O Empreendedor Viável

André Telles, Carlos Matos · Capítulo 2 de 60

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O Empreendedor Viável

1. Startups, Cultura e Mentoria

 

O conceito de empresas “startup” está no topo de uma tendência, mas a impressão que se tem, às vezes, é a de que qualquer novo negócio on-line pode ser chamado de startup. Ao contrário do que se pode supor, algumas startups nem sequer possuem sua ideia central vinculada à internet, e, por outro lado, muitos negócios on-line não podem ser considerados nem de longe startups.

Nesta primeira parte, revisitaremos alguns dos conceitos centrais do vocabulário relacionado às startups e ao fenômeno do empreendedorismo digital, bem como apresentaremos algumas das definições já cunhadas por especialistas do segmento, para estabelecer nossas próprias definições.

Vale ressaltar logo de cara: ainda que sua empresa ou negócio não se enquadre necessariamente nos preceitos que constituem e caracterizam uma startup, isso não implica que sua ideia ou modelo não possa se mostrar bem-sucedido ou mesmo garantir apoio e financiamento de investidores e novos sócios e alcançar o sucesso. Longe disso, o aprendizado dos métodos e filosofias que rondam o segmento de startups pode contribuir no desenvolvimento de um negócio e torná-lo ainda mais inovador.

Valores compartilhados como a cultura empreendedora, o uso de mentores e o acesso a comunidades inovadoras podem modificar sua vida e as chances de sucesso de sua empresa. Mesmo que a sua empresa não seja uma startup, você pode encontrar espaço nessa cultura, figurando como um dos inúmeros atores que fazem parte dessa comunidade.

 

Afinal, o que é uma startup?

 

São diversas as definições atribuídas às companhias startups. O senso comum as enxerga, por vezes de modo simplista, como herdeiras das antigas empresas “pontocom” e, na maioria dos casos, não deixa de ter certa razão. Entretanto, a definição de startup está mais relacionada ao modelo de negócio e, como verificaremos ao longo do livro, à cultura de uma companhia ou organização.

Sob outra ótica, startups são vistas como uma nova geração de empreendedorismo da pequena e microempresa com potencial de escala. Diversas entidades ligadas ao apoio e incentivo ao empreendedorismo ao redor do mundo abraçaram o termo e o conceito de startup, promovendo uma série de eventos, programas e projetos voltados para esse público.

Do ponto de vista dos criadores e difusores do conceito e cultura startup, afinal, o que vem a ser uma startup? Entre as definições mais aceitas e frequentes, podemos citar as seguintes:

 

“Uma startup é uma organização formada com base na busca de um modelo de negócios escalável e que possa ser repetido” STEVE BLANK, AUTOR E CONSULTOR NA ÁREA DE STARTUPS E EMPREENDEDORISMO

 

“Uma startup é uma instituição humana criada para entregar um novo produto ou serviço sob condições de extrema incerteza” ERIC RIES, AUTOR DO BEST-SELLERA STARTUP ENXUTA

 

“Startups geralmente envolvem tecnologia, por isso mesmo a expressão ‘startup high-tech’ é quase redundante. Uma startup é uma pequena empresa que concentra esforços em um difícil problema técnico” PAUL GRAHAM, AUTOR E COFUNDADOR DA ACELERADORA AMERICANA Y-COMBINATOR

 

“Escala é a chave aqui. Startups possuem a habilidade de escala, seja em 5, 10 ou 20 vezes, realmente não importa. O ponto é que elas podem ganhar escala muito mais rapidamente que outros tipos de negócio. Isso geralmente envolve tecnologia e automação, mas não necessariamente” DANIEL B. MARKHAM, AUTOR, CONSULTOR E PALESTRANTE

 

“Uma startup é qualquer nova companhia tentando construir algo a partir do nada” HITEN SHAH, DA AMERICANA KISSMETRICS

 

Não se trata de certo ou errado. Todas as definições, sem exceção, evocam características-chave de uma companhia startup. Nós, como autores deste livro, acreditamos que o conceito de startup não deve ser delimitado a um tipo específico de empresa, seja por seu tamanho, idade, pela natureza de seus produtos ou serviços (tangíveis ou intangíveis) e modelo de negócios específico.

Acreditamos que o conceito e a filosofia das startups pode ser utilizados por empresas de diversos portes e fases de maturação. A “escalabilidade” e rápida aceleração podem ser aplicadas a diversas categorias de empresas.

Depois de muito refletirmos sobre o que seria um “empreendedor viável”, chegamos a uma definição consensual entre os autores do livro do que definiria a nossa startup:

 

“Startup é um empreendimento resultante de um modelo de negócios inovador, escalável e flexível o suficiente para sofrer alterações durante o processo de desenvolvimento, lançamento e maturação do negócio, com grande investimento de capital humano e intelectual, equilibrando custos e resultados financeiros de modo a permitir o sucesso dos empreendedores” ANDRÉ TELLES E CARLOS MATOS

 

Embora seja mais abrangente e menos sintética, nossa definição inclui linhas de pensamento das mais modernas dentro do segmento, como o conceito de lean startup e zero-cost (conceitos que visam a criação de empresas e produtos simples e racionais do ponto de vista dos custos, empregando recursos de modo otimizado e dando preferência àqueles gratuitos ou preexistentes, no caso das “zero-cost” startups), além de abrir caminho para uma abordagem de uma filosofia mais focada no empreendedor do que no empreendimento em si.

A cultura startup possui características de empreendedores com estilo de gestão descentralizada, compartilhada e colaborativa. Empreendedores que buscam uma filosofia segundo a qual a inovação e o foco em um modelo de poucas funcionalidades, baixo custo e rápida proliferação substituem altos custos e dispendiosas estratégias de customização, diferenciação, gestão de clientes e baixa exposição a riscos.

Recordando a definição de Eric Ries, em seu livro A startup enxuta, que coloca o feedback do consumidor durante o desenvolvimento do produto como parte integrante do processo de lean startup e garante que o produtor não invista tempo projetando recursos ou serviços que o consumidor não quer, e também observando os dilemas não apenas de novas companhias, mas de gigantes presentes há décadas no mercado, como podemos dizer que não estamos todos expostos a “condições de extrema incerteza”?

A cultura startup talvez represente uma resposta não apenas à nova geração de ávidos empreendedores em busca do sucesso e riqueza com empresas de base tecnológica, mas também às incertezas recentemente criadas para o próprio core business de tradicionais grupos empresariais.