Histórias de vida e formação de professores
Na história
No século XX, com o fortalecimento das ciências humanas,
vamos encontrar novas formas de produção das narrativas de vida e das publicações nesse campo (Pineau e Le Grand, 1993, p. 32). A análise histórica realizada por Pineau e Le Grand (1993) permite perceber o amplo movimento das histórias de vida ao longo do caminhar histórico. Diferentes modalidades foram sendo constituídas, passando por confissões, jornais íntimos, cartas, correspondências, livros, livros de família, ensaios, canções, genealogias, memórias, lembranças, jornais de viagem, efemérides, anais e crônicas. São múltiplas as manifestações narrativas, o que aponta sua natureza ontológica, ou seja, a expressão da vida como parte do estar de homens e mulheres no mundo, com as pessoas e com a natureza.
Na história
Aqui, a perspectiva das histórias de vida vem no bojo de uma
abordagem metodológica específica – a história oral. A construção do conhecimento histórico tem como referência não apenas os documentos escritos, mas a participação e o ponto de vista dos sujeitos envolvidos nos eventos e contextos históricos. Nesse aspecto, o foco pode recair na totalidade da vida do sujeito ou em momentos específicos e se funda, essencialmente, na narrativa oral. O estudo da história de vida não apresenta, a princípio, um fim em si mesmo, mas focaliza a contribuição que a história de vida específica pode dar para a compreensão de determinados fatos, momentos ou contextos históricos.
Thompson (1998) analisa o caminho percorrido pela história oral
no interior da própria história, destacando um período inicial de ênfase na tradição oral, a emergência e a hegemonia do documento escrito e o retorno da narrativa oral como fonte de pesquisa.
A narrativa de vida individual e coletiva faz parte da forma
propriamente humana de construir/recriar conhecimentos, de preservar a memória, de criar as identidades, de atribuir a objetos e lugares valor simbólico. A tradição oral é, então, a primeira forma de história; uma história viva e pulsante, acessível a todos os membros da comunidade. Nas aldeias africanas, um membro do grupo distinguia-se por seu papel de homem-memória, o griot da África, mas toda comunidade era envolvida no movimento de partilha e construção da história. O homem-memória registra os fatos históricos da comunidade, os interpreta e os narra – uma história aberta, em que todos os membros do grupo estão presentes nos fatos narrados e se sentam à roda para ouvir. No entanto, o relato oral como testamento da história foi perdendo seu lugar frente à emergência do escrito, que assume a hegemonia de fonte histórica privilegiada.
O processo de rebaixamento da tradição oral e ascensão do
documento escrito, na Europa Ocidental, deu-se de forma lenta. Os primeiros textos escritos, que, segundo Thompson (1998), remontam a aproximadamente 3 mil anos, buscaram registrar as tradições orais postas na comunidade, tanto do passado como do presente. Cinco séculos antes de Cristo, Heródoto interrogou testemunhas oculares para a constituição da história. Já os historiadores do Iluminismo tornaram-se cada vez mais céticos em relação à tradição, que foi sendo identificada com as fábulas. Tornou-se, pois, necessário um trabalho de investigação com reconhecida comprovação dos fatos. A expansão das fontes impressas, desde o século XVIII, trouxe grande contribuição para a produção histórica. A partir do século XVII, observamos uma diversidade de textos, como o romance histórico e a biografia, e, no século XIX, o florescimento de autobiografias da classe operária na Grã-Bretanha, ligada à atividade religiosa e política.
No contexto do século XIX, a história entra em um processo de
especialização crescente, por meio da utilização de trabalho de campo e levantamentos estatísticos. Notamos ainda a afirmação dos historiadores como classe, categoria profissional recrutada por meio da formação acadêmica. A dimensão profissional do trabalho do historiador articula-se à força do documento escrito como fonte de pesquisa, e a história oral passa, nesse contexto, por um período de grande rejeição. Thompson (1998, p. 78) destaca o movimento de recolha do folclore por toda a Europa e o Romantismo como reações ao racionalismo e à hegemonia do documento escrito. Assim, estava dada a possibilidade de uma nova interpretação do fazer histórico. Entretanto, apesar de indícios favoráveis, o século XIX vai ser caracterizado efetivamente por uma busca cientificista e, de forma geral, pela rejeição da história oral.
O século XX, contudo, vai trazer novas formas de organização da
vida social, e o aparecimento e o desenvolvimento de tecnologias questionam a hegemonia do escrito. Nesse momento, registramos a importante contribuição dos estudos antropológicos e sociológicos, especialmente por meio da Escola de Chicago, e observamos uma mudança paradigmática no interior das ciências sociais e humanas que influenciou diferentes campos do conhecimento (Thompson, 1998, p. 85).
Na história, essa viragem tem seu referencial na Escola dos
Annales.8 A “história nova”, como se designou essa tendência, traz em sua proposta uma rejeição do paradigma simplificador, dos métodos tradicionais de investigação e da concepção tradicional de história. Tal abordagem, bastante fértil no campo historiográfico, afirmou-se com a introdução de novos objetos, abordagens e problemas, produzindo uma ressignificação com a emergência de fontes alternativas ao documento escrito, como a revalorização do depoimento oral e das imagens (Franco, 2002, p. 15).
Buscamos, a partir de uma crítica à ênfase dada à dimensão
econômica e das estruturas sociais, debater questões históricas, como “as atitudes perante a vida e a morte, as crenças e os comportamentos religiosos, os sistemas de parentesco e as relações familiares, os rituais, as formas de sociabilidade, as modalidades de funcionamento escolar etc.” (Chartier, 1990, p. 14).
Temos, nessa perspectiva, a produção de uma história que traz à
luz os que foram silenciados – os vencidos, como afirma Benjamin (1993) –, os que tiveram sua versão da história sufocada pela historiografia oficial: as mulheres, os operários, os professores. O foco volta-se para a micro-história, o cotidiano e as dinâmicas locais. Não interessam apenas os movimentos da política educacional como um todo, mas a materialidade desta no chão da escola, na vida de seus professores e alunos. Encontramos uma perspectiva que valoriza os percursos individuais e a subjetividade (François, 2001, p. 4).