Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 43 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Clara: a formação como caminho de encantamento e curiosidade

Clara: 2a formação como caminho de

 

encantamento e curiosidade

 

Eu venho de uma família humilde […] minha mãe me conta que a minha

bisavó era de uma família muito rica e apaixonou-se por uma pessoa, pelo

meu bisavô, que era uma pessoa muito pobre […] Como ele não tinha

muito, pronto, não tinha dinheiro, na altura, ainda no século XIX, foi para o

Brasil fazer fortuna […] Eles namoravam às escondidas, ele foi para o

Brasil, e ela ficou grávida. Que que acontece? Meu bisavô morreu no

Brasil com malária; portanto, a minha bisavó, ao fim e ao cabo, foi posta

de lado pela família e criou a minha avó sozinha, com a ajuda de um

familiar que era padre […] e ajudou, ao longo da vida, ela a criar esta filha,

que é a minha avó, mãe da minha mãe, avó materna. Pronto, a minha avó

cresceu, é uma família humilde com muitas dificuldades, porque na altura

as pessoas tratavam mal a minha bisavó por causa disso.

 

Em finais da Primeira Guerra, ser mãe solteira foi uma marca

complicadíssima, mas a avó cresceu e frequentou a escola primária, fez até o 4º ano, “e o tal padre ajudava-a muito nos estudos e cultivou nela o gosto por ler”. A avó de Clara começou a ganhar a vida fazendo bordados, era a fada do lar. Ela se casou e teve nove filhos: “Uma família com bastantes dificuldades económicas numa altura de fome; portanto, na Segunda Guerra, minha mãe fala do tempo que passou fome. E a minha mãe aprendeu muito com a minha avó […]”. Aprendeu a costura, tornou-se costureira e aprendeu também o gosto pela leitura. O pai de Clara era empregado têxtil, casaram, estiveram um tempo em Portugal e, depois, emigraram para a Alemanha. Tiveram três filhos, Clara é a mais nova, havendo uma grande diferença de idades. Por problemas de saúde de sua mãe, retornaram da Alemanha quando Clara ainda era muito pequena: “Minha mãe tem também a quarta classe e tem uma grande paixão pelos livros, que vem desde a minha bisavó: bisavó, avó e mãe”.

A infância se passou numa Aldeia muito tranquila, onde até hoje

mora. Sempre teve hortas, coelhos, patos, galinhas: “Temos o nosso próprio chá, temos chá de cidreira, mesmo nosso, e a salsa, e apanhar a salsa, o limoeiro, brincar no quintal, também brinquei, ler no jardim, lia muito no jardim, pronto, tem aquele clima [...]”.

 

[…] Uma salsa de meter inveja, toda a gente pedia salsa, eu levava os

raminhos de salsa, as cenouras, também chegamos a ter cenouras; os

feijões, os tomates e as alfaces, portanto temos sempre uma hortinha ali, e

os ratos que estragam tudo e tal, sempre um problema. Portanto, sempre

tive esse contacto com o campo, uma aldeia sossegada.

 

No ambiente familiar, Clara sempre recebeu muita atenção e

cuidado dos pais, aprendeu com eles a importância do trabalho. Como os irmãos eram muito mais velhos, não brincaram juntos, mas eles a protegiam, especialmente o irmão, e a irmã a ajudava na escolaridade.

 

Ela influenciou-me bastante. Porque é assim, a minha irmã é mais velha

do que eu oito anos, e eu sempre vi a minha irmã como uma boa aluna, a

referência para mim […] Ela influenciou-me muito em várias vertentes,

desde a maneira de estar, se bem que eu sou muito mais desorganizada

do que ela […] O meu início da leitura eu não aprendi com a professora,

eu aprendi com a minha irmã, a minha irmã ajudava-me muito nos

trabalhos de casa […].

