Histórias de vida e formação de professores
A cozinha como metáfora: o preparo da “sopa” e de seus ingredientes
Considerando, então, a centralidade do livro da vida no presente
capítulo, bem como sua peculiar forma de escrita, é importante fazer o questionamento sobre o ritmo de sua elaboração. O diário pressupõe a escrita contínua. Já o livro da vida foi utilizado como espaço de liberdade e, portanto, colocou-se fora do cronograma da pesquisa, ou seja, não constituiu um movimento obrigatório, mas, pelo contrário, espaço de liberdade e, portanto, de um ir e vir não marcado no calendário. Encontramos, dessa forma, registros de situações no mesmo dia de seu acontecimento, bem como escritos que fazem a síntese de meses de trabalho.
Depois de passado algum tempo, sinto sempre alguma emoção ao
retomar o livro da vida, não consigo me aproximar dele quando estou
muito atarefada, agitada, também não consigo escrever em momentos
muito intensos de tristeza ou alegria. Ao contrário de todos os passos da
pesquisa, não tenho data marcada no cronograma para escrever nesse
livro, o seu lugar tem que ser preservado como espaço do desejo e de
uma motivação interna muito forte. Observo que assume um papel
importante no movimento de reflexão sobre a pesquisa e seus caminhos,
ajuda a escrever as idas e voltas e delimitar os caminhos; é também o
lugar do registro do trabalho de campo, das emoções, angústias e
sofrimentos desse percurso (21 jul. 2006).
Tomando então esse texto, com sua especificidade e natureza,
como recurso privilegiado, passamos ao relato sobre o desenvolvimento da investigação.
A cozinha como metáfora: o preparo da “sopa” e
de seus ingredientes
Para além das leituras, estudos, organização do trabalho de campo e tudo
que o doutoramento implica, a vida aqui em Portugal trouxe muitas
aprendizagens, algumas mesmo inesperadas. Uma delas vem a cada dia
colocando-se de uma forma particular: a culinária. Lembro que na infância
tive algum interesse pela cozinha, mas depois de alguns incidentes críticos
fui afastando-me e envolvendo-me em outras tarefas e, logo cedo, os
estudos e o trabalho me tomaram. Assim, a cozinha, sempre bem
administrada por minha mãe, passou ao largo de minha formação pessoal.
É claro que aquele cardápio chamado ‘básico’ eu sabia e foi este que
coloquei em prática após o casamento, tendo sido ‘minimamente’
desenvolvido ao longo dos anos. Em nossa vida lusitana, entretanto, na
divisão das tarefas domésticas, fiquei responsável por este e outros itens
cotidianos. Inicialmente, tudo corria como o previsto, dei continuidade à
aplicação daquele cardápio básico. Contudo, a cada dia fui me vendo
envolvida de uma forma interessante com a cozinha. Depois de longas
horas de trabalho acadêmico, começava a desejar ‘ir para a cozinha’ fazer
algo de especial. Inicialmente, apenas seguindo as receitas do livro que
minha mãe, carinhosamente, preparou para que trouxesse para Portugal.
Agora, me vejo interessada em novas aprendizagens, nos sabores das
comidas portuguesas, das hortaliças que não temos no Brasil, de doces,
bolos… Tenho uma sensação de desafio cumprido quando faço algo que é
aprovado por Junior e Caio e, às vezes, até por nossos convidados, mas
uma sensação de desgosto quando tudo ‘dá para o torto’. Céus! A primeira
panqueca era disforme e o bolo de chocolate, no qual depositei todas as
esperanças e desejos, virou uma ‘musse’. Pensei: ‘Nunca mais faço bolo!
Quanto tempo perdido! Quanto envolvimento para no final…’. Para no final
a transferência de uma aprendizagem da vida para a cozinha: é preciso
tentar outra vez! É preciso buscar outros caminhos, no caso do bolo
descobri que a temperatura do forno é fundamental. Fiz essa ‘grande’
descoberta depois de algumas tentativas. Talvez esteja me deixando viver
na cozinha novos prazeres, a aprendizagem de um fazer artesanal, de
uma prática que articula dialeticamente princípios à ação ativa do sujeito
que se deixa transformar, enquanto transforma misturas em sabores,
sabores em momentos simples e intensos em família.
As complexidades, sempre presentes do processo de doutoramento, me
tomam de forma intensa a vida. Vivo particularmente a ansiedade do limiar
do início do trabalho de campo. Já tenho, a princípio, um planejamento
detalhado do movimento, mas sinto um frio no estômago: será que terei
professores/as interessados/as em participar do trabalho que estou
propondo? Dispostos/as a dedicar tempo para a partilha de experiências,
para a rememoração? Que tipo de relacionamento vou conseguir
estabelecer com eles/ elas? Uma estrangeira na escola... Bom, mas penso
que é nossa relação com a escola e com os professores que vai nos dar
pistas e novos encaminhamentos para o trabalho.
Talvez precise entrar em contato com as professoras tal como entrei na
cozinha: com abertura e disponibilidade para viver novas experiências,
aprendizagens. Sabores que não estão definidos previamente, mas que
precisam ser buscados, experimentados, na alquimia das relações e da
partilha. E, se algo ‘der para o torto’, esse algo não é estranho, mas faz
mesmo parte do movimento de pesquisa, assim como da vida, da natureza
do aprender. É sempre possível tentar novas panquecas e bolos, inclusive
seguindo, para isso, novos caminhos (27 out. 2005).