O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 51 de 51 · parte 3/4

Páginas do PDF

O Amanuense Belmiro

§ 48. Finados. 96

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Necessidade da ascese: "A sabedoria não entrará numa alma malévola, nem habitará um corpo escravo de pecados" (EspíritoSanto— Sabedoria I, 4)

 

Estas notas a m im confiadas, esclareceu Silviano, deverão fundam entar um artigo seu na Gazeta de Minas. Que o leitor as aprecie. O trabalho de lê-las (a caligrafia do am igo é im penetrável), resum i-las e copiá-las deixou-m e cansado. Tenho sono, e os bondes da m adrugada j á correm pela Rua Erê, fazendo estrem ecer as paredes do escritório. Devem ser cinco horas.

De um m odo geral e perfunctório, achei-as soberbas, no seu largo estilo silviânico, que pode tanger o ridículo, m as bordej a grandes abism os e procura culm inâncias.

Elas m e lem bram um Silviano m aj estoso que certa noite, no Alto do Cruzeiro, olhando para as estrelas e erguendo os braços, proferiu esta prece:

—Ó Inconcebível, ó Im ensurável, ó Transfinito, condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo, este pobre verm e, sopro dum instante, prestes a ser tragado no hausto universal!

 

§ 68. UM PROCURADOR DE AMIGOS.

 

AMANHÃ DE 21 DE DEZEMBRO (nove horas).-Madruguei em casa de Jandira para saber notícias do Redelvim . Eram sete horas, sete da m adrugada, conform e diz a am iga, sem pre revoltada contra o despertador, que a acorda e envia para o escritório com ercial onde entra às oito. Esperei-a um pouco, até que tivesse term inado sua toilette e pudéssem os sair j untos. A cam inho, perguntei-lhe se o nosso revolucionário não tinha estado lá.

—Com o? Já foi solto? interrogou.

Vej o que Redelvim ainda não a procurou tam bém , e isso m e adm ira porque, no m om ento, é Jandira a pessoa que ele m ais freqüenta.

Minha resposta, afirm ativa, causou-lhe um a alegria que m e fez lem brar os antigos tem pos de nossa convivência.

—Vou descobrir o urso, disse-m e, satisfeita, quando entrou na casa com ercial, despedindo-se com um aceno de m ão.

Voltei à Rua Erê, e, para aguardar o alm oço, ponho-m e a rabiscar estas linhas.

Devo nutrir esperanças, quanto a um a recom posição do nosso pequeno círculo, hoj e dissolvido, na realidade? Ou este círculo apenas existiu no m eu desej o? Os encontros que tivem os, tantas vezes, não evidenciaram , antes, um a im possibilidade de com ércio e de reunião entre elem entos tão diferençados? Bem vej o que, durante todo o tem po percorrido, a pequena roda não foi sustentada por força própria, nem pelos m isteriosos princípios de aglutinação que regulam as aproxim ações hum anas. Se Jandira e Redelvim —de um lado—e Silviano e Glicério—de outro—se entendem , o m esm o não acontece entre Redelvim e Glicério, Redelvim e Silviano, Silviano e Jandira, Silviano e Florêncio. Noto que fui eu, com o m eu desej o de sociedade, quem criou e sem pre procurou sustentar essa agitada assem bléia onde atuam forças tão antagônicas.

Finalm ente, as dissensões de pensam ento, agravadas pela atm osfera pesada deste fim de ano, lhe apressam a dissolução. Redelvim , anarquista; Jandira, socialista; Silviano, o hom em da hierarquia intelectual e da torre de m arfim ; Glicério, com tendências aristocráticas; Florêncio, tranqüilo pequeno burguês, de alm a sim ples, que não opina. Será certam ente im possível uni-los de novo. Por que hão de os hom ens separar-se pelas idéias? De bom grado, eu sacrificaria m inha idéia m ais nobre para não perder um am igo. Neste m undo, sou apenas um procurador de am igos.

 

§ 69. ENTREVISTA COM REDELVIM.

 

NOITE DE 21 DE DEZEMBRO.-Novidades no setor Redelvim . Por volta das oito horas, este nosso am igo veio procurar-m e para agradecer os livros, "em bora ordinários", que lhe m andei, durante o "retiro espiritual" (reproduzo expressões suas). Está um pouco m udado. Conhecendo a sua energia, não atribuirei essa m udança ao fato da prisão, que só poderia exacerbar-lhe o sentim ento revolucionário e j am ais intim idá-lo. O que terá determ inado tal transform ação foi o retiro espiritual, com o ele próprio denom ina sua reclusão involuntária. Isolado em pequeno com partim ento, levou, durante vinte dias, um regim e de vida que há anos não conhecia e lhe perm itiu talvez um a restauração nervosa. Vivendo inquieto, de redação para redação, abusando dos excitantes, alim entando-se pouco, dorm indo m enos, acossado pelos credores e explorado pelos diretores de j ornal, acabou por chegar ao "estado de raiva", com o diz Silviano. Confessou-m e que desde alguns anos não dorm ia regularm ente e que, nestes vinte dias, tirou todo o atraso. Provavelm ente esse repouso com pleto lhe ofereceu ensej o para um a revisão de rum os e reflexão m ais serena sobre as coisas.

Acredito tam bém (e isso aconteceu a m uitos) que o choque de novem bro tenha produzido no seu espírito um a descarga. A atm osfera foi opressiva, nos m eses que antecederam o golpe extrem ista. Redelvim os viveu agitadam ente, na expectativa de qualquer coisa extraordinária, que viesse satisfazer à sua necessidade de terrem otos e à sua revolta contra as coisas. Revolta decerto j ustificável, m as desorientada, quanto aos m eios. Em bora haj a abortado, a rebelião teve, psicologicam ente, efeitos consideráveis, operando essa descarga que deveria desoprim ir o am biente, dissipar as fantasias, dar rum os aos indecisos, despertar, de um m odo geral, o senso de responsabilidade de cada um , fosse de um lado, fosse de outro.

