Histórias de vida e formação de professores
Diversidade metodológica
As histórias de vida, tanto no campo histórico como sociológico,
assumem múltiplos desdobramentos conceituais, constituindo formas metodológicas também diferenciadas, algumas das quais apresentaremos, em forma de síntese, no item a seguir.
Diversidade metodológica12
Para situar a diversidade metodológica, encontramos em Pineau e
Le Grand (1993) uma interessante possibilidade de sistematização. Inspirando-se em Maurice Catani, os autores destacam algumas vertentes de trabalho com as histórias de vida: instrução biográfica – inquérito por meio de questionário; narrativa de práticas – focaliza um aspecto relativo a uma prática social da vida de um grupo de pessoas; entrevista biográfica – trabalho sobre uma ampla dimensão da vida, enfocando diferentes fases, em que a narrativa do entrevistado é reorganizada pelo investigador; história da vida social aprofundada – conjunto de entrevistas, nas quais o investigador estabelece uma relação profunda com o entrevistado, que participa de forma intensa de todas as etapas do trabalho; autobiografia – escrita da totalidade ou da parte da trajetória de vida pela própria pessoa; e história de vida de grupo – biografias cruzadas em que os sujeitos são associados, em diferentes intensidades, à pesquisa (ainda nessa categoria, coloca-se o trabalho com um grupo de formação no qual os participantes narram suas histórias na presença dos outros, resultando numa narrativa escrita individual ou colectiva) (Pineau e Le Grand, 1993, p. 112).
Muñoz (1992, pp. 49-55) indica a possibilidade de trabalho com o
“caso único”, visando aprofundar o estudo de determinado tema, ou de “relatos biográficos múltiplos” (relatos paralelos ou cruzados). Aqui é importante fazer referência às relações entre a abordagem (auto)biográfica e a perspectiva do estudo de caso. Segundo Sarmento, ainda que o estudo de caso apresente sua origem em estudos qualitativos e etnográficos ligados à escola antropológica de Chicago, observamos uma grande plasticidade sendo utilizada por diferentes matrizes teóricas e metodológicas:
O estudo de caso pode definir-se como ‘o exame de um fenómeno
específico, tal como um programa, um acontecimento, uma pessoa, um
processo, uma instituição, ou um grupo social’ (Merriam, 1998, p. 9); ou,
então, como ‘uma investigação empírica que investiga um fenómeno
contemporâneo dentro do seu contexto real de vida, especialmente
quando as fronteiras entre fenómeno e o contexto não são absolutamente
evidentes’ (YIN, 1994, p. 13) (2003, p. 137).
Nesses conceitos, destaca-se como aspecto comum a “natureza
singular do objecto de incidência da investigação”, situando-se em uma “unidade” ou “sistema integrado” (Sarmento, 2003, p. 137). Com base nessa reflexão, podemos questionar se os estudos biográficos são estudos de caso. Entendemos que nem todo estudo de caso tem natureza (auto)biográfica, mas toda pesquisa (auto)biográfica consiste em estudo de caso, pela particularidade e singularidade de trajetórias, podendo incluir as mais variadas modalidades, desde o estudo de caso único até os estudos de casos múltiplos.
No contexto específico das histórias de vida em grupo e
focalizando a pesquisa-formação, Josso (2002a, pp. 15-20) sinaliza o desdobramento de duas vertentes: as histórias de vida como busca da compreensão biográfica da formação, por meio de um trabalho que coloca ênfase nos momentos da vida que se constituíram em efetivas experiências de formação, priorizando-se uma narrativa global da vida; e a colocação de abordagens biográficas no sentido do desenvolvimento de projetos específicos de formação, por meio de uma perspectiva experiencial e/ou
tematizada. 13
Encontramos, na síntese dos autores citados, uma variedade de
possibilidades da investigação com o aporte das histórias de vida, um caminho metodológico que vai de uma perspectiva de trabalho com dados biográficos tratados de forma mais quantitativa, no caso das enquetes, ao tratamento mais qualitativo, no caso dos grupos de pesquisa-formação; de uma abordagem individual a uma abordagem coletiva; de uma narrativa direta – no caso da autobiografia, ou seja, sem a interferência do investigador – à presença do investigador como um dos sujeitos da pesquisa; da possibilidade de trabalho com a amplitude de diferentes fases da vida ao trabalho com fragmentos; de um controle direto do investigador, por meio de um questionário fechado, a uma atuação mais livre e tematizada pelos participantes.
É importante ainda incluir como possibilidade metodológica a
contribuição dos “documentos pessoais”. Além dos desdobramentos possíveis, como mencionamos, Plummer (1989, pp. 15-38) traz uma contribuição na sistematização de documentos que podem complementar e, em certos casos, constituir o recurso básico de uma pesquisa fundada no aporte (auto)biográfico. Há uma diversidade de documentos, e o autor observa diferentes usos dos mesmos nas ciências sociais, tendo como busca fundamental a subjetividade dos participantes. Dentre os documentos citados por ele, destacamos o diário, as cartas, a literatura baseada em fatos, as fotografias, os vídeos; enfim, são documentos que constituem a memória material dos sujeitos, que falam por meio de diferentes linguagens da vida e de seus movimentos.
A essa pluralidade metodológica, acrescenta-se a diversidade
também na forma de tratamento dos dados e a dinâmica de sua interpretação. Poirier et al. (1999, p. 15) destacam investigações que realizam a reprodução integral das narrativas e outras que propõem sua reconstrução pelo investigador. Quanto à interpretação, Pineau e Le Grand (1993, p. 100) indicam três modelos: o biográfico – a interpretação é feita de forma prioritária pelo investigador; o autobiográfico – no outro extremo, coloca a interpretação na responsabilidade exclusiva do próprio narrador; e o dialógico – assentado na partilha, na qual narrador e investigador se colocam a responsabilidade sobre a análise e a interpretação.
Colocamo-nos, então, frente a uma ampla diversidade de
caminhos trilhados pelas ciências humanas, encontrando diferenciações marcadas na concepção de pesquisa, no processo de seu desenvolvimento e na análise dos dados. Nesse sentido, compreendemos que as matrizes conceituais, o campo disciplinar ao qual está filiado o pesquisador e a problemática focalizada constituem elementos definidores do desdobramento metodológico e da perspectiva interpretativa adotada. No capítulo seguinte, focalizaremos o caminho dessa perspectiva teórico-metodológica no campo educativo e, especialmente, na formação de professores.