Histórias de vida e formação de professores
Reflexões conceituais
Tomar essa perspectiva como referência, coloca-nos frente ao
desafio de buscar sentidos do processo formativo por meio de uma abordagem humana, intersubjetiva e instituinte, entendendo que a utilização das histórias de vida não se reduz, na presente investigação, a uma perspectiva técnica ou metodológica, mas indica uma imbricação teórico-metodológica que, como ensinou Ferrarotti (1990), nos lança para fora do quadro lógico-formal positivista e nos confronta com a complexidade humana dos processos sociais. O caminho da pesquisa-formação e das histórias de vida localiza-se, nessa tensão, em uma abordagem que procura a epistemologia da partilha, da construção conjunta, em que investigador e sujeitos da pesquisa colocam-se como “aprendentes”, porque, parafraseando Freire (1992), ao mesmo tempo pesquisam e aprendem; e pesquisam e aprendem tematizando a própria vida em suas interfaces pessoais, acadêmicas e profissionais.
Partindo dessas referências epistemológicas, o presente capítulo
procura dar visibilidade à referida imbricação teórico-metodológica que envolve a utilização do aporte (auto)biográfico. Assim, encontra-se distribuído em itens que articulam a discussão dos principais conceitos e os indicativos de caminhos que propomos trilhar.
Reflexões conceituais
Memória, narração e experiência
[…] Como falar de temas como memória, narração e experiência sem ser
repetitiva? O movimento que me ocorre é de retorno, de passar em revista
antigos conceitos, categorias, reflexões, e, em sentido de balanço, tentar
perceber a forma como também eles foram sendo transformados ao longo
do percurso, da vida, da pesquisa. Desejo, então, traduzir no referencial
teórico não a frustração dos estudos que ainda não fiz, mas a retomada
avaliativa do que está presente em mim como pessoa, como professora e
pesquisadora e que, de alguma forma, foi conduzindo os movimentos da
pesquisa e traduzindo-se na própria tese. Tudo isso me faz perceber que o
texto que vou escrevendo sobre o tema ‘memória, narração e experiência’
vai se fazendo ele próprio em sentido autobiográfico, no revisitar de minha
trajetória de estudo, no olhar sobre antigos textos, livros, pastas e
fichamentos, onde reencontro sinais das referências que foram a pouco e
pouco sendo construídas/desconstruídas e a abertura para novas
formulações (19 fev. 2007).
Os conceitos de memória, narração, experiência e subjetividade
se articulam, compondo uma trama de entrelaçamentos, e o desafio aqui colocado é dar inteligibilidade às diferentes cores desse trançado, indicando também pistas para a compreensão de como esses conceitos se apresentam e se reconstroem no desenvolvimento da pesquisa.
Encontramos, na mitologia grega e na literatura infantil, intensas
indagações que se manifestam como fundacionais, mas, ao mesmo tempo, se reatualizam e continuamente falam de nossa busca de sentido para a vida. Nessas linguagens não acadêmicas, também identificamos lampejos de sentidos atribuídos à reflexão sobre a memória, lampejos que se articulam a autores que tomamos como referência na composição de um quadro teórico reconstruído no movimento da própria pesquisa.
Mnemosyne, a deusa da memória, inspirava os poetas e os
ajudava no reencontro com o passado, tornando-os, assim, imortais como o cosmos, pois pelos seus feitos poderiam ser lembrados por toda posteridade. Na Grécia antiga, o registro da memória afirma a possibilidade de continuidade, de luta contra a própria morte – o poeta passa, mas deixa sua narrativa inscrita na memória coletiva. Segundo Arendt (1972, pp. 72, 74), no mundo grego, se os mortais conseguissem fazer algo com permanência, como obras, feitos e palavras, isso os colocaria no terreno da imortalidade, e o homem encontraria seu lugar no cosmos, onde todas as coisas são imortais, exceto os homens. “A tarefa do poeta e historiador [...] consiste em fazer alguma coisa perdurar na recordação. E o fazem traduzindo práksis e léksis, ação e fala, nesta espécie de poièsis ou fabricação que, por fim, se torna a palavra escrita” (Arendt, 1972, pp. 72, 74).