O certo é que Redelvim está diferente. Recordem os a conversação de há pouco: contou-m e, de início, que foi tratado hum anam ente na prisão; a princípio, esteve um pouco inquieto, supondo que o fossem enviar para o Rio. Refletindo, porém , sobre o assunto, considerou que, afinal, não existiam provas de sua participação no m ovim ento, e que a polícia do Rio, por outro lado, deveria estar com as prisões cheias de conspiradores. Concluiu que ficaria m esm o por aqui e seria, m ais cedo ou m ais tarde, posto em liberdade. Aliás, o delegado lhe deu a entender isso, depois dos prim eiros interrogatórios. Dissipado o receio da rem essa para o Rio ("Você com preende que seria bem pau, disse.

Aqui, pelo m enos, não há pedicuros. Lá, arrancando unhas, extraem da gente o que querem "), passou a encarar o caso corri espírito esportivo e deliberou tirar vantagem da situação, lendo, descansando e m editando.

Em sum a, disse-m e continuar contra o Estado burguês e capitalista, m as está picado pela desconfiança e pela incerteza e se j ulga um elem ento inapto para agir, pois não pode fazê-lo em estado de dúvida. Não quer cooperar para um a ação em cuj as diretivas não possa influir, pois tem e os desvios dum a ditadura. Meditara bastante sobre o conflito entre Trotsky e Stalin, e perguntara a si próprio se a ação de Stalin terá um sentido apenas particular e episódico ou, pelo contrário, exprim irá um a im possibilidade de realizar-se, na íntegra, a idéia m arxista. Depois de pensar m aduram ente, achou tam bém que o Brasil não está suficientem ente preparado e ainda não surgira a equipe que poderia organizar o pós-revolução. Por isso, vai abster-se da ação e será apenas um espectador, até quando lhe convier.

Nada m ais disse, a respeito, nem lhe foi perguntado. Creio, porém , que m e oculta um a reviravolta m ais profunda. Sua probidade intelectual foi, no caso, vencida pelo orgulho.

Perguntei-lhe por onde andou m etido, depois que o puseram em liberdade. Procurei-o em casa de Jandira e soube que tam bém lá não esteve.

—Cheguei até a porta do seu apartam ento, respondeu, contrariado; m as ouvi vozes lá dentro e voltei. Pareceu-m e que alguns im becis j ogavam com ela.

Por últim o, inform ou haver recebido um a carta da m ãe, pedindo insistentem ente que fosse vê-la. Não o faz há anos: ela é que aqui vem , sem pre que pode.

—A velha anda m uito doente e foi m orar na fazenda com o m eu tio. Estou querendo ir passar uns tem pos lá, se a polícia deixar. Está bem . Até logo.

Pus-m e a pensar em D. Maria Júlia. Redelvim , quando o conheci, estava brigado com ela. Viúva desde m uitos anos, resolvera contrair segundas núpcias. Passava, então, dos quarenta.

Acredito que se Redelvim houvesse ficado em sua com panhia o afeto m aternal lhe teria ocupado inteiram ente o coração e não a deixaria disponível para outros afetos. Mas ele veio para Belo Horizonte desde rapazinho, quando o pai sucum biu a um a hem optise, após longa enferm idade. Tem pos depois, a m ãe se casou com um pobre hom em que sofria um incôm odo nervoso, de cuj o nom e não m e lem bro, e que vivia a trem er. É dessas criaturas que têm vocação para o sacrifício ou que, então, se com prazem na dor, com o suporiam os suj eitos m aldosos. Acostum ou-se, sem dúvida, ao papel de enferm eira e, não encontrando j eito de continuar a exercê-lo depois da m orte do m arido, nem tendo perto de si o Redelvim , para lhe dispensar cuidados de m ãe, teve pena do infeliz e decidiu desposá-lo, decerto im pelida pelo m esm o sentim ento com que teria tom ado o hábito de irm ã de caridade.

Não com preendendo isso, Redelvim com bateu violentam ente e em vão o proj eto. Realizado o casam ento, ficou furioso e dispôs-se a não m ais ir vê-la, enquanto estivesse na com panhia do segundo m arido. Mas a velha vinha a Belo Horizonte sem pre que as circunstâncias perm itiam . Enviuvou pela segunda vez, há três anos, e, desde então, am iudou as visitas ao filho, dispensando-o de ir à procura dela. Há alguns m eses tem estado enferm a e quem fará a viagem agora é o Redelvim . Deve andar perto dos sessenta.

Bom será que a m ãe o retenha algum tem po na fazenda. Se ele voltar à vida antiga não a viverá m uito. Nem sei m esm o explicar com o a tuberculose, freqüente na fam ília, ainda não o colheu em suas m alhas. Parece-m e que só os nervos o sustentam .

 

§ 70. O HOMEM DO FUNIL.

 

FLORÊNCIO foi buscar-m e hoj e, à saída da Secretaria, para dar a grande notícia: obteve perm issão para voltar ao chope.

—O m édico apenas m e recom endou que não tom asse m ais de dez por dia, esclareceu.

Estava transfigurado: era o Florêncio antigo, am ável, galhofeiro. Levou-m e logo a um bar.

—E agora, Belm iro velho, beberei nem que sej a pelo funil!

—Funil? Por quê?

