O Empreendedor Viável

André Telles, Carlos Matos · Capítulo 40 de 60

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O Empreendedor Viável

Eternamente beta

A Oi resolveu parcialmente tal problema, encorajando clientes a adquirirem seus chips para uso com tarifas facilitadas para usuários de outras operadoras, desbloqueando seus celulares e permitindo aos clientes alternar seus chips antigos e novos dentro de um mesmo aparelho. Na época, não era raro ver usuários de celular usarem dois chips: um para o recebimento de chamadas e outro, da Oi, para fazerem chamadas.

A operadora se firmou e teve suas tendências seguidas pela concorrência, mas garantiu uma participação de mercado na casa de 18 a 20% que perdura até os dias de hoje.

O exemplo da Oi foi importante para mostrar que iniciativas empreendedoras podem ser uma força externa para ajudar a desburocratizar o sistema, como aconteceu com a criação da lei da possibilidade de portabilidade de números telefônicos no Brasil.

Vejamos o caso da Lemon, startup baseada no Vale do Silício que tem um aplicativo que pretende se tornar uma carteira virtual, que já recebeu aporte de capital de US$ 8 milhões. A Lemon tem como cofundadora a jovem brasileira Bel Pesce, autora do livro A menina do Vale. Bel tem como ideal que as pessoas deixem suas carteiras físicas em casa e passem a utilizar apenas seus smartphones no bolso. No app poderíamos ter nossos documentos digitalizados, porém, no momento, sem validade legal, como o caso de uma carteira de habilitação, por exemplo. Esse empreendimento pode vir a mudar leis no futuro para que o documento digitalizado tenha validade, colaborando para a desburocratização do sistema e tornando nossas vidas mais simples. Atualmente, pelo app da Lemon, o usuário pode guardar recibos e cupons e aprender a monitorar seus gastos, mas o aplicativo tem potencial para ser muito mais escalável.

 

Eternamente beta

 

Startups são por definição companhias de rápida criação e desenvolvimento, mas, no contexto de negócios, “rápido” pode significar meses ou até anos. A maioria das startups, inclusive influenciadas por teorias “lean” como as de Eric Ries e Steven Blank, lançam versões alfa e beta de seus produtos e serviços, sendo que por vezes temos o “beta perene”, situação na qual a startup mantém seu produto em uma espécie de estágio beta eterno, sempre sujeito a modificações e melhorias.

A grande verdade é que startups se veem constantemente espremidas entre dois grandes paradigmas – o de lançar um produto de modo pioneiro no mercado, evitando ser ultrapassada pela concorrência, e o de lançar um produto redondo e bem finalizado, porém de modo tardio, muitas vezes perdendo a oportunidade vislumbrada na fase de concepção.

O MVE, assim como o MVP, estaria o mais próximo possível da mediana entre esses dois paradigmas. A visão de negócio do empreendedor permite o adiamento estratégico do lançamento de um produto que possa gerar frustrações por seu caráter experimental e incompleto, e ao mesmo tempo lhe permite ficar distante do perfeccionismo que leva muitas empresas a lançar produtos que já ingressam obsoletos no mercado.

Contudo, tal “linha do tempo” do lançamento de produtos não é uma variável previsível e certamente está atrelada a uma série de fatores que estão em constante movimento. Longe de ser um empreendedor apenas com um bom “insight”, o MVE analisa riscos de um lançamento prematuro e igualmente os movimentos de mercado e tendências, evitando postergar demais a entrada de versões alfa ou beta. Tais empreendedores ainda conhecem bem seu público, de modo que possam determinar que features ou características são essenciais aos usuários, mantendo prioridade no desenvolvimento desses itens antes de perder tempo com funcionalidades que podem muito bem ser opcionais ou supérfluas para o consumidor.

Buscar o “lançamento perfeito” é uma meta ingrata e que envolve uma série de variáveis, inclusive o momento financeiro do empreendedor na época do lançamento, que o levará a buscar ou não recursos no mercado. Quanto mais tardia for essa busca por recursos, em paralelo com a escalabilidade e o sucesso do negócio, maior será a valuation da startup. A viabilidade de um empreendedor está em sua flexibilidade e no acompanhamento tanto do desenvolvimento de sua empresa quanto do ambiente externo. Isso permite ao MVE conseguir um lançamento bem-sucedido, ainda que não estrondoso. No gráfico, vemos o comportamento do MVE como uma reta, em contraposição à parábola do timing de lançamento.

O MVE pode lançar o produto em qualquer ponto de sua reta de evolução que esteja contido na parábola. Antes de chegar ao intervalo de lançamento, o empreendedor viável trabalha versões alfa e beta que levarão a um produto com maior aceitação dentro do mercado. Após o intervalo de lançamento, o MVE mantém a atração e apelo de seu produto adicionando novos itens, funcionalidades e features, ou mesmo retirando alguns, à medida que o usuário demonstre suas preferências e forneça feedbacks.

O “lançamento perfeito”, dentro da concepção do MVE, é um evento tão raro quanto dispensável. Grosso modo, um timing perfeito causará grande repercussão e certamente irá economizar etapas em direção à fase de escala do produto. Entretanto, atingir a perfeição no critério lançamento não torna seu produto ou serviço infalível a partir desse ponto, de modo que é mais racional e seguro buscar atingir um intervalo no qual o lançamento possa gerar bons resultados, e não o minuto certo no topo da curva.