O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 51 de 51 · parte 4/4

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O Amanuense Belmiro

§ 48. Finados. 96

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Procurei, nesta noite extraordinária, captar a surda m ensagem . Que im periosas determ inações m e vinham das águas atlânticas?

O corpo sem nervos, os olhos sem brilho, a alm a sem forças receberam um hálito forte.

Eis que surgiu um Belm iro poderoso e elem entar. Um Belm iro dom inador, atlântico, ao pé do qual o pobre Belm iro, sufocado entre m ontanhas, era um verm e a rastej ar. Esse Belm iro avultava cada vez m ais no espaço e percorria o tem po, devassando todas as idades...

Por que m e perturba, assim , o m ar? Diante dele, quando devia am esquinhar-m e, exalto-m e e quero com partilhar de sua energia cósm ica. De onde nos será possível descortinar o alto panoram a? Qual será o cam inho—o da hum ildade ou o da dureza?

Deixando o Arpoador, senti-m e lúcido e triste, com o o m arinheiro do poeta. Ficaram -m e desej os confusos de am or e de ani-quilam ento. Se ao m enos o am or se definisse, teríam os um sentido. Mas, que sabem os do am or? Im possível fixá-lo, encontrar-lhe a expressão real, perm anente. Ele se com põe da variedade e da ondulação. Conhece todas as gradações, e seu obj eto é ora fixo, ora m óvel, ora uno, ora m últiplo.

Ainda estou a ouvir, com o a um a sinfonia wagneriana, as vagas que batem no rochedo. A voz do grande paralítico.

 

§ 81. A VERDADE ESTÁ NA RUA ERÊ.

 

COMO esta Rua Erê m e enternece! Cá estou de novo, e m elhor fora não ter saído. A verdade está na Rua Erê e não no Arpoador. É aqui nesta sala de j antar, onde o relógio de repetição bate horas caraibanas, que encontro um refúgio em bora precário.

Em ília continua grave e exata. As coisas, louvado Deus, não se m exeram de seu lugar. Tudo está com o deixei e com o sem pre esteve. Tirante a ausência da pobre Francisquinha, nada se alterou no curso destes doze anos. Entretanto, as transform ações interiores m e devastaram . Ano difícil, este que se foi! O velho Borba não confiava na paz das coisas e dizia que os reveses vêm , depois, uns sobre os outros. Assim foi em 35, ano tem pestuoso. Terá passado o furacão?

Até então, a vida m e parecera de tal m odo parada que supus estar no passado o sentido de m inha existência. Por que procurar um sentido individual de existência? Há, nas interm ináveis chapadas do sertão, pequenas árvores que não dão frutos, nem som bra, nem possuem raízes m edicinais. Ali estão, talvez, apenas para com por a paisagem . Não estarei aqui som ente para integrar o vasto painel hum ano—ponto de luz ou de som bra, m olécula puram ente pictórica, sem outro destino? Deveria conform ar-m e com isto, m as o caniço pensante, inquieto, quis explicar-se.

Depois, os acontecim entos m e arrastaram no seu tum ulto e m e fizeram viver. Vivi um ano com intensidade superior à da som a de m uitos anos de vida. Retorno, agora, à paz desta casa im utável, onde não subsiste nas coisas o sinal das atribulações. Quero possuir o espírito pacífico destes velhos m óveis, desta Em ília velha,, que se torna grandiosa à m edida que seus cabelos branqueiam . A quietude suaviza os m eus ardores, m as não m e dá o desej ado repouso.

Feliz Florêncio! Enquanto Silviano se consom e em escafandrias, Redelvim se perde em furores, Jandira busca aventuras para se iludir e Glicério se m ostra perplexo, Florêncio é o m esm o hom em de chapéu-de-chile e ventre honrado, que nos abre de longe os braços, gritando na Avenida:

—Você precisa com er m ais feij ão, hom em ! Que carga de ossos!

Ao passo que se aproxim a dos cinqüenta, o ventre se lhe vai arredondando, e ganha expressão honesta e repousante. Mau físico para um agente de seguros de vida, pois Florêncio é a vida na sua m anifestação m ais confiante e tranqüila. Silviano o considera prim ário, hom em sem abism os. Para que m aior felicidade? Seu espírito, que não indaga, repousa na ordem de coisas que encontrou e foi estabelecida sobre um sistem a de ficções m etafísicas, m orais e políticas. Seu equilíbrio de belo anim al hum ano não é, acaso, ideal?

Im possível, porém , encetar de novo a m archa e procurar o cam inho de Florêncio. Todo artifício será inútil e, nesta altura dos acontecim entos, instintivam ente m e vou avizinhando do Silviano. Talvez só encontre nele areias m ovediças, m as que fazer? Quem m e oferecerá terra firm e? Jerônim o? Jerônim o está-m e espreitando, de há m uito, para dar o bote. Percebeu que j á não m e m antenho de pé, com a m esm a força. Insiste em que m inha atitude há de ser provisória. Propõe-m e um a experiência. Inútil. Não creio que m e forneça um a certeza que m e encha a vida, e, nesse caso, a viver em interrogações, prossigam os no cam inho até aqui percorrido.

Paz física da Rua Erê, por que não te transform as em paz de espírito? Tudo está com o dantes, com o há doze anos passados. Dir-se-ia a Bela Adorm ecida no Bosque, sem a Bela e sem o Bosque.

 

§ 82. SEÇÃO DO FOMENTO ANIMAL.

