Histórias de vida e formação de professores
Histórias de professoras: tessituras da intriga
O casamento, a mudança de cidade e a espera pelo nascimento
da filha trazem, entretanto, uma renovação da esperança e de expectativas de futuro sobre a vida e a profissão.
Os contextos geográficos têm, na trajetória de Simone, a
importância de marcos, de referências para os ciclos da vida. Até os 23 anos, vive em sua cidade natal; ali, desfrutava tempos de recolhimento, mas também de felicidade, tendo como cenário a cidade pequena, serrana e fria. A mudança para o Rio de Janeiro consagra sua afirmação pessoal e profissional e traz um intenso processo formador. Ela se identifica com a cidade. Com o casamento, vivencia uma nova mudança de cidade, instaurando um ciclo de intensa afetividade e esperança, envolvendo agora o marido e a filha.
A narrativa de Simone aponta a confluência de fatores que
caracterizam sua formação. A opção pela docência constitui um acontecimento central, muda sua relação com a escola e com o próprio processo formativo. A partir daí, a formação acadêmica por meio do curso normal, da graduação em pedagogia, da pós-graduação, articulada aos movimentos inquietantes da prática educativa, indica o sentido de seus projetos de futuro. Formação acadêmica e prática docente aliam-se a uma busca constante de construção do conhecimento que se dá pela pesquisa e pela experimentação.
Histórias de professoras: tessituras
da intriga
Percorremos um longo caminho. Inicialmente, recontamos a
história, entrelaçando a voz das professoras e da investigadora; depois, trouxemos elementos de análise sobre os sentidos da trajetória da vida e da formação, que, no último encontro, foram partilhados com cada uma delas. As narrativas nos proporcionam um mergulho, uma viagem em diferentes universos sociais, históricos e culturais, em uma confluência de pessoas, lugares, acontecimentos, sentimentos – experiências que mediatizam o coletivo ao mais pessoal e o pessoal às tramas coletivas.
As vozes das professoras, suas histórias, recontadas na narrativa
oral, reconstruídas em texto, compõem uma “tessitura de intrigas”, na acepção de Ricoeur (1994). Os acontecimentos e experiências não se sucedem de forma aleatória, mas se articulam em uma trama de sentidos que se abrem a polifônicas possibilidades interpretativas para o próprio narrador, para quem reconstrói, por escrito, a história narrada e para quem lê.
Então, encontramos nas narrativas a tríplice mimese (Ricoeur,
1994), pois passam pela ação humana, por sua recriação narrativa e pela reconstrução que se dá na leitura. A compreensão da ação nos coloca frente ao universo social, cultural e histórico em que se encontram as intrigas, em um diálogo entre Brasil e Portugal, zonas urbanas e rurais, dando visibilidade a diferentes formas de ensinar e aprender, percorrendo, em lampejos, um espectro temporal que vai do início do século XX, com as histórias das avós, aos dias atuais. Em cada intriga, explicação e compreensão se entrelaçam, pois dialeticamente somos levados à análise e à síntese, ao detalhe e à composição de uma ampla configuração, à “síntese do heterogêneo” (Ricoeur, 1994), um simbolismo presente na ação que precisa ser desvendado, que permite a inteligibilidade das dinâmicas particulares.
A tessitura apresenta uma dimensão cronológica pela referência a
acontecimentos que se passam em diferentes fases da vida, na infância, na adolescência/juventude e na vida adulta, mas abre-se de forma não linear quando focalizamos os acontecimentos biográficos centrais da trajetória de vida e formação das narradoras, num movimento “configurante dos incidentes da história” (Ricoeur, 1994).
Na intensidade do “encontro de horizontes” (Azzan, 1993, pp. 18,
22), buscamos o diálogo de configurações e sentidos. É o leitor que deve recriar as referências do próprio texto. Logo, cada história é um convite a novas histórias, interpretações e aprendizagens. Aprendemos quando ouvimos o outro. As histórias de vida de professoras nos ensinam, elas falam por si, como “metáforas vivas”, produzem um “excesso” de significados (Ricouer, 1996).