Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 39 de 50

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Garota, 11

Capítulo 37

 

Natalie

19 de janeiro de 2020

 

Natalie estava sozinha.

Ela tremia no escuro, encarando a fresta na porta. Horas se

passaram desde a última vez que ela fora aberta. O andar de

cima estava silencioso. Ela não ouvia passos. Esta poderia ser

sua única chance.

Até ontem, ela e Amanda haviam concordado em esperar por

resgate. Natalie lera vários livros de true crime que pegara

escondido do estúdio de Elle, por isso sabia que as chances de

que elas conseguissem escapar por conta própria eram baixas.

Ela aconselhou Amanda a não deixar o homem com raiva

repetidas vezes. Elle nunca pararia de procurar por ela. Ela daria

um jeito, usaria o podcast para encontrar o homem que as

sequestrara. A ajuda estava a caminho, elas só precisavam

esperar.

Mas isso foi ontem.

Ela se perdera no tempo, mas tinha quase certeza de que uma

noite inteira se passara desde que o homem matara Amanda. As duas ficaram presas no porão pelo que pareceu dias, sem

janelas que deixassem entrar luz ou escuridão que indicassem a

passagem do tempo. Amanda estava doente, chorando e

vomitando no vaso sanitário nojento que era o único móvel no

quarto além da cama. Elas não tinham comida e Amanda havia

tomado quase toda a água disponível na tentativa de repor

fluidos.

Depois de ignorá-las por horas, o homem finalmente abrira a

porta. Ele trazia uma tigela para cada uma com um mingau

marrom. Depois de comer um pouco, Amanda decidiu fazer o

exato oposto do que Natalie sugerira. Ela jogou a tigela quente

contra o homem gritando com todas as forças de seus pulmões e

se debatendo na cama enquanto ele tentava acalmá-la e Natalie

se mantinha encolhida, fraca de medo e fome. Quando Natalie

teve certeza de que os vizinhos ouviriam os gritos, ainda que não

tivessem ouvido antes, ele subiu na cama, imobilizou o corpo de

Amanda com o seu e tentou cobrir a boca dela com as mãos. Ela

o mordeu e ele gritou de dor, depois pegou o travesseiro que as

duas dividiam e o pressionou sobre o rosto dela. Ela chutou, se

debateu e gritou com uma intensidade que Natalie nunca ouvira

antes. Finalmente, depois de vários minutos, ela ficou imóvel.

O homem a deixou no porão e correu escada acima. Natalie

conseguia ouvi-lo andando de um lado para o outro, seus passos

fazendo com que as tábuas do andar superior rangessem acima

de sua cabeça. Quando ele voltou, não olhou para ela. Natalie

permaneceu onde estava quando Amanda arremessou a tigela,

com o rosto enterrado nos joelhos, até que ele se foi. Amanda

não estava mais na cama quando ela abriu os olhos novamente.

Natalie estava sozinha.

Ela se sentou na cama e ouviu com atenção, esperando os

sons dos passos dele. Nada. Ele estava furioso quando saiu

ontem e não voltara com comida ou água. Ela tinha quase

certeza de que ele nem sequer estava na casa. Se ele não

voltasse, se Elle não aparecesse logo, ela poderia morrer ali.

Essa era sua chance. Não havia janelas no porão e a porta

que dava para a casa estava muito bem trancada, mas havia um

duto de ventilação bem no alto, próximo ao teto.

Natalie empurrou a cama para o outro lado do quarto e o metal

da estrutura guinchou contra o chão de concreto. Ela pegou o

balde grande onde Amanda vomitara quando estava fraca

demais para sair da cama e despejou o conteúdo no vaso

sanitário. Não havia pia para enxaguá-lo, então ela o virou de

cabeça para baixo em cima do colchão. Ela não dormiria aqui

outra vez de qualquer forma.

O balde balançou quando ela subiu em cima dele, mas ela

conseguiu se equilibrar apoiando as duas mãos abertas na

parede. Uma das colunas da cama à direita dela estava

quebrada, e sua ponta afiada em formato de lança apontava para

o teto. Se caísse sobre aquela coluna, estaria morta. Quando

conseguiu se equilibrar, ela esticou o corpo e puxou a grade do

duto. No começo, ela não cedeu. Então Natalie deu um soco na

grade, machucando a mão. A grade precisava sair.

Então, com um golpe decisivo, o metal se soltou e despencou,

quicando no colchão antes de cair no chão.

Natalie prendeu a respiração, fitando o teto. Não ouvia som de

passos vindos da casa.

Mais uma vez ela se esticou, mas, dessa vez, para se apoiar

na parte interior do duto. Estava empoeirado e um pouco

escorregadio sob suas mãos suadas, mas ela conseguiu segurar

firme. Mas o que ela faria para erguer o corpo? Não havia nada

em que ela pudesse se apoiar na superfície lisa da parede.

A parede.

Com o coração disparado, Natalie desceu de cima do balde e o

segurou, tomando cuidado para manter as mãos secas enquanto

o arremessava na parede. Ela bateu inutilmente três vezes antes

de finalmente arrancar um pedaço do gesso. Natalie golpeou a

parede com o balde outras duas vezes até que um buraco

suficientemente satisfatório se abriu, apenas o bastante para que

ela conseguisse encaixar um ou dois dedos do pé. Colocando o

balde sobre a cama novamente, ela voltou a escalá-lo. Dessa

vez, quando conseguiu se segurar na parte interna do duto,

Natalie ergueu a perna esquerda e apoiou a ponta do pé no

buraco. Então ela tensionou seus músculos e tentou erguer o

corpo ao longo da parede.