 

NOSSO chefe de Seção é um pândego: pegou-m e o relatório, lim pou o pince-nez, correu os olhos distraidam ente pela prim eira das cinco laudas de papel e achou-o excelente, encam inhando-o "à consideração superior". A ele devem os a m odorral pacatez da Seção do Fom ento, onde os hom ens esperam pachorrentam ente a aposentadoria e a m orte.

Com o eu, não acredita intim am ente nos relatórios nem no Fom ento. Glicério quis ver a peça, céptico, que se achava, quanto à m inha capacidade de fazer, a sério, um trabalho daqueles. Mas o chefe não deixou: "É assunto urgente. O diretor tem interesse pelo caso."

Achei graça em toda essa história inventada pelo chefe. Serviu-se do acontecim ento para fazer o que Glicério denom ina um a "figuração", e esta figuração tinha em vista os funcionários e duas pessoas que o visitavam naquele m om ento. Queria dar-se im portância, fazendo crer que ele e o Fom ento são levados em conta pelo diretor, e, por outro lado, dava ao Glicério um sinal de sua hostilidade. Desde que o rapaz deixou a Nonoca, o chefe o olha com reservas, aliás j ustas. A fam ília aprovava o nam oro e viu, com pesar, o m alogro dos planos da m oça.

À hora do café, Glicério se abeirou de m inha m esa, pedindo-m e novidades do Rio. Respondi-lhe que pelos j ornais as teria m ais recentes: eu chegara havia três dias. Mas queria apenas puxar conversa e m e contar o casam ento de Carm élia.

—Pois, por aqui tivem os um a: o casam ento de Carm élia. Foi um a festa fina.

—Ah! É verdade... Carm élia! Casou-se afinal? Mas você não disse que a cerim ônia seria singela, portas adentro?

—Mas isso não im pediu que a viúva convidasse pessoas do seu círculo. Com pareceu na casa o que há de bom e de m elhor. Estava um a noiva linda. Seguiram no m esm o dia para o Rio, a fim de alcançar o Oceania.

—Em barcaram sem pre? Pensei que essa história de Europa não vingasse, acrescentei, dissim ulando m eus passos no Rio.

—Em barcaram , sim , no dia 18. Ficarão lá som ente dois m eses, pois o Jorge se diz ansioso por trabalhar.

—E você, m uito abatido?

—Não m e venha com as suas... Isso é coisa do século passado. E pequenas não m e faltam . Eu é que ando cansado delas. No m ais, com o diz o Silviano, m ulher é acessório. Tenho coisas sérias em que pensar.

Glicério pareceu-m e sincero. Noto que o casam ento de Carm élia não o abalou, efetivam ente. Continua incapaz de am ar.

—Acessório? perguntou Carolino, que nos servia o café e ouviu a conversa. Que é acessório? Eu sou um acessório?

—Não te m etas, respondeu Glicério com dureza.

Carolino teve um sorriso desapontado e retirou-se com a bandej a. Pedirei ao Glicério que não o trate assim .

Pouco antes de sairm os, o j ovem bacharel voltou à m inha m esa para dizer que, um dia destes, abandonará a Seção. O Senador Furquim lhe obteve um a com issão no gabinete do Advogado Geral do Estado.

—É serviço m ais próprio para m im , ponderou. Quero ver se m ais tarde consigo um lugar de auxiliar j urídico.

A notícia m e entristeceu. Afinal, estim o-o bastante e estou habituado à sua com panhia, há alguns anos. Sua retirada dá-m e um a sensação de desam paro. Já não terei com quem conversar na Seção.

E, ao escrever estas notas, penso tam bém em outra coisa: os outros se m ovim entam , rom pem , progridem ou regridem , m as,

enfim , se deslocam . Só eu resto e envelheço nesta vida m odorrenta. Se ao m enos atingisse a beatitude burocrática do Filgueiras...

§ 83. A VIDA SE ENCOLHE.

 

DEDIQUEI todo o dom ingo à leitura dos quatro cadernos de que j á se com põe esta espécie de Diário. Não havendo outras, um a vantagem encontrarem os em deixar no papel o registro dos acontecim entos de nossa vida: verem os surgir aos nossos olhos, para instrução e advertência nossa um ser bem diferente daquele que supúnham os encarnar. Quantas contradições, quão diversos estados de espírito, que inexperiência, que desconhecim ento de nós próprios! Há pouco m ais de um ano escrevi a prim eira página. Outras se sucederam com largos intervalos. Eu não renunciara ainda ao proj eto de um livro de m em órias e m e consum ia em tentativas, repelindo as solicitações de um presente que se insinuava, sob m il form as, no m eu espírito e disputava lugar às im agens do passado. Depois, o caderno tom a a feição de Diário e nele passo a expor fatos, im pressões, ingênuos pensam entos, loucas fantasias.

De agosto a j aneiro, quase que escrevo dia por dia. A vida ganhou m ovim ento, colorido, em oção. Agora, o calor se vai, o m ovim ento am ortece, as coisas desbotam e se tornam m ais frias do que antes.

Nestes vinte dias não m e saiu sequer um a linha. Já não encontro, no ato de escrever, a satisfação de outros tem pos. Pouco há, tam bém , que escrever. Continuar a acom panhar a vida dos outros? Isso seria interm inável. A vida dos am igos apenas se m e revelou quando incidiu na m inha. Jam ais entrei nos seus dom ínios íntim os, e, se m ergulhei em Silviano, foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as m inhas incertezas. Só conhecem os, aliás, a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o m ais é conj etura ou rom ance. Não tenciono escrever rom ance.