Dando um a gargalhada e segurando-m e com a m ão peluda, no antebraço, exclam ou:

—É verdade. Não lhe contei ainda a história do funil. E referiu-m e o caso de um tabelião Carpóforo, que conheceu num a cidade do Sul de Minas. Vítim a de um tum or m aligno que lhe com prim iu o esôfago a ponto de não lhe perm itir a ingestão, m esm o de líquidos, por via bucal, esse hom em teve de alim entar-se, nos últim os m eses de vida, por m eio de sonda introduzida diretam ente no estôm ago. Com o gostava m uito de beber, o m édico, que o sabia condenado à m orte, não o quis privar do vício. Servindo-se de um funil, o velho Carpóforo levava a bebida ao estôm ago, num gesto trágico e côm ico ao m esm o tem po. E, para consolar o paladar da passagem da bebida por outra via, bochechava com o resto que havia no fundo do copo.

Contou-m e tam bém que, perguntado pelo m édico sobre a natureza do alim ento tom ado em determ inado dia, o tabelião inform ava: "O que ele com eu hoj e foi um arrozinho m ole." Ou, então: "Ele tom ou um caldinho, doutor."

O "ele" a que se referia era seu estôm ago. Habituou-se a tratá-lo com o um indivíduo à parte, independente do organism o...

Florêncio relatou o caso com espírito, ilustrando a narrativa com adequada m ím ica.

Perguntei-lhe, depois, qual o m édico a que recorrera para obter a volta ao chope. Respondeu-m e que fora o professor Otelo.

Bem m e pareceu que havia de ser o Otelo. Convidou-m e um dia a tom ar sorvete, e eu estava m uito resfriado.

"É o m edicam ento específico", disse-m e. Aceitei o sorvete e apanhei um a gripe pneum ônica. Não acredita na m edicina (salvo na sua psiquiatria, em que— talvez por ser m eio gira—se tornou grande especialista) e faz hum orism o quando o procuram para outras m oléstias.

 

§ 71. ONDE APARECE O "DOUTOR ANGÉLICO"

 

CANSADO de escrever, e incerto quanto à conveniência de prosseguir nestas notas, pus-m e a ler um pouco, depois de dado um giro pela cidade.

Por que continuar tais confidencias, j á destituídas de intim idade, pois que m e dirij o sem pre a um leitor im aginário? Prom eti a m im m esm o que nunca escreveria um livro, se não lhe pudesse dar proporções m onum entais. E, logo ao iniciar a tarefa, pude ver que de m im nunca sairia um m onum ento; Jandira j am ais foi tão acertada com o quando, um pouco rudem ente, m e fez sentir isso: nada há de m im que possa interessar, de um m odo especial, a outrem .

Assim pensando, procurei, então, na leitura, satisfazer, ainda que em parte, ao m onstro literário. (O leitor é, de certa form a, um escritor frustrado. Incapaz de criar, com praz-se na criação alheia.)

Ia, pois, folheando autores prediletos, quando alguém m e bateu à porta da casa, com algum a veem ência.

—Quem é? perguntei, com preguiça de levantar-m e. Talvez fosse algum extraviado, e, nesse caso, o equívoco se desfaria sem ser preciso abrir a porta.

—É o Conde de Revila y Gigedo, responderam .

Não tive tem po de assustar-m e, pois reconheci logo a voz do Silviano e passou-m e rapidam ente pelo espírito a lem brança de um dia em que, andando a passos largos, no alpendre da casa, o am igo se referia, irritado, a um a de suas discussões com Redelvim : "Persegue-m e com a sua m ania de povo. Devia prim eiro indagar se povo existe! A m im , o hom em que tem o senso da hierarquia!"

E expôs-m e sua idéia de construir um castelo e com prar o título de Conde de Revila y Gigedo (nesse tem po am ava Dolores Gigedo, o "Perrexil"). Não receberia ninguém e teria cães ferozes para estraçalharem aqueles que viessem perturbar as m editações do Pensador. Próxim o à ponte levadiça, sem pre suspensa, ver-se-ia um cartaz: "Dom ínios privados do Conde de Revila y Gigedo".

Um a idéia bem d'annunziana, com o se vê. Não é por acaso que conserva um retrato do Poeta sobre a m esa. Retrato autografado, que lhe trouxeram da Itália.

Já lhes disse que o nosso am igo não se deixa m edir pela bitola com um : ora tem gestos soberbos, ora caprichos de criança; pela sua cabeça passam grandes coisas e tam bém coisas disparatadas. Não sei, além disso, até que ponto faz teatro para os outros e para si m esm o. Aquela história de Parabosco Ferrabosco, por exem plo: folheando outro dia um volum e de Ribot, em prestado pelo próprio Silviano, encontro, assinalado a lápis, um capítulo sobre im aginação difluente; seguia-se-lhe, no final, um a série de depoim entos de indivíduos do tipo "espírito rom anesco". Dar-se-ia que Silviano, sugestionado pela leitura, houvesse im provisado, para m im , a novela Parabosco? É possível, tam bém , que o fato de ter sublinhado o trecho signifique haver o am igo encontrado nele o estudo de caso análogo ao seu. Mas, com o chegar a um a conclusão?

Voltem os, porém , ao Conde de Revila y Gigedo. Silviano não m e deu tem po para cum prim entos. Aberta a porta, disse-m e à queim a-roupa:

—Vim buscá-lo para irm os j untos ao Doutor Angélico. Vista-se, o carro está à porta. Acabo de fortalecer m inhas convicções a respeito do cepticism o de Pascal. Im agine, Porfírio, o Saisset o coloca entre Aenesidem o e Kant! Quero que você assista ao em bate: vou fulm inar o Doutor Angélico! Ah! ah! ah!... ("Doutor Angélico" é o Jerônim o. Silviano assim o apelidou por causa de sua profissão de fé tom ista.)

Im aginei que deveria ser sensacional um a luta entre os dois. Em bora tom ista, Jerônim o é um pascalizante, segundo m e inform a o Silviano, que, de há m uito, sustenta com ele interm inável discussão sobre a posição de Pascal perante a Igrej a.

