Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 14 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

História de vida e educação

A revisão de literatura seguiu buscando, no caleidoscópio da pesquisa educacional, diversas

possibilidades de imagens e composições. Nesse movimento, fomos surpreendidos muitas vezes pela beleza dos textos e por indícios importantes para o estudo proposto. Buscamos, no presente item, sintetizar os indicativos da influência e da contribuição da abordagem (auto)biográfica, nomeadamente para a formação de professores/as. Trazemos, assim, um diálogo, destacando a presença dessa perspectiva teórico-metodológica no contexto epistemológico das ciências da educação, especialmente o aporte teórico, a diversidade metodológica, os campos de utilização e as contribuições indicadas pela literatura na relação com a formação docente. Frente à amplitude da literatura educacional, não temos a pretensão de encontrar uma totalidade, mas apenas indícios, pistas, sinais que ajudem a situar a contribuição da tematização da “vida” e do “tempo” em contextos de formação de professores/as.

 

História de vida e educação

 

A perspectiva de trabalho com as histórias de vida, no campo educativo, vem no ambiente do

“retorno do sujeito”, ou seja, após a hegemonia das concepções estruturalistas que predominaram até o final dos anos 1970. É na efervescência paradigmática, que trouxe a discussão do sujeito em sua singular complexidade social, que as pesquisas em educação foram sendo permeadas por um enfoque que procurou recuperar a reflexividade humana e filosófica dos processos de construção do conhecimento em educação.

Deparamo-nos, nas ciências humanas, com uma mudança paradigmática que reconduziu o

olhar do geral ao particular, da totalidade ao fragmento, da quantidade à qualidade, do instituído ao instituinte. Tais movimentos não ficaram alheios às ciências da educação e, desde a década de 1980, têm contribuído para o desafio cotidiano de reinvenção das práticas educativas e de pesquisa. Foi nesse contexto que os métodos (auto)biográficos foram sendo colocados, especialmente no campo da formação (Nóvoa e Finger, 1988, p. 13). Ainda que sua utilização no campo educativo seja recente, comparativamente às ciências humanas, o olhar dirigido à literatura nos faz perceber sua crescente ampliação e seu aprofundamento teórico-metodológico.

Analisando o desenvolvimento dessa perspectiva no campo educativo, Nóvoa (2002, p. 9)

destaca que foi no âmbito de discussão sobre a educação permanente que o aporte (auto)biográfico se colocou como possibilidade metodológica. A crítica à ênfase tanto no modelo escolar, como forma hegemônica do processo de formação, quanto na infância, como idade específica desse processo, encaminhou a discussão para a educação permanente, valorizando-se a educação ao longo da vida e a aprendizagem como movimento que envolve também a vida adulta. Nesse mesmo sentido, Pineau e Le Grand (1993, p. 18) afirmam que é na formação de adultos que a história da vida se desenvolve, desde os anos 1980, como perspectiva de pesquisa e prática de formação, buscando sempre uma articulação entre teoria e prática.

O número 142 da revista Education Permanente, publicado em 2000 com o título Les Histoires

de Vie: Théories et Pratiques, retoma os números 72 e 73, de 1984, dedicados às histórias de vida, em um movimento de avaliação do desenvolvimento dessa perspectiva no âmbito dos estudos sobre a educação permanente. O objetivo é fazer um balanço, destacando a diversidade metodológica e questões de ordem epistemológica de um enfoque que, embora, a

princípio, tenha sido marginal, foi-se consolidando num crescente movimento de sustentação.5

Diversos autores destacam especificamente a publicação dos números 72 e 73 da referida

revista como marco fundacional na afirmação e no desenvolvimento da articulação entre as histórias de vida e o campo da formação, citando ainda o colóquio realizado na Universidade de Tours em 1986. Gaulejac (Dominicé et al., 2000a, pp. 221-2) se refere a esse colóquio como um momento de afirmação do que denomina de “corrente das histórias de vida em formação”, pois diferentes pesquisadores que já trabalhavam nessa linha tiveram oportunidade de encontro. A partir de então, observa-se, segundo os autores, o desenvolvimento da fundamentação teórica e metodológica dessa perspectiva no campo educativo (Orofiamma et al., 2000, p. 7; Dominicé et al., 2000a, p. 217; Pineau, 1994, p. 24). Nesse caminho de afirmação, Pineau (2000a, p. 63) registra a criação, em 1996, do movimento L’Association Internationale des Histoires de Vie en Formation (ASIHVIF) e da coleção História de Vida e Formação como busca de diálogo no interior desse campo.

