Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 3 de 50

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Garota, 11

Epígrafe

Preciso ver seu rosto. Ele perde força quando

conhecemos seu rosto.

Michelle McNamara

1

 

Podcast Justiça Tardia

5 de dezembro de 2019

Transcrição: Primeiro episódio da quinta temporada

NARRAÇÃO DE ELLE

Minnesota é um estado conhecido pelo frio, pelos invernos

congelantes e pela estoica sensibilidade nórdica de seus

habitantes. Nessa ensolarada manhã de novembro, enquanto

dirijo em direção sudoeste na terra dos dez mil lagos, o vento

sopra carregando montes de neve pela rodovia, que flutuam e

rodopiam como fantasmas. Num momento estou desbravando

meu caminho por um longo trecho plano de pradarias e

plantações e, no minuto seguinte, chego na cidade, onde tudo é

cimento e luzes e gramados discretos e bem cuidados. Como em

muitos estados americanos no centro-oeste, há uma linha que

percorre a invisível, porém impenetrável, fronteira entre o rural e

o urbano. Bastam alguns quilômetros para que os grupos

demográficos, as ideologias, as culturas e os costumes mudem

completamente.

Mas, de vez em quando, acontece algo que abala um estado

inteiro. Um acontecimento cujo impacto é sentido por todos,

unindo as pessoas em luto e em um propósito em comum.

Há pouco menos de vinte e quatro anos, na agitada

comunidade universitária de Dinkytown, uma jovem chamada

Beverly Anderson desapareceu.

 

[MÚSICA TEMA]

INTRODUÇÃO DE ELLE

Os casos foram arquivados. Os criminosos acreditam ter se

safado. Mas, com sua ajuda, me certificarei de que ainda que a

justiça tarde, ela não falha. Meu nome é Elle Castillo e esse é o

Justiça Tardia.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Neve estalando sob passos; ecos de —

“I’ll Make Love to You”— de Boyz II Men tocando à distância;

jovens riem ao fundo.]

NARRAÇÃO DE ELLE

Em fevereiro de 1996, a jovem Beverly, então com vinte e dois

anos, foi embora de uma festa onde estava com seu namorado e

vários outros amigos da Universidade de Minnesota. Quando o

grupo saiu da festa, o namorado de Beverly tentou convencê-la a

ir com eles para o Annie’s Parlour para comer um lanche fora de

hora e tomar milk-shakes. Mas Beverly precisaria acordar cedo

na manhã seguinte, então insistiu em ir para casa. Ela estava a

apenas três meses da conclusão de seu curso de psicologia e já

começara a estagiar em uma clínica local. Eles tiveram uma

discussão — nada sério, apenas uma briguinha como é comum

entre casais jovens. No fim das contas ele desistiu e foi sozinho

com os amigos. Dali até o apartamento dela eram apenas cinco

quarteirões — uma distância curta que ela já percorrera sozinha

centenas de vezes. Beverly subiu o zíper de seu casaco preto de

lã, acomodou o cachecol em volta do pescoço e acenou em

despedida para os amigos.

Foi a última vez que qualquer um deles a viu com vida.

Quando ela não apareceu no estágio na manhã seguinte, seu

supervisor ligou para sua casa. Sua colega de quarto, Samantha

Williams, foi quem atendeu o telefone.

SAMANTHA

Não sei explicar. Assim que recebi o telefonema tive a sensação

de que algo estava errado. Subi até seu quarto para verificar,

apenas por via das dúvidas, e foi isso. A cama dela estava

intacta. Nenhuma das coisas dela estava lá, tipo a bolsa e as

chaves e todo o resto. Dava para ver que ela não tinha voltado

para casa.

NARRAÇÃO DE ELLE

Estou com Samantha Williams, hoje Samantha Carlsson, na

cozinha de sua casa. Ela mora a cerca de uma hora de

Minneapolis com seu marido e seus dois beagles, que

anunciaram minha chegada antes mesmo de eu tocar a

campainha.

SAMANTHA

[Aumentando a voz para sobrepor os latidos dos dois cachorros.]