 

A irmã torna-se educadora, ensina-a a ler e a escrever,

acompanha as tarefas escolares, influencia em sua paixão pela arte e pelos livros. “Porque ela estava mesmo comigo, conversava, havia coisas que eu já sabia, mas ela mesmo assim conversava, puxava por mim”. Quando Clara tinha dez anos, a irmã foi para Lisboa, fazer o curso de design, e ela precisou aprender a caminhar sozinha: “Isso para mim foi um grande choque, porque eu aí é que me apercebi o quanto é que eu estava ligada, eu chorei muito, eu lembro”. Nos finais de semana, estavam juntas e eu via os trabalhos dela: “Foi aí, se calhar, que eu fiquei muito vocacionada para Arte, para pintura, porque ela pintava, ela desenhava e as cores de pastel [...]”. “Portanto, aprendi muito por causa dela e o gosto que eu tive pela história da arte eu acho que foi ela, não sei quando é que começou, mas deve ter sido por aí”.

A experiência na escola de 1º ciclo traz marcas e memórias

fortes. Sua professora tinha sido também professora de sua irmã que era excelente, ganhou o prêmio de melhor aluna. Clara já foi para a escola preocupada: “Eu estava com medo de não ser tão boa como a minha irmã”. Por outro lado, a irmã a alertou: “Olha que ela é má, cuidado que ela […]”. “Havia o mito que ela, quando vinha vestida de vermelho para a escola, era quando estava maldisposta […]”.

 

Ela era uma pessoa nova, ela era nova, tinha vinte e poucos anos, estava

no início de carreira, quer dizer, não estava no início de carreira, mas já

tinha uns anos de prática, mas era uma professora antiga, a antiga

portuguesa, ao fim e ao cabo, porque ela era nova, mas uma professora

completamente ultrapassada, completamente antiquada, régua, tudo um

rigor. Era uma professora autoritária, má, afectividade não existia, a minha

sorte é que eu era a irmã da Margarida, que era a minha irmã que ela

conhecia […] E, depois, ela dividia a turma, para além do terror que batia

forte e feio, ela dividia a turma. Era assim, quem estava à frente, nas filas,

eram os melhores alunos, todo o resto que estava para trás eram os

alunos que não prestavam. Portanto, ela puxava pelos melhores alunos, e

quem não era bom aluno estava lá para trás, estava lá num canto

esquecido e era nesses miúdos que ela descarregava mais, portanto. Eu

não posso dizer que ela batia-me muito, o que mexia comigo era a

injustiça […]

 

Os melhores alunos tinham um tratamento especial e eram

tomados como exemplos; os demais sentavam-se atrás e eram relegados. A reza fazia parte da prática diária, e era preciso total atenção, olhar direcionado ao crucifixo, caso contrário, levavam reguadas. O que havia era o ensino memorizado, as aulas expositivas, o tema das composições definido pela professora, um excesso de trabalhos de casa, a grande distância e a não preocupação com a aprendizagem dos alunos. A escola torna-se para Clara uma obrigação, era um castigo estar ali. “A única coisa boa que eu acho que ela fazia, não tinha só pontos negativos, é que ela, aqueles meninos que não podiam pagar os livros, ela oferecia os livros, ela pagava o material e pagava os livros”.

A passagem para o 5º ano foi um alívio para Clara, ela começou a

gostar da escola, descobriu o prazer de aprender e a paixão pela história: “Os reis, as rainhas, os castelos, para mim tinha uma paixão muito grande pela história e a partir daí comecei a ler livros”. “Aí é que eu tive a paixão pela escola, porque tinha mais professores, havia diferentes disciplinas, aquilo era novo para mim e aí é que eu comecei a gostar das coisas e aprender. Até aí, era tudo muito morno, muito morto, eu não gostava”. Na escola, descobriu as pirâmides do Egito e a história da arte, fortalecendo seu interesse pelas humanidades. Teve alguns professores que a cativaram, como a de geografia, uma professora disponível, que gostava de ouvir os alunos, de entrar no universo deles, puxar seus interesses, que procurava um ensino contextualizado nos acontecimentos da atualidade. Lembra que numa atividade a professora deu contribuição a diversos grupos da turma, era boa pessoa e boa professora, ponderada, calma. Como aluna, Clara tornou-se exigente, gostava de fazer as coisas sozinha, fazia leituras solicitadas, gostava de perceber.

