Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 20 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Capítulo 4 – Memória, narração e experiência: um “círculo virtuoso”

Capítulo 4 – Memória, narração

 

e experiência: um “círculo

 

virtuoso”

 

Pesquisa e educação: a perspectiva

 

da complexidade

 

Após o olhar dirigido à trilha das histórias de vida no campo das

ciências sociais e humanas e no campo educativo, buscamos, aqui, indicar as referências conceituais e metodológicas que se entrelaçam aos caminhos perseguidos. Morin indica o necessário movimento de resgate da dimensão subjetiva do trabalho científico, buscando a superação da ruptura entre cultura humana e cultura científica. Traz, assim, um apelo à mudança de olhar – um caminho a ser feito –, uma religação da ciência com a consciência. Por essa abordagem, buscamos recuperar a “reflexividade filosófica” dos processos científicos, trazendo a densidade de “nossas vidas e nossas reflexões como o indivíduo, a subjetividade, o homem, a sociedade, a vida [...]”. É a busca de trazer o homem para as ciências humanas (Morin e Moigne, 2000, p. 28).

A tradição cartesiana e todo desenvolvimento histórico dos

processos de construção do conhecimento fizeram o movimento do simples para o complexo, e o pensamento científico contemporâneo tenta ler a complexidade do real. “A complexidade nos aparece, à primeira vista e de modo efetivo, como irracionalidade, incerteza, confusão, desordem” (Morin e Moigne, 2000, p. 47). Nesse sentido, Morin propõe um tetragrama, um movimento dialético que incorpora “ordem – desordem – interações – organizações” (Morin e Moigne, 2000, p. 53). O conhecimento científico não se afirma, portanto, na certeza, mas na curiosidade epistemológica, na abertura para a descoberta e para o conhecimento dos mistérios inesgotáveis do mundo. O paradigma simplicador, que tem sido hegemônico nos processos de produção do conhecimento, “[...] ignora o singular, o concreto, a existência, o sujeito, a afetividade, os sofrimentos, o gozo, os desejos, as finalidades, o espírito, a consciência [...]”. Tal perspectiva, contudo, entra em crise no século XX, tendo seus pilares abalados pelo “surgimento da desordem, da não separabilidade, da não redutibilidade, da incerteza lógica” (Morin e Moigne, 2000, p. 100).

A perspectiva simplificadora apresenta expressão no paradigma

positivista que propõe uma separação entre sujeito e objeto, utilizando metodologias nomeadamente estatístico-experimentais, com orientação hipotético-dedutiva, objetivando estabelecer regularidades ou leis de aplicação universal. A implicação intersubjetiva entre investigador/a e participantes da investigação na construção de um saber dialógico e partilhado, assim como o olhar para as complexidades políticas, econômicas e sociais, coloca-nos frente ao interpretativismo crítico como caminho de análise.

O paradigma interpretativo toma como referência do trabalho

científico a interpretação, que vem por meio da relação intersubjetiva entre investigadores/as e sujeitos envolvidos, uma interação que é em si uma forma de ação, traduzindo a interdependência entre conhecer e agir. Nesse sentido, assenta-se especialmente em metodologias qualitativas, participativas e de investigação-ação, rejeitando a formulação de leis gerais e afirmando a busca de uma ciência não normativa. A perspectiva interpretativa alia-se ao paradigma crítico na rejeição do positivismo, bem como em seus referenciais metodológicos, trazendo, entretanto, a contribuição de articular a análise interpretativa aos “contextos políticos e ideológicos em que se geram as condições da acção social” (Sarmento, 2003, pp. 141-2). Tomando, assim, referência na perspectiva marxista, especialmente na teoria crítica da Escola de Frankfurt, a abordagem crítica, articulada ao interpretativismo, ajuda-nos a recuperar a centralidade do poder na dinâmica das relações sociais:

 

A ênfase está colocada nas dimensões hermenêuticas, sem que se ignore

que toda a interpretação global é também a análise das condições de

poder em que ocorre a acção, nem se iluda a própria dimensão política do

acto interpretativo: a investigação dos contextos de acção visa

precisamente dar sentido, e todo o sentido é um acto de ordenação do

mundo (Sarmento, 2003, p. 144, grifos do autor).

 

Tendo como perspectiva o interpretativismo crítico, Sarmento

(2003) apresenta quatro pressupostos epistemológicos, que tomamos, também, como referência de análise. O primeiro afirma a singularidade em contraposição à lei universal, procurando, nas relações sociais, as diferenças, as variações, o inesperado, o fluido e o ambíguo, imersos, como estão, nos contextos macroestruturais mais amplos. Há uma recusa da explicação causal como definição de critérios universais e de verdade e a valorização hermenêutica de “redes, fluxos, implicações mútuas, constrangimentos, representações sociais, sentidos plurais” (Sarmento, 2003, p. 145).

O segundo pressuposto focaliza as dimensões intersubjetivas que

envolvem a construção do conhecimento, o ouvir o outro como referência de uma ciência mais humana; o interpretativismo crítico postula, assim, uma dupla hermenêutica que efetiva a translação entre as interpretações dos sujeitos envolvidos e dos/as investigadores/as.

Essa interação entre os envolvidos na investigação se dá em um

contexto essencialmente linguístico, sendo esse o terceiro pressuposto epistemológico. Nesse aspecto, é importante ressaltar o sentido político que envolve a linguagem, a compreensão de que “o poder da linguagem envolve também a linguagem do poder”, e, assim, tanto investigador/as como participantes fazem parte de “um jogo social politicamente investido” (Sarmento, 2003, pp. 145-9).

A consciência tanto da subjetividade como do sentido político de

nossa presença no mundo encaminha-nos, então, ao quarto pressuposto: o princípio da reflexividade. A reflexividade metodológica coloca-se como método, “dado que esse princípio é a principal barreira que pode impedir a transposição não vigiada dos enviesamentos e preconceitos ideológicos do investigador sobre a sua observação e as suas interpretações” (Sarmento, 2003, pp. 150-1). Considerando a implicação do/a investigador/a, a construção do conhecimento não se dá de forma linear, mas envolve escolhas, cortes, determinado foco do olhar, e a reflexividade crítica permite, justamente, interrogar “o sentido do que se vê e por que se vê e se acrescenta o escopo do campo de visão a um olhar-outro, coexistente no investigador” (Sarmento, 2003, p. 151).