Ela escorregou, reprimindo um grito, embora já estivesse

fazendo muito barulho. Natalie praticou por dias para conseguir

conter os gritos. Seus pés aterrissaram sobre o balde

novamente. Um cheiro de urina tomou conta do porão.

Inicialmente ela imaginou que fosse proveniente do balde, mas

percebeu que, na verdade, ela tinha urinado na roupa. Seus

olhos foram invadidos por lágrimas e sua visão ficou turva. Ela se

sentiu como um bebê, como um animal, como ambos. Ela

deveria ser mais forte do que isso. Ela tinha uma vantagem que Amanda não teve. Ela lera os livros, aprendera sobre os

monstros. Ela deveria ser mais destemida do que estava sendo.

Depois de fazer uma rápida oração, Natalie respirou fundo, se

esticou novamente e, dessa vez, não parou para pensar: deu um

impulso como se fosse uma criança fugindo do valentão da

escola, e deu certo. Ela sentiu uma dor lancinante nos músculos

da panturrilha esquerda e nos ombros ao fazer força para subir

até o duto, mas ela chegou lá. De barriga para baixo, ela ficou

parada por um segundo, ofegante. Mas apenas por um segundo.

Esse duto não servia como aquecedor. Os aquecedores

ficavam no chão. Ela esperava que isso significasse que ele

servia para ventilação, e que, portanto, a levaria para o lado de

fora, para o ar gelado de inverno e para sua liberdade.

Arrastar-se por dentro do duto foi mais fácil do que entrar nele.

Ela se arrastava usando os joelhos e os cotovelos, parando de

vez em quando, alerta para qualquer som que não fosse sua

respiração pesada. Natalie foi tomada por um súbito pânico

quando o túnel do duto terminou em uma parede, mas ela logo

percebeu que ele apenas havia mudado de ângulo e que agora ia

para cima. Ela ficou de pé e tateou no escuro até sentir a borda

de outro túnel na altura do peito. Apoiando as duas mãos, ela

puxou o corpo para cima e entrou no túnel seguinte.

Minutos mais tarde, ela sentiu correntes geladas de ar

dançando em seu rosto suado. Ela estava chegando perto. O

cheiro de neve fez com que ela rastejasse mais rápido, deixando

escapar risinhos de euforia à medida que o ar ficava cada vez

mais gelado.

Então lá estava ela, batendo na grade do lado de fora da casa,

onde quer que ela estivesse. Ela se esquecera completamente

do barulho, de manter o silêncio, porque agora ela estava ali e

conseguia respirar ar fresco e limpo, tão diferente do fedor de

morte e esgoto e vômito que impregnaram seus pulmões por

dias. Ela passou pela grade quebrada e aterrissou na neve,

ficando deitada e imóvel por um momento enquanto o brilho

intenso do mundo exterior queimava suas retinas. Flocos de neve

caiam sobre seu corpo de pijama.

Então ela ouviu um som de neve sendo esmagada. Era

inconfundível. Aquele som devia fazer com que ela se lembrasse

de guerras de bola e trenós e xarope sendo derramado sobre

uma tigela de neve fresca, mas, em vez disso, ela sentiu que

facas de medo dilaceravam sua pele. Antes mesmo que ela

pudesse se levantar, ele a segurou pela nuca, sua mão como

uma pinça quente em contato com a pele dela.

— Que espertinha — sussurrou ele. Ele a pegou nos braços

como um bebê, como se ela tivesse desmaiado e ele a estivesse

ajudando. Seus olhos vasculharam os arredores sob a luz da

manhã, mas ela só conseguiu enxergar casas suburbanas com

portas fechadas e janelas com cortinas, assim como todas as

casas em seu bairro e provavelmente em todos os bairros de

Minnesota. Ela não reconheceu o lugar. Não fazia ideia de onde

estava e ninguém sabia que ela precisava de ajuda.

Natalie abriu a boca, preparada para gritar, mas a voz dele a

paralisou, soando grave e ameaçadora. — Se der um pio vou

arrancar todos os dentes da sua boca e, por último, vou arrancar

sua língua.

Ela fechou a boca depressa enquanto lágrimas inundavam

seus olhos. O homem abriu a porta da frente mesmo com as

mãos sob o corpo dela e atravessou a casa com Natalie nos

braços. O cheiro de produtos de limpeza e de brócolis fez com

que o estômago dela se agitasse.

Ela ainda estava imóvel, incapaz de se mover ou de protestar,

quando ele a jogou de volta no colchão imundo. Sob a luz fraca

do porão, ele a olhava como se ela fosse um cão desobediente.

— “Se levantará na presença dos anciãos e honrará a

presença dos mais velhos, e temerá seu Deus.” — A voz dele

ressoou pelo porão apertado. — Você não fugirá de seu

propósito. Você não me desafiará. Ninguém me desafiará outra

vez.

Ele saiu e trancou a porta. No momento seguinte ela ouviu um

estrondo lá fora, seguido do som de uma furadeira.

Ele estava selando a única saída.