Nesse contexto, sua adolescência foi tranquila, um momento de

encantamento pela leitura. Em sua escola primária não teve hora do conto, momento do livro, não havia nenhuma biblioteca, o único livro era o manual, “com aqueles textos e pronto. Lembro-me de folhear o manual e a primeira coisa que me interessou muito foram as ilustrações, tinha um manual com umas ilustrações, que me chamava atenção, ainda o tenho”. Ela não tinha nenhum gosto pela leitura. Depois, quase no final do 1º ciclo, começou a perceber os caminhos de leitura de seu irmão, grande leitor de banda

desenhada:3 “O meu irmão era um leitor de banda desenhada, o Homem-Aranha, tinha lá em casa muitos livros de banda desenhada, não era muito comum na altura as pessoas lerem banda desenhada”.

Enquanto isso, também a minha irmã era mais para os contos infantis, a

Branca de Neve, os contos tradicionais portugueses também, pronto.

Depois, e eu não lia banda desenhada, mas via lá em casa, era muito […],

a minha mãe lia muito e o meu pai lia também o jornal, lia muito também.

Eu não tinha muito esse gosto, por causa, se calhar, por causa da minha

professora, não sei […] No final do 1º ciclo, descobri os livros da Agatha

Christie e aí comecei a ler livros da Agatha Christie e, assim, comia-os

todos, lia-os todos, depois passei para o Sherlock Holmes e a partir daí

saltei, ou seja, nunca peguei muito nos livros infantis […] Comecei e,

pouco tempo depois, já estava a ler Gabriel García Márquez, que eu adoro

ler o Gabriel, o Mia Couto, sei lá, alguns clássicos da minha mãe, porque

tinha lá em casa […] Portanto, eu comecei logo a pegar em pesos

pesados […] portanto, nas férias, aproveitava para os ler. Ao fim e ao

cabo, então, inscrevi-me cedo na biblioteca, ia muito à cidade, aproveitava

para dar um passeio, para comer os croissant que são excelentes […],

então, nas férias de verão, eu, por mês, lia por aí quarenta livros ou mais!

À tarde ia, passava a tarde, ia de camioneta, sozinha, ia para a biblioteca

[…] a biblioteca tinha revistas, tinha livros, tinha tudo, podia ouvir música

também, conheci muitas coisas lá e passava as tardes lá, ia depois buscar

os meus croissant, comia lá qualquer coisa e vinha para casa, eram assim

as minhas tardes […]

 

Nessa fase, acompanhou a dificuldade de alguns colegas com

drogas e com os namoros, o que a ajudou a refletir sobre seus próprios caminhos. Seus pais se divorciaram quando tinha 18 anos, mas foi um processo encarado naturalmente. Quando concluiu o secundário, tentou ingresso para licenciatura em história da arte, mas não conseguiu, foi um choque, a interdição de caminhos que desejava, foi a primeira vez que viveu a experiência de um caminho negado. A partir daí, vieram as outras possibilidades:

 

Que que eu agora vou fazer? Vou concorrer para, pronto, estive a estudar

o que que havia de curso e pensei, ora bem, professora do 1º ciclo e

lembrei-me logo da minha professora. E eu, bem, é, pode ser, vou estudar

para isso, vi as universidades, era uma possibilidade, porque eu também

professora não desgostava. Agora o 1º ciclo para mim, pensava,

lembrava-me da minha professora e pensava, ‘só espero não me tornar

como ela foi’. […] Portanto, optei por ir para o 1º ciclo, e depois houve uma

colega minha que estava a estudar e que estava a tirar esse curso, que

entrou no ano que eu não entrei e ela disse: ‘Olha que interessante, estou

a gostar muito, depois vais estagiar, vais trabalhar com crianças, portanto,

vais tirando o curso e vais trabalhar com crianças; portanto, vai ser uma

parte teórica e uma parte prática, é interessante, até podemos dividir

quarto juntas’.

