O Amanuense Belmiro
§ 48. Finados. 96
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Foi o bastante, porém , para se lhe tornar desagradável o acontecim ento. E, com o não dispõe dos recursos com que conto, aborreceu-se, ao passo que assum i um a atitude olím pica. Tudo isso m e foi denunciado pela sua fisionom ia, porque, quanto a falar, falou pouco.
À hora do café, com os seus "a propósito" sem nenhum propósito, achou j eito de tocar no assunto:
—Por falar em festas (Sepúlveda se m elindrara por não term os ido a um a festinha em sua casa), sabe que Carm élia ficou noiva do Jorge?
—Ah!... Ficou? respondi, a m angar, aparentando indiferença. Bom casam ento. Você sem pre diz que o rapaz é m uito "distinto"...
—É... tive essa im pressão... Mas para bem dizer, não o conheço... E você com preende: pode ser um bom cam arada entre gente da sociedade. Não é hom em de nosso clim a.
—Tanto m elhor para ela, respondi. Nosso clim a não é salubre para m ulheres. Entendo que só serão felizes casando-se com hom ens tranqüilos. Suj eitos de alm a sim ples, prolíficos e dom ésticos. Esse Jorge deve ser m ais ou m enos isso, e a m oça será feliz.
—É, tem razão, concordou, suspiroso.
—Não suspire. Você não serviria para ela, continuei, j á com o propósito de contribuir para que seu aborrecim ento passasse. É um inquieto. Tam bém ela não serviria para você. É fina, prendada, e você pertence, apesar dos pesares, a um a fauna com plicada. Som os anim ais intratáveis, com invencível horror ao "fino", ao "distinto". Haveria conflito de tem peram entos...
Glicério m e interrom peu:
—Ora, não m e venha com bobagens. Nunca pensei nisso. Adm iro Carm élia, m as acho que andam os exagerando um pouco. Afinal é um a criatura de carne e osso.
—Pode abrir o coração, falei. Tam bém estou inclinado a achar que exageram os. Vam os aproveitar o despeito e restabelecer a realidade...
Deu um a risada e concluiu:
—No fundo estam os despeitados, m esm o. O m elhor é tom ar um chope e m andar um telegram a de parabéns. Você quer assiná-lo tam bém ?
Respondi-lhe que não. Oficialm ente não conheço a fam ília. E conversam os m ais um pouco, am bos bem -hum orados. Glicério é bom am igo e rapaz aproveitável. Cada um de nós tem seu lado fraco e, quando tive ciúm es de Carm élia com ele, explorei-lhe esse lado fraco, tentando ridicularizá-lo. Foi um a inj ustiça e, m ais um a vez, quero saná-la, retificando, aqui, m eu j uízo a seu respeito. Se leva desvantagens em nossa roda, não é senão pela pouca idade e experiência.
Silviano, m ais com preensivo do que eu, nunca deu im portância a certas deficiências de Glicério e está sendo am igo m elhor: orienta-o, anim a-o. É disso que precisa. Felizm ente, nossa am izade veio a salvam ento depois de todas essas crises. Confiante, não suspeitou dos rancores que, em certo m om ento, lhe votei, e deu-m e tem po para reconhecer o erro.
Ao m encionar Silviano, vej o que m e estendi dem asiado sobre a conversa com Glicério e o cansaço j á não m e deixa, agora, relatar o outro encontro. Não faz m al: fica para am anhã cedo, ou à noite. Tem po é que não m e falta.
§ 60. O QUE SILVIANO ME FALOU.
O QUE Silviano tinha a confiar-m e (provavelm ente desde o dia em que veio à Rua Erê e encontrou-m e preocupado com a m oléstia de Francisquinha) era o seu novo caso am oroso. Sem m aiores preâm bulos, expôs-m e a história, m al tom am os o bonde para ir a um bar da Avenida. Tal era sua ânsia de confidencia que não deu a m enor im portância ao fato de nos acharm os dentro de um veículo, cercados de curiosos.
—Você m e está dificultando a solução do problem a. Há vários dias que preciso falar-lhe e não encontro oportunidade. —Que problem a? O "Fáustico"? perguntei. —Nada disso, nada disso... atalhou, im paciente, sem notar o tom de troça da pergunta. Em seguida, carregando a fisionom ia (só depois de alguns segundos o rem oque o atingiu), virou-se para m im :—Você sem pre com zom barias tolas. Isso é de espíritos m esquinhos. O assunto é sério.
E calou-se. O am uo passou logo, porém . Silviano se coloca em plano de superioridade tal, que não lhe perm ite ressentir-se com pilhérias. Diz-m e sem pre: "Seus m otej os m e deixam na m ais divina indiferença".. .
Sem m e dar, pois, m aior atenção, foi contando o caso, assim nos abancam os no bar. Não se trata m ais da j ovem da gota-serena, o "Perrexil". Agora, é um a pequena de outro estilo. O nosso filósofo varia sem pre. Há cerca de um m ês, estava ele no Bar do Ponto, à espera de um bonde, quando a m ulher passou. Miudinha, interessante, potelée. Sim , potelée é o term o j usto, continuou, preocupado com a precisão vocabular: só os franceses é que classificam bem as m ulheres. Não era do tipo angélico e pendia, antes, para o ofídico. Veio-lhe um a grande aura de desej o, e ele a seguiu. Saía de um a loj a, entrava noutra, a fazer interm ináveis com pras, ou, m elhor, a não fazer, porque m andava descer a loj a inteira das prateleiras e nada lhe servia (im agino esse gordanchudo Dom Juan a dobrar o passo, resfolegando, para não perder de vista a presa). Ao fim de certo tem po, a m oça o percebeu e deu-lhe corda. Travou-se nam oro. Com binaram -se outros encontros. Passeios de autom óvel, sessões de cinem a, excursões pelos pontos m al ilum inados da cidade... Silviano prom eteu-lhe casam ento... com o de costum e. (Talvez conseguisse m ais, se não o tivesse prom etido, esclareceu.) Enfim , o negócio está nesse pé: a pequena lhe m anda bilhetinhos incríveis, pela posta-restante, endereçados a Aristóteles de Estagira (acredita ingenuam ente que Silviano se cham e assim , pois este teve a precaução de m andar im prim ir cartões de visita com o nom e do seu venerado m estre, para encobrir a identidade, em aventuras de subúrbio...) Exibiu-m e um dos cartões, dando um a gargalhada:
—A pequena estranhou, m as acabou concordando em que o m undo está cheio de nom es esquisitos. Ah! ah! ah!...