E os am igos se desviaram de m im . Redelvim , que sem pre foi pouco afetivo, tom ou o seu rum o. Anda pela fazenda e dele não tenho notícias. Glicério deixou a Seção e passou a trabalhar nos serviços de advocacia do Estado: foi o bastante para afrouxar nosso convívio. Jandira se afasta cada vez m ais, quase m e parece estranha. Dentro em pouco, talvez nada tenham os de com um . Acabou o nam oro com o tal doutorando, m as deve ter arranj ado outros, pois não dá sinal de si. Vive no seu m undo de Pereirinhas e de Azevedos Leões. Apenas Silviano, ainda que pouco encontradiço, perm anece a oferecer interesse. Ah! É verdade: Florêncio não m e tem faltado. Mas continua Florêncio. Que dizer dele? É um hom em sem história, e nisso está sua felicidade.

Com o um ano, que passa, m odifica o aspecto das coisas! Minha vida se reduz a Em ília, Carolino, Giovanni e Prudêncio. Isto é: encolhe-se na Rua Erê, com o dentro de um caram uj o.

Leio um pouco e cam inho pela cidade, em com panhia do Carolino. Às vezes não encontro lugar que m e sirva, e ando, ando sem pre, com o Judeu Errante. Não procurarei os am igos: se não m e aparecem é porque j á não m e querem .

Creio que j á escrevi tudo o que havia em m im para escrever.

 

§ 84. UM "VIRA-LATA".

 

VOLTANDO para casa, esta noite, encontrei um pobre cão em ridícula postura. De tal m odo insinuara ele o focinho num a lata de lixo, que esta se lhe prendeu à cabeça, não m ais largando dali, apesar dos esforços desesperados do anim al. É o que presum o com indiscutíveis fundam entos, pois fui encontrar o rafeiro j á um tanto cansado, com as patas traseiras em repouso, o corpo apoiado nas dianteiras e o focinho para cim a, isto é, a lata para cim a, na direção das estrelas.

Com o eu m e aproxim asse, para o livrar do incôm odo apêndice, e ele ignorasse m inhas intenções, pôs-se a correr com o pôde, dando com a lata aqui e acolá, para tortura de um focinho possivelm ente m agro, a j ulgar pela m iséria orgânica do resto do corpo.

Afinal, deixei-o consigo m esm o. Bem podia ser que ele m e agradecesse o benefício com um a dentada, refleti, para ter em paz a consciência.

Era um autêntico "vira-lata", esse que surpreendi em tão difícil conj untura, na m eia-noite silenciosa da Rua dos Pam pas. O "vira-lata” deveria estar preparado espiritualm ente para sem elhantes situações. Não é m uito recom endável estar fuçando as coisas e quem as fuça deve agüentar as conseqüências, com a resignação de quem espalhou ventos e acabou colhendo tem pestades. Mas o cão não era porventura perm eável às palavras de eterna sabedoria, que por aí circulam nos adágios. Ainda o vi ao longe, batendo a lata em quantos obstáculos encontrava no cam inho.

Que pensaria ele naquela situação? O m undo, através de um a lata de lixo, não deve oferecer paisagens atraentes, ou arom as am áveis.

Sim patizei com o cão e lam ento que os anim ais não estej am a cobro do ridículo. Fez-m e pena, m as tam bém m e fez rir. E cá o ponho nesta página. Qualquer coisa m e liga a esse cachorro m agro e abandonado que encontrei na Rua dos Pam pas.

 

§ 85. UM POUCO MENOS PESSIMISTA.

 

OUTROS dez dias de solidão, e não resisti m ais: fui procurar Silviano esta noite. Estava fora. Joana, que m e recebeu com bondade, ofereceu-m e café e contou-m e que o m arido anda enfurnado em casa, dia e noite, á escrever, a escrever sem pre. Está fazendo um livro. Talvez sej a esta a razão do seu sum iço. Saiu hoj e apenas para ir à casa do Jerônim o, consultar a biblioteca. Inform ou-m e, ainda, de que o Jerônim o tem estado sem pre com ele. Brigam , brigam , m as cada vez andam m ais j untos.

Sendo apenas oito da noite, resolvi aproveitar a quebra do m eu com prom isso íntim o (o de não procurar ninguém ), e toquei para a casa de Jandira.

Lá cheguei à hora em que se retiravam o professor Barroso e D. Anita. Aproveitaram o rápido encontro para m e com unicar que estão noivos.

—Siga o m eu exem plo, doutor (o Alm irante tem a m ania de cham ar-m e doutor).—Olhe, vou aproveitar as forças que m e restam , disse, com m alícia, lançando à noiva um olhar lúbrico. Esta repreendeu-o:

—Você é sem m odos, Barroso. Fica falando bobagens com seu Belm iro. Não repare, não, seu Belm iro. Este velho anda m eio caduco.

—Caduco por sua causa, belezinha! disse Barroso, enlaçando-a pela cintura, j á a descerem a escada.

Jandira olhou, com um sorriso perverso, o par j á m aduro, que se afastava:

—Nasceram um para o outro... Não têm culpa de ter sido este encontro retardado pela vida...

E, virando-se para m im :

—Afinal, você por aqui! Por onde tem andado, m eu velho?

A acolhida m e anim ou um pouco. Jandira não está, assim , anedia com o supus.

—E você? Isso é m ais im portante, disse-lhe.

Contou-m e que tudo vai bem . Continua no em prego e foi aum entada no ordenado. Já não há Pereirinhas. O velho Sobral é bom chefe e am igo.

—E de am ores?