Entretanto, obj etei ao Silviano que, leigo no assunto, m inha presença seria talvez ridícula.

—Não. Quero que venha. Você vai testem unhar um espetáculo soberbo! respondeu-m e.

Seria inútil qualquer resistência, e, por isso, acom panhei o filósofo.

Chegados à casa do Jerônim o, Silviano levou-m e pelo braço e foi entrando portas adentro. Surpreendem o-lo em sua biblioteca, a folhear um pequeno volum e de Luc-Benoist: La Cuisine des Anges. Silviano lho tom ou das m ãos, passando-o para as m inhas, e disse:

—Leia isso, seu Angélico. Leia isso. É o que há de definitivo.

—Que é? O Saisset? perguntou Jerônim o com ar desdenhoso.

—Leia. Leia. Você verá que Pascal é um caso típico de suspensio j udicii sceptica.

—Absolutam ente! tornou o Jêronim o, com calor. Já lhe disse que caiu, no m áxim o, num a suspensio j udicii indagatoria. Você incide no m esm o erro da corrente racionalista do estúpido século dezenove.

—Leia, faça o favor, seu energúm eno!

—Ora, Silviano, não m e faça perder o tem po. O Brem ond responde a tudo isso. Você sabe que os j ansenistas.. .

—Lá vem você deslealm ente, com o sofism a das edições m utiladas pelos j ansenistas... cortou o outro, com um sorriso vitorioso.

—Os j ansenistas, continuou Jerônim o, voltando-se, agastado, para m im , publicaram , em 1670, um a edição dos Pensam entos suprim indo o que lhes não convinha. Desde as edições de Brunschvicg e Strowski...

—La vieille chanson... aparteou Silviano, com enfado.

— ... não se insiste m ais neste grosseiro erro, gritou Jerônim o, gesticulando nervosam ente e dirigindo-se a m im , sem prestar atenção ao Silviano. Toda a crítica m oderna da França é unânim e em reconhecer que ele superou o seu cepticism o.

—Oh!!! exclam ou Silviano, dando um a gargalhada. "Mentis pela gorj a, perro aleivoso!"

—Pascal foi um herético, m as penitenciou-se, depois, de suas heresias j ansenistas! O abade Beurrier, que o assistiu, nos últim os anos, afirm ou que "il est m ort en bon catholique"... "parfaitem ent soum is à l’Eglise et à Notre Saint-Père le Pape".

Silviano puxou-o, então, pela m anga do paletó, exclam ando:

—Mas, deveras, você, Jerônim o, em prega argum entos dessa natureza? Eu m e apoio nos próprios textos de Pascal! E em qualquer edição que você queira, entende? Ao seu Beurrier, respondo com Cousin, Michelet, Bréhier... Ou m elhor, vej a sim plesm ente a Enciclopédia Espasa, que é de Jesuítas... Pascal é arrolado entre os cépticos...

Jerônim o ficou um tanto perturbado com a arrem etida. Não respondeu de pronto e se pôs nervosam ente a tirar livros das estantes, colocando-os sobre a m esa ou em pilhando-os em m inhas m ãos.

Silviano tirou partido da situação:

—Não quer confessar que os Jesuítas são suspeitos, .quanto a Pascal, hein?

—Estou apenas procurando forrar-m e de caridade cristã, para poder conversar com um sofista de sua laia, respondeu Jerônim o. Sua m á-fé é evidente. Já lhe disse que, m ais tarde, Pascal reconheceu os seus erros. . .

E por aí continuaram , travando acalorada disputa nos dom ínios da teologia. Até àquele m om ento eu conseguira entender o que diziam , por se tratar de um tem a fam iliar ao Silviano, m uitas vezes obj eto de suas conversações com igo. Mas, desde então, se perderam em tais funduras, que m e senti im possibilitado de acom panhar a discussão. Para repousar o espírito, aliviando-o da forte tensão a que os am igos o obrigaram , passei a um quarto contíguo, onde havia um a cadeira austríaca, própria para cochilos. E ali cochilei, tendo nas m ãos um volum e dos Pensam entos que o Jerônim o deixara nelas. Tive a im pressão de que se passara um tem po considerável quando despertei, com o barulho de livros que desabavam de um a prateleira. Fui ver os dois. Não era nada: m exendo desaj eitadam ente na parte superior de um a das estantes, Jerônim o provocara o desabam ento.

Voltei e fiquei a folhear o livro, origem de tam anhas querelas. A certa altura, encontrei palavras que pareciam adequadas a m im e, interessado, ia prosseguir no capítulo, quando os dois sutis doutores vieram buscar-m e. Estavam cansados e com binaram um a trégua até ao dom ingo seguinte.

Talvez por gentileza, para m ostrar-m e que notava m inha presença, Jerônim o procurou diagnosticar o m eu caso, dizendo que vivo em dúvida e isso não é possível. Terem os de duvidar da própria dúvida e, então, a dúvida não subsiste. Por outro lado, se acreditarm os na dúvida, j á não duvidam os...

Foi o bastante para que se ateasse nova discussão. Tendo eu ficado quieto, a braços com a m inha incapacidade de debater o assunto, Silviano tom ou-m e a defesa, dizendo ao Jerônim o que não declaro dúvida. Minha situação é de não negar, nem afirm ar.

Ao que Jerônim o respondeu tratar-se de outra atitude im possível, pois que o espírito é ativo; foi feito para afirm ar e não pode estar inerte...

Silviano pareceu abalado e, m editando, disse:

—E, no entanto, ele assim é...

—Im possível, Silviano. Só é adm issível isso com o atitude provisória. O espírito foi feito para afirm ar...

