O Empreendedor Viável

André Telles, Carlos Matos · Capítulo 31 de 60

Páginas do PDF

O Empreendedor Viável

Estratégias que nunca cessam

 

Um produto inovador e um grande modelo de negócio – esse filme já foi exibido muitas vezes nas décadas de 1970, 1980 e 1990, tendo como protagonistas grandes nomes da indústria de tecnologia, como Apple, Compaq, Atari, Sega, entre outras. Todas essas empresas, sem exceção, ingressaram com produtos inovadores em mercados muitas vezes inexistentes, mas algumas nem sequer sobreviveram para ver a alvorada do milênio. A cultura de startups é algo novo, mas sua existência remonta às garagens habitadas por fanáticos por computadores e transistores, 30 ou 40 anos atrás.

Em primeiro lugar, toda empresa possui altos e baixos, muitos deles inclusive fora do controle de sua gestão, como os consumidores, por exemplo. Grandes crises afetaram a economia mundial desde os primeiros passos da era da informação e levaram muitos empreendedores ao relento. Para outros, planos de gestão de crise e reformulações constantes na estratégia, marketing e mesmo quadro de funcionários proporcionaram uma vida útil maior em seus negócios, que perduram até hoje.

A continuidade entra aí como o fator de prevalência no mercado. Empresas que foram abertas o suficiente para admitir as dificuldades e até mesmo o fracasso de suas ideias e concepções passaram, embora não ilesas, pelas duras provas do empreendedorismo. Para os planos de negócios de visão curta e dogma excessivo, no entanto, restou a memória ou participações de mercado que mal se aproximam daquelas que esses grupos já tiveram um dia.

 

O caso Atari

 

Se tivesse sido criada hoje, a Atari certamente seria uma startup. Fundada em 1972, a empresa chegou ao sucesso e atingiu uma pujante fase de escala quase que instantaneamente, mesmo para os padrões atuais, produzindo jogos arcade para fliperamas e ganhando grande parte do mercado com títulos inovadores e constantes lançamentos. Com a chegada do console Atari 2600, em 1978, a empresa logo chegou ao auge, criando todo um novo mercado de jogos eletrônicos para uso pessoal. Em meados dos anos 1980, a empresa iniciou uma trajetória de erros estratégicos que fariam com que o grupo jamais pudesse repetir o sucesso do final dos anos 1970.

Os jogos do Atari 2600 são a marca registrada da empresa, mas o caráter inovador da marca não parou por aí. Em 1985, o Atari ST foi o primeiro computador pessoal a utilizar uma interface gráfica similar ao Windows, rivalizando com sistemas da época como o Amiga, da Commodore, e o próprio Macintosh, só que com preços mais baixos.

Os empreendedores que fundaram a Atari, Nolan Bushnell e Ted Dabney, venderam a companhia para a Warner em 1976, por um valor próximo de US$ 30 milhões. Sob o comando da Warner, a Atari atingiu o auge com o console 2600, que teve novas versões lançadas. A empresa também ingressou no mercado de computadores pessoais com o Atari 800, conseguindo algum sucesso, embora longe dos números do concorrente Apple II.

Entre o final dos anos 1970 e começo dos 1980, concorrentes começaram a inundar o mercado, tanto de videogames como de computadores, criando uma guerra de preços sem precedentes. Com o relativo insucesso do Atari 5200, em 1982, sucessor do primeiro console, a Warner começou a ter problemas com a subsidiária, que chegariam ao limite com o “crash da indústria de videogames”, entre 1983 e 1985.

A crise da indústria americana de games derrubou o faturamento desse segmento de US$ 3,2 bilhões em 1983 para cerca de US$ 100 milhões em 1985, uma queda de quase 97%. Fracassos imensos em games como Pac-man e E.T., a competição massiva de computadores pessoais e problemas com perda de direitos autorais em diversos jogos arrasaram o setor e levaram a Atari a ser novamente vendida ao investidor Jack Tramiel, em 1984, que criou a Atari Corporation. Tramiel aproveitou estoques e lançou alguns produtos em fase final de concepção, revertendo prejuízos e fechando 1984 com lucros de US$ 25 milhões, a despeito da crise.

Contudo, após 1985 a empresa lançaria diversos produtos sem expressão com grande alvoroço, como o portátil Atari Lynx (1989) e o sistema Jaguar (1993), perderia alguns processos milionários e chegaria até 1996 vencendo um desses embates judiciais, porém sem mais forças ou produtos para voltar ao mercado de modo significativo.