Depois, assum indo ar sério, estendeu-m e um bilhetinho am arrotado, dizendo:
—Vej a que coisa horrorosa.. . Cham a-m e gatinho!
O bilhete, escrito em bom cursivo, dizia:
"Meu gatinho:—Você é m uito gostoso. Estou m ortinha de saudades. Por que não vem ver a sua gatinha? Por que não foi à m atinée do cine Brasil? Estou com a unhazinha afiada para arranhá-lo, ingrato. Enj oado!
—Sua Zizi."
Ri-m e, divertido. Silviano não gostou: "Isso é m uito trágico. Não tem de que se rir."
E continuou:
—Foi um a estupidez, Porfírio...
—Porfírio, não, Belm iro. Porfírio era m eu avô...
—Ora, isso não tem a m enor im portância. Foi um a estupidez essa aventura. Não é por causa do com prom isso. Quem o assum iu foi Aristóteles de Estagira. De m odo que não há com prom isso. E nem poderia haver, aliás. Joana continua sólida, e não m orrerá sem dar à luz m ais alguns im becis que se disponham a sair do repouso cósm ico! O que há é que estou enoj ado disso. A carne é profundam ente triste, desgostante. Foi um m om ento de fraqueza do Pensador (aludia a si próprio).
—Mas o Pensador j á fraqueou m ais de um a vez, obj etei-lhe. Não é a prim eira queda.. .
—Mas sem pre se purificou, depois, diante de si m esm o! disse, com soberba inflexão de voz. Será a últim a concessão à Besta!
Sugira-m e um m eio de safar o filósofo Aristóteles dessa em brulhada. Será a últim a concessão à Besta!
Respondi-lhe que o problem a era sim ples. Pelo que m e expôs, tratava-se de um a pequena fácil, adestrada em aventuras desse gênero. Não haveria, portanto, dano m oral no caso. A pequena arranj aria logo outro entretenim ento. Salvo se...
—Não! Não receio que haj a perigo de acréscim o ao registro civil! exclam ou.
E, depois:
—Cham ar-m e gatinho! Que m onstruosidade! Aristóteles de Estagira, gatinho!
Continuei, dizendo-lhe que, se m e visse envolvido em sem elhante alhada e quisesse sair dela, m andaria um bilhete à pequena, com unicando-lhe que fora cham ado à Macedônia, com urgência, e que deveria partir pelo prim eiro vapor. Agradeceria a boa convivência e lhe desej aria prosperidade.
—É o que vou fazer! exclam ou. Dei-lhe, aliás, m uitos presentes. Coisas que a Dolores Gigedo devolveu, um a porção de m iudezas. Já m e inform aram de que ela cultiva hom ens casados para receber regalos e brindes...
—Então, não há problem a. Aristóteles pode seguir para Estagira sem nenhum rem orso.
—É... É... O caso está resolvido. Aliás eu não o procurei por esse m otivo, m as por causa da "coisa em si". Devem os deliberar j untos, a respeito.
E atacou a questão, que denom ina "atitude católica em face da besta". Noto que nas prim eiras páginas deste caderno registrei, por alto, palavras que trocam os no Parque, no últim o Natal. Hoj e, quase um ano depois, retom ou ele o fio da conversação, então cortado. Tive a im pressão de que a vida havia parado, e não transcorrera todo um agitado ano entre aquela tarde natalina e a de ontem .
—A solução é a conduta católica, disse, tal com o se continuasse, sem o intervalo de doze m eses, a frase interrom pida em 1934. —Precisam os m editar sobre as palavras de Paulo: andai pelo Espírito e não satisfareis a cobiça da carne. Porque a carne luta contra o Espírito e o Espírito contra a carne, pois estes são opostos um ao outro.
—Minha situação em face de Paulo, respondi, no m esm o tom grave em que m e falava, é outra, e não podem os deliberar j untos. Aos coríntios, ele disse que é m elhor casar do que abrasar-se. Para os que, com o eu, não se casaram , a m editação deve versar sobre esse ponto.
—Você sem pre pequenino, querelante! A questão é m ais geral. Nosso problem a—entende?—é repudiar a vida, em form a definitiva, elim inando todos os seus atrativos, todos os seus excitantes. Não vê o Jerônim o? Engolfou-se nos doutores. Sublim ou-se. É o que precisam os fazer. Rechaçar a Besta, isso é que é.
—Não tenho tam anha aversão à vida, obj etei.
—É porque está, ainda, rastej ando; não chegou ao alto da m ontanha, para ver o espetáculo. Ela é ardilosa e inesgotável em astúcia. Atrai-nos sem pre e nos deixa sem pre insatisfeitos. Im possível dom iná-la, sorvê-la. E o grande cam inho é a ascese. (Deu vigoroso acento à palavra "ascese".) Precisam os renunciar de um a vez, violentam ente, isso é que é.
—Mas...