 

Durante o curso, sentiu uma abordagem essencialmente teórica,

leituras descontextualizadas, muitas lacunas, mas guarda a lembrança de professoras de literatura e matemática, que desenvolveram uma abordagem prática. Nesse período, “a preparação foi eu que me fui construindo”. No estágio, entretanto, vivenciou uma experiência marcante, esteve em uma escola muito complicada, em uma zona de grande toxicodependência, problemas com álcool, onde de manhã ouviam-se tiros. A professora cooperante desenvolvia uma prática pedagógica que a fazia lembrar de sua professora primária – as crianças tinham medo dela, não existia relação afetiva. Mas, contraditoriamente, a professora tinha boas ideias para os estagiários, apesar de não as colocar em prática, e foi um período de aprendizagem. Mas foi com uma aluna que uma aprendizagem muito significativa aconteceu.

 

Eu ainda tinha na minha ideia que os professores têm que ter aquela

postura, não de uma forma violenta como eu aprendi que eu achava isso

[…], mas uma postura de distância e eu com essas crianças que quase

que pediam colo e, então, comecei a estabelecer, foram elas que fizeram,

me moldaram, digamos assim. Portanto, havia lá uma miúda que já tinha

certa idade, já poderia estar no 5º ano, mas estava ali retida há muitos

anos que tinha algum atraso mental e foi essa que mais pediu carinho a

mim […] olha, eu ainda hoje me lembro dela, era um amor de menina […]

Foi ela que me fez ver que o professor não é aquele que está ali que

mantém aquela postura, não, eu brincava com ela no recreio, ela vinha

sempre ter comigo, oferecia-me bolachas, ela tinha sempre uma bolacha

para mim; então, foi aí que me fez ver as coisas de outra forma. Porque eu

também não tinha grandes modelos, pensando bem, agora analisando as

coisas, não tinha modelos […]

 

A conclusão do curso foi uma grande alegria para sua família, a

mãe, o pai, as tias, “toda gente ficou muito contente”, mas depois veio o desafio do emprego, porque “as coisas estavam mal”. Realizou os primeiros concursos, mas não conseguiu colocação, iniciou sua trajetória profissional em uma escola particular, substituindo temporariamente uma professora. Lá entrou em contato com uma realidade nova: meninos filhos de pais ricos, em geral, crianças sem dificuldades, meninos felizes e sem problemas, sentiu facilidade no desenvolvimento do trabalho com uma turma de 1º ano. Trabalhou a iniciação à leitura e à escrita por meio do método analítico-sintético, utilizando os manuais. Procurou sempre brincar com os alunos, desenvolver a expressão dramática, músicas e a articulação entre os conteúdos escolares, causando estranheza ao diretor da escola sua postura e proximidade dos alunos.

Quando concluiu o período de substituição nessa escola, estava

novamente sem emprego e realizou um novo concurso, não obtendo colocação. Soube, entretanto, da luta de uma escola pública que desenvolvia uma proposta pedagógica diferenciada e estava sendo cerceada pelo Ministério da Educação e não tinha professores. Então, foi a um evento de apoio a essa escola e lá soube que estavam precisando de professores/as, ofereceu-se para ajudar e iniciou uma nova etapa de sua trajetória de vida e formação. Chegou à escola como voluntária e passou a ajudar o grupo de crianças que estava na iniciação à leitura e à escrita. Já tinha feito leituras sobre aquela instituição, ainda no período de licenciatura, mas chegou com o olhar curioso; ela estava cheia de miúdos, “uma confusão total, não sabia quem era quem”, não havia professores/as em número suficiente, mas, mesmo nesse contexto, sentiu serenidade.

Pouco tempo depois, recebeu um convite para integrar o quadro

como professora. Ficou contentíssima da vida, mas, ao mesmo tempo, cheia de expectativas.