Lem brando-m e do pensam ento lido pouco antes, deliberei dar um ar de m inha graça, e disse que eu pertencia ao núm ero daqueles "infelizes e razoáveis", de Pascal; porfiam em procurar a Deus, sem o terem ainda encontrado.

Silviano aprovou, com um sorriso condescendente, as m inhas palavras. Mas Jerônim o, ágil e eloqüente, atalhou, pondo-m e a m ão sobre o om bro:

—Mas Pascal tam bém escreve: "Console-toi, tu ne me chercherais pas si tu ne m'avais trouvé"...

Foi o fim da conversa. Silviano lem brou que eram onze da noite e Joana deveria estar aflita. Despedim o-nos.

De volta, disse-m e, no seu conhecido estilo:

—Ora, o nosso Doutor Angélico! Foi pena que você não assistisse à últim a fase dos debates. Veio para m im com as delgadezas e im pertinências da Escolástica! Mas apanhei-o num a ignorantía elenchi, num a fallacia consequentis e num abuso de fallacia plurium interrogationum... Não pode com igo! Não pode com igo!

Separam o-nos em um a parada de bondes. Ainda estou um pouco aturdido pelas coisas que ouvi e não m e adm irarei de que —ao tentar resum i-las nestas páginas—tenha dito algum disparate. Com o vêem , não perdi a noite. Instruíram -m e bastante, e é possível que eu venha a tom ar gosto por esse gênero de polêm ica.

 

§ 72. PERPLEXIDADE DE GLICÉRIO.

 

GLICÉRIO colou grau hoj e e fui assistir à cerim ônia, que teve algum a im ponência. Term inada a festa, cada bacharelando saiu de braço dado com a irm ã, noiva, m ãe ou nam orada. O bacharelando Glicério de Sousa Portes saiu pelo braço do am anuense Belm iro. A fam ília m ora nos confins do Triângulo e não pôde com parecer ao ato, por m otivo de m oléstia do chefe, o coronel Portes.

A indecisão e o desânim o de Glicério m e causam pena. Não sabe o que vai fazer do diplom a. Deixa ou não deixa a Seção do Fom ento Anim al? Pega, ali, os seus seiscentos m il-réis, quantia que os advogados novos, cá fora, não estão ganhando. Além disso, não se sente atraído pela profissão. Apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso. Tam bém não quer ir para o interior.

Confessou-m e que não se j ulga habilitado para coisa algum a e há m uito tem po esta idéia o am ofina. Andou tentando vários cam inhos, inclusive o de rapaz elegante, m as acabou no ilícito com ércio literário, traficando entorpecentes com Silviano. E nesse setor não espera produzir nada.

Procurei consolá-lo, dizendo-lhe, à m aneira de Jerônim o, que isso não poderia ser senão um a atitude provisória; haverá de encontrar o seu rum o. Lem brei-m e, a propósito, da situação do Sepúlveda (o do bilhete de loteria), que, aos cinqüenta anos, ainda não achou coisa a que se aplicar. Não encontra, na Seção do Fom ento, os atrativos que lhe descobre o Filgueiras (o de lunetas douradas) e vive em tentativas: colecionou selos, criou canários de briga, estudou esperanto, virou integralista e, por fim , abraçou o espiritism o.

E lem brei-m e de m im , tam bém . Por que não? Fali na vida, por não ter encontrado rum os. Este Diário, ou coisa que o valha, não é sintom a disso? (Ocorrem -m e um as palavras bem significativas de Gregorio Marañón: "En el hombre adulto la práctica delDiário equivale a una supresión progresiva de la personalidad activa, social, de su autor. En realidad un Diário equivale a un lento suicídio.")

Depois, perguntei-lhe para m udar de assunto:

—E a Nonoca? Acabou-se o nam oro?

—Você anda no m undo da lua. Aquilo era um passatem po. Foi bom para ela: está quase noiva de outro, e com igo não haveria casam ento.

Tom am os um chope, passeam os pela Avenida e nos despedim os. Não se falou em Carm élia.

 

§ 73. MAIS UM NATAL.

 

MERRY CHRISTMAS, Mister Belm iro.

—Merry Christm as, Mister Prudêncio.

—Bom dia, Giovanni. Muito obrigado pelo Chianti e pelas castanhas. Com o vai a Marianina? E o Pietro?

O relógio de repetição dá oito horas na sala de j antar. Em ília volta da m issa, com o vestido novo que exum ou da canastra e cheira a naftalina. Vestido de cetineta, presente do Glicério.

—Vam os tom ar um cafezinho quente, am igos. O Senhor estej a convosco.

§ 74. SERÁ NO DIA QUINZE.

 

SERÁ no dia 15 de j aneiro o casam ento. Daqui a dezoito dias. É o que Glicério inform a, acrescentando que a viúva j á regressou do Rio, com as peças do enxoval. Hoj e é assim . Com pram tudo feito. Em Vila Caraíbas, um a donzela levava um ano a preparar enxoval. Fazia riscos, bordados, m andava vir rendas de Grão Mogol, cosia com am or, aprendia a arte do bilro. Era um gosto ver essas coisas. Agora, tudo vem feito, em caixetas. Com certeza, em caixetas.

