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A narrativa como tessitura da intriga: contribuições de Ricoeur
A narrativa como tessitura da intriga:
contribuições de Ricoeur
[…] existe entre a atividade de narrar uma história e o caráter temporal da
experiência humana uma correlação que não é puramente acidental, mas
apresenta uma forma de necessidade transcultural. Ou, em outras
palavras: que o tempo torna-se tempo humano na medida em que é
articulado de um modo narrativo, e que a narrativa atinge seu pleno
significado quando se torna uma condição da existência temporal (Ricouer,
1994, p. 85).
Em Ricoeur, vemos uma análise profícua da articulação
indissociável entre tempo e narrativa. O autor retoma duas obras clássicas da história da filosofia – as Confissões, de Santo Agostinho, e A poética, de Aristóteles – e, a partir delas, aprofunda os conceitos de tempo e a narrativa: em Santo Agostinho, o questionamento do tempo, sem uma preocupação explícita com a estrutura narrativa de suas Confissões autobiográficas; em Aristóteles, a teoria da intriga dramática sem consideração sobre a importância da dimensão temporal. Partindo de obras situadas em contextos tão diferenciados, o autor alinhava, a pouco e pouco, o sentido de entrelaçamentos que indicam que o tempo se torna humano pela narrativa, e, por outro lado, a narrativa atinge sua plenitude como condição da existência temporal.
Com Agostinho, Ricoeur nos proporciona o mergulho na reflexão
filosófica sobre as “aporias da experiência do tempo” (Ricouer, 1994, p. 23). O filósofo traz a perspectiva da eternidade como indicativo e limite da fragilidade ontológica do tempo humano, “[…] como o tempo pode ser, se o passado não é mais, se o futuro não é ainda e se o presente nem sempre é?” (Ricouer, 1994, p. 23). As dúvidas cépticas, entretanto, o levam a afirmação da possibilidade do tempo por meio da tese do tríplice presente, na qual coloca o passado e o futuro, no presente, por meio da memória e da espera.
Narração, diremos, implica memória, e previsão implica espera. Ora, o que
é recordar? É ter uma imagem do passado. Como é possível? Porque
essa imagem é uma impressão deixada pelos acontecimentos e que
permanece fixada no espírito. [...] A espera é assim análoga à memória.
Consiste em uma imagem que já existe no sentido de que precede o
evento que ainda não é […] (Ricouer, 1994, p. 27).
Nas palavras de Santo Agostinho, “o presente do passado é a
memória, o presente do presente é a visão, o presente do futuro é a espera” (Ricouer, 1994, p. 28). Dessa forma, delineia a compreensão ontológica do tempo humano e situa, no sujeito, a possibilidade da experiência temporal e até da própria medida do tempo, já que a espera do futuro e a memória do passado estão na “alma” como imagens-impressões e imagens-signos. Impressões que só estão presentes na ação do sujeito que espera, está atento e recorda-se (Ricouer, 1994, pp. 37-9).
Podemos estabelecer relações entre a tese do tríplice presente de
Santo Agostinho, o tempo de agora em Benjamin (1993) e a imagem do tempo como luta, proposto na metáfora analisada por Arendt (1972). Benjamin propõe um olhar sobre a história, o “tempo de agora”, marcado por intensidade e brevidade, em que as questões do presente nos mobilizam a construir uma experiência com o passado, reconstruindo-o. Faz, dessa forma, uma crítica à epistemologia em sua maneira de compreender a história, por meio de concepções de um tempo “homogêneo e vazio”, “cronológico e linear”. O passado relampeja como imagens de “momentos de perigo” e leva o historiador a construir uma experiência com esse passado. Como o anjo da história de Paul Klee, que, ao mesmo tempo que olha fixamente para trás, é arremessado para frente, olhamos para o passado porque existem lutas, que foram vencidas e traduzidas pela versão da história oficial. Essas lutas precisam ser recontadas, e o desafio que se coloca é recontar a “contrapelo” a história dos vencidos (Benjamin, 1993, p. 226).
Na parábola de Kafka tomada por Arendt (1972, p. 33),
encontramos também uma metáfora que nos remete a uma nova concepção de tempo. “Ele tem dois adversários: o primeiro acossa-o por trás, da origem. O segundo bloqueia-lhe o caminho à frente. Ele luta com ambos [...].” A imagem quebra o sentido de uma passagem linear entre passado e futuro, substitui essa concepção de história linear pela história como movimento de luta vivida pelo sujeito que dá sentido ao processo de construção histórica.
Nas análises, encontramos a força do tempo presente como
experiência existencial do sujeito que congrega a potência do passado e do futuro no movimento de ação e de luta dos sujeitos históricos. O tempo torna-se inteligível no sujeito, traduz-se como uma experiência pessoal, assumindo materialidade na narrativa que interage com o passado pela memória e com o futuro pela previsão.
Após o mergulho sobre a temporalidade, a partir de Santo
Agostinho, Ricoeur analisa os caminhos da narrativa, em A poética, de Aristóteles. Segundo sua análise, dois conceitos, expressos na referida obra, se articulam – tessitura da intriga e atividade mimética. A poética é identificada como arte de compor intrigas, e a atividade mimética, como processo ativo e dinâmico de imitar ou representar. Se, em Platão, mimese apresenta o sentido de cópia, em Aristóteles consiste em produção, poièsis – “a imitação ou a representação é uma atividade mimética enquanto produz algo, a saber, precisamente a disposição dos fatos pela tessitura da intriga” (Ricouer, 1994, p. 60). Logo, Ricoeur toma o modelo de tessitura da intriga de Aristóteles como caminho de compreensão da narrativa.