Silêncio! Já para a casinha. Eu falei já para a casinha. Isso, boas

garotas. Está vendo? Elas são bem treinadas quando querem

ser.

ELLE

E então, o que aconteceu quando você percebeu que Beverly

não voltara para casa?

SAMANTHA

Bom, eu avisei ao supervisor dela e ele me disse para falar com

a polícia. Foi o que fiz. No começo não queriam investigar. Sabe

como é, ainda não fazia muito tempo e tal. Mas quando eu e o

namorado dela dissemos a eles que ela havia sido vista indo

embora sozinha e que era uma aluna dedicada que havia

acabado de começar um estágio, eles começaram a ficar mais

preocupados. Soube que interrogaram [censurado], mas os

amigos dele confirmaram um álibi convincente. Exceto pela

discussão de dois ou três minutos sobre ela ir para o restaurante

com ele, ele esteve com os amigos pelo restante da noite. A

polícia me procurou naquele dia, acho que à tarde. Pode verificar

o relatório deles, caso tenha acesso.

NARRAÇÃO DE ELLE

Sim, tenho acesso. Segundo o detetive Harold Sykes, Samantha

foi interrogada no dia 5 de fevereiro de 1996, às 15h42,

aproximadamente dezessete horas depois de Beverly ter sido

vista pela última vez.

ELLE

E, de acordo com o que se lembra, o que aconteceu em

seguida?

SAMANTHA

Nada, na verdade. Os amigos mais próximos estiveram com ela

naquela noite, e eles ficaram no Annie’s Parlour por pelo menos

duas horas depois de ela ter ido embora. A família dela morava a

horas de distância, em Pelican Rapids. Concluíram que não

havia chance de ter sido o namorado, porque ele ficou longe dos

amigos por questão de minutos. Ela simplesmente… sumiu. Todo

mundo pensou que ela pudesse ter se perdido ou ficado

desorientada, talvez ela estivesse mais bêbada do que os amigos

tinham percebido e acabou caindo no rio Mississippi e se

afogando. Isso já aconteceu antes. Mas eles ficaram dias

procurando nas encostas e nos acúmulos de neve e nem sinal

dela. Não até uma semana depois.

NARRAÇÃO DE ELLE

Sete dias depois do desaparecimento de Beverly, o gerente do

Annie’s Parlour estava fechando o restaurante quando, do lado

de fora, avistou alguém encolhido contra a parede. Ele imaginou

ser alguém em situação de rua e se abaixou para se oferecer

para levá-lo a algum abrigo. Quando a pessoa não respondeu, o

gerente afastou o cachecol que ela usava e descobriu o rosto

sem vida de Beverly Anderson.

SAMANTHA

[Em prantos.] As pessoas só conseguiam falar de Beverly. Todo

mundo estava aterrorizado, sabe. Uma garota doce, inocente,

inteligente, agora morta. Eu não conseguia acreditar. Eu mal saí

de casa por semanas depois disso, eu estava com muito medo.

No fim das contas, eu tinha razão para estar.

ELLE

Você se lembra de quando ficou sabendo das outras vítimas?

SAMANTHA

Não falaram nada nos jornais até perceberem que a segunda

garota, Jillian Thompson, morreu da mesma maneira que

Beverly. E ela ficou desaparecida pelo mesmo período de tempo

— sete dias. Acho que encontraram algo no corpo de Jillian que

fez com que a conectassem a Beverly, algum ou algo

assim.

NARRAÇÃO DE ELLE

Foram células epiteliais no casaco dela. A polícia concluiu que

Jillian deve tê-lo oferecido para Beverly quando ela ficou com frio,

onde quer que elas tenham sido mantidas juntas. Jillian

Thompson desapareceu de um estacionamento na Universidade

Bethel três dias depois de Beverly. A família dela imaginou que

ela tivesse fugido com um namorado que eles desaprovavam.

Ele era o suspeito principal até que foi estabelecida uma conexão

entre os casos.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Uma cadeira rangendo; um homem

pigarreando ao fundo.]

ELLE

Pode se apresentar para os ouvintes?

MARTÍN

Ah, sim, sou o dr. Martín Castillo, trabalho como médico-legista

no condado de Hennepin.