Mas não só a mitologia traz a presença da memória como
questão essencialmente ligada às tramas da vida humana. Também encontramos na literatura infantil outra fonte de reflexão que vem marcada pelo paradoxo entre a profundidade e a leveza do mundo infantil. O livro Guilherme Augusto Araújo Fernandes (Fox, 1995) conta a história de um menino que morava ao lado de um asilo e faz grande amizade com D. Maria Antônia. Entretanto, D. Antônia perde sua memória, e o menino decide, então, ajudá-la. Para isso, faz uma pesquisa na família e com os outros idosos do asilo sobre o que é memória e encontra as mais variadas respostas: a memória “é algo de que você se lembre”, “algo quente”, “algo bem antigo”, “algo que faz chorar”, “algo que faz rir”, “algo que vale ouro”. Mitologia e literatura infantil nos ajudam a ver a memória como caminho da imortalidade, como uma propriedade humana que envolve a afetividade e a magia.
Presente nas reflexões filosóficas, históricas e políticas, o debate
sobre esse conceito vai apresentando multiformes dimensões, que, para nossa análise, agrupamos primeiro no que chamamos perspectiva fenomenológica e, posteriormente, política. Do ponto de vista de sua manifestação como fenômeno social, destacamos os sentidos de memória-fragmento, memória coletiva, memória-testamento e memória-trabalho; do ponto de vista político, os sentidos de memória subterrânea ou dos vencidos, memória-enquadramento, memória-arquivo. As formulações tecidas nos permitem, então, vislumbrar a reflexão sobre “memória-vida” como caminho epistemológico que se abre para a articulação imanente que perspectivamos entre esse conceito e a experiência narrativa.
Iniciamos pela perspectiva fenomenológica. No movimento da
memória, olhamos o passado e encontramos faíscas, lampejos, fragmentos que se articulam e compõem o sentido de nossa trajetória de vida, de determinadas etapas ou acontecimentos. A memória é, assim, seletiva e apresenta-se como filtro. Podemos, então, falar da memória-fragmento, pois o que encontramos são pistas que se articulam numa, sempre plural, construção de sentidos. Nessa direção, Pollak (1989, p. 8) fala da memória como esquecimento e silêncio, advertindo sobre a presença e a função do “não dito” nos relatos orais. Em pesquisas realizadas com pessoas marcadas pela dor e pelo sofrimento, o autor percebe a criação de zonas de sombras e silêncios, lembranças proibidas, indizíveis, que são bloqueadas. Observamos, desse modo, que a memória se configura numa dialética que conjuga lembrança e esquecimento.
Todavia, se é seletiva, por que nos lembramos de algumas coisas
e silenciamos ou esquecemos outras? Para Halbwachs, o momento que dá significado a um evento e permite que este seja evocado é sua produção e seu sentido coletivo. “É porque, na realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se distingam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem” (Halbwachs, 1990, pp. 26, 33). Há, assim, um fundo comum, uma dimensão intersubjetiva, grupal e é justamente o pertencimento a uma “comunidade afetiva” que permite a construção dos pontos de referência da memória (Halbwachs, 1990). Da mesma forma, com Benjamin (1993), encontramos a força da inscrição na memória no sentido da experiência plena que indica dialeticamente a construção coletiva e a transformação no sentido mais pessoal.
A memória como construção, que se dá nas mediações do
indivíduo com diferentes grupos de pertencimento, assume, segundo Arendt, a dimensão de memória-testamento:
Seja como for, é a ausência de nome para o tesouro perdido que alude o
poeta ao dizer que nossa herança foi deixada sem testamento algum [...]
Sem testamento ou, resolvendo a metáfora, sem tradição – que selecione
e nomeie, que transmita e preserve, que indique onde se encontram os
tesouros e qual o seu valor – parece não haver nenhuma continuidade
consciente no tempo, e portanto, humanamente falando, nem passado
nem futuro, mas tão somente a sempiterna mudança do mundo e do ciclo
biológico das criaturas que nele vivem (1972, p. 31).
Com esse texto metafórico, a autora adverte sobre uma herança
sem testamento, uma herança que pode ser perdida, se não houver quem a nomeie, transmita, preserve. A memória apresenta-se, assim, como riqueza que precisa de “testamento”, e nós somos convocados a assumir essa herança, escrevendo o testamento, transmitindo-o.
