Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 28 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

O livro da vida

A importância atribuída aos arquivos pessoais foi tornando-se

cada vez mais presente; de maneira intuitiva, algo falava da importância desses registros. O ingresso como professora

universitária,4 a atuação específica no campo da formação de professores/as e a participação em projetos institucionais de

investigação 5 contribuíram para adensar os estudos nesse campo e buscar fundamentação em uma metodologia com aporte específico nas histórias de vida de professores/as. No desenvolvimento dos

Núcleos de Memória, do Vozes da Educação, 6 nas oficinas da UERJ sem Muros e no cotidiano das aulas de filosofia da educação e prática de ensino, o recurso à análise da trajetória das experiências da vida foi reforçando a importância desse caminho como possibilidade de formação.

Dessa forma, a continuidade dos trabalhos de investigação,

realizados após a dissertação de mestrado, trouxe o adensamento teórico-metodológico e a aproximação das “histórias de vida”. Contudo, em abordagens que, segundo a análise de Josso (2002a), são pertinentes a uma perspectiva de “projetos”, pois em nenhuma das experiências anteriormente referidas houve um trabalho centrado na globalidade temporal. O caminho percorrido foi, então, a pouco e pouco, abrindo novas possibilidades e constituindo projetos de futuro que assumem contorno na presente investigação.

 

O livro da vida

 

Há uma semana, mais ou menos, iniciei a releitura do livro da vida com o

objetivo de perceber os caminhos percorridos pela pesquisa,

especialmente o registro do encontro com as professoras portuguesas e

brasileiras nas entrevistas biográficas. O livro traz a tessitura da pesquisa,

seu ir e vir e preciso retomá-lo para, por um lado, dizer sobre o

desenvolvimento do trabalho; por outro, para compreender, de forma mais

clara, o papel do próprio livro na pesquisa. Nesse reencontro, ao voltar aos

primeiros escritos, não posso negar uma sensação estranha: é como se a

Inês de hoje olhasse a Inês de três anos atrás e, nesse olhar, se

percebesse diferente. Retomo também as primeiras dúvidas e questões,

os primeiros encaminhamentos dados à pesquisa e posso observar como

foram sendo reconstruídos. Um importante espaço é dedicado à reflexão

sobre os caminhos metodológicos, além de contemplar questionamentos

sobre o trabalho, reflexões sobre leituras e suas relações com a pesquisa.

Identifico dúvidas epistemológicas e teóricas que o desenvolvimento do

trabalho conseguiu superar; minhas reações e aprendizagens frente às

leituras. Percebo sua importância como espaço de reelaboração e

construção dos caminhos da pesquisa. Me emociono, olhando as

experiências, reconstruo alegrias e tristezas. É como se estivesse diante

de uma tela e assistisse a um filme sobre os três últimos anos (27 jul.

2007).

 

O livro da vida coloca-se, assim, como narrativa escrita do

processo de pesquisa, de questionamentos, de reflexões, de autoanálise do sentido da pesquisa em suas interfaces com a vida, em que tramas pessoais e acadêmicas se imbricam. E, logo cedo, vieram dúvidas sobre seu lugar na pesquisa: esse material constituiria um capítulo da tese ou, pelo contrário, deveria ficar restrito à investigadora e oculto na elaboração do trabalho?

 

[…] O livro da vida é o espaço da intimidade pessoal, é revelador da

construção interna da pesquisa, é lugar do ‘eu’ pessoal se colocar nas

crises vividas, na elaboração do pensamento a partir do diálogo com os

outros. […] Não seria, assim, parte integrante do trabalho? Seria menos

científico por vir da experiência pessoal? (25 out. 2005)

 

A continuidade de sua escrita foi, então, possibilitando resposta

para essas indagações.

 

Já pensei no papel desse livro de diferentes formas, ou melhor, ele próprio

foi se colocando e mostrando seu lugar ao longo do desenvolvimento do

trabalho. Se, inicialmente, constituía um material à parte e de âmbito

particular, aos poucos foi mostrando sua centralidade como registro

privilegiado da pesquisa, na explicitação de seus fios condutores (20 fev.

2006).

 

Depois de algumas reflexões, e das orientações do professor

Bravo Nico sobre a forma de preservar o sentido peculiar de seu texto e, ao mesmo tempo, afirmar sua presença, chegamos à dinâmica textual que pôde ser observada ao longo dos capítulos anteriores. O livro da vida não consiste em um texto à parte, pois sua presença perpassa cada etapa do trabalho, acompanhando sua elaboração. Assim, suas reflexões foram inseridas como lampejos ao longo do texto, e a leitura desses lampejos nos projeta para diferentes tempos e espaços de escrita, contextualiza e indica questões e impasses da construção do trabalho.

Neste capítulo, seu papel assume, entretanto, uma natureza

diferenciada, pois o início do trabalho de campo, desenvolvido ao longo do ano de 2006, incorpora ao livro uma nova dimensão, já que passou a abrigar também o papel de caderno de campo – foi nesse mesmo texto que inserimos o relato dos primeiros contatos com as professoras e as trilhas, emoções e aprendizagens de cada encontro. Nesse sentido, trazemos muito de uma escrita tecida ao longo do processo da pesquisa, da forma como foi registrada no livro da vida, e vamos, como na feitura de uma colcha, costurando diferentes retalhos em uma composição que integra uma pluralidade de cores e imagens, aqui traduzidas em histórias, contextos, pessoas, lugares, acontecimentos; enfim, uma “tessitura de intrigas”.

 

Mas agora é preciso dizer que o livro da vida transforma-se em diário de

campo. É nesse mesmo espaço que registro as emoções e angústias da

trajetória portuguesa desse trabalho acadêmico, em que também farei as

anotações que vêm do campo, do contato com diferentes cidades, escolas

e professoras. De fato, a natureza do texto é a mesma e no campo estou

desde que, no dia 6 de setembro de 2004, cheguei a Portugal. A

exploração, o conhecimento e a vivência em um espaço vital, geográfica e

culturalmente diferenciado daquele onde passei todo meu percurso de

vida, deram ao doutoramento um sentido de acontecimento biográfico e

instituiu o trabalho de campo como movimento inerente. Foi preciso

circular de autocarro, metrô e comboio, procurar as bibliotecas e centros

de investigação, esquadrinhar a beleza do centro antigo de Lisboa, dos

azulejos, dos museus, dos marcos históricos. Foi preciso adentrar as

pequenas tramas burocráticas que possibilitaram nossa existência legal:

cartão de utente do Centro de Saúde, cartão do contribuinte, IRS,

matrícula escolar do Caio… Foi preciso conhecer a escola de 1º ciclo em

Portugal, seus professores, a dinâmica da formação inicial e contínua,

participar de diversos congressos; enfim, estar em um intenso campo de

trabalho, estudo e vida. Parece que, se o trabalho de campo já começou

há tempo, hoje, toma ares de nova etapa. Muitas leituras e estudos foram

tecidos, visando à preparação para este momento, para o

desenvolvimento do trabalho biográfico junto às professoras de 1º ciclo (1º

fev. 2006).