 

Isso é uma escola diferente, eu vou ter que perceber como é que isto

funciona, que isto não tem nada a ver com a experiência que eu tive. Eu

vim de uma escola particular, completamente diferente, pronto, e vi que

aqui tinha muitos meninos complicados, até era mais parecido com aquilo

que eu conheci no estágio [...] Meteu-me confusão a questão deles terem

o plano e ter que ir ver ao plano o que que eles estão a trabalhar. Estava

habituada é a fazer as planificações, era eu que fazia das aulas, portanto,

a professora dizia é o tema, é as plantas e eu desenvolvia a planificação.

O que eles fazem na data X, às X horas, portanto, tudo controladinho, aqui

eu vi que não havia nada disso e até fiquei contente, porque não gostava

nada das planificações […] O que mais me agradou é assim, eu não estou

sozinha, portanto qualquer dúvida, tenho aqui a colega para me ajudar.

Óptimo, para mim é óptimo, porque eu estava numa fase em que tinha

muitas dúvidas, ainda tenho e aquela pessoa vai me ajudar a como é que

se aborda isto, o que que eles fazem aqui. Portanto, tem sempre ali

alguém para me ajudar […] O que mais me entusiasmou aqui foi não estar

só e a relação que se estabelecia com os miúdos. Não era aquela figura

distante, fria, que mantém a ordem, limpinha, não é? Assim serena, mas

de uma forma rígida, não. As professoras sentavam-se ao lado dos

alunos, tratavam-se por tu, não havia muito ‘oh, professora’, era ‘oh,

Clara’, não é? […] Portanto, tem sido, apesar das condições todas que a

escola estava a viver, de crise, a crise, não senti aquela crise, porque eu

ainda estava, para mim era tudo novo e até estava a ser bom para mim,

uma experiência óptima.

 

Clara atuou junto com Isabel durante dois anos, com os “meninos

da primeira vez”,4 sentiu muita ansiedade frente ao processo de alfabetização: “Eles não vão aprender a ler assim”. Teve muitas dúvidas, mas foi crescendo, aprendendo, perguntando, lendo, procurando, questionando, ouvindo muito caladinha para aprender, bebendo: “Ainda estou a aprender muito, ainda tenho muito para aprender”. Nesse processo de “iniciação”, as imagens de sua experiência na escola primária vieram como contraponto:

 

Como aluna nunca imaginava que a minha professora ia sentar ao meu

lado a ler comigo, nunca leu, a leitura era ela a ler na secretária e eu ali e

ai de mim que eu, às vezes, até gaguejava, porque tinha medo e tremia

[...] nunca tal me passou pela cabeça, portanto tudo aquilo que eu tinha,

eu fui desconstruindo [...].

 

A escola passava por uma reestruturação e por um processo de

afirmação social de uma prática educativa que se desejava instituinte e, ao mesmo tempo, Clara foi consolidando sua forma de ser e de estar na docência, passou a trabalhar com outro grupo de alunos, especialmente com a área de língua portuguesa. Como professora, procura uma relação próxima e brincalhona com os alunos: “Estar e brincar com eles, estar ao lado deles”; respeitar o ritmo e a herança das crianças, ajudar as que mais precisam, dar atenção especial a cada aluno, contribuindo para que sejam felizes e gostem de aprender. Sua paixão pela arte foi incorporada à sua prática pedagógica, na articulação de todas as áreas, por meio da música, do desenho, da cor. São grandes a responsabilidade do professor de 1º ciclo e a intensidade do trabalho, há muitas correções que precisam ser feitas fora do horário escolar.

