Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 26 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

Um “círculo virtuoso”

Ginzburg (1989) faz uma recuperação histórica do paradigma

indiciário que procura o conhecimento não diretamente acessível à experiência humana por meio de indícios, vestígios e sinais, exigindo uma observação muito atenta sobre minúcias do movimento do real. A tessitura da intriga articula, assim, fragmentos da memória numa composição narrativa que, num trabalho rigoroso, mediatiza explicação e compreensão. Na perspectiva da pesquisa-formação, investigadores e participantes se envolvem em uma dinâmica de interpretação dessa tessitura, por meio de um diálogo com ela própria e com outras narrativas na construção do saber e da formação.

 

Um “círculo virtuoso”

 

[...] hoje consigo perceber que aprendi a pesquisar seguindo um caminho

metodológico bastante sistemático, que inclui levantamento do problema e

de questões, elaboração do projeto, estudo teórico-metodológico, revisão

de literatura, trabalho de campo e análise. Quero afirmar que, por um lado,

essa organização continua fazendo sentido para mim – é o que vai dando

inteligibilidade ao próprio pesquisar –; por outro lado, quando olho o

caminho percorrido pela pesquisa, penso que posso afirmar que esse

roteiro é apenas didático, tem como objetivo nos ensinar a caminhar, mas,

de fato, as etapas se atravessam e são atravessadas pelo inesperado,

pela interrupção, por idas e vindas que se misturam na intensidade da

construção do conhecimento, da formação, da minha própria formação.

[...]

Nesse sentido, é significativo como a experiência que vivi com cada

professora me ensinou, me transformou, mexeu por dentro na tessitura de

concepções teórico-metodológicas.

[...] Penso, então, que estou em um momento de ruptura e aprendizagem

instituinte, apresento o capítulo não como uma análise teórica sumária e

prévia, mas como inventário pessoal de ancoragens que me deram

suporte ao longo da caminhada, em uma articulação polifônica entre a

experiência vivida com as professoras e o refazer dessas concepções (19

jun. 2007).

 

Tomando emprestada a expressão de Ricoeur (1994, p. 117), ao

percorrer tanto as reflexões conceituais como a abordagem metodológica, visualizamos a perspectiva de um “círculo virtuoso”; um círculo que se repete, que insiste em se reapresentar quando centramos a análise nas potencialidades da abordagem (auto)biográfica em formação de professores/as, mas que se repete não de forma “viciosa”, mas inventiva, instituinte e crítica.

Quanto ao movimento do próprio texto, é importante afirmar que

os conceitos e as questões que se foram desdobrando não consistem em um constructo teórico prévio ao desenvolvimento da pesquisa, mas em uma formulação que se deu ao longo do processo, em mediação com as escolhas de caminhos, bem como com o desenvolvimento efetivo da pesquisa junto às professoras portuguesas e brasileiras. As palavras do livro da vida nos ajudam a compreender que a trajetória dessa elaboração não foi, então, linear, assim como não pretende ser seu sentido – o processo expressa a complexidade da própria pesquisa, da construção do conhecimento, da formação em um diálogo entre reflexões conceituais, opções tomadas e caminhos construídos.