Este pequeno espaço do tempo intemporal no âmago mesmo do tempo,
ao contrário do mundo e da cultura que nascemos, não pode ser herdado
e recebido do passado, mas apenas indicado; cada nova geração, e na
verdade cada ser humano, inserindo-se entre o passado infinito e um
futuro infinito, deve descobri-lo e, laboriosamente, pavimentá-lo (Arendt,
1972, p. 40).
Para escrever o testamento, temos, como desafio, constituir
sentidos do passado, o que exige um trabalho artesanal e laborioso. Dessa forma, a partir das contribuições de Bosi (1994), afirmamos a memória-trabalho, porque tempo de lembrar é tempo de trabalho, mas também pela exigência de envolvimento e ação propositiva dos sujeitos. Nesse sentido, Pollak (1992, p. 206) analisa o trabalho da memória em si, “cada vez que uma memória está relativamente constituída, ela efetua um trabalho de manutenção, de coerência, de unidade, de continuidade, de organização”. E, assim, exige construção/reconstrução permanente das imagens do passado na construção do presente e de projetos de futuro.
É necessário, entretanto, destacar dimensões da memória que
afirmam uma perspectiva política. Em Benjamin (1993), encontramos o sentido de resgate da história dos vencidos, daqueles que tiveram sua versão da história sufocada pela historiografia oficial – são as memórias subterrâneas das quais também nos fala Pollak (1989, p. 4): “Ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas, que, como parte integrante, se opõem à ‘memória oficial’ […]”. A memória como conceito político sinaliza uma abordagem militante na escuta de outras vozes, trazendo a perspectiva de negociação, disputa e conflito.
No contexto desses movimentos de luta, a memória-
enquadramento propõe a reinterpretação do passado, em função de combates do presente e do futuro, ressaltando a versão oficial. “Além de uma produção de discursos organizados em torno de acontecimentos e de grandes personagens, os rastros desse trabalho de enquadramento são os objectos materiais: monumentos, museus, bibliotecas etc. A memória é assim guardada e solidificada nas pedras” (Pollak, 1989, p. 9). Solidifica-se nas pedras e impõe-se como versão hegemônica. Entretanto, a dinâmica social viva indica processos de resistência, e formas instituintes de registro convivem com o instituído.
Ainda na perspectiva política, o enquadramento alia-se ao sentido
de memória-arquivo, e a análise dessa dimensão nos ajuda a perspectivar as dinâmicas instituintes da “memória-vida” e suas relações com a experiência e a narração. Nora (1993), no texto “Entre memória e história: a problemática dos lugares”, discute o processo que levou à consagração dos lugares de memória, a partir dos conceitos de aceleração da história e da própria fratura entre história e memória. Segundo o autor, a falência da memória como pulsão viva da comunidade, a falência da experiência coletiva e da narração, levam à constituição dos lugares da memória, nos quais a história “enquadrada” vai ser perpetuada.
A “aceleração” traz o sentido de movimento, rapidez, e é esse o
mesmo sentido que apreendemos da expressão “aceleração da história” no texto citado. É o presenteísmo que vem como marca da sociedade contemporânea: o presente longe do passado e do futuro. Confrontamo-nos com a vivência de uma dimensão do tempo que impõe aos sujeitos um ritmo frenético, ritmo que, segundo Benjamin (1993), dificulta as experiências plenas e instituintes. A “aceleração da história” é o sepultamento do passado, do calor da tradição, a vivência do mutismo do costume (Nora, 1993, p. 7).
Nora cita como marco do fim da sociedade-memória e da
instauração da “aceleração” o apogeu da industrialização; o declínio da vida camponesa e o instaurar do processo de mundialização, massificação e mediatização. “[...] É o modo mesmo da percepção histórica que, com a ajuda da mídia, dilatou-se prodigiosamente, substituindo uma memória voltada para a herança de sua própria intimidade pela película efêmera da atualidade” (1993, p. 8).
