Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 41 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Encontro com as professoras: a diversidade de movimentos narrativos

Senti grande prazer em escrever as biografias educativas das professoras;

para mim, é o que de mais especial a pesquisa vai conter. Me emocionei

relendo e reescrevendo as histórias e a experiência de memória e

formação que vivemos juntas durante as entrevistas. Coloquei muitos

trechos com a fala das professoras, são os seus sotaques, suas emoções

que dão sentido e beleza à narrativa, uma narrativa que se fez a duas

mãos, mas que se abre aos que quiserem ler e retecer as histórias

contadas. No contar, as histórias foram recriadas, como também foram

agora na tessitura do texto escrito. Me senti como tecelã, buscando nas

transcrições, no esquema temático-cronológico, os fios que foram a pouco

e pouco se articulando e compondo um mosaico multicolorido, cores

cinzentas, cores alegres, indicando apenas uma dentre tantas

possibilidades de leitura e interpretação (23 set. 2007).

 

Encontro com as professoras: a

 

diversidade de movimentos narrativos

 

Tomamos as anotações do livro da vida como fonte de análise da

particularidade e dos indícios que vêm dos movimentos da memória e da narração, reflexões sobre o processo narrativo de cada professora. Então, buscamos favorecer a emergência de anotações produzidas logo após o momento de realização das entrevistas e que oportunizam a entrada no contexto da experiência narrativa, assim como ressaltam questões que surgiram ao longo do percurso e que nos permitiram significativas aprendizagens relativas ao próprio aporte (auto)biográfico. São essas aprendizagens que procuramos analisar neste item.

Na reflexão sobre o processo, podemos identificar aproximações

dos movimentos da memória e a narrativa no encontro com cada professora. Observamos esses movimentos tanto no próprio momento da entrevista quanto depois, na transcrição e na análise; no primeiro, observamos a força e a pulsão que envolvem a vida e sua expressão por meio da narrativa e, no segundo, a tentativa de compreender o entrelaçamento de diferentes fios que se articulam de forma complexa e não linear. No conjunto dessa reflexão, percebemos que há um fluxo narrativo que é peculiar a cada professora e que traz indícios de seu envolvimento não só com a investigação, mas também com sua forma de ser e de estar no mundo; são diferentes os recursos da memória para trazer acontecimentos, pessoas, lugares que marcaram a trajetória, dando uma forma, reconstruindo uma história articulada e que tenha sentido, sendo, de fato, reorganizada pelo narrador. É como tomar a vida para ressignificá-la, de forma inteligível, no contexto presente.

Observamos que algumas professoras desenvolveram uma

narrativa tranquila, serena, e se deixaram conduzir por temas e questões introduzidas pela investigadora. Em outros casos, o fluxo narrativo foi dado pelas próprias professoras. A partir dos objetos levados ou por meio da eleição de um acontecimento biográfico, iniciaram a narrativa, percorrendo suas trajetórias de vida e formação. Algumas levaram concretamente seus objetos significativos, outras simbolicamente, ou seja, narraram quais objetos levariam, caso tivessem oportunidade. Nas duas situações, percebemos que esse foi um recurso que enriqueceu a narrativa, contribuindo no sentido da ruptura cronológica e fazendo emergir acontecimentos biográficos que, em alguns casos, traziam um fio condutor ou uma possibilidade de leitura da história de vida, tais como: a fotografia de sua turma, no caso de Ana; os cadernos do ensino primário de Teresa; a “cana da professora” de Isabel; as fotografias e o broche da avó de Hélida; a “cesta de memórias” de Rute; e o cubo de Simone.

A singularidade dos movimentos narrativos também nos permitiu

perceber que, em diferentes momentos, cada uma, espontaneamente, foi falando sobre sua forma de ser e de estar no mundo como pessoa e professora, sentidos atribuídos à identidade pessoal e docente. É interessante ainda observar que cada professora estabeleceu, internamente, certo limite possível de doação ou de expressão de sua narrativa, e foi a intensidade dessa expressão que nos permitiu a profundidade e os elementos da análise.