E o que é a intriga para Aristóteles? Na análise desse conceito,
Ricoeur (1994, p. 70) identifica, no referido autor, a oposição-chave entre sequência episódica e intriga: “Uma depois da outra é a sequência episódica e, pois, o inverossímil; uma por causa da outra é o encadeamento causal e, pois, o verossímil”. Encontramos nas palavras de Aristóteles a seguinte definição: “Chamo de intriga com episódios aquela em que os episódios se seguem (e não se encadeiam) sem verossimilhança nem necessidade” (apud Ricouer, 1994, p. 70). A intriga se expressa como uma construção ordenada, coerente, universalizante. “Seu fazer seria globalmente um fazer universalizante. Todo problema do Verstehen narrativo está contido em germe aqui. Compor a intriga já é fazer surgir o inteligível do acidental, o universal do singular, o necessário ou o verossímil do episódico” (Aristóteles apud Ricouer, 1994, p. 70). A narração como tessitura da intriga consiste na composição de tramas que se articulam de forma coerente. Entretanto, essa coerência não está dada, é fruto de construção do sujeito, de ação ou poièsis que vai fazendo surgir, a pouco e pouco, o inteligível, o universal e o verossímil.
Dessa forma, como poièsis, a mimese coloca-se não como cópia
do real preexistente, mas como imaginação criadora, abrindo possibilidade para ficção. Tomando a interpretação da A poética, Ricoeur analisa três momentos da mimese para explicitar as relações entre tempo e narrativa, articulando, na tessitura da intriga, um movimento que passa pela ação humana, por sua recriação na composição narrativa e, ainda, pela reconfiguração que se dá na leitura. Assim, o autor procura “mostrar o papel mediador desse tempo da tessitura da intriga entre os aspectos temporais prefigurados no campo prático e a refiguração da nossa experiência temporal por esse tempo construído” (Ricouer, 1994, p. 87).
Na explicitação dos três movimentos da mimese, entendida como
imaginação criadora, tomamos contacto com o processo pelo qual a narrativa, como tessitura da intriga, comporta a densa temporalidade do tríplice presente. Focalizaremos, então, a seguir, esses movimentos. Vejamos o que diz Ricoeur acerca da mimese I:
Imitar ou representar a ação é, primeiro, pré-compreender o que ocorre
com o agir humano: com sua semântica, com sua simbólica, com sua
temporalidade. É sobre essa pré-compreensão, comum ao poeta e a seu
leitor, que se ergue a tessitura da intriga e, com ela, a mimética textual e
literária (1994, p. 101).
Mimese I coloca-se na pré-compreensão do mundo e da ação, em
suas estruturas inteligíveis e em sua simbologia e temporalidade. Assim, compreender uma história é penetrar no universo do fazer humano e na tradição cultural em que se encontra imersa a intriga. Ricoeur fala de um simbolismo imanente que, sendo um processo cultural, articula a experiência em sua inteireza – “um sistema simbólico fornece, assim, um contexto de descrição para ações particulares”. Esse universo cultural e simbólico contextualiza a ação particular, que vem marcada pelo sentido temporal que se coloca de forma implícita na ação, e pode ser considerado indutor da narrativa (1994, pp. 93, 95).
A Mimese II faz a mediação entre a ação e a narrativa,
apresentando um carácter dinâmico de configuração, de tessitura da intriga. Tal mediação apresenta três sentidos. Em primeiro lugar, trata-se de uma mediação entre o singular e o geral, “entre acontecimentos ou incidentes individuais e uma história considerada como um todo”, transformando “acontecimentos e incidentes em uma história” (Ricouer, 1994, p. 103). Uma história que, segundo Ricoeur, não se coloca como uma enumeração de acontecimentos, mas numa “totalidade inteligível em torno de um tema, ou seja, a tessitura é a operação que extrai de uma simples sucessão uma configuração” (1994, p. 104). Em segundo lugar, a tessitura da intriga efetiva mediação entre fatores diversos, como “agentes, fins, meios, interações, circunstâncias e resultados inesperados etc.” (1994, p. 104). Mas a intriga é mediadora também por apresentar caracteres temporais próprios, ligados à dinâmica da configuração narrativa, apresentando-se como “síntese do heterogéneo” (1994, p. 104). Do ponto de vista temporal, a tessitura da intriga apresenta uma dimensão cronológica e uma não cronológica: a primeira manifesta-se na perspectiva episódica da narrativa, ou seja, é constituída de acontecimentos que se sucedem; a segunda traz o potencial de subverter o tempo linear no movimento que transforma acontecimentos em história, num ato configurante dos incidentes da história.
A conjugação dessas diferentes instâncias mediadoras produz a
possibilidade de que uma história possa ser seguida, compreendida. “Seguir uma história é avançar no meio de contingências e de peripécias sob a conduta de uma espera que encontra sua realização na conclusão” (Ricouer, 1994, p. 102). A conclusão apresenta um ponto de vista que permite que a história seja compreendida em seu todo, que dá sentido à sucessão de episódios que conduziram à conclusão, não que esta seja previsível, mas aceitável, isto é, “congruente com os episódios reunidos” (Ricouer, 1994, p. 102). A configuração dá sentido aos incidentes e à conclusão, e o processo de configuração, que traduz o sentido de tessitura da intriga, aproxima-se da imaginação produtora, assim com a Mimese II somos colocados no campo da ficção (Ricouer, 1994, pp. 102, 105-6).