Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 27 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Capítulo 5 – Caminhos trilhados

Capítulo 5 – Caminhos

 

trilhados

 

Este capítulo apresenta os caminhos trilhados, a história da

investigação, incluindo planejamentos, desejos e, efetivamente, a dialética do vivido em cada uma de suas etapas. Ancoramo-nos na contribuição significativa dos escritos do livro da vida ao longo de todo o texto, no qual registramos os avanços e recuos na configuração metodológica de nosso estudo.

Inicialmente, contamos a história, apresentando o caminho

biográfico-espistemológico da investigação, especialmente, pelo encontro com a metodologia das histórias de vida. A seguir, a reflexão sobre o lugar do livro da vida, lugar que foi, a pouco e pouco, assumindo centralidade – no processo de sua escrita, seus múltiplos sentidos foram sendo delineados, e no item a cozinha como metáfora refletimos sobre o movimento da pesquisa como permanente construção de caminhos. Finalmente, fazemos o relato dos desdobramentos metodológicos, apresentando cada uma das etapas percorridas.

 

Caminho biográfico-epistemológico

 

da investigação

 

Contando uma história: “fragmentos

 

autobiográficos”

 

O encontro com a metodologia desenvolvida, na presente

investigação, tem uma história que precisa ser contada. Sua origem não se coloca no doutoramento, do ponto de vista de seu início formal, mas sim como processo que se desenvolve ao longo de muitos anos, anteriormente à chegada da pesquisadora em Portugal. Narrar esse percurso compõe um exercício de explicitar a natureza biográfica não só do objeto de investigação, mas, nesse momento, especialmente, da escolha do caminho metodológico.

A análise do sentido da origem encontra o seguinte registro no

livro da vida:

 

Se é preciso buscar, por motivos de organização interna, o momento

fundacional da presente pesquisa, coloco-me frente a uma primeira

questão epistemológica: um tempo, uma origem que não se permite

demarcar de forma nítida e precisa. Vasculhando o passado, não encontro

o sentido da origem nos intensos trâmites burocráticos desenvolvidos no

primeiro semestre de 2004, na chegada em Portugal, nem mesmo no

primeiro dia de trabalho na Universidade de Évora. Se não localizo a

‘origem’ em um ‘tempo’ e um ‘espaço’ delimitados, encontro, então, no

‘desejo’, nos movimentos de elaboração dos primeiros projetos de estudo,

visando o doutoramento. O encontro/ desencontro com temáticas foram

trazendo o adensamento de questões que envolvem a docência, a

memória, a narração; as leituras preliminares, a revisão de literatura feita

no Brasil, as aulas de francês com a querida professora Georgina [...], as

diferentes tramas que me trouxeram a Portugal com o objetivo de

perseguir um desejo. Desejo que se materializa no aprofundamento da

trajetória de professora-pesquisadora, no instaurar de um tempo de mais

tranquilidade e calma (set. 2004).

 

É assim, no “tempo do desejo”, que o doutoramento se coloca,

bem como o encontro com a metodologia, desejo de adentrar nos movimentos da docência, de compreender as tramas que possibilitam formas instituintes de formação. Formação que não se limita à dimensão acadêmica, mas que atravessa a vida. Foi assim que a investigação, que resultou na dissertação de mestrado, teve como foco metodológico a inserção no dia a dia de uma escola dos primeiros anos do ensino fundamental no Brasil, buscando as possibilidades de construção de um saber não institucionalizado e que traz a potência do fazer coletivo. Naquele contexto, a

participação no desenvolvimento do Polo de Memória e Narração1 buscou encontrar, no resgate memorialístico e na troca de experiências, uma alternativa emancipatória para a construção de saberes docentes.

Naquele trabalho de pesquisa, as categorias “memória” e

“narração” estão presentes de forma marcante, e nele encontro uma busca de recurso metodológico numa “perspectiva biográfica”, contudo, não propriamente na “história de vida”. Além de recursos à observação participante no cotidiano da escola, a metodologia caminhou por meio de entrevistas biográficas temáticas, as quais trazem fragmentos da vida das professoras em função da problemática proposta na investigação. A dinâmica do Polo de Memória e Narração tinha como pressuposto a partilha de experiências significativas entre as professoras e os investigadores

em um olhar para o passado, potencializando o presente e o futuro. 2

O acompanhamento de processos de formação contínua de

professores/as3 resultou na produção do artigo “Fragmentos autobiográficos” (Bragança, 2001a). Percebemos, nesse texto, um lugar marcante no sentido de instaurar uma etapa profícua de estudos, a qual se define após a conclusão do mestrado, indicando, assim, a continuidade do processo de investigação com uma aproximação mais específica do aporte biográfico, tal como o próprio título sinaliza. O artigo apresenta dinâmicas e oficinas realizadas com professores/as, em uma metodologia com recurso memorialístico e, ao mesmo tempo, analisa o sentido biográfico da formação.

O texto abre caminho para o aprofundamento do estudo das

histórias de vida e indica alguns conceitos importantes. Nele, encontro a arqueologia de uma paixão epistemológica pela “memória” como categoria teórica e pela perspectiva das “histórias de vida” como desdobramento metodológico potente:

 

A palavra memória por si só tem um peso forte sobre meu imaginário. Sou

forçosamente transportada aos meus arquivos pessoais, pelos quais tenho

muito zelo: cartas, fotografias, cadernos e livros escolares, pequenas

lembranças que, em seu conjunto, contam um pouco de minha história,

história partilhada em vários contextos sociais ao longo dos anos. Cada

uma dessas recordações me leva em um movimento de volta à origem, no

sentido da busca de um fio perdido no tempo; fio que, no conjunto de

outros fios, compõe uma teia, uma rede de interdependências onde vida

pessoal, profissional, afetiva, religiosa se inter-relacionam (Bragança,

2001a, p. 109).