—Estou perdendo o m eu latim ! disse, irritado, cortando-m e a palavra. Você é um pateta, um pacóvio. Não com preende o problem a. Não entende nada. Entretanto, é a única pessoa com quem um a conversa definitiva m e pareceu possível.
E caiu num m utism o desalentado. Não insisti em m inhas réplicas, para evitar nova explosão. Depois de alguns m inutos, deu, porém , um a gargalhada, exclam ando:
—Bebam os, Porfírio, à saúde de Aristóteles de Estagira, que acaba de com eter aventura indigna de um filósofo!
Falam os, depois, sobre coisas várias, e, ao despedir-se, pediu-m e notícias do Redelvim . Dei-as.
—Vej am os se agora ele desiste de reform ar a hum anidade e se enxerga a "coisa". Louco! Não tem senso filosófico, nem histórico. Vai pela cabeça desse m aluco de Marx! Esqueceu-se de que Marx saiu de Hegel, e Hegel, de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo, a favor e contra! Louco! Rom antism o político, Porfírio, com o houve rom antism o literário!
E deixou-m e. Achei-o duro com relação a Redelvim . Suas palavras "vej am os se agora ele desiste..." indicam que não se incom oda m uito com as atribulações do am igo. Mas talvez a dureza sej a aparente, pois Silviano é bom suj eito.
§ 61. "RODA MORENA".
NADA m e aconteceu de novo esta noite senão que, andando a esm o no Carlos Prates, ali pelos lados da Rua Serpentina, dei com um a "roda m orena". Assim cham avam , na Vila, à dança em que raparigas, braços dados, entoavam velhas m odinhas. Um a ia ao centro do círculo, a cantar em solo, enquanto as outras faziam coro, no estribilho.
Ê as cantigas todas eram cantadas, sob o luar, até que o relógio da torre do Mercado desse suas nove horas que equivaliam a um toque de recolher. Minhas ruas e m eus largos de Vila Caraíbas eram , assim , povoados de ranchos fem ininos, que desprendiam beleza e inocência.
No m om ento preciso em que certos quadros se desdobram aos nossos olhos, quase sem pre não lhes percebem os a intensidade lírica, nem lhes apreendem os a substância rica de poesia. Nosso olhar circula vago e às vezes quase indiferente. Mais tarde é que, através da m em ória, vam os com os olhos da alm a penetrar no âm ago daquelas paisagens extraordinárias. Quanto o inconsciente é fino, sutil, receptivo, nos seus trabalhos subterrâneos! Só hoj e, depois de um a ascensão lenta, as cam adas profundas do espírito m e trazem o panoram a, a cor, a luz e a m úsica de longínquos dias, que pareciam perdidos.
Um a toada se espraiava no ar, tirada por vozes sem artifício, plenas de m elodia:
"Eu estava na estação
quando o meu amor chegou
deu um vento na roseira
e o salão encheu de flor..."
Depois, um canto lím pido se alteava—desacom panhado:
"Nesta rua tem um bosque
que se chama Solidão
dentro dele mora um anjo
que roubou meu coração."
Vinha a réplica de alguém , fora da roda:
"Se eu roubei teu coração
é porque te quero bem...
Se eu roubei teu coração
tu roubaste o meu também!"
Melodiosas noites! O luar batia em cheio na Matriz branca de cal, ou fazia que a torre do Mercado deitasse ao chão de gram a um a som bra grande, fantástica, m isteriosa. As cantigas da "roda m orena" de Carlos Prates não eram as m esm as, m as os vultos fem ininos sugeriam donzelas caraibanas, castas e descuidosas.
§ 62. NOVOS RUMOS DE JANDIRA.
DESDE o dia em que tivem os um a conversação am arga sobre os seus problem as, faz dois m eses j á, eu m e ausentara de Jandira. É verdade que nos encontram os quatro ou cinco vezes durante esse espaço de tem po, m as os encontros foram rápidos, e o assunto foi a vida dos outros. Nada m e falou sobre coisas suas, senão que continuava nos escritórios da firm a Sobral Lt.da, cuj o chefe é hom em velho e bondoso, apesar de m eio rabugento. Fui vê-la ontem , m ordido pelo rem orso de tê-la abandonado tanto tem po, em bora não tivesse recebido nenhum a reclam ação contra isso. Provavelm ente aconteceu com ela o que sucedeu com igo, a seu respeito: não estava precisando de m im . O egoísm o, dizem , entra em tudo—m esm o no reduto das am izades m ais puras, que nos parecem espontâneas e gratuitas —e, se saím os à procura de um am igo, não será difícil investigar-m os a necessidade de ordem espiritual, m oral ou afetiva (egoística, afinal), que nos im pele.
Entre m im e Jandira, a am izade nunca foi, aliás, aquele sentim ento integral a que aspiram os. Som os am igos fracionários, que buscam os, um no outro, não o indivíduo, m as certo aspecto dele. Faz-m e isso pensar que, no geral, os am igos não nos vêem com o a um ser indiviso, m as, ao contrário, nos fragm entam . Elegem , em nós, as feições que lhes aprazem ; procuram -nos em um ângulo, às vezes em um a linha, ou m esm o em um ponto apenas. E está aí, porventura, a explicação do fato de nos unirm os a pessoas de caracteres tão diversos, e de nossa roda ser quase sem pre heterogênea. São partes nossas que se unem por sim patia às de outros seres, em bora haj a um as que se repilam , ocorrendo, então, um conflito em que prevalecerão as partes sim páticas. Consultarei Silviano sobre esse conceito antifederativo do indivíduo, e lhes pedirei desculpas por esta divagação inoportuna, fruto de pequeno despeito.