—Am ores, não hão, falou, sorridente. Resolvi dar um sentido m ais esportivo à vida. Descobri um a coisa cham ada flerte. É o que faço no m om ento. Vocês m e andavam envenenando com histórias. Redelvim queria tornar-m e revolucionária. Silviano pensava desesperar-m e, com suas loucuras (sabe que tentou conquistar-m e, o patife?). Glicério não passa de um convencido. E você m e intoxicava com literatura, com plicando tudo. São uns patetas, e eu era um a idiota.

—Mas essa vida, que leva agora, satisfaz?

—E a sua satisfaz?

—Bem , isso é verdade. Você acertou em nos deixar de lado.

—Não dram atize, Belm iro, deixe essa m ania de dram atizar. Não o pus de lado. O que faço é procurar viver. Arranj em outra, que vá na parola, e carregue os problem as da turm a.

E depois fez um a confidencia im prevista: Redelvim assediou-a tam bém .

—Im agine que coisa divertida. Ultim am ente, deu para perseguir-m e com propostas. Queria que fôssem os m orar j untos. Dizia que não havia de casar-se com o um burguês, de m odo algum . Sugeria o concubinato puro e sim ples, nada devendo prender-nos, desde que um dos dois não quisesse m ais o outro. Insistiu em que não se tratava do sentim ento capitalista denom inado am or. Obedecia apenas ao instinto, em bora não lhe interessasse reproduzir a espécie. Aborreceu-se, quando m e veio ver, depois da prisão, e encontrou, aqui, o Azevedo Leão, o Barroso e a Anita a j ogarem . Perguntei-lhe se estava possuído de um sentim ento burguês cham ado ciúm e. Quase m e bateu, de ódio... É fabuloso! A princípio tive pena, m as depois fiquei irritada. Vendo que eu não cedia, propôs-m e afinal, um casam ento, com todos os efes e erres... Ótim o! Im agine se eu iria casar com aquele m aluco! Agora m e escreve cartas de dez, doze páginas, continuou, dando um a gargalhada. Em um a delas tachou você de im becil.. .

—O extraordinário seria que não m e cham asse im becil, disse eu. Mas, a propósito de que desencadeou sobre m im o seu furor?

—A propósito de um a conversa que teve com você, antes de partir e logo que saiu da prisão. Vou buscar a carta.

Dentro em pouco, voltava, estendendo-m e um a folha de papel:

—Trouxe apenas a parte em que se refere a você. O resto são declarações am orosas...

Li o trecho:

"Quanto ao im becil do Belm iro, diga-lhe que não se considere triunfante com as coisas que m e ouviu. Aconteceu que eu m e achava num m om ento de dúvida e de fraqueza. Continuo onde estava, na estacada! O idiota é capaz de ter pensado que fraqueei em m inhas convicções."

Achei graça. Jandira m e perguntou se acreditava na sinceridade daquelas palavras. Respondi-lhe que sim .

—Pois você se engana. Diz isto apenas para posar. Quer que eu adm ire seu fervor revolucionário. Eu ainda não lhe falei que agora cuido de outras coisas.

Regressei, m enos pessim ista, da casa de Jandira. Mudou m uito, m as continua interessante. E sem pre desej ável. Bem que seria capaz de lhe propor casam ento... Ora, que tolice! Alguém m e quer? Quem poderia casar-se com igo m orreu há anos em Vila Caraíbas.

 

§ 86. SILVIANO E SEU PLANO DECENAL.

DEPOIS de prolongada ausência, surge-m e, afinal, o Silviano. Ia sair, à sua procura, quando ele m e bate à porta, sobraçando duas pastas de cartolina.

—Joana m e disse que você esteve lá, falou, sem m aiores cum prim entos, lançando sobre a m esa, com estrépito, a carga, presum ivelm ente preciosa. Estive recolhido em graves lucubrações. Eis o fruto delas!

E indicou, com o braço estendido, folhas de papel que, não cabendo dentro das pastas, am eaçavam despej ar-se pela m esa e pelo chão, de m odo catastrófico. Eu pretendia evitar o desastre, tentando arranj á-las a j eito, quando Silviano, pondo as m ãos sobre os m eus pulsos, im pediu-m e, com energia, de tocar nos papéis.

—Larga! Não vês que m e vais tum ultuar as notas? Conversem os, prim eiro.

Sentei-m e, intranqüilo, a seu lado, sem pre com os olhos nas pastas, que m antinham , com o lhes era possível, o precário equilíbrio.

—Há dois m eses, declarou, com solenidade, resolvi escrever a m inha vida. Fá-lo-ei em Mem orabilia, isto é, em form a de m em órias. Não m e sendo possível escrever, com o desej aria, todo o texto em latim , apenas os títulos dos capítulos e o da obra serão no idiom a de m eu dileto Sêneca. Não o Velho, o Retórico, m as o autor de De constantia sapientia e De tranquillitate anim i. Tenho um Diário, que rem onta aos longes de m inha infância, e nele encontro m aterial abundantíssim o.

—Magnífico! Sem pre achei que você deveria fazer isso.

—Não sej as im petuoso, Porfírio. Sofreia os teus ím petos! Nada viste, ainda. (Sem pre que m e repreende, passa a tratar-m e na segunda pessoa.)

Levantou-se e, para alívio m eu, retirou de sobre a m esa as pastas que ali se m antinham em duvidoso equilíbrio e m e assustavam , com a perspectiva de um desabam ento. Assentou-se de novo e, folheando as notas escritas em papel grosso e com tinta roxa, foi-m e expondo o plano da obra:

—Silviano, aos quarenta anos, intenta escrever a sua vida—De vita própria, disse-m e, com o que referindo-se a outra pessoa. Prim eiro, trata da sua infância e adolescência. Conta coisas mui secretas, no capítulo Cogitationes privatae; logo em pós, alude ao m orbo sagrado (capítulo Sacer morbus), que com preende a espécie am or. Inútil dizer que todos os psicólogos m odernos consideram o am or um a doença, em bora passageira.

