos. Era só uma questão
de tempo. Quando os abriu, Sam tinha uma postura presunçosa
e uma expressão vitoriosa no rosto.
— Isso mesmo. Acabei de ouvir o último episódio de seu
podcast, Eleanor — disse Sam. Ele olhou de Elle para Ayaan. —
Você não faz ideia da pessoa com quem está trabalhando, não
é? Elle é Nora Watson. A razão pela qual ela é tão obcecada
pelo é que ela foi uma das vítimas dele.
O rosto de Elle estava em brasa. Seus olhos estavam sobre a
mesa. Ela não conseguia encarar a comandante, que
permaneceu em silêncio.
— Você sabia disso? — questionou Sam.
É claro que ela não sabia. É claro que não. Elle sentiu seus
olhos marejados.
— Você estava trabalhando com uma mulher instável,
traumatizada, obcecada em capturar o próprio sequestrador, e
não fazia ideia!
— Não! — Elle se voltou para ele, exaltada, ignorando o pânico
que crescia em seu âmago. — Eu não sou instável, não estou
obcecada. Não contei a ninguém sobre quem sou porque sabia
que essa seria a primeira coisa que todos pensariam de mim.
Conheço o caso do como a palma da minha mão por tudo o
que ele fez comigo, sim, mas também porque sou uma excelente
investigadora. O fato de eu ter vivido um trauma não faz de mim
uma imprestável.
— Elle, você mentiu para mim e para Ayaan desde o primeiro
momento em que entrou pela porta dessa delegacia — acusou
Sam com raiva, mas sem conseguir disfarçar a mágoa em sua
voz. — Tem ideia de quão prejudicial isso será quando os pais de
Amanda descobrirem? Eles vão ouvi-la admitindo no podcast que
a pessoa que matou a filha deles fez isso para atingir você.
Seremos trucidados e responsabilizados pela morte dela, tudo
por sua causa.
— Já chega, Sam.
Seus olhos ardiam, mas ele parou de falar.
Ayaan olhou para Elle. Havia algum tipo de emoção em seu
rosto que Elle não conseguiu decifrar. — Maddie Black… Eu
devia ter desconfiado. Por isso o a consome desde que a
conheci.
— Ayaan, me desculpe. Eu não… Eu não conto a ninguém o
que aconteceu comigo. — Uma onda de calor percorreu o corpo
de Elle e ela sentiu suas axilas ficarem úmidas. A comandante a
olhava de uma maneira insuportável. Como se tivesse sido
traída.
— Imaginou que eu fosse julgá-la por ser uma vítima? Por
querer pegar o homem que destruiu sua infância? — perguntou
Ayaan. Sua voz tinha um tom áspero.
Elle se sentou na extremidade da cadeira. — Não quero ser
uma vítima. Não quero que essa seja a primeira coisa que as
pessoas fiquem sabendo sobre mim, e foi isso o que aconteceu
no ensino médio, na faculdade. Foi isso o que aconteceu até que
me casei com Martín e mudei de nome. As pessoas no
conheciam minha história, é claro, mas minha chefe foi gentil o
suficiente para não contar para as outras pessoas. Não deveria
importar. Não importava.
— Importa para mim. — A voz de Ayaan recuperou a força,
ressoando no pequeno escritório. Elle e Sam ficaram em silêncio
enquanto ela se recompunha e pousava as duas mãos sobre a
mesa. Quando ela voltou a olhar para Elle, seus olhos castanhos
estavam sérios. — Eu te disse várias vezes que estava passando
dos limites nesse caso. Até mesmo fiz vista grossa quando soube
que enganou o detetive Hyde para continuar na investigação
quando eu pedi que se afastasse. Mas Sam tem razão: suas
ações impulsivas nas últimas semanas colocaram várias pessoas
em perigo, inclusive você mesma. Acho que é melhor que vá
para casa.
Elle quis se defender, mas mal conseguia sustentar o olhar da
comandante. Isso era pior do que se ela estivesse furiosa, do que
se ela a expulsasse de seu escritório enquanto Sam ria vendo-a
partir. Elle decepcionara Ayaan. Não confiara nela, não contara a
história toda, e agora era tarde demais.
Sem mais uma palavra, ela saiu do escritório e da delegacia.
Do lado de fora, o vento secou suas lágrimas e provocou um
profundo calafrio. Ela ligou o carro sem saber o que fazer em
seguida.
Ayaan disse que eles não haviam encontrado nenhum sinal de
Natalie na casa de Duane, então ele só poderia estar mantendo-
a em um lugar separado, um lugar sobre o qual a polícia não
tinha conhecimento. Cada segundo em que Natalie passava
desaparecida colocava sua vida em risco. Amanda fora
assassinada com dois dias de antecedência, então quem poderia
dizer o que aconteceria amanhã, o dia da contagem na qual ela
supostamente teria que ser morta? Duane já quebrara o padrão
de seu ídolo. O que o impediria de matar Natalie mais cedo
também?
A polícia não tinha evidências suficientes para prender Duane,
mas isso não significava que ela não poderia falar com ele. Ela
teria que conseguir uma confissão.