É que Jandira m e desapontou. Chegado à sua casa, desde logo senti um am biente frio, bem diverso da atm osfera tépida que sem pre ali encontrei. Vim de lá quase m agoado. A am iga está-se dispersando, procurando outros clim as. Influência da professora vizinha, com quem ela se relacionou há uns dois ou três m eses? Reação contra o ritm o um tanto m onótono de sua vida? Coisas de m ulher. Noto que virou quase um quadrante na sua rota, e isso m e fez m editar, com tristeza, na m utação dos quadros da vida. Procuram os inutilm ente fixar um círculo, um a paisagem em que nosso espírito se com praz, m as a vida é terrivelm ente m óvel. Os quadros se vão sucedendo, os am igos se deslocam , as perspectivas se transform am . Creio que perdi a am iga, coisa grave num a idade em que j á não se fazem novos am igos.
Jogavam coon-can-play na pequena sala. Ela, a professora e dois cavalheiros de desigual idade e catadura. Jandira correspondeu com ligeiro sorriso à m inha saudação, m as não m e fez a festa do costum e. Apresentou-m e à roda, esclarecendo a m inha qualidade de velho cam arada.
E m encionou os outros, para m im :
—Anita, m inha am iga; o professor Barroso, aqui conhecido por "Alm irante": foi Anita quem nos trouxe esta flor; e finalm ente, Belm iro, este é o Azevedo Leão... doutorando.
D. Anita m e sorriu, com seu olhar m eio estrábico, o professor declarou que j á m e vira, em com panhia do Prudêncio Gouveia, e o doutorando deu-m e forte aperto de m ão, dizendo com ar im portante e um charuto entre os dentes: "Sem pre às suas ordens. Um am igo de Jandira passa a ser m eu, nem precisa quarentena. Pode encontrar-m e no apartam ento ou na Faculdade. De m anhã trabalho, tam bém , na Santa Casa. Sou assistente de clínica... (Citou qualquer especialidade arrevesada, cuj o nom e não guardei.) Precisando, disponha."
Agradeci ao falastrão e insisti para que continuassem o j ogo, sob pena de retirar-m e, se não o fizessem . Não queria ser desm ancha-prazeres. Atendido, pus-m e ao lado do Alm irante, pessoa com quem sim patizei. Perguntou-m e este, sorridente, se eu não tinha pé-frio. Respondi-lhe que não sabia. Experim entaríam os. À vista de um coringa, ficou satisfeitíssim o e segredou-m e:
—O senhor tem um olho episcopal. O canalha gentil com pareceu logo.
É um suj eito divertido. Toda vez que perdia com o coringa, invectivava furiosam ente a carta: "Canalha gentil, torpe D. Juan!" E, se lhe pegavam um a carta, dava um suspiro e dizia: "Muito bem ! exclam ou o Conde, depois de prolongado silêncio." Durante todo o tem po em que estive a seu lado, ouvi-lhe frases desse gênero, por certo apanhadas em leituras. Um pândego. Foi ele quem m e reteve ali, despertando-m e um interesse que venceu a natural hostilidade para com a nova roda da am iga.
Quanto ao pedante doutorando, provocou-m e im ediata aversão. Creio que pressenti nele um possível nam orado para Jandira, e isso m e encium ou. É rapagão bem vestido e elegante. Certam ente lhe pertence a baratinha que vi à porta da casa, ao entrar. Será possível que ela o nam ore? Com o tolerará um indivíduo dessa espécie?
Fiquei cerca de duas horas a sapear o j ogo, encantado com o Alm irante. Eram dez da noite quando saí, deixando-os ainda com as cartas. Parece-m e que Jandira não tardará a desertar de nosso pequeno círculo. Sorrateiram ente, nestes dois m eses, foi criando um outro núcleo que fará concorrência ao nosso na disputa de sua pessoa. Nem sequer m e perguntou pelo Redelvim . Pobre Redelvim ! Já vai para sem ana e m eia que está preso e continua incom unicável. Levarei am anhã, à delegacia, para que lhe sej am entregues, novos livros e alguns m aços de cigarros.
§ 63. LUNFA DE PENOSA.
TIVE duas visitas esta noite: Florêncio e o investigador Parreiras. O prim eiro, que passou quinze dias em Sete Lagoas a fazer seguros de vida, não está com a m esm a cara. Os m édicos lhe suspenderam o chope, isto é, suspenderam o próprio Florêncio, que virou outro. Anda queixoso e neurastênico, achando tudo ruim . Aconselhei-o a voltar ao copo com urgência: será o m eio de reencarná-lo em si próprio. Está indignado com Mariana, por ter a m ulher conspirado com os m édicos e viver a espioná-lo.
Ainda se encontrava aqui, quando veio o Parreiras para m e anunciar que j á posso ver Redelvim . Florêncio contou-m e que experim entou grande abalo quando, ao ler os j ornais, em Sete Lagoas, descobriu, na relação das pessoas presas, o nom e do nosso am igo. Não tinha podido ir visitá-lo, pois chegara hoj e pela m anhã e havia m uitos negócios para tratar. Com binam os aparecer j untos, am anhã, na Polícia Central. E ficou estabelecido que, no dia da soltura, haverá chope, em que pese à Mariana e aos m édicos.
Aproveitei a presença do Parreiras para um esclarecim ento a respeito da conversa dos lunfas, pedindo-lhe explicação da gíria que lhes ouvi. Tenho pruridos filológicos, quando as nam oradas m e abandonam . Disse-m e o investigador que lunfa de penosa significa ladrão de galinha. E Florêncio se divertiu bastante ao saber que os larápios m e acharam com cara de ladrão de galinha...