Depois de um a pausa respiratória continuou:

—Evolui, porém , no herói o sentido de Vênus. Capítulo Evolutio Veneris, no qual o hom em , j á ao dealbar dos trinta anos, com eça a ter a intuição do problem a...

"Eis que, havendo, então, adoecido e passado longos anos em uso de com idas leves, lhe advém a preocupação com os alim entos e escreve o capítulo De usu ciborum. Acossado por grandes aperturas financeiras, o pensador solitário cai em pessim ism o e vê que pecuniae obediunt omnia—com o diz o Eclesiastes —"ao dinheiro obedecem todas as coisas". Dentro de sua m elancolia profunda, encontra, porém , forças para reagir e adota a filosofia lusa do "não te rales". Escreve, então, o capítulo Ars semper gaudendi...

"Aos trinta e cinco anos, continuou, gravem ente, vem -lhe grande onda de cepticism o. Aenesidem o, Euclides de Megara, Antístenes e Aristipo de Cirene, dialéticos, cínicos, hedonistas e pirrônicos sobre ele se atiram . Donde o capítulo De omnibus dubitandum. O herói continua a cultivar a ataraxia de Pirro e o cepticism o radical de Agesilau, Carneades e Sexto Em pírico.

"Não se fazem esperar as conseqüências, prosseguiu. Surge, de novo, o aeternus hostis, o Am or, em grande retorno. O herói ataca, então, num suprem o esforço, as grandes m editações sobre a Libido sentiendi, isto é, a gana de sentir, de gozar "em " ou "com " todos os sentidos.

"A Libido sciendi, que é outro capítulo, esclareceu o am igo, sem pre existiu no herói, que, desde verde, versou os bons autores e se afez ao vinho capitoso da filosofia. No final, terá de haver a sum a dos capítulos, preparando o capítulo-m estre, o capítulo m áxim o. Eis que Silviano, desde os trinta e cinco anos, farto de prazeres ilusórios, et pour cause m atrim oniado, pretende libertar-se da tristura de fera em j aula...

"Bendita a hora em que lhe veio tal intento! exclam a, com a soberba ênfase, bem sua. Por ele norteado, pôde, ao dealbar dos quarenta, subir a grande m ontanha! Dedicado ao labutar intelectual, de sol a sol, e atravessada a crise política (Libido dominandi), o herói atinge a via triumphalis da sabedoria e da libertação. Conhece, então, da vaidade de toda ciência (De vanitate scientiarum) e apreende a sutileza das coisas (De subtilitate rerum). Transpõe, aí, o m aj estoso pórtico, alcançando os dom ínios da verdadeira e perfeita filosofia (De vera et perfecta philosophia). Nela encontrará a Grande Consolação (De Consolatione Philosophiae)..." concluiu, suspirando profundam ente.

Estava com ovido.

—Diga-m e, agora, o que pensa, Porfírio.

Respondi que m e parecia interessantíssim o o plano do livro, e, desde j á, sentia vontade de o ler; confiava em que não lhe faltariam forças para atacar um a obra de tal porte. Bem achadas as suas epígrafes latinas. Convinha precaver-se contra algum a im itação involuntária.. . Eu m e lem brava de ter visto, em algum a parte, coisa parecida...

—Respiguei aqui e ali, respondeu. Je prends mon bien ou je le trouve. Já vem você com nugas. Porventura isso interessa? Pouco im porta que o evangelista João m e tenha fornecido epígrafes para três capítulos, ou que um a frase apanhada ao acaso m e descortine grandes paisagens, respondeu, um tanto desanim ado com a m inha m esquinharia.

Voltei ao principal, dizendo-lhe o que desej ava ouvir: devia m esm o prosseguir no trabalho, que poderia alcançar grandes proporções. O plano era notável. Quanto tem po gastaria para fazer o livro?

—Talvez uns dez anos... É um plano decenal. Só para delineá-lo gastei quase dois anos de estudo. Pensou que fosse coisa para j á? Com o é ignorante, Porfírio... Às vezes m e parece que você não vai além do Abundâncio, em m atéria de com preensão! Deverei concluí-lo aos cinqüenta.

—Surge, então, um problem a, arrisquei-m e a dizer. Aos cinqüenta, você j á terá, talvez, outro conceito da vida, inclusive do que sej a vera et perfecta philosophia. Vai certam ente reform ar tudo. É o defeito das obras escritas em tanto tem po. Proj eta-se um a coisa, sai outra.

—Não poderei exceder-m e a m im próprio, nem aos grandes doutores! disse, enfadado. As notas que tom ei até agora são a síntese do pensam ento filosófico que veio até a nós. Quanto às m inhas m editações próprias, acho-m e na força culm inante do espírito. Não poderei exceder-m e! Não m e faça obj eções idiotas. Bem , tenho m ais em que cuidar. Já lhe falei o que precisava e talvez tenha errado em ter falado. Enfim , carecia abrir-m e com alguém ... Até logo.

E saiu apressadam ente. Deu-m e pesar que a conversa não durasse m ais tem po. Mas Silviano se encoleriza com as m enores observações que eu faça. Do m esm o m odo se porta, quando perm aneço calado...

§ 87. MOCIDADE.