ELLE

O que mais?

MARTÍN

E, botando todas as cartas na mesa, sou marido de Elle.

ELLE

Ouvintes assíduos talvez se lembrem da participação do Martín

na primeira e na terceira temporadas, quando ele compartilhou

uma percepção de especialista sobre as autópsias de Grace

Cunningham e Jair Brown, respectivamente. Ao identificar uma

mancha de hipóstase em formato estranho nas costas de Jair, ele

nos ajudou a fazer uma conexão com um sofá na casa de seu tio,

o que foi primordial para ajudar a Divisão de Crimes Infantis de

Minneapolis a solucionar o caso. Eu o trouxe até o estúdio

novamente para discutir a outra maneira pela qual os casos

dessas garotas assassinadas estavam conectados, antes mesmo

dos resultados do teste de feitos no corpo de Jillian.

MARTÍN

A resposta mais simples é que elas foram mortas da mesma

maneira. De maneira igual e peculiar.

ELLE

Fale mais sobre isso.

MARTÍN

Embora Beverly Anderson tivesse sinais de trauma no lado

direito da cabeça, a autópsia revelou que ela havia sido golpeada

vários dias antes de morrer, provavelmente quando foi

sequestrada. Ela faleceu após complicações gastrointestinais,

desidratação e falência múltipla dos órgãos. Esses sintomas

condizem com uma enorme variedade de venenos, e o

patologista poderia jamais ter conseguido descobrir não fossem

as substâncias no estômago dela. Levou algumas semanas, mas

os exames acabaram determinando que ela comera sementes de

mamona. Provavelmente muitas delas. A ricina demora dias para

fazer efeito e não é incomum que as pessoas sobrevivam após a

ingestão, mas ficou evidente que o assassino a fez ingerir a

toxina diversas vezes. Ela foi açoitada nas costas pouco antes de

sua morte. Vinte e uma vezes.

ELLE

Como sabe que foi pouco antes de sua morte?

MARTÍN

As cascas das feridas indicaram que o sangue dela parou de

correr pouco depois de as feridas terem sido abertas. Seus

batimentos cardíacos provavelmente já estavam diminuindo

quando ela foi golpeada — isso significa que ela já estava

morrendo, o que levou o legista à conclusão de que o

açoitamento foi parte de um ritual, não uma tentativa de matá-la

mais rápido. A hipótese se confirmou quando encontraram o

corpo de Jillian e ela havia sido morta exatamente da mesma

maneira. Falência dos órgãos devido a envenenamento por

sementes de mamona, e exatamente vinte e uma marcas nas

costas, feitas com uma vareta.

ELLE

O que quer dizer com “vareta”?

MARTÍN

Uma vara ou um galho de algum tipo. Fino, mas resistente. Há

evidências de que ambos os corpos estiveram em algum lugar na

mata ou no campo. Partículas de folha nas roupas, terra debaixo

das unhas. Eles deduziram que o assassino encontrou um galho

onde quer que as tenha levado e então completou o ritual.

NARRAÇÃO DE ELLE

O corpo de Jillian também foi encontrado sete dias depois de seu

desaparecimento, mas não no mesmo lugar de onde

desapareceu, como foi com Beverly. Isso teria sido fácil demais.

Em vez disso, ela foi deixada no gramado da faculdade

Northwestern — hoje chamada de Universidade Northwestern de

St. Paul —, que era rival de sua universidade cristã, Bethel. No

entanto, apesar de ambas as jovens serem universitárias, de

ambas terem sido mantidas pelo mesmo período de tempo,

mortas da mesma maneira e deixadas em locais públicos, suas

mortes não foram imediatamente relacionadas. Dois esquadrões

de homicídio diferentes trabalharam nos casos e, embora haja

bases de dados policiais centralizadas para coisas como acervo

de e impressões digitais, não havia uma base de dados de

modus operandi — nada que coletasse a maneira pela qual as

vítimas eram mortas e avaliasse se os casos poderiam estar

conectados com base no método do homicídio.

