O Empreendedor Viável
Introdução
Muitos economistas apontam a região do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) como a nova fronteira de expansão econômica. E muitos investidores têm prestado atenção e agido na região do BRIC, assim como no continente africano. Passada mais de uma década dentro do novo milênio, uma segunda fronteira parece estar gerando frutos a novos investidores de modo mais rápido e dinâmico, uma região sem fronteiras: a internet.
Mesmo as projeções mais otimistas não poderiam vislumbrar o quão rápido o acesso à rede e o seu desenvolvimento caminhariam, mas o fato é que, hoje, toda uma nova era do capitalismo parece estar se formando, paralelamente à recuperação de algumas mazelas sofridas nos últimos tempos pela “velha economia” de mercado.
O empreendedorismo digital surgiu não apenas como um óbvio próximo passo de uma cultura de mercado globalizada, mas também em resposta a crises tenebrosas ocorridas nos mercados financeiros de todo o mundo ao longo das últimas duas décadas. Centenas de milhares enriqueceram ou recuperaram suas vidas com o uso da rede e seu novo potencial, e algumas centenas, ou até milhares, se tornaram os novos barões do mundo corporativo. O fenômeno veio acompanhado de novas teorias e terminologias e de um nome que hoje ecoa em todas as universidades e círculos de empreendedores do mundo: as empresas denominadas ou autodenominadas “startups”.
Contudo, como toda grande evolução surge acompanhada de alguns dogmas e mesmo de certo deslumbre, a maioria passou a enxergar nessas empresas nascentes e inovadoras a chance de enriquecimento fácil e rápido: tal como aconteceu com a “Corrida do Ouro”, com a primeira grande onda do empreendedorismo americano no pós-guerra e também com as roletas e mesas de jogo do capitalismo financeiro (algumas delas já ligadas ao mercado digital, para quem se lembra da primeira grande bolha das empresas “pontocom”, entre 1999 e 2001).
Para alguns, empreender se tornou uma carreira, tão natural quanto a advocacia, a engenharia ou a medicina. Para outros, o empreendedorismo digital é um excelente modo de ganhar dinheiro rápido, sem muito trabalho. Não poderiam estar mais errados – mudou-se o meio, porém o ato de empreender continua sendo uma trilha difícil e árdua, repleta de escolhas difíceis e caminhos tortuosos, por meio dos quais poucos realmente alcançam o sucesso. Criar uma empresa não é hoje tarefa mais fácil ou com maior chance de sucesso do que na virada do século XIX para o século XX. Empreender ainda é atravessar terras desconhecidas, e, embora talvez o conhecimento de algumas dessas rotas possa tornar a viagem mais rápida ou confortável, os mares a transpor continuam os mesmos.
Muito se tem escrito sobre “startups”. Como em todo ramo da literatura, encontramos visões mais pragmáticas, outras mais apaixonadas, algum sensacionalismo e mesmo pontos de vista apocalípticos. Quando decidimos produzir este livro, fizemos algumas escolhas e, lendo boa parte de literatura hoje disponível sobre o assunto, optamos por fugir do foco que prevalece em boa parte do material hoje publicado: o objeto. Por “objeto”, consideremos o empreendedorismo digital em si ou as startups e seus maravilhosos produtos e serviços. Não, desde nosso ponto de partida, notamos que essa nova face da economia, que, como todas as que a antecederam, chega acompanhada de uma série de receitas prontas para o sucesso, na realidade carece de uma visão mais humana e ao mesmo tempo técnica. Neste livro, nos afastaremos um pouco do “o quê?” ou do “como?” do mundo das startups para nos concentrarmos em perguntas igualmente importantes e muito raramente feitas, como “quem?”, “por quê?” e “quando?”.
Questionamos o rótulo ou “selo de classificação” hoje atribuído a companhias da nova economia. Muitas empresas são hoje consideradas “startups”, quando na verdade nem sequer tangem alguns dos preceitos que definem esse novo mercado. Mas um número ainda maior de empresas e projetos, alguns deles completamente estranhos e distantes da “onda” do empreendedorismo on-line, precisa de apenas algum direcionamento para adquirir as características que definem o conceito de “startup”, conceito esse que, para nós, quando observado de forma mais humana, está muito mais centrado no empreendedor do que em seus empreendimentos.
Lemos muito sobre a construção e prototipagem de novas empresas e produtos, sobre o conceito de mínima viabilidade, rotinas de implementação de testes e validação de produtos e serviços nessa nova economia que ganha força dia a dia. Não pretendemos discutir mais a viabilidade de produtos e empresas – esse assunto já foi esgotado por outros autores. Falaremos aqui do item cuja viabilidade torna qualquer análise em relação a produto ou empresa acessória; um item cuja viabilidade permite que modelos de negócio relativamente desacreditados alcancem o sucesso ou, sob um viés negativo, que excelentes e inovadores produtos e serviços caiam no esquecimento.
Sim, falaremos também neste livro sobre viabilidade, mas desta vez sobre a viabilidade do empreendedor.