 

MANHÃ DE 28 DE FEVEREIRO.- Dei um passeio pelo parque em com panhia de Carolino. Sentado à som bra de um a gam eleira, fiquei a folhear o Herm ann e Dorotéia, enquanto Carolino andava de bicicleta pelas alam edas.

Fotógrafos se m antinham solícitos, j unto ao tripé de suas m áquinas, à espera de clientes, e os lagos, brilhantes de sol, eram cruzados por dezenas de barcos. Na ilha próxim a, o bar do alem ão, cheio de gente.

Súbito, m oças e rapazes invadiram o j ardim , em alegres pares. Adolescentes, entregavam -se, todavia, a j ogos infantis e corriam e brincavam . Ainda tenho os olhos cheios de sua lum inosa m ocidade, que dança diante de m im neste velho escritório.

Cantar-lhes-ei baixinho estes versos de Molière:

"Profitez du printemps

de vos beaux ans,

aimable jeunesse;

Profitez du printemps. . ."

 

".. .La beauté passe,

le temps 1'éfface,

Vage de glace

vient à sa place,

Qui nous ôte le goût de ces doux passe-temps."

 

§ 88. UM DIA COMO OS OUTROS.

A SEÇÃO DO FOMENTO se tornou inabitável com a saída do Glicério. Já não tenho com quem conversar. Que poderia encontrar de novo nestes velhos com panheiros? Todos adquiriram , de ha m uito, um a fisionom ia definida, im utável, que não se renova. A estim a que lhes dedico terá a natureza da que voto ao Giovanni ou ao Prudêncio Gouveia. É constante, m as se alim enta antes do silêncio que da conversação.

Resta-m e Carolino, é certo. Mas Carolino se conserva distante, durante as horas de expediente, respeitando a hierarquia burocrática.

Creio, além disso, que os cam aradas m e olham com algum a reserva. Pressentem , porventura, grandes abism os entre nós. Talvez tenham m ágoa de m im , supondo-m e alheio a tudo, im aginando que m al lhes noto a presença.

Já não tenho, pois, com quem conversar, e isso é grave para um a pessoa que foge de conversar consigo m esm a. Volto a preocupar-m e com a velha questão: que vim fazer neste m undo? Até agora nada realizei. E, para diante, são m enores as possibilidades de qualquer realização. Serei, m esm o, apenas o tal arbusto da chapada?

Jerônim o continua a enviar-m e recados, pelo Silviano. Percebo o cerco: adivinha m inhas fraquezas e faz-m e um a ofensiva em regra, para ter m ais esta presa, no seu rebanho de alm as. Grande presa.. . Dir-lhe-ei que terá nada m ais, nada m enos, que um presente de grego. Mas Jerônim o insistirá, pois é um terrível catequista. Talvez conseguisse m ais, tentando novam ente catequizar Jandira. Seria interessante prom over um encontro entre Jandira e Jerônim o. Havia de ser um a coisa épica: há dois anos atrás se conheceram , conversaram um pouco, e passaram a repelir-se im ediatam ente, com o duas forças opostas.

Surge-m e um a indagação: atingirei o Jerônim o, por via do Silviano. ou o Silviano se perderá com igo no seu mare magnum? A últim a hipótese é a m ais provável, se algum dia eu seguir as águas deste. Misturarem os as nossas dúvidas e tatearem os na grande confusão.

Que pena Glicério estar ausente. Poderíam os recordar, com saudade, os tem pos de Arabela. Já não é donzela, nem Arabela. É a senhora Jorge de Figueiredo. Mas. . . parem os por aqui; o prudente é não falar em m ulheres dos outros, m esm o de m odo platônico. O m arido pode não achar graça nessas coisas e m inhas costelas j á não agüentam pancada. Já não é donzela, nem Arabela. Onde andarão? Em Ostende ou em Biarritz? Estej am onde estiverem desej o-lhes felicidades e prole. Im agino essa prole, que bem poderia ser do velho am anuense. . . Passarei, com ovidam ente, as m ãos pelos cabelos de Carm elinha ou de Jorginho, se algum dia encontrar no Parque essas crianças e se a am a for pessoa de boa cara. Terão, com certeza, um a gorda am a alem ã, com o a que vi outro dia, sentada a um a m esa do bar, proseando com o Fritz na sua língua arrevesada, enquanto as crianças tom avam sorvete.

Sim , oferecerei um sorvete ao Jorginho e contar-lhe-ei histórias do Gigante Brasilião. Mas, que é isso? Estou arranj ando todo um enredo, com o o Silviano, na história de Parabosco Ferrabosco Ltda.

Por falar nisso, vou perguntar-lhe se a história acabou ou continua. Certam ente j á construíram , na Praça Sete, o grande prédio. Eu e Silviano poderíam os escrever um a novela de parceria, se não houvesse o plano da Mem orabilia.

Está bem , am igos, consegui vencer m ais este dia m orno da Seção do Fom ento. Soou a cam painha, m andando encerrar o expediente. Apanhem os o chapéu e apressem o-nos. O Florêncio nos espera, no local do costum e, para o chope do costum e. O chope é um a solução, pelo m enos por algum as horas.

 

§ 89. NHÔ BORBA.