Quanto aos outros vocábulos: cana quer dizer prisão; ser encapado—ser preso; punguista—batedor de carteira; tira—investigador, polícia secreta; acampanar—seguir o crim inoso ou indivíduo suspeito; grinfa—m orena, pequena, nam orada; bancar o vigário— passar o conto-do-vigário; otário—sim plório, trouxa; afanar—furtar; grana—dinheiro; couro—carteira de dinheiro; pássaro —detento, e gaiola—prisão.
Parreiras e Florêncio (que tam bém é versado nesse calão) prom eteram -m e um com pleto vocabulário dos term os em uso entre os m alandros.
§ 64. UM "FOGO".
ESTA m anhã, um pouco aflita, Em ília veio indagar se era verdade que houve um "fogo".
Aludia à revolução de novem bro. Narrando, em m eias-palavras, a prisão, ontem , do nosso padeiro, falou-m e que o outro, que o substituiu hoj e na entrega de pães, lhe disse ter sido causa disso um a guerra havida no Rio. Respondi afirm ativam ente: houve "fogo", e m orreu m uita gente.
—Móde quê? perguntou (dizia o velho Borba que essa locução é um a corruptela de "por am or de quê").
Para satisfazer à sua curiosidade, que tão raro se exercita, servi-m e da m esm a explicação dada durante a revolução de 1930: fora um a briga de dois coronéis, gente graúda. De outro m odo, ser-lhe-ia difícil com preender.
Em Vila Caraíbas havia, ainda, m em ória das rixas seculares entre fam ílias im portantes. A vila era pacífica, m as um pouco além , nos confins do Norte, ocorreram durante m uito tem po querelas sangrentas, que consum iam fam ílias inteiras. Dois coronéis fazendeiros brigavam por questões de terra ou de honra, iam às arm as, m atavam -se. Filhos, netos e bisnetos herdavam a contenda avoenga, e esta só term inava, às vezes, com a aniquilação de todos os elem entos válidos, de parte a parte. Havia recontros arm ados, com j agunços de um e outro lado. A isso cham avam um "fogo".
A pergunta de Em ília, a propósito da revolução com unista, lem brou-m e os dias penosos de 1930, quando as m anas m e deram grande trabalho.
Pela situação desta casa, se não fugíssem os, ficaríam os entre as balas do Exército, que vinham da colina, e as da Polícia, que procediam do edifício onde hoj e se acha o Departam ento de Instrução da Força Pública. Cessada a luta, vi que a casa fora, tam bém , brindada com algum as balas perdidas, provavelm ente vindas do Morro dos Pintos, então ocupado por um contingente policial.
Pela tarde, pouco antes de se iniciar o cerco do 12.° Regim ento, um pequeno destacam ento de soldados descera a Rua Erê, intim ando os m oradores a desocupar as casas. Francisquinha estava, naquele dia, m uito m al, e foi vão todo o esforço para tirá-la de casa. Posto que estivesse m ais ou m enos a par da situação, Em ília — vendo a irm ã em tal estado—com eçou tam bém a oferecer resistência. Um vizinho deliberou não evacuar a zona e instalou-se no porão, com a fam ília; Em ília queria que fizéssem os o m esm o, no porão nosso, de m eio m etro de altura.
Não encontrando quem m e auxiliasse em rem over as duas velhas, tive de resignar-m e e aguardar os acontecim entos. Um rápido tiroteio, às oito da noite, deu-m e a im pressão de que a luta se iniciara. Soube, depois, que fora apenas um com bate ligeiro, entre a guarda da Cadeia Pública e o pessoal do 12.° Regim ento, que resolvera ocupar aquele edifício, considerado ponto estratégico.
Só à m eia-noite, vindo Giovanni e Prudêncio Gouveia em m eu auxílio (depois de se terem retirado, às pressas, lem braram -se de que eu deveria estar em apuros, com as velhas, e voltaram ), pudem os carregar a Francisquinha nos braços. Em ília nos acom panhou, e Giovanni se incum biu de transportar pequenas coisas indispensáveis para passarm os alguns dias fora. O bom Prudêncio levou-m e, com as m anas, para a casa da m ãe dele, num recanto do bairro da Floresta, livrando-nos de passar os m aus m om entos que m uitas fam ílias experim entaram , dorm indo no m ato, a seis ou oito quilôm etros da Capital.
Teria sido im possível perm anecer na casa: o alpendre, que dá para a Rua do Piau e está inteiram ente a descoberto, ficou crivado de balas. Algum as vararam as portas e foram aloj ar-se no m eu escritório e nos quartos.
Lem brando-se, por certo, das vicissitudes sofridas naquela ocasião, Em ília m e perguntou se o "fogo" de agora ia durar e se se estenderia a Belo Horizonte.
—Não, não, disse eu, tranqüilizando-a. O Governo entrou no m eio e prendeu todos.
§ 65. E O CASAMENTO É PARA JÁ.
DEVEM ter notado (publicarei, m esm o, estes cadernos?) que há m uito não falo em Carm élia, nem no Glicério. Decorreram j á duas sem anas desde o dia em que o Minas G erais publicou a infausta inform ação esponsalícia.
Pirraça pura. Bem que tenho tido desej o de dizer que ainda am o a donzela, em bora sob um a form a diferente, quase com o a de saudade da am ada que m orreu. Pelo m enos, as crises vão-se espaçando, e há m uito não experim ento um a recidiva, daquelas bravas, que ficaram registradas em páginas passadas destes cadernos. Estabeleci com igo m esm o o com prom isso de não m ais, aqui ou alhures, m encionar-lhe o nom e. Rom po, hoj e, o pacto, por dois m otivos.
Prim eiro, porque Glicério m e prestou interessantes inform ações; segundo, porque conheço m uito o Dom Donzel da Rua Erê, e noto que isso de silenciar sobre a m oça não exprim e indiferença e antes pode ser indício de m anhosos e subterrâneos sentim entos.
