O Empreendedor Viável

André Telles, Carlos Matos · Capítulo 55 de 60

Páginas do PDF

O Empreendedor Viável

O caminho reverso

ocorre em todo e qualquer lugar — de vagões de metrô a bares e cafés.

“A questão da cultura é um negócio fortíssimo. Essa cultura do compartilhamento

não existe no Brasil”, diz ele. Algumas empresas de Recife, também visando

intensificar essa cultura, embarcaram em uma iniciativa recente chamada

“Manguez.al”, como conta André. A comunidade já conta com cerca de 40 empresas e

promove a troca de experiências e conhecimento entre elas.

 

Velocidade

“A velocidade no Brasil é lenta.” Braga diz que a principal contribuição do programa

de aceleração — por mais lugar comum que possa parecer o trocadilho — foi a de

modificar por completo a velocidade dos processos dentro da Eventick. “Empregando

técnicas simples para automatizar uma série de processos, pudemos mudar totalmente a

empresa.”

O empresário diz que, quando primeiramente desembarcaram na Califórnia, eles não

podiam atinar nas modificações que o processo iria causar na Eventick. “A gente não

tinha noção de estruturação de empresas.” A temporada levou a startup a conduzir uma

auditoria, revisando metas em quase todas as áreas, de vendas e marketing ao

operacional e desenvolvimento de produtos.

“Como passamos um ano assim?”, questiona-se Braga sobre a condução do negócio

antes da estada nos Estados Unidos. “Poderíamos estar em risco daqui a um ano por

conta disso.”

 

O caminho reverso

 

Arranjos produtivos e polos econômicos tradicionais são centros de atração de todo tipo de empreendedor e pessoas dispostas a criar melhores condições para si mesmas, mas muitas vezes o motivo por detrás da migração para tais centros é a necessidade ou o vislumbre de uma oportunidade de riqueza.

Startups devem tomar cuidado se observarmos o cenário atual. A bolha “pontocom” criada no começo dos anos 2000 se deveu, em parte, a apostas ambiciosas em possibilidades de rápido enriquecimento, não na resolução de problemas, ou no ganho de experiência e conhecimento, ou ainda em simples ideais de caráter social e de qualidade de vida.

O Vale do Silício é, sim, o berço dos microprocessadores e de toda a tecnologia que hoje nos permite criar produtos ou empresas em questão de meses, ou mesmo dias. Porém, o que mantém sua liderança criativa não está no passado – a busca de soluções eficientes para problemas enfrentados pela sociedade hoje e mesmo alguns problemas que ela pode enfrentar no futuro é a pedra fundamental do “moto-contínuo” do Vale. Respostas a problemas de hoje, ali, levam a novas perguntas sobre os problemas de amanhã.

Comunidades viáveis percorrem o caminho reverso da economia tradicional: atraem os ávidos por oportunidades, sem dúvida, porém apenas para enviá-los de volta posteriormente, fazendo com que a inovação ali gerada atinja proporções muito além de suas fronteiras.

É claro que a internet representou a libertação do modelo de formação de polos especializados. O conceito de indústrias que atraem fornecedores, transformadores e distribuidores para um mesmo espaço geográfico se tornou dispensável no mercado on-line, gerando a oportunidade do “caminho reverso”. Por essa nova via, startups e empresas inovadoras buscam em sua própria comunidade a resposta para suas necessidades e demandas, sem a necessidade de arranjos locais – esses “arranjos” já estão consolidados de forma on-line. Transplantá-los para um cluster é mais uma questão de organização e relacionamento do que de “instalação e implementação”.

O problema? A criação de vínculos e novos relacionamentos pode se dar de modo extremamente rápido ou tardar muito mais do que a construção de um polo industrial inteiro.

A consolidação de novos centros de desenvolvimento de empresas nascentes traz a oportunidade real de reverter as “correntes migratórias”, não apenas retendo talentos e mão de obra, mas atraindo a economia em si. O Vale do Silício, nos Estados Unidos, é sim o exemplo mais notório, mas o que dizer de alguns outros exemplos, como Boulder, no estado americano do Colorado? Com pouco mais de 100 mil habitantes, a cidade possui algumas dezenas de centros tecnológicos e grandes instalações de empresas tidas como ícones mundiais da inovação e tecnologia: IBM, Google, Microsoft, HP, Cisco e muitas outras. Nós, os autores deste livro, não realizamos nenhuma pesquisa formal, mas apostamos todas as nossas fichas em como são poucos os talentos que deixam Boulder rumo ao Vale do Silício. É até mais provável que alguns dos talentos do Vale já estejam planejando sua mudança para a humilde cidade do Colorado.

O caminho reverso é possível em qualquer lugar onde trabalhem arduamente seus diversos stakeholders, com o fim de produzir uma comunidade viável. Por fim, o grande mistério por detrás da formação de polos tecnológicos e cidades inteligentes parece estar muito mais relacionado a uma questão de postura e atitude do que de fatores de propensão e contribuição.