Histórias de vida e formação de professores
Um “círculo virtuoso”
Ginzburg (1989) faz uma recuperação histórica do paradigma
indiciário que procura o conhecimento não diretamente acessível à experiência humana por meio de indícios, vestígios e sinais, exigindo uma observação muito atenta sobre minúcias do movimento do real. A tessitura da intriga articula, assim, fragmentos da memória numa composição narrativa que, num trabalho rigoroso, mediatiza explicação e compreensão. Na perspectiva da pesquisa-formação, investigadores e participantes se envolvem em uma dinâmica de interpretação dessa tessitura, por meio de um diálogo com ela própria e com outras narrativas na construção do saber e da formação.
Um “círculo virtuoso”
[...] hoje consigo perceber que aprendi a pesquisar seguindo um caminho
metodológico bastante sistemático, que inclui levantamento do problema e
de questões, elaboração do projeto, estudo teórico-metodológico, revisão
de literatura, trabalho de campo e análise. Quero afirmar que, por um lado,
essa organização continua fazendo sentido para mim – é o que vai dando
inteligibilidade ao próprio pesquisar –; por outro lado, quando olho o
caminho percorrido pela pesquisa, penso que posso afirmar que esse
roteiro é apenas didático, tem como objetivo nos ensinar a caminhar, mas,
de fato, as etapas se atravessam e são atravessadas pelo inesperado,
pela interrupção, por idas e vindas que se misturam na intensidade da
construção do conhecimento, da formação, da minha própria formação.
[...]
Nesse sentido, é significativo como a experiência que vivi com cada
professora me ensinou, me transformou, mexeu por dentro na tessitura de
concepções teórico-metodológicas.
[...] Penso, então, que estou em um momento de ruptura e aprendizagem
instituinte, apresento o capítulo não como uma análise teórica sumária e
prévia, mas como inventário pessoal de ancoragens que me deram
suporte ao longo da caminhada, em uma articulação polifônica entre a
experiência vivida com as professoras e o refazer dessas concepções (19
jun. 2007).
Tomando emprestada a expressão de Ricoeur (1994, p. 117), ao
percorrer tanto as reflexões conceituais como a abordagem metodológica, visualizamos a perspectiva de um “círculo virtuoso”; um círculo que se repete, que insiste em se reapresentar quando centramos a análise nas potencialidades da abordagem (auto)biográfica em formação de professores/as, mas que se repete não de forma “viciosa”, mas inventiva, instituinte e crítica.
Quanto ao movimento do próprio texto, é importante afirmar que
os conceitos e as questões que se foram desdobrando não consistem em um constructo teórico prévio ao desenvolvimento da pesquisa, mas em uma formulação que se deu ao longo do processo, em mediação com as escolhas de caminhos, bem como com o desenvolvimento efetivo da pesquisa junto às professoras portuguesas e brasileiras. As palavras do livro da vida nos ajudam a compreender que a trajetória dessa elaboração não foi, então, linear, assim como não pretende ser seu sentido – o processo expressa a complexidade da própria pesquisa, da construção do conhecimento, da formação em um diálogo entre reflexões conceituais, opções tomadas e caminhos construídos.