Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 8 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Definições e interfaces

Assim, no sentido de investigar o que há de geral nas situações

particulares da vida, o autor propõe que sejam estudados muitos casos, a fim de estabelecer uma comparação. Há uma preocupação com a generalização dos resultados, a busca de um “modelo” que apresente validade do ponto de vista da análise global dos processos sociais. Muñoz (1992, p. 55) denomina essa perspectiva de Bertaux de “método de saturação informativa”: o processo de saturação é o que garante a validade científica na observação de regularidades empíricas e o estabelecimento de perspectivas estruturais.

Logo, observamos que, na antropologia e na sociologia, as

histórias de vida já contam com um longo caminho percorrido, marcado por momentos de grande ênfase nessa perspectiva metodológica, mas também por momentos de estagnação e de reflorescimento. São também muitos os autores que trouxeram contribuições significativas. Considerando a pluralidade nesse campo metodológico, Finger (apud Araújo e Magalhães, 2000, p. 19) sistematizou quatro abordagens, destacando a história oral, a Escola de Chicago, a “sociologie du cours de vie” de Bertaux e as contribuições de Ferrarotti, considerando, de forma consensual, a produção de Ferrarotti como o grande marco no aporte (auto)biográfico. No próximo item, buscaremos sistematizar as principais contribuições e os mais importantes conceitos apresentados nos diferentes campos do conhecimento.

 

Definições e interfaces

 

A passagem pela abordagem das histórias de vida, em diferentes

campos das ciências humanas, faz-nos perceber uma multiplicidade de fios, de matizes que, embora diferenciados, trazem uma interessante interligação de pontos comuns. O olhar sobre esses fios e pontos varia, certamente, a partir da referência epistemológica do investigador, pois, como nos mostrou o percurso histórico, as histórias de vida podem estar a serviço de diferentes perspectivas de construção do conhecimento. Considerando o foco teórico deste estudo, buscaremos articular as contribuições da história às da sociologia, no que elas trazem de definições e interfaces entre esses campos, tendo como referência a dialética histórica que nos orienta o olhar.

A história de vida manifesta-se como movimento propriamente

humano de dar sentido à vida e à sua historicidade. Constitui um enfoque teórico-metodológico que, rompendo com o paradigma lógico-formal, focaliza a vida, em suas tramas individuais e coletivas, como um lócus privilegiado de compreensão dos processos sociais e históricos. Nesse sentido, não se reduz a uma técnica de recolha de dados ou de informações, mas também não se afirma como uma teoria ou ciência isolada, colocando-se, por sua natureza, na mediação entre a prática da investigação e a construção de conhecimentos, em uma abordagem multirreferencial que vai possibilitando a inteligibilidade dos processos humanos.

A temporalidade assume grande relevância nessa abordagem,

pois trabalhar com as histórias de vida aponta o desafio de ruptura com a linearidade paralisante do paradigma simplificador e nos coloca na intensidade de reflexões que cruzam passado, presente e futuro. O presente problematiza o passado, projetando o futuro. Assim, falar de história de vida, tanto na história como na sociologia, é falar do movimento ontológico de conhecer, de dar sentido às trajetórias vividas, desejando sempre a construção do futuro.

Encontramos também a ruptura com uma clássica colocação dos

lugares de quem investiga e constrói conhecimento científico e de quem participa como objeto investigado. Investigadores e participantes são sujeitos do processo de conhecer e, nesse sentido, há um movimento de formação que envolve de forma vital aqueles que se colocam com a alma na pesquisa. As histórias de vida envolvem, portanto, a ação propositiva dos sujeitos, um trabalho laborioso de pavimentação do passado, na construção dos múltiplos sentidos do presente e do futuro. Segundo Thompson (1998, p. 43), “a história não deve apenas confortar; deve apresentar um desafio, e uma compreensão que ajude no sentido da mudança […] O que se requer é uma história que leve à ação; não para confirmar, mas para mudar o mundo”.

O olhar sobre as contribuições da história e da sociologia nos leva

a essa tessitura comum. Os objetos de investigação peculiares a cada um desses campos vão sinalizando o caminho de suas especificidades. Todavia, situamos nosso trabalho na apropriação do fértil diálogo possível. Faz-se necessário, portanto, definir alguns conceitos e a forma como serão perspectivados nesse diálogo.