Refletindo sobre a especificidade fundadora da relação entre a abordagem (auto)biográfica e

o campo educativo, Couceiro questiona a lógica de utilização que tem sido privilegiada: “Uma lógica mimética em relação ao seu uso noutras disciplinas? Uma nova e diferente perspectiva, tendo em conta um objecto específico e identificável, neste domínio? E neste caso, qual é então esse objecto específico?” (2002b, p. 156). E a autora encaminha a seguinte reflexão:

 

Assim sendo, podemos dizer que o objecto próprio das histórias de vida, em ciências da educação, é a

formação/autoformação, na medida em que nos permitem conhecê-las melhor e os seus processos. De

algum modo as histórias de Vida são uma ‘mediação’ para a formação. Não no sentido de as considerar

como uma técnica de formação, mas como uma abordagem que produz, ela própria, um certo tipo de

formação e um certo tipo de conhecimento. Ou seja, as histórias de vida influenciam a natureza da

formação que se produz, introduzindo mesmo uma ruptura epistemológica no conceito de formação (p.

157).

 

Portanto, nas ciências da educação, a utilização da perspectiva teórico-metodológica das

histórias de vida vem atrelada à formação, entendida como processo permanente ao longo da vida. Enquanto nas ciências humanas, a partir da origem sociológica, coloca-se como metodologia de pesquisa, em educação, centra-se nos processos formativos.

Na introdução de O método (auto)biográfico e a formação, Nóvoa e Finger destacam o

objetivo de

 

dar a conhecer ao público português interessado pela problemática das ciências da educação e da

formação de adultos um conjunto de reflexões em torno da utilização das histórias de vida (ou do método

biográfico ou das biografias educativas ou […]) como instrumento de investigação-formação (1988, p. 11).

 

Percebemos, assim, na interação entre práticas de pesquisa e formação, a afirmação dessa

abordagem no campo educativo. Mesmo quando a perspectiva se coloca centrada na investigação, o fato de rememorar a vida traz para os/as participantes um sentido formador.

A literatura estudada indica polos acadêmicos que desenvolveram essa abordagem: na

Universidade de Genebra, com os pesquisadores Pierre Dominicé, Marie-Christine Josso e Mathias Finger, por meio do trabalho com o conceito de biografia educativa; e em Quebec, com Gaston Pineau, onde as histórias de vida colocaram-se como possibilidade de pesquisa-formação e de autoformação. Com um aporte específico no pragmatismo de John Dewey, nos Estados Unidos, Donald Schön trabalha conceitos ligados à reflexão sobre a prática profissional como caminho de construção do conhecimento, abordagem amplamente difundida nas pesquisas em educação (Pineau e Le Grand, 1993, p. 18; Nóvoa, 2002, p. 9; Josso, 2002a, p. 19).

Destacamos, nesse sentido, duas ênfases de investigação: a biografia educativa e a relação

com o conceito de autoformação. Dominicé (2000, pp. 2-11), partindo de um trabalho sobre avaliação, encontrou na abordagem autobiográfica uma forma de estudar o processo de aprendizagem, por meio da análise do impacto da lembrança dos anos escolares. Nesse caminho, chegou ao trabalho com a “biografia educativa”, no qual a história de vida focaliza o processo de aprendizagem do autor, e não apenas aspectos aleatórios da vida. Investindo nessa perspectiva, Dominicé afirma que as biografias educativas contribuem para melhorar a compreensão do processo de aprendizagem do adulto, possibilitando reorganizar as diversas influências sobre o processo de formação e as articulações entre os diversos movimentos da vida e a aprendizagem. Nesse sentido, a formação é compreendida como aliança entre a aprendizagem formal e a experiencial. Outro enfoque das histórias de vida em educação é a exploração de sua articulação com o conceito de autoformação, tal como analisamos anteriormente.