Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 24 de 50

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Garota, 11

Capítulo 22

 

Podcast Justiça Tardia

Gravado em 28 de novembro de 2019

Gravação não publicada: Elle Castillo, monólogo

ELLE

Toda investigação tem problemas. Todo investigador comete

erros. Ao longo das décadas, desde que ele se tornou

oficialmente inativo, detetives e até mesmo alguns jornalistas

investigativos atribuíram casos ao esquivo . Algumas vezes

o fizeram munidos de evidências convincentes: um caso de

envenenamento por ricina, garotas de onze anos que

desapareciam ou eram mortas, outro casal encontrado morto em

uma cabana a cerca de oitenta quilômetros ao norte do local de

onde a última vítima do escapara. Até mesmo o detetive

Sykes admitiu ter se enganado uma vez, em 2008, por uma série

de quatro assassinatos em Fargo que parecia girar em torno de

uma obsessão por números.

Mas todos eles se enganaram. Todos nós nos enganamos.

Ouvintes de longa data devem se lembrar de que eu, na

verdade, conheci Ayaan Bishar, comandante do departamento de

polícia de crimes infantis de Minneapolis, antes de trabalharmos

juntas no caso de Jair Brown. Nos conhecemos na época em que

eu trabalhava no , quando comecei a trabalhar no caso de

uma criança desaparecida.

Respondi ao contato de vizinhos que estavam preocupados

com uma jovem chamada Maddie Black. Eles não a viam havia

dias, o que era incomum visto que ela costumava brincar nos

balanços de seu prédio. A mãe dela se separara do pai e vivia

com um homem que os vizinhos afirmaram ser, com frequência,

verbalmente abusivo. Ambos, o namorado e a mãe, disseram não fazer ideia do paradeiro de Maddie, e, com base nos

depoimentos dos amigos da menina, ela aparentemente fora

vista pela última vez descendo do ônibus escolar onde começaria

o trajeto de dois quarteirões até sua casa. Ninguém a viu sendo

levada, mas ela nunca chegou em casa.

Eu… eu deveria ter ouvido. Esse é o tipo de pista que desperta

a intuição de boas assistentes sociais, mas eu as ignorei.

As circunstâncias de seu sequestro eram assustadoramente

familiares para mim. Mesmo naquela época, eu conhecia o

como a palma da minha mão. Maddie tinha onze anos de idade,

e embora a família dela fosse muito mais instável do que as

famílias de suas outras vítimas, me pareceu possível que ele

fosse o responsável. Quando comecei a analisar as

similaridades, me pareceu óbvio. Ela tinha a idade certa e o

histórico certo. Ela desaparecera da mesma maneira que a

maioria das vítimas do — caminhando sozinha por um

trecho que fazia parte de sua rotina. Então quando falei com

Ayaan Bishar, a detetive responsável por aquele caso, disse a ela

que tinha certeza de que o havia decidido voltar a matar.

Quando dois dias se passaram e ainda não havia sinal do corpo

ou ligação de resgate, pensei tê-la convencido. Maddie havia

sido levada pelo e outra garota deveria ser sequestrada no

dia seguinte. Recebemos outras pistas, um casal de amigos

próximos da família sugeriu que deveríamos investigar o pai de

Maddie com mais atenção, mas o era tão engenhoso que

eu não descartaria a possibilidade de ele ter escolhido uma

vítima que nos fizesse suspeitar de outras pessoas. Talvez fosse um aperfeiçoamento, uma sofisticação de sua técnica que ele

adquirira ao longo dos anos.

Mas não era. Quatro dias depois do desaparecimento de

Maddie, Ayaan investigava uma pista sobre um pseudônimo

usado pelo pai da menina quando rastreou um apartamento que

ele alugara com o nome falso. Ao ouvir a polícia arrombando a

porta, o homem decidiu que se a filha não pudesse ser dele, não

seria de mais ninguém. Eles invadiram o apartamento instantes

antes que ela fosse baleada. Ela foi salva, mas no dia seguinte

fui para o trabalho levando comigo uma carta de demissão.

Eu tive um caso de burnout no trabalho. Temia que meu erro

chegara perto de custar a vida de uma menina. Ao mesmo

tempo, em minha vida pessoal, experimentei pela primeira e

única vez a sensação de uma reunião parental por meio de uma

amizade que florescia com minha vizinha e a filha.

Passei algumas semanas no sofá, em luto pelo que parecia ser

o fim da minha carreira, ouvindo um episódio atrás do outro de

todos os podcasts de true crime que encontrei pela frente.

Finalmente, em uma certa madrugada, embriagada por uma

combinação de privação de sono e metade de uma garrafa de

Shiraz, decidi que eu também poderia criar um. Apesar do meu

fracasso no caso de Maddie, eu não havia perdido minha paixão

por ajudar crianças vítimas de crimes. Talvez eu só devesse fazer

isso de maneira diferente.

A ideia de um predador ameaçando a segurança da filha da

minha vizinha — uma menina perfeita, pequenina e de olhos

brilhantes, cheia de opiniões e com uma covinha na bochecha

que desarma qualquer um — me deixava nauseada de raiva. Mas sabia que fazia parte da realidade. Há homens que

enxergam meninas como ela como presas. Conheci muitos deles

em minha vida, vi muitos deles saindo impunes por seus crimes,

e eu sabia que poderia fazer algo para impedir isso. Naquela

noite, gravei o primeiro episódio do que se tornaria o Justiça

Tardia. Alguns meses mais tarde, lancei a primeira temporada.

Como acontece com muitas coisas na vida, mais de um

acontecimento me trouxe até esse trabalho — uma confluência

de eventos ao mesmo tempo, na hora certa. Somos resultado

não apenas das experiências que temos, mas de nossas reações

a elas. Mas se eu precisasse escolher apenas uma coisa, algo

que tenha dado início a tudo isso, diria que foi o caso de Maddie

Black. Todos nós temos um catalisador, uma pessoa ou um

acontecimento ou uma mensagem que inicia uma jornada. Algo

que, quando olhamos para trás, para nossa história,

conseguimos enxergar como ponto de partida. Vemos como tudo

o que aconteceu depois foi fruto dessa única coisa.

Nossa origem.