Histórias de vida e formação de professores
Alguns conceitos
Munõz (1992, p. 13) assinala a pluralidade terminológica que
envolve o uso do método biográfico, em função de diferentes tradições acadêmicas e nacionais. Essa pluralidade traz dificuldades na definição conceitual, e, por isso, o autor propõe uma sistematização com base no que considera um consenso nesse campo.
Biografia e autobiografia são os termos mais utilizados e vêm de
uma matriz literária, gêneros utilizados desde a antiguidade clássica.
Des récits écrits par l’individu concerné lui-même (ce qui exclut les
biographies), présentés comme directement référentiels (ce qui exclut les
romans) et portant sur une vie entière ou sur l’essentiel d’une vie (ce qui
exclut à la fois les souvenirs d´enfance, les récits détachés d’épisodes de
la vie adulte et les journaux intimes) (Lejeune, 1986, apud Pineau e Le
Grand, 1993, p. 31).
[…] a autobiografia é a narração retrospectiva em prosa que uma pessoa
real faz da sua própria vida, quando põe a tônica na sua vida individual e,
em particular, na história da sua personalidade (Lejeune, 2003, p. 37).
Essas definições nos ajudam a demarcar aspectos importantes. A
autobiografia é uma produção escrita do próprio sujeito sobre si e tem como referência sua trajetória existencial, enfocando a vida de forma ampla; ou seja, ela não aborda fragmentos, mas busca a expressão da totalidade ou o essencial da vida. Referindo-se às histórias de vida, Josso (2002a, p. 20) também defende que uma especificidade dessa abordagem é a busca de enfoque sobre a
globalidade de vida, e não sobre determinados aspecto. 11 Essa perspectiva também é assumida por Araújo e Magalhães, que definem a história de vida como “narrativa solicitada a uma pessoa por quem pretende recolher as suas memórias de experiências, percursos e as subjectividades, abrangendo o período da sua vida desde os primeiros tempos até o momento em que decorrem os encontros” (2000, p. 13), reforçando, dessa forma, o carácter global das histórias de vida.
A biografia traz a presença do outro que recolhe informações e
registra uma trajetória de vida, também na busca de globalidade. Tanto a autobiografia como a biografia focalizam a história individual. Entretanto, em uma perspectiva dialética, compreende-se que o individual está posto num processo coletivo de constituição. Nesse sentido, a narrativa é sempre plural e deve buscar a intensidade das mediações sociais e contextuais que dão sentido à trajetória estudada.
Araújo e Magalhães analisam as complexas relações entre a
história de vida escrita com a participação do/a investigador/a (biografia) e a autobiografia. Se há uma perspectiva metodológica nitidamente diferenciada, as fronteiras são porosas, pois “a margem de autonomia da pessoa biografada é grande e que lhe compete seleccionar os acontecimentos e dar relevo às experiências que pode ou quer transmitir” (2000, p. 13). A presença do/a investigador/a não deve bloquear a emergência da subjetividade do entrevistado. Nesse sentido, a história de vida assume os contornos de um intenso diálogo.
As reflexões sobre os conceitos de autobiografia e biografia, a
partir da matriz do campo literário, trazem, dessa forma, indícios importantes para a constituição do método (auto)biográfico no campo das ciências sociais, nomeadamente na educação e na formação de professores/as.
Retornando a Muñoz (1992), encontramos uma sistematização de
conceitos no campo das ciências sociais para as quais se considera, como marco, a publicação da obra The polish peasant, de Thomas e Znaniecki, em 1920, em que se emprega o termo “life history” para
describir tanto la narrativa vital de una persona recogida por un
investigador, como la versión final elaborada a partir de dicha narrativa,
más el conjunto de registros documentales y entrevistas a personas del
entorno social del sujeto biografiado, que permiten completar y validar el
texto biográfico inicial (Munõz, 1992, p. 13).
O termo “life story” foi introduzido posteriormente para referir-se à
“narración biográfica de un sujeto que, a veces, puede ser publicada sin retocar, con fines de proporcionar una mayor fuerza testimonial, conservando incluso las propias peculiaridades lingüísticas de la persona” (Munõz, 1992, p. 13).
A partir desses conceitos, percebe-se que o termo “life story”
(“récit de vie”, em francês) corresponde à “história de uma vida” tal como contada pelo próprio sujeito; já a “life history” (“histoire de vie”, em francês) compreende o trabalho do investigador sobre a história contada pelo sujeito, bem como a introdução de outros documentos complementares (Munõz, 1992, p. 13).
Segundo Bertaux, o termo “récit de vie” foi introduzido na França
mais recentemente e indica uma narrativa que resulta de uma entrevista, na qual o pesquisador solicita que o entrevistado narre toda ou parte de suas experiências de vida:
La conception que nous proposons consiste à considérer qu’il y a du récit
de vie dès lors qu’un sujet raconte à une personne, chercheur ou pas, un
épisode quelconque de son expérience vécue. Le verbe ‘raconter’ (faire le
récit de) est ici essentiel: il signifie que la production discursive du sujet a
pris la forme narrative (1997, p. 32).
O autor sublinha a diferença ente autobiografia e narrativa de
vida: a primeira é um trabalho do sujeito feito a partir de uma narrativa escrita e autorreflexiva, priorizando um olhar sobre a globalidade da vida; a segunda assume a forma oral e é fundada no diálogo entre o investigador e o sujeito, focalizando as experiências por meio de um “filtro” (Bertaux, 1997, p. 34). O conceito de “filtro” é interessante no sentido de indicar que efetivamente a narrativa de vida prioriza o trabalho com os fragmentos da vida, que são orientados em função do objeto de estudo em foco e dos movimentos da memória daquele que reconta sua vida.