Ao longo de seu caminho na docência, teve o apoio de colegas

com quem partilhou e aprendeu. Na escola particular, recebeu sempre apoio e, na escola em que foi trabalhar, a proximidade de Isabel e o acompanhamento de seu trabalho foram inspiradores, especialmente sua forma de brincar com as crianças e incentivar cada um no encontro de seu próprio caminho. A busca de compreender os alicerces da prática pedagógica da escola em que trabalhava a levou a um intenso processo de autoformação: “Também incidi muito tempo de estudo só para perceber como é que esta escola funciona, [...] perceber quem é o Freinet, quem é o Paulo Freire, quem é o Dewey, quem é, onde está aqui nessa prática, a importância de um plano do dia, de um plano da quinzena, da autocorrecção”. Investiu muito tempo para perceber os vários métodos de leitura e escrita: “Quando uma criança não consegue atingir com determinado método, vamos tentar outro, porque todos os métodos são bons, desde que resultem, são bons [...], portanto, esta escola exigiu que eu estudasse os vários métodos de iniciação à leitura e à escrita”. Quanto à formação contínua, procura todos os anos fazer ações para se atualizar, ligadas à prática e aos desafios que encontra na sala de aula.

 

A teoria é fundamental, sem dúvida, eu dou importância à teoria, mas uma

teoria em que se ponha em prática, não uma teoria que não me diga nada

para pôr em prática, uma teoria está aliada à prática, uma prática está

ligada à teoria, portanto, a prática constrói a teoria também, portanto, as

duas coisas não estão separadas [...]

 

*****

 

Da vida de Clara, pulsa a formação. Em um movimento sereno e

sossegado, tal como o clima de sua aldeia, somos conduzidos pela narrativa ao encontro de uma menina estudiosa, uma adolescente leitora e uma jovem professora pesquisadora, em uma diversidade de experiências guiadas pelo encantamento e pela curiosidade.

Na infância, a afetividade e a intensidade do ambiente familiar

formador contrapõem-se ao rigor, ao conservadorismo e à frieza das práticas da escola primária, com a força e o sentido da interdição da aprendizagem, transformada em obrigação e castigo. Entretanto, a história de leitoras da família, passando por bisavó, avó, mãe e irmã, inicialmente sufocada pela escolarização, manifesta sua presença e, no final da infância, Clara se vê fisgada pela leitura. De um processo de formação morno e morto, a adolescência vai conduzindo à descoberta do prazer da aprendizagem: a história da arte e a literatura como paixões, tardes na biblioteca a devorar livros! Em seu caminho de formação, encontramos uma irmã educadora, é com ela que aprende a leitura e a escrita, o gosto pela arte e o incentivo no percurso como leitora. A separação, quando a irmã se muda para estudar, é sofrida, mas constitui um importante momento de autonomização de seu percurso de formação, Clara fortalece sua forma de ser e estar como pessoa, estudante, mas, sobretudo, como aprendiz.

A interdição de uma escolha profissional traz um sentimento novo:

a frustração, o não alcançar um objetivo almejado, gera tristeza e decepção; indica, contudo, uma aprendizagem importante – os planejamentos nos escapam, é preciso estar sempre pronto para reorganizar projetos de futuro. É no movimento de reorganização que Clara se encontra com a docência de 1º ciclo, reafirmando, contudo, que nunca gostaria de ser como sua professora primária.

Apesar de desejar construir sua prática educativa em outras

bases, a força da referência sobre a docência sinalizava o distanciamento entre professor e aluno e, nesse momento, é uma aluna educadora que, no contexto do estágio, rompe as barreiras, mostrando que ensinar e aprender exigem proximidade e “amorosidade”. Clara deixa sempre a porta aberta para alguém entrar e ensinar-lhe, a aluna educadora conduziu o encontro com a imagem que buscava e é essa imagem que procura traduzir em prática docente.

No caminho da docência, uma escola educadora, com colegas

educadores e alunos educadores, na qual se partilha a construção de uma prática educativa comum. Ali, também movida pelo encantamento e pela curiosidade, tem construído um caminho de autoformação partilhada. Toda sua trajetória se desenrola no ambiente de aldeia, em contato direto com a natureza, a relação de cordialidade e partilha com a vizinha. Esteve em outra cidade apenas durante quatro anos, para a realização da licenciatura.