Histórias de vida e formação de professores
Movimentos da primeira análise de conteúdo
Além do registro das falas, por meio das entrevistas, podemos
observar e ressaltar a linguagem como movimento de todo o corpo que fala – por gestos, emoções, pausas e silêncios. Quando realizamos a análise de conteúdo, na verdade, contamos não apenas com o registro escrito, mas com a memória das interações intensamente vividas. Vivemos a experiência do diálogo e da partilha e procuramos a sensibilidade e a sabedoria que vêm do saber escutar, do se colocar no lugar do outro e procurar compreender cada narrativa do ponto de vista de seus sujeitos e contextos, desenvolvendo, ainda, o cuidado de não colocar a investigação no lugar do “julgamento”, mas situá-la na intensidade da compreensão analítica, crítica e reflexiva.
Movimentos da primeira análise de conteúdo
Qual caminho tomar no movimento de análise e interpretação das
narrativas? Estou no período de realização e transcrição das entrevistas,
contudo, mesmo que, de forma sistemática, a análise de conteúdo vá se
dar, de acordo com o cronograma, posteriormente à conclusão de todas as
entrevistas, o fato é que o movimento de análise e de interpretação parece
vir colado à experiência das entrevistas, estando ainda presente nas
transcrições e, de forma significativa, na preparação do terceiro encontro
(20 fev. 2006).
Como escrevi hoje para Débora e Célia, apesar do enorme tempo
necessário às transcrições, sinto-me cada dia mais ‘encantada’ com o
aporte (auto) biográfico. A organização do material das entrevistas da
professora Paula, a tentativa de primeira análise de conteúdo, foi um
movimento que empolgou e emocionou. Pensar na vida, na tensão e nas
contradições de sua dinâmica; enfim, pensar na formação é o que vem
marcando o sentido de meu envolvimento com este trabalho (4 mar. 2006).
Após a realização de cada entrevista, seguiram-se o registro
informal, a transcrição e a primeira análise de conteúdo, distribuída em três etapas. A primeira etapa consistiu na análise centrada em cada uma das entrevistas, incluindo: a criação de um segundo arquivo com a narrativa (tendo em vista que o primeiro refere-se à transcrição integral); inserção, nesse segundo arquivo, de duas colunas; na coluna à direita, o texto integral da transcrição – que foi, posteriormente, marcado com diferentes cores, de acordo com as temáticas e categorias abordadas –, e na coluna à esquerda, sinalização dos eixos temáticos focalizados pela narrativa. As sinalizações da coluna à esquerda seguiram as indicações do roteiro; entretanto, foram inseridas a partir da releitura do texto, respeitando-se os desdobramentos relativos a cada narrativa, em que demarcamos o percurso vital, as grandes etapas, os acontecimentos importantes, as pessoas, os contextos sócio-históricos e geográficos, assim como assinalamos algumas expressões e referências recorrentes na fala da professora.
Posteriormente à realização das duas primeiras entrevistas, foi
realizada a segunda etapa da análise, em uma perspectiva de
articulação das narrativas.22 A realização do “ensaio” com a primeira professora participante foi fundamental no delineamento metodológico, possibilitando especialmente a sistematização do caminho a ser trilhado na análise de conteúdo.
Buscando sistematizar a análise da narrativa, organizamos um
“roteiro temático-cronológico”,23 que, em uma tabela, apresenta os seguintes itens, distribuídos em colunas: desdobramentos temáticos: memória das experiências pessoais, familiares e contextuais; memórias da trajetória de aluna, formação inicial, formação contínua; definições e imagens sobre a docência e memórias das experiências profissionais; pessoas – chave e contexto sócio-histórico-geográfico. No final da montagem do roteiro temático-cronológico relativo à narrativa da professora Paula e da leitura das diversas colunas, percorrendo cada uma das etapas da vida (infância, juventude e vida adulta), inserimos mais uma, com a indicação dos acontecimentos biográficos, acontecimentos que constituem o centro do processo formativo, ou seja, da própria biografia educativa.
Quanto à presença de expressões e temáticas recorrentes, o
desenvolvimento da investigação-formação possibilitou perceber o delineamento de diferentes dimensões das narrativas construídas pelas professoras. Fomos, então, procurando identificar essas temáticas em cada uma e “copiando” do texto as passagens representativas das mesmas e, assim, montamos um documento que chamamos de “recorrências temáticas”, agrupadas em torno dos seguintes eixos: formas de ser e de estar, movimentos da memória e da narração, concepções e definições da docência, concepções de formação, reflexões críticas e contextuais, análise comparada entre educação antiga e educação de hoje, reafirmação do desejo de continuar na docência e caracterização da infância hoje. Nesse processo, lembramos a contribuição da análise do professor doutor António Neto, quando, na discussão do roteiro, afirmou a necessidade de que a análise não ficasse presa a um esquema padrão, mas pudesse fazer aflorar a diversidade de construções que se dão na narrativa. O desenvolvimento da análise dessas recorrências temáticas aponta justamente esse fato, pois, se algumas estão presentes em todas as narrativas, outras foram identificadas em umas e não em outras.
Após as análises e a organização do “roteiro temático-
cronológico” e do documento com as “recorrências temáticas” – que traduzem um processo de detalhamento e explicitação dos acontecimentos centrais da trajetória de vida das professoras –, tomamos o “roteiro com tópicos para reflexão”, entregue às professoras juntamente com as transcrições dos dois primeiros encontros, e elaboramos um pequeno texto, refletindo sobre cada tópico e, especialmente, sinalizando os sentidos da formação para cada uma delas. Nesse momento, buscamos um olhar global e compreensivo sobre a narrativa, em um processo de articulação da tessitura.
Com a elaboração dessas análises, partimos para a terceira
etapa, que consistiu no último encontro com as professoras, dedicado à análise partilhada da narrativa. Tratou-se de um momento especialmente significativo de diálogo e de formação para as professoras e para a investigadora, em uma circularidade de vozes e polifonia de interpretações. Inicialmente conversamos sobre as impressões gerais a respeito da transcrição, quando, em alguns casos, as professoras solicitaram alteração e/ou revisão de determinados trechos. A seguir, apresentamos o “roteiro temático-cronológico”, por meio da leitura da coluna dos acontecimentos biográficos, e o documento com as “recorrências temáticas”. Esse foi um momento importante, no qual algumas dúvidas da investigadora puderam ser sanadas e em que novas narrativas e histórias surgiram complementando os relatos anteriores. Partimos, portanto, para a discussão acompanhada de reflexão sobre os tópicos, já analisados anteriormente, tanto pela professora como pela investigadora e, finalmente, para o preenchimento do “gráfico de experiências instituintes”, pela professora.