Pelo sim , pelo não, m elhor será não sabotar o Belm iro flautista. Deixá-lo esparram ar-se no papel, reduzi-lo a coisa escrita é o m eio m ais eficaz de liquidá-lo e, com ele, a donzela. Esta literatura íntim a é a m inha salvação.
Quanto ao Glicério, pareceu-m e que tam bém fizera pacto idêntico com o seu dem ônio, se é que o tem , pois nestes quinze dias não m e disse nada que envolvesse Carm élia, o noivo ou o noivado. Em bora surgissem vários "a propósito", os m esm os não foram utilizados. Por exem plo: o com panheiro de lunetas douradas, de quem lhes falei há m eses (sele a petição e volte, querendo), com eteu a loucura de contratar casam ento, e o caso foi com entadíssim o. Está beirando os sessenta, e a noiva tem apenas vinte e dois anos. Melhor "a propósito" não haveria, m as Glicério ficou firm e.
Hoj e, porém , deve ter chegado ao extrem o da resistência. Acabou entregando os pontos e vindo falar-m e sobre a nam orada com um .
—Novidades, seu Belm iro. Sindiquei a respeito do noivado.
—Que noivado? perguntei, fingindo supor que se tratava do caso do velho com panheiro de Seção.—O do Filgueiras?
—Nã...ão. Ora esta. O de Carm élia.
—Então?
—A coisa j á vinha de m uito tem po. Foram nam orados quando Carm élia esteve em São Paulo, há três anos. Segundo diz o Jorge, sua idéia de vir para cá foi um pouco por causa disso. O nam oro não continuou, com o regresso de Carm élia, nem se firm ou com prom isso. Mas ficou um ranço... Com a vinda de Jorge, logo aos prim eiros quinze dias, a coisa pegou outra vez. Inteiram ente à nossa revelia...
—À sua, em endei; você é que era interessado...
—Am igo urso! Na hora ruim não quer ser com panheiro, m as vá lá. É com o disse: estavam -se nam orando sorrateiram ente, sem a gente saber. Um belo dia, aquela "bom ba" no Minas Gerais!
—Estive lá ontem , continuou. A viúva está ovante. Francam ente cacete. Só fala que pode m orrer sossegada (ninguém tem m ais m edo da m orte do que ela), pois seu ideal se realizou. Receava que Carm élia se casasse com "qualquer um " daqui. Que pena o Dr. Aurélio não estar vivo, repete a todo m om ento; era louco pelo Jorge. Depois, fica horas e horas a contar grandezas, besteiras de enxoval, isso, aquilo... O casam ento vai ser na intim idade. Realiza-se j á, e não faz ainda um ano que o velho m orreu. Por isso, não haverá cerim ônias com plicadas."
Nesta altura, lam entei de m im para m im o desperdício da cena que com pus no traj eto de bonde e que ficou registrada em outro ponto destes cadernos.
—Quer dizer que não haverá doces? perguntei, pensando nos casam entos de Vila Caraíbas, onde as festas duravam três dias e três noites, com bailes, leitão assado, bebidas a rodo.
—Bom . Doces deve haver para os íntim os, com um a taça de cham panha, respondeu, tom ando a pergunta ao pé da letra. Mas a portas fechadas. O m elhor não é isso, seu Belm iro, guardei a grande novidade para o fim : vão à Europa em lua-de-m el.
—Não é possível! Nunca se fez isso em Minas. É quase um a afronta a nós todos. Os m ais pródigos vão à Argentina. Mas o trivial é ficar m esm o pelo Rio...
—Mas você se esqueceu de que se trata de gente rica e im portante, de São Paulo. O Jorge tem dinheiro a valer e j á andou pela Alem anha, em estudos de aperfeiçoam ento. A viúva diz que não é bem um a lua-de-m el. O Jorge vai aproveitá-la para fazer um curso em Paris.
—Dois proveitos num saco! Mas é pena estragar a lua-de-m el com esse negócio de curso. Enfim , coisas de filistinos.
—Isso m esm o, respondeu, satisfeito. Não passam de filistinos.
—E quando é o casório? perguntei, com o coração m eio agitado.
—É para j á. O dia certo não sei. A viúva seguirá am anhã ou depois para com prar, no Rio, o resto do enxoval. Quanto ao m ais, com unico-lhe (nesse m om ento não pôde evitar um tom de superioridade, que lhe perdôo) que sou dos poucos convidados. Foi a própria Carm élia quem m e fez o convite.
Depois, para corrigir a rudeza da com unicação:
—Você não im agina com o ficou m elosa, com o noivado. Acabou-se a sua Arabela (m andou-m e essa estocada, dando acento irônico às suas palavras, m as recuou logo, vendo-m e fechar a cara). É um a noiva perfeitam ente vulgar. Quanto ao Jorge, está num a arrogância insuportável. Está besta, não há outra expressão.
—É com preensível. Com a vitória obtida sobre os elegantes da terra... (disse-lhe, para com pensar, com ligeiro golpe, seu assalto anterior. Preciso reagir: Glicério está-m e faltando ao respeito).— Você anda positivam ente de m á vontade para com o rapaz. Vai ver que nem ficou tão besta assim ...
—Está certo, Belm iro. Então você é que está besta...
Disse isso com tanta raiva que não pude conter um a gargalhada. Afinal, a conversa acabou bem , e nós nos despedim os. Já era hora de se encerrar o expediente.
Com o vêem , foi um dia cheio de novidades. Tão cheio, que m e deixou cansado a ponto de não conseguir, senão por violento esforço, levar estas linhas até ao fim .
§ 66. TEMA PARA UMA ELEGIA.
