Histórias de vida e formação de professores

Inês Ferreira de Souza Bragança · Capítulo 35 de 63

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Histórias de vida e formação de professores

O registro do não verbal e a transcrição das entrevistas

carta de cessão, 15 que foi assinada e reenviada para a investigadora.

Quanto ao “contrato”, podemos concordar com a reflexão de

Ferrarotti (1990). De fato, na presente pesquisa, ele foi produzido em duas dimensões: uma formal e outra informal. Do ponto de vista formal, o “contrato de trabalho” se deu por sua leitura, discussão e aceitação pelas professoras participantes, mas na dimensão informal podemos afirmar que se foi desenvolvendo na relação de confiança conquistada ao longo do processo.

 

O registro do não verbal e a transcrição das entrevistas

 

Após as entrevistas, surgiu o desafio dos registros escritos. Nesse

momento, o livro da vida constituiu espaço para o relato informal das impressões sobre cada entrevista, incluindo a dinâmica de interação entre as participantes, ou seja, as professoras e a investigadora, e para destacar a intensidade do não verbal (Poirier et al., 1999, p. 59). Nesse sentido, a cada entrevista seguiu-se a narrativa escrita no livro da vida, visando captar ao máximo a intensidade da experiência vivida e, posteriormente, a transcrição.

 

O mês de fevereiro está sendo, de fato, intenso, com a sistematização do

roteiro, por meio da contribuição dos especialistas e a realização das

primeiras entrevistas. Preciso registrar que fiquei assustada com o tempo

necessário para as transcrições. Minha experiência na realização de

entrevista ainda é pequena e referida, especialmente, à pesquisa no

âmbito do mestrado, quando recebi ajuda da minha querida amiga Luiza

na transcrição. E agora, no doutoramento, com as primeiras entrevistas,

percebi a extensão desse trabalho e o tempo necessário para sua

realização. As entrevistas biográficas ainda mais, pois são, por natureza,

mais extensas, e está sendo também outro aprendizado. Na primeira, fui

tateando; na segunda, já fui sistematizando alguns procedimentos

‘técnicos’ que contribuem para maior agilidade e eficiência (20 fev. 2006).

 

O desenvolvimento da pesquisa foi mostrando a importância da

transcrição como uma das etapas do trabalho com entrevistas biográficas. Essa etapa, inicialmente, trouxe grande dificuldade, em virtude do tempo necessário para sua realização e por desafiar o desenvolvimento de uma habilidade predominantemente técnica. Entretanto, é importante registrar que aos poucos a transcrição das entrevistas foi mostrando que, além de sua dimensão técnica, é um processo de grande importância nessa abordagem de pesquisa. O discurso oral precisa ser materializado em texto escrito para ser analisado detidamente pela pesquisadora. Quais são os desafios desse processo? Qual é caminho a ser percorrido pela narrativa das professoras, passando por sua elaboração oral, a transcrição, como proposta de registro fiel da narrativa e sua posterior elaboração em biografia educativa? Nesse momento, essa era apenas a primeira etapa do trabalho, ou seja, a transformação do texto oral em “cópia” escrita, e não foi sem sentido a recorrente estranheza das professoras quando leram as transcrições, pois a lógica que constitui a narrativa oral é diferenciada da narrativa escrita, e a transcrição como tentativa de “cópia do oral” acaba constituindo certa caricatura, pois lhe faltam os gestos, os olhares, o contexto e o outro a quem se dirige aquela narrativa. Mas atua como caminho importante na dialética entre compreender e explicar a tessitura da intriga que envolve a trajetória de cada professora participante.

É também significativo registrar que a transcrição efetuada pela

investigadora foi sendo realizada metodicamente ao longo do processo, ou seja, a cada entrevista seguiram-se seu registro informal no livro da vida e sua transcrição, possibilitando um processo importante de apropriação das narrativas, pois cada entrevista foi ouvida repetidas vezes. Essa dinâmica contribuiu também para a análise de conteúdo, pois quando chegávamos a essa etapa cada narrativa já constituía um “filme”, indicando uma compreensão ampla e contextual da história de vida contada, ao mesmo tempo que alguns indícios e sinais – como recorrências na linguagem, acontecimentos biográficos, interfaces entre diferentes dimensões formadoras, o lugar de pessoas e contextos – saltavam de cada uma das histórias narradas, ou seja, o movimento dialético entre compreensão e explicação já estava fortemente presente na própria voz da professora que havia sido repetidamente ouvida.

Logo, a transcrição passou a assumir um lugar importante no

desenvolvimento da pesquisa, como revela a reflexão citada a seguir, de quando estávamos desenvolvendo a investigação-formação com a oitava professora, já no Brasil:

 

Retomo agora o desafio da transcrição. Pensei em ter a ajuda de alguém

nesse trabalho, assim, poderia adiantar outras etapas da pesquisa, mas

sou tomada pelo desejo de logo retomar a gravação da entrevista, de

trazer de novo a fala da professora. Cresce o sentimento de que a

transcrição faz também parte do trabalho, pois coloca-me de forma intensa

em contato recorrente com a narrativa, produz um movimento importante

de apropriação e significação fundamentais à continuidade do próximo

encontro (3 ago. 2006).

 

É importante registrar também as aprendizagens que surgiram do

ponto de vista técnico.16 Consideramos transcrição, aqui, o texto que reproduz fielmente o discurso gravado, inclusive as intervenções da investigadora. Cada entrevista foi datada, e assinalados sua duração (Poirier et al., 1999, p. 58) e o local de realização. Nesse material, já substituímos o nome dos participantes pelos pseudônimos que receberam no contexto da pesquisa. Estabelecemos códigos para os vícios de linguagem, usando diferentes sinais identificados em nota de rodapé, a fim de facilitar a leitura posterior do texto e, ao mesmo tempo, manter a fala

integral. 17 Os trechos de leitura realizados, bem como comentários e diálogos que fugiam aos objetivos do trabalho, especialmente no primeiro e no terceiro encontros, foram suprimidos, fazendo-se a respectiva observação. Quanto à dimensão da linguagem, Poirier et al. (1999, p. 63) questionam o que fazer com os erros de linguagem e afirmam: “A fidelidade parece ser a regra mais ética, mas o excesso também pode acabar por prejudicar o sentido do que é dito”. Assim, optamos por fazer apenas pequenas correções, relativas a equívocos de concordância. Todavia, fizemos todas as alterações que foram eventualmente sugeridas pelas professoras entrevistadas, após a leitura da transcrição integral, considerando ser delas a autoria da narrativa. Nesse caso, foi incluída nota de rodapé, ao final do parágrafo, informando que o mesmo foi revisto pela narradora. O “contrato de trabalho”, contudo, deixa claro que essa revisão deve ser apenas de aspectos gerais, e não do conteúdo da fala.