 

NHÔ BORBA m e apareceu, de bota e esporas pedindo café e falando que a Chica está no m eio dos anj os, disse Em ília, ao servir-m e o prato, à hora do alm oço. Havia m uito que não m e falava em Nhô Borba. Entretanto, há de pensar sem pre nos velhos. De que pensam entos se alim entaria senão destes? Os vultos do velho Borba, da velha Maia e de Francisquinha devem rondar, em torno dela, m ais que em redor de m im . Ando em fugas freqüentes, com os olhos carregados de im agens e o espírito cheio de preocupações; a alm a sim ples de Em ília não encontra, porém , a que se aplicar, e há de estar perm anentem ente em bebida nessa atm osfera caraibana, vivendo dias que se passaram há vinte ou trinta anos.

Com o avulta, nesta casa, a figura de Em ília! Está velha, bem velha, e a pele encardida m al cobre os ossos. A gota ciática m uitas vezes a prende ao leito, im pedindo-a de ir à cozinha. Cham o, então, sua am iga Josefa lavadeira, que a substitui com o pode.

Pouco ou quase nada fala. É raro que m e com unique um a opinião, ou conte um sonho, com o fez hoj e. Dirige-se a m im por m onossílabos, com o o faz, de resto, à Zefa ou ao Carolino. Contudo, é a figura dom inadora da casa. A seu lado, sinto-m e quase um a criança, com o no tem po em que ela m e punha ao colo, para fazer dorm ir. Que pensará de m im ? Às vezes ralha com igo, cham a-m e "excom ungado", m as deve am ar-m e bastante. É um a figura dom inadora: para ela se transferiu a força do velho Borba.

—Nhô Borba não falou m ais nada? perguntei-lhe.

—Falou não. Mandou arreiá a besta e dis-qui-ia na roça do Corr-go.

Coitado do velho. Lem bra-m e o desgosto que se estam pava em sua fisionom ia, quando Em ília ou Francisquinha (antes de se agravar a perturbação desta últim a) falavam errado em sua presença. A velha Maia tinha, tam bém , grande tristeza, m as, espírito m ais conform ado, resignava-se. Foram criadas com o bicho-do-m ato. Com o isso doía ao Borba, que sonhava m andá-las estudar em Diam antina! Vivendo só na fazenda e em m eio de antigas escravas, que lá perm aneceram depois do 13 de Maio, Em ília e Francisquinha aprenderam com elas o pouco que sabiam do m undo e da língua.

No seu desgosto, o velho não pôde ver que a ignorância é m eia felicidade.

 

§ 90. LAGOA SANTA.

 

FIQUEI outros quinze dias sem m exer nestes cadernos. Creio que j á não tenho m ais nada para escrever, pois a vida se torna vazia, vazia.

Houve outro carnaval: passei-o em Lagoa Santa, em com panhia do Florêncio, para fugir das recordações e não ser tentado pela Avenida. Florêncio não foi por gosto. Mariana im pôs: ela e os m eninos precisavam tom ar um pouco de ar, e no carnaval não havia a desculpa dos negócios.

—Venha com igo, Belm iro. Lá não há chope fresco, m as há boa cervej a, disse-m e, com o se fosse eu o interessado no chope.

Levou roupa de banho e passava quase o dia todo na lagoa, enquanto eu lia m eia dúzia de livros que carreguei com igo. Certa m anhã, trouxe-m e um calção e queria por força que eu o acom panhasse. Foi preciso energia para resistir. Im aginem que figura faria eu, exibindo este corpo m agro e desconform e para a sociedade que deixou Belo Horizonte e foi brilhar na Lagoa... Havia três ou quatro m oças bonitas, com quem o Florêncio travou logo relações, aproveitando-se de um pequeno resfriado que reteve Mariana no hotel. Quis apresentar-m e: pedi-lhe que não o fizesse, pois am arguei bem m eu retorno às donzelas.

Diverti-m e, depois, à sua custa; com a chegada de uns rapazes, as m oças o abandonaram , sem a m enor consideração, e adotaram os novos com panheiros.

A verdade é que j á passam os, am igo Florêncio, e Silviano é quem está certo, na sua renúncia... com pulsória (estou convencido de que essa renúncia não é virtuosa, m as com pulsória). Por falar em Silviano, soube que, durante o carnaval, andou a m editar na Serra do Cipó, a m il e tantos m etros de altitude. Quanto a Jandira, não sei em que se ocupou. Glicério deve ter ido aos bailes dos clubes elegantes. E de Redelvim não há notícias. Que perm aneça na fazenda, é o m elhor.

O am igo Carolino, que m e fez a esm ola de ficar aqui em casa com a Em ília, durante m inha ausência de três dias, travou relações definitivas com Giovanni e Prudêncio. De m anhã, ou à noite, quando não está com igo, dá prosas interm ináveis com os dois. Ou com eles j oga escopa, no balcão do botequim .

 

§ 91. ESTÃO DE VOLTA.

 

RÁPIDO encontro com Glicério, na Praça da Liberdade. Está m uito satisfeito com o novo em prego, m ais adequado à sua situação de bacharel. Perguntou-m e gentilm ente pela Em ília e prom eteu um a visita à Rua Erê. (Am abilidades: estou certo de que não virá.) A conselho de um dos com panheiros, baniu a literatura de suas cogitações.

—O direito é árido, Belm iro. Lendo-se qualquer coisa m ais atraente, perde-se a coragem de m ergulhar nos tratados. Vou, pois, fazer este sacrifício.

Felicitei-o; suas palavras m e indicavam que havia, afinal, encontrado um rum o. Não gostou m uito da m inha precipitação, receando, talvez, que, chegada essa notícia ao Silviano, este lhe cancele o diplom a de clerc...

—Mas isto não quer dizer que eu m e afaste da roda, disse. Apenas provisoriam ente (enquanto tom o gosto pelos arrazoados) farei abstinência.