ASSISTI, esta m anhã, aos funerais de um tenente da Força Pública, m eu com panheiro de bairro, m orto em circunstâncias dram áticas. Ao desviar-se de um bonde, na Rua dos Pam pas, foi colhido por um autom óvel, que o atirou a um poste, dando-lhe m orte instantânea. Estava casado havia dois m eses apenas, e o golpe transtornou a razão da viúva, que se acha recolhida, neste m om ento, ao Instituto de Psicopatas. O professor Barroso, por m im encontrado entre os que acom panhavam o enterro, referiu-m e um a história que vem aprofundar, no acontecim ento, o sentido de tragédia.
Há dez anos, esse tenente, então sim ples furriel, com andava um destacam ento policial em pequena vila do interior do Estado. Foi quando conheceu a pobre senhora que é hoj e sua viúva. Era um a flor de rapariga, filha de im portante fazendeiro, espécie de senhor feudal da localidade. Apaixonaram -se um pelo outro, quiseram casar-se, m as o pai fez um a oposição obstinada. Não haveria de casar a filha com um furriel. Com o o nam oro continuasse, clandestinam ente, o velho pôs em ação seu prestígio político e obteve a rem oção do m ilitar para m unicípio distante. A paixão se agravou, de parte a parte, e os dois estabeleceram , desde logo, um a correspondência epistolar, cheia de extravios e incidentes, m as suficiente para entreter o fio do am or. Cresceu, no peito do soldado, a am bição de galgar postos e conquistar galões para conseguir a m ão da am ada. Arriscava-se nas m ais difíceis diligências, afrontava todos os perigos. Dentro de dois anos, era segundo-sargento, m as o velho fazendeiro continuava duro em sua negativa. Na revolução de 30, o segundo-sargento conquistou m ais um a divisa. O velho não se abalou; j á era questão de capricho. Arranj ou, para a m oça, um casam ento de conveniência. Esta bateu o pé e j urou que só se casaria com o seu antigo nam orado, j á agora prim eiro-sargento. O fazendeiro redobrou sua oposição, álgido e inflexível. Na revolução de 1932, no setor do Túnel, p prim eiro-sargento passou a sargento-aj udante e, logo depois, a segundo-tenente, por atos de bravura. Nada adiantaram , para o seu am or, os riscos por que passou ali. O velho declarou que, enquanto vivo, não cederia. Mas o seu capricho só fazia anim ar o capricho do m ilitar, ferido nos brios de hom em . Talvez j á não houvesse am or, no caso. Pela parte da m oça, Barroso pouco sabe, a não ser que tam bém continuou firm e no j uram ento e que, desde o início da história, ficou inim iga do pai.
No m eio deste ano, o ranzinza bateu a bota, e sua m orte veio perm itir a realização do casam ento dez anos proj etado. O furriel de outros tem pos era, agora, garboso prim eiro-tenente de nossa m ilícia. Com binadas as coisas por correspondência, fixou-se o dia do casam ento, e o Rom eu foi buscar sua Julieta.
Barroso não pôde dar à narração a intensidade afetiva do acontecim ento, m as, pelo que m e disse, calculo com o foi extraordinário o que, então, sucedeu.
A m oça deixa a fazenda para ir recebê-lo na casa da vila, acom panhada da irm ã e de um irm ão. Trocam -se cum prim entos com ovidos, m as o nosso tenente, perplexo, não sabe qual, dentre elas, é a sua am ada. Há um a, viçosa, toda aberta em sorrisos, e outra, ressequida, gasta e m elancólica. Depois de ligeira hesitação, dirige-se para a que lhe é grata aos olhos, fazendo um gesto de abraço. Mas esta percebe o equívoco e lhe diz: "Não... Não sou eu... É ela..."
Barroso contou-m e que o hom em , extrem am ente pálido, se apoiou a um a cadeira, depois se assentou e pôs-se a chorar, debruçado sobre a m esa. Não m e disse o am igo com o foi interpretada a atitude do noivo; nem o poderia dizer, porque chegaram a nós pessoas aparentadas com o m orto. E o que im porta não é isso, m as procurar desvendar o que se passou, então, no espírito do tenente. Ele chorou talvez a m ocidade, a vida que nela m orreu. Tal com o aconteceu a m im — quando procurei Cam ila e não vi senão um a som bra—o espectro daquilo que fora os seus am ores se sobrepusera, de m odo insólito e cruel, à im agem longam ente sonhada e que era um a im agem do passado. E chorou am argam ente. Flevit am arè, com o Sim ão Pedro.
§ 67. NOVA LUZ SOBRE SILVIANO.
ESQUECEU-ME dizer-lhes que a m orte do tenente e seu enterro m e im pediram , ontem , de ir ver Redelvim , conform e com binei com Florêncio.
Fui hoj e cedo à casa deste últim o, apresentar desculpas (deve ter ficado aborrecido com a m inha ausência no local determ inado para o encontro) e repetir o convite para a pretendida visita. Encontrei-o de pij am a, no alpendre, a renovar o alpiste dos passarinhos. Dada a explicação do m eu im pedim ento na tarde de ontem , ele se prontificou a sair com igo, a fim de irm os im ediatam ente à delegacia.
Quando chegam os à escadaria externa que leva ao saguão do edifício, vim os, com surpresa, Silviano, que descia m aj estosam ente os degraus. Julgando im provável um a visita sua a Redelvim , dada a hostilidade m útua que há entre os dois, desde algum tem po, perguntei-lhe:
—Que novidade é essa?... Você por aqui?
—Vim visitar o esquerdista. Deliberei perdoar-lhe os aleives que m e assacou. Afinal, é um destram belhado. Devo ficar acim a de coisinhas.