Irão m esm o à Europa. Dois proveitos num saco. Coisa de filis-tinos. Qual foi m esm o o vapor que Glicério disse? Oceania, se não m e engano. Terão de esperá-lo no Rio. Só zarpa a 18. Que tal um a ida ao Rio, para assistir ao em barque, com grande indiferença? Ora, seu Belm iro, basta a idéia de ir ao Rio para excluir a de indiferença. Fique sossegado na Rua Erê e deixe-se de histórias. Lem bre-se daquele arranj o seu: "o m ito Arabela". Para todos os efeitos, você am ou o m ito e não a m oça. Estabelecido que um a coisa não é outra, fique com o seu m ito e deixe a m oça passear. Sej a lógico, com o o Jerônim o. Ou então declare-se de um a vez. Diga que ainda am a a Carm élia, hum anização do m ito etc. Nesse caso, torna-se razoável um a ida ao Rio, para assistir à partida, isto é, para torturar-se. Masoquism o espiritual. Sim , você não passa disso: um m asoquista. Que diria o velho Borba? Um Borba teria furtado a m oça e a levaria na garupa do cavalo, para a fazenda de Vista Alegre. Mas você não é Borba, você é um pobre flautista. Seu destino é sonhar, na Rua Erê, im praticáveis donzelas. E m orrerá donzel. Dom Donzel da Rua Erê.

 

§ 75. NOVAS AQUISIÇÕES.

 

O SENHOR pode dizer-m e o que é abj eto?

—Para que você quer saber isso, Carolino?

—O senhor acha que eu sou um hom em abj eto?

—Ora, Carolino, deixe-se disso. Você não tem nada de abj eto.

—Que é psicopata?

—Psicopata?

—Sou psicopata, sou?

Perguntas desse gênero Carolino sem pre m e fazia. Nunca lhe prestei m uita atenção, aceitando a opinião geral da Secretaria: era um aluado. Com o disse atrás, apenas o fui conhecer m ais a fundo quando, no dia da prisão, esteve aqui em casa para fazer com panhia a Em ília. Naquele dia, ou m elhor, naquela noite, conversam os longam ente. A vida é um constante descobrim ento e um a retificação constante. Convivo com essa criatura há seguram ente um lustro, e passou-m e despercebida até hoj e. Coisa algo parecida ocorreu-m e com relação ao Silviano. No curso de uns oito ou dez anos não lhe conheci senão o pitoresco ou, antes, o caricatural; entretanto, neste ano de 35, um outro Silviano tem crescido a m eus olhos, descobrindo-m e regiões novas, inexploradas, de seu espírito. E tudo por causa da indiscrição de haver lido um a página do seu Diário. Foi essa indiscrição que deu novo rum o às nossas conversações.

Devo corrigir o pensam ento pessim ista, que ficou para trás, quando lam entei a quase dissolução de nosso pequeno círculo. Disse, então, que j á não estou em idade para arranj ar novos am igos e hoj e m e convenço do contrário: havem os de fazer descobertas até o últim o dia. Penso nesse excêntrico e bom Carolino, que m e com parece nesta altura da vida.

Deu para freqüentar, pela m anhã, a Rua Erê e fica a conversar com Em ília até que eu m e levante. Assum iu a gestão de m inha com plicada contabilidade. Calcula m inhas despesas, recebe o dinheiro para os pagam entos m ensais, incum be-se de um a tarefa que sem pre m e pareceu transcendente: a seleção dos credores. Esta consiste em separar, por eqüidade, as contas que devem ser pagas no fim do m ês, pois o dinheiro é pouco e os pretendentes, m uitos. Às vezes m e adianta os pagam entos, fazendo-os do próprio bolso. E não aceita rem uneração de nenhum a espécie. Quando, certa vez, insisti em lhe pagar o trabalho, m ostrou-m e um a caderneta de depósito no Banco: possui setenta contos, parte provinda de herança, parte de econom ias próprias, pois é m uito seguro.

Carolino procurava apenas isso: um a pessoa com quem pudesse conversar. Todos o j ulgavam desm iolado. Desde que, levado por sim patia e curiosidade, com ecei a cultivá-lo, procura retribuir, com o entende, a estim a que lhe voto. Tornou-se um personagem indispensável na Rua Erê.

Já não m e pergunta se é um a criatura abj eta. Parece que lhe tirei o com plexo de inferioridade. Procedente de boa fam ília, não pôde estudar, nem ocupar posição igual à de com panheiros de infância, hoj e bem postos na vida. O pai tam bém se enganou sem pre, quando o supôs débil de espírito, e ele acabou com o contínuo quando deveria ser am anuense ou—por que não?—prim eiro-oficial.

Celebro, nesta página, a aquisição do novo am igo. Ê inteligente e dedicado. Em ília aprecia-o m uito, e Tom e, em sua caduquice, ainda encontrou m eios de se lhe afeiçoar. Carolino pega a ave e passeia, com ela, pela rua. Que pensará Tom e dessas aventuras a que há tanto tem po não se entregava? Carolino, que parece desej ar adotar outros am igos m eus, está se aproxim ando do Giovanni e do Prudêncio Gouveia. Foi o que notei esta m anhã, quando, há pouco, veio repetir-m e coisas do Piem onte—j á de m im conhecidas, a ele contadas pelo velho—e quando m e disse que foi visitar seu Prudêncio, com ele dando um a prosa.

Se eu for, m esm o, ao Rio, Em ília será confiada ao Carolino. Mas, que conversa é esta de ir ao Rio? O m elhor seria ir à Vila e não pensar m ais nestas coisas.

 

§ 76. ORA BOLAS.

 

UEM quiser fale m al da literatura. Quanto a m im , direi que devo a ela m inha salvação. Venho da rua oprim ido, escrevo dez linhas, torno-m e olím pico.

Descobri o segredo do Silviano: transferir os problem as para o Diário e realizar um a espécie de teatro interior. Parte de nós fica no palco enquanto outra parte vai para a platéia e assiste. O indivíduo que representa no palco nos fará rir, nos com overá ou nos suscitará graves m editações. Mas é um indivíduo autônom o, e nada tem os que ver com suas palhaçadas, suas m ágoas, ou sua inquietação. Term inado o espetáculo da noite, tom am os o bonde e vam os para casa sossegados, depois de um chocolate.

Durante o dia, o com ediante se encarnará em nós e terem os de tolerá-lo. Mas à noite, com a pena entre os dedos, som os espectadores sem com prom issos.