É nesse contexto que surge, segundo o autor, uma
ênfase/curiosidade por lugares em que a memória se refugia, cristaliza-se, justamente quando se encontra esfacelada pela consciência da ruptura com o passado. Assim, a aceleração, como um “mal-estar” contemporâneo, articula-se tanto à efervescência da memória-arquivo quanto ao apagamento da dimensão memória-vida. Como contraponto, a memória-vida manifesta sua inteligibilidade na indissociabilidade que apresenta em relação à experiência e à narração, ou, como diremos no prosseguimento da análise, à experiência narrativa. E o que é a experiência? Como memória, experiência e narração se entrelaçam? Essas questões nos acompanham em estudos anteriores e encontramos, na reflexão citada a seguir, um importante momento de síntese:
Como definir o conceito de ‘experiência instituinte’? Essa reflexão nos leva
ao encontro das contribuições de Walter Benjamin (1993), para o sentido
das ‘experiências plenas’, que se traduzem por uma tessitura coletiva e
pela possibilidade de abertura polifônica. A experiência instituinte se
afirma como uma experiência comum, partilhada por um grupo,
contrapondo-se, dessa forma, à vivência pontual e fragmentada do sujeito
isolado de seus pares. É uma experiência aberta, não se afirma como
‘símbolo’, com um significado unilateral, mas como ‘alegoria’, por seus
múltiplos sentidos e leituras. Podemos ainda articular esse conceito ao
sentido de ‘origem’ em Benjamin, pois o instituinte, na perspectiva de
nossa pesquisa, não se confunde com o ‘novo’, mas, sim, é uma busca
constante do movimento emancipador, movimento este que articula
passado, presente e futuro. Contrapondo-se ao modismo e a uma
reprodução estática do passado, a experiência instituinte sinaliza a
densidade da experiência humana ao rememorar, recuperando, assim, o
sentido de uma memória viva, pulsante, onde o olhar para o passado
potencializa o presente e nos ajuda na construção dos projetos de futuro,
pois é ancorada em uma memória que é capaz de prometer (Bragança,
2003).
Tomando referência em Benjamin (1993), encontramos uma
contraposição entre vivência e experiência: enquanto a vivência é pontual e efêmera, a experiência é o que nos mobiliza, nos toca, nos afeta e que, portanto, tem um potencial transformador, traz a força do coletivo, da participação do outro e tem a marca de uma abertura polifônica por seus múltiplos sentidos e leituras. Analisando o conceito de experiência, Bondía desenvolve uma linda reflexão e cita Heidegger:
[...] fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos
alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma. Quando
falamos em ‘fazer’ uma experiência, isso não significa precisamente que
nós a façamos acontecer, ‘fazer’ significa aqui: sofrer, padecer, tomar o
que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a
algo. Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em
nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso.
Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o
outro ou no transcurso do tempo (Heidegger apud Bondía, 2002, p. 25).
São as experiências formadoras, na força do que nos atinge, que
nos sobrevêm, nos derrubam e transformam, inscritas na memória, que retornam pela narrativa, não como descrição, mas como recriação, reconstrução. Assim, “a experiência que passa de pessoa em pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores” (Benjamin, 1993, p. 198); ou seja, a experiência é a fonte da narração e dos narradores. O narrador retira da experiência o que conta e, por outro lado, incorpora sua narração à experiência dos ouvintes, como “a mão do oleiro na argila” (Benjamin, 1993, p. 205).
A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no
campo, no mar e na cidade –, é ela própria, num certo sentido, uma forma
artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro
em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela
mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele.
Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro
na argila do vaso (Benjamin, 1993, p. 205).
Na imagem metafórica do oleiro e do barro, somos confrontados
com a impossibilidade de separação entre memória, experiência e narração e vislumbramos o sentido de memória-vida. A experiência instituinte, fruto da intensidade da dinâmica coletiva, encontra-se presente na vida do narrador, que a inscreve na memória, transformando-a no movimento criador da narrativa. O vaso traz as marcas do oleiro; a experiência narrativa deixa suas marcas não só no resultado material da narrativa que se traduz em linguagem falada, escrita ou documentada, mas também no próprio narrador que se forma e se transforma.
Nesse movimento, buscamos até aqui explicitar um círculo
“virtuoso” que oferece indícios para a compreensão dos processos formativos que se dão por meio da experiência narrativa. Considerando a centralidade desse conceito na presente pesquisa, buscaremos, a seguir, um enfoque que, partindo das contribuições de Ricoeur (1994), situe a especificidade desse processo enquanto “tessitura da intriga”, bem como as articulações entre tempo e narrativa.