—Esteve com ele? Com o vai?
—Não. Já o soltaram . Fizeram bem . O regim e estará perfeitam ente seguro, enquanto for am eaçado pelo Redelvim .
Florêncio e eu tivem os grande alegria com a notícia. Propusem os-lhe um a ida im ediata à pensão do am igo. Deveria estar lá. Silviano nos disse, porém , que, pelo telefone do gabinete do delegado, se inform ara a respeito. Redelvim , posto ontem à noite em liberdade, fora à pensão, apanhara a bagagem e m udara de residência. Com o de costum e, não deixou endereço. - Alvitrei que fôssem os, então, à casa de Jandira. Ele a teria procurado, com certeza.
—Não há necessidade de tam anho açodam ento. Sofreia os teus ím petos, Porfírio. Melhor é que venhas à m inha casa. Preciso falar-te. Que venha tam bém o Abundâncio, disse Silviano.
—Já falei com você que não m e cham o Abundâncio, disse Florêncio, agastado. E agradeço o convite. A suspensão do chope m e faz quase doido. E não quero acabar de ficar, ouvindo suas loucuras.
Silviano teve um sorriso olím pico e pôs a m ão no om bro do Florêncio, am igavelm ente:
—Não se m ostre m al-hum orado. O m au hum or é um vício, conform e o nosso am igo Wolfgang Goethe.
Florêncio respondeu que, se existisse alguém com nom e tão arrevesado, esse alguém não poderia deixar de ser um acabado im becil. E despediu-se de nós, alegando ter pressa de voltar para casa.
—Ora, o Abundâncio!... disse o Silviano, rasgando o ar com o braço, num gesto que deveria exprim ir desprezo.—Venha com igo. Quero m ostrar-lhe apontam entos, que tom ei, para um artigo no suplem ento da Gazeta de Minas. Sim ples notas de m inha Spicilegia. Para o caso de que você, m iudinho com o sem pre, venha com ironias, advirto-o de que só m e causam tédio e pena.
Assim entram os em seu escritório, entregou-m e algum as tiras de papel escritas. Depois, sacando o relógio, verificou que era chegada a hora de aula, na Universidade, e disse parecer-lhe m elhor que eu as lesse calm am ente, em casa. Precisava sair com urgência. E seguim os j untos, até ao ponto de bondes.
Transcrevo, aqui, parte desses apontam entos, que m ostram o estado de espírito do am igo e as m editações em que anda m etido. Estranho hom em ! Que pensar dele, afinal? Eis as notas, que se acham sob a epígrafe Libido sciendi:
"Para nós, que chegamos ao dealbar dos quarenta e que vivemos em grandes escafandrias mentais, para nós só existe um problema, aliás o eterno: o Fáustico. Não fora o receio de ser chacinados pela vil raça dos revisores de imprensa, citaríamos aqui, no original, as maravilhosas expressões de Goethe, quando os sinos, no Fausto, anunciam a ressurreição do Cristo, e outras palavras eternas com que o altíssimo poeta define o fáustico problema!
Tal é a termometria de um constante estado psicológico: a vida estrangulada pelo conhecimento.
Bebi as minhas próprias cinzas. Já vão longe os tempos em que o espírito adejou em torno das damicelas encantadoras. Agora (e como nisto diferimos desses que sempre perseguem seus ideais de pobres-diabos e suas ambições sombrias!), agora o que nos importa é esse encontro diário com o mistério impenetrável: o sentido da vida e o destino do homem. Estamos inquietos, mas Newman nos tranqüiliza: To be at easy is to be unsafe. A emoção trágica verdadeira não surge em nós senão no dia em que percebemos as coisas no seu ilogismo eterno. Como extrair um sentido dessa vã agitação de sombras vãs, que outra sombra impele? Clemente de Alexandria estaria certo? Deveremos encarar o mundo como...(verificar o texto.)
Meditar esta tarde nas palavras do incomensurável aquinatense: "O HOMEM NÃO PODE SABER 0 QUE DEUS É, MAS APENAS O QUE ELE NÃO É."
A filosofia de Santo Tomás (um filistino, um não-iniciado diria São Tomás, estabelecendo a confusão) é a mais estupenda tentativa de fechar o ciclo de nossas angústias, ou seja a nossa aspiração incoercível para a totalidade.
O homem não esgota a Verdade. Isto de partir de si mesmo e de reduzir o mundo a si mesmo é um solecismo filosófico.
Platão e Bergson—quem o ignora?—são aedos suculentos. Outros nos fazem divagar e devanear pelos intermúndios além. Desembarcados, porém, dessa estratosfera do pensamento—e lidas as notas, as observações hauridas nessas viagens às vezes tão longas e sempre exaustivas —vemo-nos vítimas daquela famosa ficção universal, assinalada pelo Jules de Gaultier e espantamo-nos do tumultuário e do desconcertante de nossas idéias.
Hom o: anim al m etaphy sicum .
—A vida não é evidente, mas também não é inexplicável (Santo Tomás Aq.). Urge um equilíbrio entre o transcendente e o imanente. A verdade em si, absoluta, eheu! está muito além das nossas míseras possibilidades. Só assim conjuramos o desespero de não conhecer tudo: convencendo-nos de que incognoscível não é sinônimo de inexistente.
"Je me puis trouver le repos, j'ai soif d'infini"
“Mon ame languissante aspire aux inconnuslointains"
(RABINDRANAT H TAG.)
REM MEDITARI—O homem é ordenado para um fim que lhe transcende o entendimento! Daí o ser impossível, sem a outra ciência, a revelada, conhecermos e atingirmos o nosso fim. Defeituoso, na essência, todo conhecimento que repousa na autoridade humana. O homem nasceu Para uma condição limitada.