A investigação policial durou meses e até mesmo prendeu o

namorado de Jillian, mas as denúncias acabaram sendo retiradas

e ambos os casos foram arquivados. Não houve assassinatos

semelhantes nem tampouco pistas. Não até o ano seguinte.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: som estrondoso de uma cachoeira ao

fundo.]

NARRAÇÃO DE ELLE

Esta é a cachoeira Minnehaha, dezesseis metros de calcário e

água caindo em cascata, correndo do lago Minnetonka rumo ao

rio Mississippi. O famoso poema “Song of Hiawatha” escrito por

Henry Wadsworth Longfellow consolidou seu nome, Minnehaha,

que Longfellow interpretou como “água que ri”. O nome Dakota

seria mais bem traduzido como “água que se retorce” ou

simplesmente “cachoeira”, ambos nomes mais adequados. O

intenso e quase violento som de água que avança dá a falsa

ideia de riso. E aqui, sob a polêmica estátua de bronze Hiawatha

Minnehaha, o corpo de Isabelle Kemp, uma jovem de dezoito

anos, foi encontrado.

A gravação que você acabou de ouvir foi feita na primavera

passada, quando a cachoeira estava intumescida por neve

derretida. Mas quando Isabelle foi encontrada a água estava

congelada, uma densa e robusta massa de gelo congelada em

movimento de queda, como se por um encantamento. Ela quase

não foi vista; um cobertor de neve fresca estava em processo de

cobrir seu corpo até que um casal de turistas que veio visitar a

cachoeira percebeu seu casaco vermelho aparecendo sob a

neve fofa.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Som ambiente de um restaurante.]

ELLE

Quando o corpo de Isabelle Kemp foi encontrado em janeiro de

1997, a polícia conectou depressa o homicídio com os casos de

1996. Ela estivera desaparecida por sete dias e foi açoitada

pouco antes de morrer. Também foi nesse momento que vocês

inventaram o nome do assassino, não foi?

DETETIVE HAROLD SYKES

Sim, embora indiretamente. Com certeza não foi minha intenção.

NARRAÇÃO DE ELLE

Este é o detetive responsável pelo caso, Harold Sykes. Nos

encontramos em seu restaurante favorito em Minneapolis.

ELLE

Mas você percebeu algo que mais ninguém havia notado. Fale

um pouco sobre isso.

SYKES

Sim, bom, já havíamos notado que o assassino parecia obcecado

com certos números. Ele sequestrou as duas primeiras mulheres

com um intervalo de três dias, as manteve em cárcere por sete

dias e as açoitou vinte e uma vezes. Então deduzimos que esses

números significavam algo para ele. Era um padrão consistente.

O que significa que minha equipe imediatamente varreu os

registros de pessoas desaparecidas, procurando alguém que

poderia ter sido sequestrado três dias depois de Isabelle. Mas

enquanto eu analisava os casos, percebi um outro padrão.

Beverly Anderson tinha vinte anos. Jillian Thompson tinha

dezenove anos. E Isabelle tinha dezoito anos.

ELLE

Uma um ano mais nova do que a anterior.

SYKES

Isso mesmo. Naquele momento foi só um palpite, mas imaginei

que havia uma boa chance de que a próxima vítima tivesse

dezessete anos. Também se encaixava com sua obsessão por

números. Se as idades não fossem uma coincidência, eu sabia

que era um mau sinal. E foi o que eu disse aos repórteres

quando eles me entrevistaram. Eu me arrependi na época, mas

acho que hoje já não importa. Alguém teria pensado nisso uma

hora ou outra. Eu disse a eles: acho que esse cara começou um

tipo doentio de contagem regressiva.

NARRAÇÃO DE ELLE

Foi uma observação simples, mas ficou na mente dos habitantes

de Minnesota em todo o estado, preenchendo a todos com uma

sensação de tragédia iminente. O assassino estava longe de

terminar. Todas as garotas sabiam que não poderiam baixar a

guarda — como toda garota sempre sabe. Um nome instigante é

tudo o que é preciso para transformar um caso local em uma

sensação nacional.

Dentro de horas, todos os canais estavam o chamando da

mesma coisa: O Assassino da Contagem Regressiva.