Ao despedir-se, deu-m e esta inform ação:

—Sabe que a Carm élia e o Jorge vêm por aí? Deveriam chegar ontem ao Rio...

—Não... O que eu sabia é que ficariam dois m eses por lá. Já com pletaram os dois m eses?

—Não sei. Parece que a viúva não anda m uito bem e pediu que voltassem .

Ao descer a Avenida João Pinheiro, fui contando nos dedos. Já se foram os dois m eses, e a doença da viúva não prej udicou o program a. Se a doença é grave, deveriam ter vindo de zepelim . Haverá, m esm o, doença, ou é fita da velha? Glicério disse há tem pos que ela tem m edo à m orte com o o diabo à cruz. Terão voltado pelo m esm o navio, o Oceania? Ou em barcariam no Cap Arcona? Talvez j á tenham chegado, e Glicério não saiba. Não se dem orariam no Rio, havendo doença, ou, pelo m enos, boato de doença. Estão certam ente hospedados na m esm a casa da dam a-da-noite, e ali irão m orar.

Mas... que tenho com isso? Já m e haveria desinteressado do assunto, se esse dem ônio do Glicério não ficasse a cutucá-lo. Para que m e conta essas coisas?

 

§ 92. AGRADEÇO-VOS OS SALPICOS.

 

EU ANDAVA pelo Parque, com o sem pre tenho feito ultim am ente. Um a chuva inesperada m e havia retido quase um a hora no, caram anchão do bar e, cessada ela, ali fiquei m ais algum tem po, por m inha conta, para ouvir uns restos de opereta que o alto-falante, fanhoso, espalhava no ar m olhado.

Depois saí às pressas, tendo verificado que se aproxim ava a hora do expediente da Seção. Já próxim o do portão que dá para a Avenida, quase fui apanhado por um carro, que vinha veloz. Os sons m usicais que ainda ouvia não m e deixaram perceber o ruído do m otor, e só a buzina, seguida de um chiado forte, de freios pisados com violência, pôde despertar-m e.

Assustado, quando j á não havia perigo, pois o carro parará, dei ridículo salto para um lado. Ouvi risos por detrás do pára-brisa. Eram Carm élia e Jorge. Muito confuso, fiquei a passar as m ãos pela roupa, fingindo-m e preocupado com a água de enxurro com que o carro m e salpicou.

Tanto se achavam enlevados um com o outro, que nem m e pediram desculpas. O carro se pôs de novo em m ovim ento e seguiu rápido. Era um carro grande de ricos, e trazia placa de Berlim . Na verdade, recebi apenas salpicos, m as bem poderiam ter dito qualquer palavra am ável. Lá se foram com seu nam oro de lua-de-m el. Já não é donzela nem Arabela. Para que m e aparecem ? Por que exatam ente a m im ? Secretas intenções do acaso, eu vos agradeço, hum ildem ente, os salpicos.

 

§ 93. MUNDO, MUNDO.

 

QUANDO Em ília bateu à porta do m eu quarto, acordei assustado. Já eram dez horas. Bocej ando, pus-m e a lem brar do sonho que tive, e que dirão literário, m as posto em m im deixa de o ser. Eu fazia longa viagem , e o calor e o cansaço m e derreavam . As coisas se tornavam confusas e os botões dourados da blusa azul do chefe de trem cresciam , cresciam , com o a querer invadir todo o espaço. Três passageiros que iam , silenciosos, em poltronas da frente, se levantaram , a certo m om ento, colocando-se em torno de m im . O prim eiro disse: sou o poeta irônico. O segundo disse: sou o poeta m ístico. O terceiro disse: sou o poeta sem nom e. Passando-m e a m ão pelos cabelos, falou o poeta irônico:

 

"Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução."

 

Com os olhos postos no céu, braços erguidos, o poeta m ístico indagava:

—"Senhor, são os remos ou são as ondas o

que dirige o meu barco?

—Eu tenho as mãos cansadas

e o barco voa dentro da noite."

 

E, saltitando, cantarolava o poeta sem nom e:

 

"Pirulito que bate, bate,

Pirulito que já bateu,

Quem gosta de mim é ela,

Quem gosta dela sou eu..."

 

Depois, braços dados, volteando em redor de m im e acom panhados pelo chefe de trem , que soprava um grande trom bone, cantavam a una voce:

 

"Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração."

 

§ 94. ÚLTIMA PÁGINA.

 

TENDO verificado que se esgotara m inha provisão de papel, Carolino m e trouxe esta m anhã um a porção de blocos. Sangrou rudem ente o alm oxarifado da Seção do Fom ento. . .

Previdente e providente am igo! Esqueceu-m e com unicar-lhe que j á não preciso de papel, nem de penas, nem de boiões de tinta. Esqueceu-m e dizer-lhe que a vida parou e nada há m ais por escrever.

Ai de m im ! É necessário, porém , fazer qualquer coisa, para em purrar os presum íveis trinta e dois anos que m e restam . Trinta e dois anos, sim . Em m édia, os Borbas vão até aos setenta, m esm o com o coração descom pensado. Acho-m e pouco além do m eio da estrada, e parece-m e, entretanto, que cheguei ao fim . Negação de Belarm ino, de Porfírio, de Firm ino e de Baldom ero... Dois deles, chegados aos oitenta, ainda pediam m ais dez. Viviam com plenitude os velhos Borbas da linha-tronco. Viviam a vida. Quando um tom bava, parecia queda de gam eleira ferida pelo raio. Não m orriam aos poucos, vendo o corpo consum ir-se lentam ente.

—Que farem os, Carolino am igo?

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