Em verdade vos digo: o que escreve neste caderno não é o hom em fraco que há pouco entrou no escritório. É um hom em poderoso, que espia para.dentro, sorri e diz: "Ora bolas."

Prim eiro de j aneiro—ora bolas. Os am igos andaram sum idos— ora bolas. Vi a donzela com o noivo—ora bolas. Será m esm o no dia quinze—ora bolas. Lá se foi o ano—ora bolas.

 

§ 77. EIS-ME NO RIO.

 

EIS-ME nesta m ui leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Deixei Belo Horizonte com antecedência de alguns dias para não dar na vista do Glicério. Senti desej o de vir, e vim . De que vale a gente viver a contrariar-se? Por si m esm a a vida j á nos im põe tantas lim itações...

Bravo! Com ecei bem a j ustificação de m inha fraqueza alegando as im posições naturais da vida e daí concluindo que não devem os m altratar o irm ão corpo com outras privações. Sem pre há um argum ento para os hom ens de boa vontade, e isso deve ficar escrito aqui, com o defesa prévia, para o caso em que eu venha a ralhar com igo m esm o por haver com etido esta proeza: "A vida j á..."

E é isso m esm o: por que havia de m ortificar-m e? O desej o de vir não foi veem ente: era, apenas, um a vaga idéia. Mas tudo conspirou a favor. Falando por alto com o Chefe, este se prontificou a arranj ar-m e passe e diárias: "Precisam os, m esm o, m andar alguém ao Ministério da Agricultura, para estudar os m étodos de propaganda postos em prática pelo técnico am ericano que o Governo Federal contratou—disse. Fique lá uns dias e traga-m e um relatório. Vou com binar isso com o Diretor." E Em ília não fez m á cara, quando toquei no assunto; partiu dela própria a idéia de se cham ar o Carolino, para lhe fazer com panhia em m inha ausência.

Glicério ficou inform ado apenas da versão oficial dos acontecim entos: com uniquei-lhe que o Chefe, com grande surpresa m inha, m e havia designado para ir ao Rio, em tal com issão, etc. Muito m alandro, fez disso m otivo de troça e quis dar-m e uns "endereços"... Aceitei-os, m as tratei de esquecê-los no bureau da Seção.

Estarem os am ando neste m om ento? Creio que não. Sofrem os apenas difusa m elancolia, contraditório desej o de ver consum ados o casam ento e a partida. Exam inando as coisas a fundo, não terem os vindo som ente pelo am or. Havia, tam bém , a necessidade de rever o Rio (seis anos sem o ver) e de espiar o Atlântico.

Nossos am igos cariocas não sabem o que vale o m ar para nós, de Minas.

Desde cinco dias não faço outra coisa senão freqüentá-lo no cais, na praia, pela m anhã, pela noite. Anda enfurecido e som brio, arrastando sua língua difícil. Tenho tentado, em vão, conversá-lo: está inacessível.

Perco-m e, tam bém , na contem plação com ovida deste Rio velho, deste Rio torto e encardido, que é o que am o. A cidade nova e brilhante, que nasceu dos flancos da outra, m e assusta e intim ida. O Rio antigo traz-m e im agens m achadianas que am ei na adolescência.

Percorrendo a Rua Matacavalos, pensei, com saudade, naqueles cavalheiros que andavam de tílburi, j ogavam voltarete e tinham , sobre o m undo, pensam entos sutis. Divisei, a um canto, o vulto am ável de Sofia e tive dó do Rubião. A m eus ouvidos, m ana Rita fazia insinuações (Cale a boca, m ana Rita...). Em certo bonde, que m e pareceu puxado por burricos, tive a m eu lado Dom Casm urro, e lobriguei, num a travessa, dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lam piões: Capitu e Escobar.

Andando sem pre, e a pé (não aprendi, ainda, a usar convenientem ente os ônibus), tam bém fui dar com igo em regiões não m achadianas. Os passos m e levaram , distraído, a certos quarteirões m ovim entados, ribeirinhos do Mangue. Jam ais m e passara pela idéia um a visita a paragens tais, m as, com o j á ali m e achasse, m oveu-m e a curiosidade de exam inar os transeuntes e o local. Não fui m uito adiante: encontrei m ilitares de terra e m ar algo tocados, que com eçaram a olhar-m e de soslaio, e tratei de retirar-m e com dignidade. Atrás, algum as dam as de poucas ou nenhum as vestes m e propunham em francês coisas não m uito adequadas ao m eu ofício e condição. Safei-m e daquele m ercado estranho, com o peito deprim ido. Ali nenhum a ilusão era possível.

Velho conhecido m ineiro, encontrado no Ministério, levou-m e ontem a um local encantador, a que dão o nom e de Juá. Pode-se, ali, beber um a cervej a m odesta, contem plando um a sociedade que está sem pre a renovar-se, num entra-e-sai de teatro de revista. Aboletei-m e a um canto, com o am igo, e pus-m e a olhar m ulheres finas e possivelm ente caras, que chegavam em grandes autom óveis, sobraçando cãezinhos peludos, de corpo longo e pernas curtas. Pelo que m e disse o com panheiro, um anim alej o daqueles custa o preço de um a coleção de clássicos Garnier. Fossem dam as da alta-roda ou sim plesm ente m undanas de luxo, aquelas criaturas deslum braram o pobre solteirão da Rua Erê e no seu coração instilaram ferm entos perturbadores.

 

§ 78. O PROVIDENCIAL IRMÃO LUSO.

