Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 33 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

A definição do número de participantes da investigação-formação e composição do grupo

espaço-tempo de partilha acadêmica entre professores, que podem ‘ler’,

‘dizer’ e ‘orientar’ aquela que como aluna-professora-investigadora procura

construir um caminho partilhado do estudo não só com diferentes papéis e

olhares, mas também com os indicativos pertinentes de revisão a serem

feitos e incorporados (20 fev. 2006).

 

A definição do número de participantes da investigação-formação e composição do grupo

 

Ontem, em Évora, tive uma experiência de saudável confronto de ideias,

de posições epistemológicas, um diálogo fértil e desejável na construção

da investigação. Conheci um professor e conversei com ele sobre a

pesquisa, o foco principal, a metodologia, e o professor, com toda

gentileza, confrontou-me com um conjunto de questões. Se, por um lado,

valorizou a temática proposta, por outro, questionou a validade da

metodologia, sua representatividade. É possível chegar-se a conclusões

válidas a partir de narrativas de um número reduzido de sujeitos? Não

será necessário fazer o levantamento com um grande número, para, a

partir daí, mesmo em uma perspectiva qualitativa, inferir algumas

conclusões? No diálogo, insisti sobre a natureza qualitativa da pesquisa e

na não generalização, ou seja, cada narrativa vale por ela própria, e não

por encontrarmos princípios aplicáveis a uma totalidade. Referi-me ainda

ao debate entre Bertaux e Ferrarotti, o primeiro defendendo a perspectiva

da saturação, ou seja, entrevistar o maior número de pessoas possível até

chegar-se a repetição de informações e, assim, o investigador pode saber

que já tem o material empírico necessário. Já Ferrarotti insiste na

subjetividade explosiva como grande contribuição das narrativas, ou seja,

nas histórias de vida, temos, por meio da mediação, o encontro com a

realidade social mais ampla. Muito mais do que o questionamento do

número de participantes, vi um confronto de natureza epistemológica. [...]

A definição do número de participantes em um estudo biográfico, desde o

estudo de caso único até os estudos múltiplos com a participação de

muitos envolvidos, reafirma a não possibilidade de, no trabalho de

investigação, encontrar dada realidade ou uma verdade fechada sobre

qualquer que seja a questão, mas, voltando ao paradigma indiciário de

Ginzburg, encontrar apenas indícios, pistas, sinais, válidos para aquele

contexto trabalhado, os quais contribuem no sentido de ‘iluminar’, de

alguma forma, caminhos futuros em outros contextos (28 dez. 2005).

 

Quantos professores/as fariam parte do trabalho? E quais os

critérios para o convite tendo em vista a participação na pesquisa? Essas foram questões amadurecidas ao longo de algum tempo. Chegamos ao número de seis professoras portuguesas e seis

brasileiras,14 um universo bastante ampliado, se tomarmos em consideração a natureza e os desdobramentos metodológicos de um estudo biográfico. Contudo, a proposta era que, a partir desse universo, tivéssemos a possibilidade de, posteriormente, escolher narrativas que de fato fizessem parte do estudo. Entretanto, quando concluímos as entrevistas com as professoras portuguesas, chegamos à conclusão de que cada uma delas passou a fazer parte da pesquisa de tal forma que não tínhamos como fazer a seleção de algumas narrativas, não era possível pensar o desenvolvimento do trabalho sem a presença de cada uma das professoras que já haviam narrado suas trajetórias de vida. E, considerando o caráter dialógico do estudo, era importante garantir o mesmo número de professoras brasileiras participantes, motivo pelo qual se configurou o referencial de 12 professoras.

E como foi feita a escolha dos/as participantes? O primeiro critério

foi a diversidade de experiências e caminhos trilhados no magistério do 1º ciclo do ensino básico em Portugal e nos primeiros anos do ensino fundamental no Brasil, bem como a diversidade de experiências do ponto de vista dos contextos históricos, culturais e geográficos. Assim, as professoras convidadas encontravam-se, no instante da realização da pesquisa, em diferentes momentos da trajetória pessoal e profissional, incluindo o início da carreira, tempo médio e final de carreira, professoras em exercício e professoras aposentadas. A diversidade se manifesta ainda na constituição de um grupo que fala da docência em dois países e em três diferentes cidades em cada um deles, incluindo uma com características rurais no Brasil e outra em Portugal. A intencionalidade incidiu justamente na composição de um grupo que pudesse trazer múltiplas e polifônicas experiências de vida e de formação, e nessa multiplicidade buscamos não a generalização ou a possibilidade de previsibilidade no conhecimento científico, mas o diálogo que pudesse abrir caminhos analíticos de compreensão dos movimentos constituintes e instituintes da formação docente.

Outro critério importante foi o envolvimento com a docência, ou

seja, professoras que, apesar de lutas e contradições, têm na docência um dos lugares importantes na atribuição de sentido e significado para a vida. Portanto, não foram consideradas previamente as concepções e práticas pedagógicas desenvolvidas, mas sim o compromisso e o envolvimento com a docência. É importante destacar que não houve critério relativo à atuação com um grupo apenas feminino, fato que se deu a partir dos contatos estabelecidos e das indicações recebidas no desenrolar da pesquisa. Entretanto, a composição do grupo revela efetivamente a face feminina da docência no nível de ensino focalizado.