Histórias de vida e formação de professores
Desafios e cuidados
Apesar do conjunto de contribuições destacadas pela literatura, é importante frisar que estas
constituem apenas potencialidades, ou seja, os caminhos das histórias de vida, no campo da formação docente, apontam possibilidades. O resultado dos movimentos e processos, tanto no nível das investigações quanto no da formação, depende da intensidade da experiência, ou melhor, de que o encontro reflexivo constitua, efetivamente, uma experiência tanto para o investigador como para os protagonistas da pesquisa. É preciso se deixar tocar, mobilizar e transformar. Nesse sentido, temos um caminho aberto.
É importante, ainda, enfatizar a atenção e o cuidado epistemológico no trabalho com o
referido aporte, pois, se são grandes as possíveis contribuições, também o são os perigos de desvio. Na revisão da literatura relativa aos trabalhos brasileiros, realizada por Bueno et al. (2006, p. 403), encontramos preocupações que incidem sobre a dispersão da produção, a ausência de diálogo entre as pesquisas, tanto com a produção nacional como internacional, a imprecisão conceitual ligada às muitas terminologias utilizadas e também a desconsideração da história das histórias de vida.
Nóvoa (1992a, p. 19) alerta para o necessário cuidado de que essa perspectiva teórico-
metodológica não seja tomada como um modismo e, da mesma forma, chama nossa atenção para as fragilidades. Sinaliza a ausência de uma teoria de formação de adultos que dê sustentação aos estudos nesse campo e as fragilidades conceituais das ciências da educação, destacando ainda críticas recebidas pela utilização desse aporte. No campo da psicologia, as observações caem “na frágil consistência metodológica, na ausência de validade científica ou nas dimensões analíticas implícitas”; e, no campo da sociologia, no “esvaziamento das lógicas sociais, em uma excessiva referência aos aspectos individuais e na incapacidade de aprender as dinâmicas colectivas de mudança social” (Nóvoa, 1992a, p. 19). Segundo o autor, a ampliação do número de trabalhos “tende a dar guarida a experiências pouco consistentes e até eticamente reprováveis; finalmente, porque facilita uma apropriação acrítica e, portanto, a redução das suas potencialidades transformadoras” (Nóvoa, 1992a, p. 19); ou seja, é preciso haver profundidade teórica e cuidado metodológico – as histórias de vida não devem ser colocadas como mais uma daquelas panaceias que advogam a possibilidade de se constituírem como “o caminho”. O que temos, pelos indícios das ciências humanas e dos trabalhos no campo educativo, são pistas e sinais de uma das vias possíveis de serem perseguidas.
A narração das histórias de vida vem como movimento propriamente humano de contar
histórias e ressignificar experiências do passado que se vão desdobrando em projetos de futuro. No caso da formação docente, ao narrar o passado, vemos surgir uma versão sobre nós mesmos, os encontros e desencontros com a profissão e, ainda, as imagens da docência entranhadas no imaginário coletivo e individual. Encontramos, dessa forma, na investigação e na prática, múltiplas contribuições do aporte (auto)biográfico para a formação docente, que a presente investigação busca focalizar, especialmente quanto à possibilidade de análise dos movimentos por meio da pesquisa-formação.