 

POR pouco, este corpo m agro teria ficado hoj e no asfalto da Avenida. Cruzando-a em hora de intenso m ovim ento e descuidando-m e de observar os sinais, quis, a passos rápidos, ganhar o lado oposto, o da Biblioteca Nacional, quando recebi um forte puxão no colarinho, e fui arrastado até o passeio. Devo ter tido um a vertigem , tal a violência do puxão, que por pouco m e asfixiava. Sentado no m osaico e j á cercado de curiosos, estava m eio tonto, sem atinar com as coisas, quando pude identificar um a voz:

—Se não o pego de j aito, vosm ecê iria desta pra m elhoire...

Foi, pois, um irm ão dalém -m ar quem m e salvou. Talvez não tenha vindo de Portugal senão para livrar um am anuense incauto das rodas de um ônibus assassino.

—Quase o esgano, haim ? Mas, se não é o golpe...

Agradeci, com ovido, ao luso am igo, louvando-lhe a destreza e segurança dos m úsculos. Alguém , que estava na roda de curiosos, dirigiu-se, então, a m im : era o doutorando Azevedo Leão, conhecido em casa de Jandira.

—Que foi isso, Sr. Borba? Um pequeno susto, não é? (assum ia um ar paternal de esculápio).

Levantei-m e e, ainda um pouco tonto, fui com ele a um café próxim o. Contou-m e que estava de passeio no Rio. Andando pela Avenida vira um aj untam ento, entrara nele e, com grande surpresa, m e reconhecera.

Perguntei se tinha vindo há pouco e pedi notícias de Jandira.

—Boa pequena, Sr. Borba. Mas, perfum arias, perfum arias. Não rende. Dei o fora. Deixei-a com suas literaturas.. . Fez-m e perder m uito tem po...

Era o m esm o hom em im portante, de charuto entre os dentes. Pela conversa, verifiquei que houve, m esm o, nam oro. O pirata se iludiu, porém , com a am iga. Queria certam ente desfrutá-la, m as a m oça reagiu à altura. É um a pequena leoa, e sabe defender-se.

Depois de andarm os um pouco a pé, despedim o-nos. Recolhi-m e ao hotel.

Neste quarto som brio, a solidão está-m e castigando m uito. As saudades de Minas m e trabalham surdam ente. Aos prim eiros dias, havia m uito que ver, e coração e espírito se fecharam para as coisas de dentro, ocupados com vertiginosas im agens sofregam ente sorvidas do exterior. Mas o cansaço vem vindo, vem vindo, e j á não penso senão em voltar. Am anhã, dezoito, deixarei o Rio, sem ver a partida. Estou cansado, cansado. Ou fico um pouco m ais?

 

§ 79. PARTIDA.

 

PARTIRAM, enfim . Mal os vi. Metido no m eio da m ultidão, no cais, procurando-os aqui, procurando-os ali, só os encontrei com os olhos quando subiam para o vapor.

Irritado com igo m esm o, perguntei-m e se foi para "aquilo" que viera ao Rio. Eram viaj antes perfeitam ente vulgares, com o centenas de outros. E não aconteceu nada de excepcional. A terra não trem eu, nem houve eclipse do sol.

Se fiquei triste, foi com a saída do navio. Um a saída de navio é sem pre coisa triste. Vai-se afastando, vai-se afastando, até sum ir-se no azul. A gente fica pensando nas terras do lado de lá, fica desej ando conhecer tudo, correr o m undo, dentro de um a Nau Catarineta que j am ais chegaria a porto algum .

Entretanto, senti-m e vazio pelo resto do dia. Tive a im pressão de que m e haviam roubado qualquer coisa. Andei, andei, m as sem pre retrocedendo para o m ar, que m e atraía. Preciso voltar para Minas. O m ar m e perturba. A paisagem , de rio e floresta, está presa a um a condição m elancólica: foi feita para ser vista apenas um a vez. Margeei longam ente, num a viagem , um grande rio. Na luta para alcançar o m ar, ele descobria o que de m ais surpreendentem ente belo tenho visto em perspectivas naturais. Ao voltar, depois, pelo m esm o cam inho, apiedei-m e do rio, da floresta e da serra. Foram feitos para ser vistos apenas um a vez. Já nenhum interesse havia na escura, densa m ata. Nenhum interesse nas praias fluviais, onde o sol caía reto, fazendo resplandecer cristaizinhos de m il cores. Tornaram -se coisas velhas, coisas vistas. Pareceu-m e que desde cem anos eu as contem plava.

Não assim o panoram a do m ar, que é vário e a cada instante se recria. Cada onda lhe traz form as distintas, cada vaga, traços novos de vida.

 

§ 80. VOZES ATLÂNTICAS.

 

RECUEI instintivam ente.

Pareceu-m e que do m ar m e vinha qualquer m ensagem , inexprim ível por palavras, e contudo inquietante. Um a grande voz' confusa se erguia do fundo das águas, arrastando-se com o um trovão longínquo. As trom betas do Juízo Final deverão ser, assim , a um tem po distantes e próxim as, surdas, m as dom inadoras. Ouvi-las-em os é dentro da alm a, sem a interferência dos sentidos, tal com o ouvim os a voz do m ar.

Há, neste, um a inteligência e um anseio de com unicação que nos fazem estrem ecer. Que segredos guarda, para que lhe tenham paralisado a língua?

Ainda assim o grande paralítico nos m anda sua fala, que é intraduzível, porque na linguagem do cosm os.

Em alto estilo apocalíptico nela encontrarem os resposta às nossas questões. Nossa alm a se inclina sobre si m esm a e procura, nos seus recônditos, o pensam ento revelador. Por que o m ar nos transporta às reflexões sobre o am or e a m orte? O am or e a m orte encerrarão o destino do hom em ? Por que, tam bém , nos convida a rom per nossas lim itações? Dir-se-ia que nos propõe a m edida da latitude e da profundidade das suas águas inquietas.

Continuar: parte 4 de 4