Bertaux busca estabelecer uma diferença entre a “história real de
uma vida e a narrativa que é feita em circunstâncias dadas”. Coloca-se contra uma abordagem “textualista”, que vê a história de uma pessoa como uma realidade discursiva, afirmando a defesa de uma visão “realista”, para a qual a história de uma pessoa parte de uma realidade que é condição prévia à forma como conta essa história. Afirma, assim, que, partindo de vários testemunhos, pode-se chegar à realidade do contexto sociológico, independentemente das singularidades (1997, pp. 32-3).
Esse autor destaca três funções das “narrativas de vida” (1997, p.
46) no contexto da investigação: a função exploratória, quando o pesquisador não tem familiaridade com o tema, e as narrativas constituem uma etapa inicial de recolha de dados; a função analítica, que constitui o processo de recolha e análise das entrevistas e de outras fontes; e a função expressiva, quando ocorre a publicação integral da narrativa, destacando-se a função de comunicação.
A preocupação com a ênfase no contexto e com a validação do
trabalho biográfico engendrou uma perspectiva etnobiográfica, na qual a biografia constitui apenas uma das etapas do processo de investigação, sendo complementada por um conjunto de outros procedimentos. “O narrador não é um sujeito isolado, faz parte de vários grupos, de uma sociedade e de uma cultura precisas. É preciso que todas essas dimensões sejam restituídas” (Poirier et al., 1999, p. 38).
Poirier et al. (1999, pp. 38-41) analisam a etonobiografia como
uma modalidade de trabalho no campo metodológico, afirmando que seu ponto de partida consiste na perspectiva de que as histórias de vida não constituem um produto acabado, mas o ponto de partida de um conjunto de outros procedimentos metodológicos que vêm no sentido de complementar a investigação. O narrador faz parte de vários grupos, de uma sociedade, de uma cultura; a etnobiografia procura reconstituir essas mediações. Busca, desse modo, uma perspectiva global que envolve uma história de vida: contextualizada do ponto de vista sociocultural; analisada criticamente pelo narrador; colocada em debate pelos membros do grupo; e “confirmada pelos procedimentos clássicos do inquérito etnográfico”, ou seja, pela realização de outras técnicas de investigação que viriam complementar a pesquisa. Muñoz destaca o conceito de “biograma” de Abel (1947, apud Muñoz, 1992, p. 14), “que es usado com bastante frecuencia para referirse a los registros biográficos de carácter más sucinto y que suponen la recopilación de una amplia muestra de biografías personales, a efectos comparativos […]”.
Junto a essas narrativas, o investigador utiliza um conjunto de documentos pessoais e informações que complementam o relato de vida.
Retomando a sistematização efetuada neste item, observamos
uma pluralidade de expressões e ênfases que indicam a polifonia e a riqueza de possibilidades metodológicas do enfoque que, tomando sua origem fundacional na antiguidade, talvez possa ser chamado, de forma mais genérica, de (auto) biográfico. Encontramos, nomeadamente, as expressões história de vida, narrativa de vida, etnobiografia e história oral. Observamos, em cada uma delas, o foco em diferentes campos do conhecimento, sendo as três primeiras mais comuns no âmbito sociológico e a última referida mais especificamente ao campo historiográfico. Notamos também, na variação das expressões, ênfases diferenciadas no processo metodológico de desenvolvimento das abordagens de investigação: na história de vida, percebemos foco na temporalidade; na narrativa de vida, ênfase na expressividade, na necessidade de visibilidade, de comunicação da vida no processo de investigação, por meio do trabalho com relatos orais e/ou escritos; na etnobiografia, o olhar dirige-se para as múltiplas formas de apreender o contexto estudado; e, na história oral, o foco centra-se essencialmente no depoimento oral como fonte da investigação histórica.
Na presente investigação, tomamos como referência o termo
história de vida, pela articulação proposta entre vida e historicidade. O foco recai, então, na temporalidade como dimensão fundamental dessa abordagem, abrindo a possibilidade de trabalho com diferentes recursos, como narrativas orais e escritas, documentos pessoais, enfim, o que possa constituir apoio material e simbólico à expressão e à busca de sentido para a vida nas tramas do tempo. A expressão da vida como movimento ontológico traz necessariamente sua dimensão histórica manifesta num caminho de construção não previsível.
Na análise de diferentes modalidades de histórias de vida, Pineau
e Le Grand destacam categorias que podem favorecer nossa análise: as mídias, os atores/autores, o objeto a exprimir – a vida –, os objetivos a seguir e a temporalidade (1993, p. 34). As histórias de vida são construídas tendo um suporte do ponto de vista material, passando, inicialmente, pelas narrativas orais, pela escrita e, na contemporaneidade, pela profusão de recursos tecnológicos que se afirmam como memória externa. As histórias de vida contam sempre com seus atores, os que trazem a vida para a narrativa, e aqueles que se colocam como autores, que podem ser os próprios sujeitos, no caso da autobiografia, ou sujeitos externos que fazem o registro pelos atores, no caso das biografias. O objeto a exprimir é a própria vida, em suas tramas e caminhos; os objetivos a perseguir são diferenciados, de acordo com os atores e autores; e o recurso da temporalidade se apresenta a partir de diferentes concepções sobre o tempo e sua dinâmica. O tempo pode ser visto como linear, estático e cronológico, com um olhar preso ao passado, ou não linear, trazendo a densidade de mediações do presente.