Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 47 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Diálogos

 

Diferentes configurações da trajetória de vida e

 

formação

 

Quando observamos a trajetória de vida e formação de cada

professora, encontramos movimentos próprios que fazem o trançado de uma “colcha de retalhos”, em que cada “retalho”, como fragmento de memória, apresenta diferentes cores, intensidades e recortes. As possibilidades de compreensão e a leitura de sentidos vêm pela conjugação desses fragmentos, na “tessitura da intriga” que vai contando diferentes histórias. No olhar para as 12 narrativas, encontramos movimentos comuns desse trançado? Quais seriam eles? Por outro lado, o que singulariza as trajetórias das professoras participantes da presente investigação?

A trajetória, como construção humana, pessoal-coletiva, vai sendo

tecida em um desenrolar de vivências e experiências, 1 de “acontecimentos da biografia” – como processo cotidianamente tecido entre planejamentos, desejos e possibilidades de realização, marcando uma sequência e de “acontecimentos biográficos” que vêm como acidentes, como marcos, o não esperado que muda o rumo, instaurando novas etapas. Segundo Leclerc-Olive (apud Fond-Harmant, 1995), os acontecimentos se dão pela “ação do sujeito”, por “acidentes” em que é vítima e por “encontros”. O autor também cita os “acontecimentos no mundo”, pela influência do contexto sócio-histórico. Ainda segundo ele, os “acontecimentos na biografia” assumem importância diferenciada, enquanto os “acontecimentos biográficos” podem indicar uma reestruturação existencial, a abertura de novos ciclos (Leclerc-Olive apud Fond-Harmant, 1995, pp. 14-5). Na análise da trajetória das professoras, observamos esse movimento em que o desenrolar cotidiano é interrompido por incidentes, abrindo sempre novos e inesperados caminhos de formação.

Na análise de conteúdo, a delimitação das diferentes etapas e

fases da trajetória de vida de cada uma das 12 professoras não consistiu uma intenção metodológica prévia, mas veio como uma construção que saltou da própria análise, apresentando-se como um dos caminhos de leitura possíveis. Como referência de análise, tomamos os grandes momentos da vida: a infância, a adolescência/juventude e a vida adulta, buscando, entretanto, uma delimitação definida, não por faixas etárias previamente dadas, mas pela dinâmica de cada uma das trajetórias. Nessa análise, observamos que as rupturas vão se dando, nomeadamente, por acontecimentos biográficos que delineiam a configuração desses grandes momentos da vida, articulando etapas e fases. O sentido de cada uma delas vem com a marca de uma composição muito singular de elementos que sintetizam

vivências/experiências/sentimentos de diferentes dimensões da vida pessoal, acadêmica e profissional, em uma tessitura compósita – em alguns casos, mostrando a predominância de uma dessas dimensões; em outros, afirmando justamente o contraponto entre experiências que se opõem e geram tensão.

Nas histórias de vida analisadas, encontramos um traço comum

na passagem da infância para a adolescência: a centralidade da mudança da escola primária para o ciclo posterior de escolarização. Vemos, então, por um lado, a importância da escola no abrir de uma nova etapa de vida e formação. Por outro, essa experiência assume singularidades: na trajetória de Ana, foi um momento de grande ruptura e sofrimento, pela mudança de sua aldeia para a cidade e pelo afastamento da família, gerando dificuldades no processo de aprendizagem; para Teresa, Isabel e Clara, representou uma etapa que carrega o sentimento de libertação das opressões da escola primária, instaurando um tempo de maior tranquilidade e prazer. Se as narrativas das professoras brasileiras contam diferentes experiências, focalizando, porém, a importância da escola, a trajetória de Hélida apresenta-nos uma versão singular: é a experiência de vida com o grupo de colegas da turma do “mau-

mau 2 ”, que traz intensos momentos de aprendizagem e marca a passagem de ciclo – nas palavras da professora “uma época transformadora”, em que a praça e o encontro informal roubam a cena da escola.

Na passagem da juventude para a vida adulta, encontramos, para

professoras portuguesas e brasileiras, a centralidade de uma nova etapa de vida familiar, o início e o desenrolar da trajetória profissional, movimentos que indicam um processo de autonomização pessoal, de afirmação de um novo momento de vida, que se desdobra, para cada uma, de diferentes formas. O

casamento 3 e o nascimento dos filhos vêm, de igual forma, como elementos fundamentais e exigem a articulação, muitas vezes difícil, entre os desafios da docência e as demandas da vida pessoal. Observamos em 11 das 12 professoras a realização da licenciatura/graduação como um acontecimento da vida adulta; apenas Clara tem na licenciatura a formação inicial, para todas as outras – tanto portuguesas como brasileiras – o curso do magistério primário/curso normal foi a primeira instância de formação docente. Nesse momento, também se colocam cursos de formação contínua e a partilha no ambiente escolar, bem como a troca com colegas, como elementos fundamentais de formação.

Olhando em perspectiva, e colocando cada uma das trajetórias

lado a lado, somos confrontados com a beleza da vida como movimento. Na infância, juventude e vida adulta, são muitas as etapas e fases que se desdobram, marcando uma dinâmica própria que articula vivências e experiências, acontecimentos da biografia e acontecimentos biográficos, indicando também a conjugação de uma multiplicidade de dimensões, espaços e tempos formadores.

Dialogando com as contribuições de Dubar (1996), analisadas no

capítulo 4, observamos, na trajetória das professoras, que, na infância, a família e a escola se colocam como espaços-tempos da primeira socialização, de mobilização de aprendizagens e de um processo formador que gera as primeiras imagens sobre a vida e a docência. A socialização secundária se dá, segundo o referido autor, na adolescência e na vida adulta, quando as relações se ampliam em uma multiplicidade de grupos, espaços e instituições, e, nesse momento, as experiências profissionais assumem grande centralidade. Cada um desses momentos da vida traz as marcas de um processo plural que liga o sujeito a diferentes contextos, permeados de contradições, tensões, contrapontos e dualidades. Assim, encontramos indícios da inteligibilidade do processo formador quando conseguimos apreender sentidos que se colocam para o sujeito na tessitura desses movimentos, na tensão em que se encontra imersa cada uma das experiências, etapas e fases da vida.