Podemos afirmar que houve um efetivo envolvimento e um

compromisso de todas as professoras participantes, mas estes se deram de forma naturalmente peculiar para cada uma. Enquanto percebemos o envolvimento imediato de algumas, outras foram construindo a relação com a pesquisa gradativamente ao longo do processo, em cada um dos encontros. Observamos que, se, por um lado, a possibilidade do envolvimento das professoras com a investigação relaciona-se, nomeadamente, à compreensão do sentido da investigação e de sua própria participação, ou seja, quanto mais clara a natureza do trabalho proposto, maior o envolvimento; por outro, de maneira geral, o conhecimento prévio, ou mesmo uma relação anterior estabelecida entre a investigadora e a professora, parece que veio favorecer essa dinâmica. Entretanto, em vários casos, o relacionamento foi estabelecido em função da pesquisa, e houve, de forma imediata ou gradativa, um intenso envolvimento com a investigação.

Mas o que chamamos efetivamente de envolvimento, já que este

é um conceito essencialmente subjetivo? Consideramos envolvimento a possibilidade de que a participação no processo de investigação-formação não se coloque para a professora como um compromisso a cumprir, mas que se traduza em experiência, reflexão e, potencialmente, formação. Olhando nessa perspectiva, podemos afirmar que pelas narrativas orais das professoras, especialmente no momento de avaliação da investigação, realizada no terceiro encontro, e pelas narrativas escritas e posteriormente encaminhadas, a investigação constituiu um momento significativo e que, de alguma forma e em diferentes medidas, “tocou” não só as professoras participantes, mas também a investigadora.

Para concluir este momento de análise dos indícios da memória e

da narração presentes na experiência vivida com as professoras, trazemos uma das dimensões fundamentais de nosso estudo: a especificidade formadora do aporte (auto)biográfico. Em que medida uma metodologia centrada em entrevistas biográficas pode produzir uma dialética entre conhecimento e formação? Observamos que a dinâmica narrativo-reflexiva envolveu tanto as professoras como a investigadora, em caminhos que se foram abrindo aos poucos, afirmando a professora-investigadora como narradora e a professora-narradora como investigadora.

A dimensão narrativa colocou-se para as professoras pela partilha

da história de vida e para a investigadora que, como acompanhante, interagiu com cada professora, com cada história partilhada, vivendo junto um processo de reconstrução, ressignificação. Nesse sentido, a presença da investigadora não é isenta; marca, entretanto, o lugar de alguém que traz encaminhamentos e questões e que influencia o desenrolar narrativo, participando de uma construção dialógica. Instaurou-se, em cada encontro, uma dialética entre os momentos formais e informais: no tempo formal da entrevista, marcado especialmente pela presença do gravador, percebemos a busca de uma circularidade dialética entre escuta sensível e o falar em tempo oportuno; e nos momentos informais do café ou nas conversas antes e após as gravações, a interação entre nossas histórias e, em muitos instantes, a narrativa da investigadora sobre lampejos de sua trajetória de vida e formação, bem como travessias da docência nos anos iniciais do ensino fundamental. Assim, professoras e investigadoras assumiram, em diferentes intensidades e dinâmicas, o lugar de narradoras, reafirmando o sentido de uma narrativa aberta, dialógica e partilhada que reconstrói histórias, sentidos e interpretações. Dessa forma, a reflexão articula-se, indissociavelmente, à narrativa. Vivenciamos momentos importantes de reflexão sobre a trajetória de vida, que ultrapassam os encontros realizados, porque proporcionam a incorporação, por parte das professoras, das reflexões pessoais tecidas antes e depois de cada entrevista, a leitura/revisão das transcrições e a avaliação escrita e, ainda, por parte da investigadora, das reflexões ao longo do processo, da escrita do livro da vida, das horas dedicadas às transcrições e análises. Nessa dinâmica narrativo-reflexiva circularmente virtuosa, encontramos o potencial formativo da tematização temporal e partilhada da vida; potencial porque uma formação que, se pode ser percebida por indícios e sinais, não pode e não se deseja “medida” ou “quantificada”.

Em algumas professoras, percebemos e apreendemos nos

gestos, na intensidade narrativa, em suas vozes traduzidas nas transcrições e, posteriormente, nos textos escritos, a importância do momento narrativo-reflexivo na reelaboração de suas histórias, de suas imagens, o que indicou um processo potencialmente formador. Algumas dedicaram especial tempo ao preparo de sua participação na investigação-formação, na cuidadosa seleção do objeto significativo, na elaboração escrita de textos, como fez Carolina, ou até na retomada narrativa de suas “crônicas”, como fez Hélida. Movimentos que indicam uma reflexão que vai transbordando do espaço-tempo formal da pesquisa. Também o terceiro encontro, com todas as professoras, colocou-se como marco de um processo formativo partilhado, em que intercambiamos pontos de vista, em uma reconstrução conjunta da narrativa, de seus múltiplos fios e marcos.