Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 55 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Reflexões

A docência em ação, em relação, em mediação é espaço-tempo

de aprendizagem, é construção cotidiana que mobiliza angústias, dores, sofrimentos, mas também alegrias, sentimento de gratificação. Nas narrativas, encontramos ora uns, ora outros, mas, sobretudo, uns e outros, juntos, constituindo sentidos da vida, como luta, como movimento dialético e humanamente experienciados.

 

Reflexões

Neste momento de reflexão, retomamos, em perspectiva, o

entrelaçamento entre diferentes dimensões formadoras tecidas ao longo da história de vida das professoras participantes: experiências e vivências costuram a “tessitura da intriga” do processo formador, que se diz de forma singular e plural. Na narrativa das professoras, quais foram os principais acontecimentos instituintes de formação? Como eles se configuram, em diálogo, nas diferentes trajetórias? O que nos ensinam sobre a tessitura do processo formador?

Observamos que a pesquisa educacional e, consequentemente, a

literatura sobre formação docente têm colocado grande peso na dimensão acadêmica da formação, nomeadamente na formação inicial e contínua, bem como nos processos que se dão no cotidiano da profissão e favorecem a reflexão sobre a prática e os movimentos de autoformação. A trajetória de vida das professoras participantes da presente investigação aponta, contudo, a centralidade de dimensões que ainda carecem de aprofundamento, como a formação pessoal, marcada por influências familiares e contextuais, e a experiência escolar anterior aos cursos formais de preparação profissional para a docência, ou seja, as vivências na “escola primária” e nos ciclos seguintes de escolarização.

Tomando como perspectiva o sentido da vida como espaço-tempo

de formação, observamos que a constituição de imagens e referências sobre a docência e sobre a prática educativa não se concentra em um momento privilegiado, mas se espraia e se entretece, articulando a dimensão pessoal, tecida junto ao núcleo familiar e no contexto das relações sócio-histórico-culturais, e a dimensão acadêmica, que marca sua forte presença desde as primeiras experiências escolares e passa pelos caminhos formais de profissionalização da docência e pela formação contínua e a trajetória profissional, que, por sua natureza, mobiliza e reconstrói saberes, gerando sempre novas formas de ser e de estar.

A análise dialógica entre as trajetórias que procuramos construir

neste capítulo dá visibilidade a esse movimento complexo, em que cada experiência, como fragmento, indica sentidos e leituras que se tornam inteligíveis na composição da “intriga”. Os polifônicos sentidos da formação, na trajetória de vida das professoras, não se expressam, assim, pela particularidade da análise de cada uma das referidas dimensões ou “retalhos”, mas nos indícios da tensa articulação entre elas. Por esse caminho, vamos encontrando pistas da formação docente como “tessitura da intriga”, histórias que se entretecem na memória e se refazem no processo narrativo, indicando a poesia da vida humana em sua abertura a sempre novos e, potencialmente, instituintes projetos de futuro.