O Empreendedor Viável

André Telles, Carlos Matos · Capítulo 7 de 60

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O Empreendedor Viável

O produto mínimo viável x O empreendedor mínimo viável

> BACKGROUND DOS FUNDADORES E EQUIPE INICIAL DA

STARTUP. Empreendedores com experiências anteriores bem-sucedidas em outras startups ou companhias, seja como fundadores ou não, tendem a atrair investidores e mesmo clientes com maior facilidade;

> ATRIBUTOS DE MARCA. Uma startup criada em cima de uma marca e

valores que façam sentido e possuam apelo certamente será benquista por investidores e pelo mercado em geral. Em uma empresa recém-fundada, os valores intangíveis obviamente possuem maior expressão do que valores tangíveis, como lucratividade e desempenho;

> LASTRO. Do ponto de vista de um investidor, é muito mais fácil colocar

dinheiro em uma aplicação quando outros já o fizeram. Startups que possuem lastro, seja ele conseguido através do bootstrapping ou por meio de rodadas de investimento anteriores, se tornarão mais atrativas para fundos e investidores-anjo em novas rodadas de funding;

> PLANO DE MARKETING E AQUISIÇÃO DE CLIENTES. O plano inicial

de marketing e sensibilização de clientes de uma startup fornece bons dados a respeito de como essa empresa pretende vender e trabalhar sua marca e sua cultura. Planos que envolvam maior engajamento de clientes e também fundadores e funcionários tendem a ganhar o respeito de investidores com maior facilidade;

> PRESENÇA NA COMUNIDADE. As startups possuem uma comunidade

forte e cada vez mais presente em universidades, centros de tecnologia e pós-graduação brasileiros. Mais do que comparecer a eventos ou participar deles, manter contato com outros empreendedores e empresários pode facilitar e encurtar distâncias, criar mais espaço para o ganho de escala e, por que não, levar sua ideia ao conhecimento de potenciais investidores.

 

O produto mínimo viável x

O empreendedor mínimo viável

 

Chegamos a um dos pontos mais importantes de todo o livro: o início da construção do conceito do MVE (Minimum Viable Entrepreneur) – o conceito do Empreendedor Mínimo Viável, criado pelos autores, André Telles e Carlos Matos. Depois de uma base introdutória sobre conceitos do que é uma startup, sua cultura e alguns casos, vamos focar em características que tornam um empreendedor minimamente viável.

Iniciaremos nossa construção exemplificando de modo comparativo com um conceito similar já difundido no meio da cultura startup: o conceito do MVP. Enquanto o MVP foca no produto, o MVE foca nas pessoas que empreendem naquele determinado produto. Entre o público de empreendedores e startups, o conceito de produto mínimo viável (MVP, na sigla em inglês) é hoje uma constante. As fases preliminares de planejamento e produção do modelo de negócios de toda startup passam obrigatoriamente pela concepção do produto ou serviço a ser ofertado por essa nova empresa.

O conceito de MVP foi difundido por Eric Ries, célebre criador da filosofia e livro A startup enxuta (The Lean Startup). Outros autores já elaboraram a ideia, para um conceito de produto mínimo destituído de uma série de features, ou funcionalidades, e mantendo apenas aquelas que tornam o produto mais atraente para a parcela de formadores de opinião entre o público-alvo – ou os chamados early-adopters. É exatamente esse público que fará os primeiros testes com o produto ou serviço, e é neles que o empreendedor deve manter o foco nessa fase inicial, na qual o desenvolvimento ágil de adequações deve estar extremamente alerta para satisfazer esse público tão exigente. Além de sua exigência, tal público forma opiniões, em geral com alto capital social nas redes e influência direta nas reações dos demais consumidores, positivas ou negativas.

No contexto tecnológico, os early-adopters são exatamente aqueles consumidores fascinados por tecnologia, muitas vezes proprietários de blogs e veículos de ressonância dessas novidades. A missão do MVP é atrair o máximo de curiosidade desse público, excluindo funcionalidades que posteriormente serão importantes para usuários não tão entusiastas (que invariavelmente constituem a maior parcela de consumidores).

Uma abordagem interessante foi criada por Tor Gronsund, professor de empreendedorismo na Universidade de Oslo, Noruega, e publicada em seu

blog3. O professor propõe uma curva para o MVP na qual a ressonância e apelo junto aos early-adopters são confrontados com o número de funcionalidades de um novo produto ou serviço.

A curva questiona a relação entre o apelo do MVP junto aos formadores de opinião e a questão do one-feature. Segundo a análise de Gronsund, um produto deve ser simples, mas não ridiculamente simples a ponto de nem sequer despertar o interesse dos poucos e influentes entusiastas espalhados entre o público, ou seja, o produto deve ser minimamente viável, mas não simplista ao ponto de não encantar early-adopters. O apelo inovador e a correta comunicação dessa inovação são fundamentais para que o MVP passe para a fase seguinte.

De acordo com essa análise, a mera destituição de funcionalidades rumo a uma funcionalidade central que caracteriza o produto, serviço, ou mesmo a própria startup, não seria suficiente. Além disso, sabendo que uma miríade de startups com produtos one-feature irá simplesmente falhar em seus esforços para atrair o público, encaremos a situação do ponto de vista do investidor – MVP ou MVE (Minimum Viable Entrepreneur)?

Rodadas de pitching, eventos diversos para startups, competições e meetings envolvendo startups e investidores se tornam cada dia mais comuns no Brasil e no mundo. Nesses eventos, uma série de novos empreendedores confronta suas ideias com outras semelhantes, em busca de capital que possa viabilizar sua ideia, produto ou serviço, porém, mais uma vez, poucos chegam a conseguir. Até porque uma ideia é simplesmente uma ideia até sair do papel. É quando se tem um MVP com aprovação de early-adopters e mentores consistentes que a situação de busca e captação de investimentos fica mais fácil. O fato de já existir um MVP em teste e pessoas com alto capital social orientando o empreendedor avaliza o produto.

Assumindo a cadeira dos investidores, temos de pensar sobre qual seria, para eles, o verdadeiro MVP – que, no caso, trata-se do mínimo negócio ou empreendimento no qual estão dispostos a injetar capital. Em quem os investidores depositarão sua confiança? Não estariam eles analisando algo mais profundo que um mero produto – até mesmo porque um MVP em geral sofre diversas modificações até que se torne algo realmente comercial e viável no que se refere a vendas? Contudo, os investidores olham de perto, durante um pitch ou apresentação, para aquele fator que não irá mudar, qualquer que seja o destino final daquela startup – seus empreendedores e fundadores. Cabe aqui a pergunta, então: são tais empreendedores “minimamente viáveis”?

Francisco Dao, fundador da comunidade de empreendedores 50Kings, comenta a proliferação de eventos e programas de aceleração de startups e como o grande número de empreendedores tecnológicos de hoje reduziu o montante e o capital a ser aplicado em cada uma delas, até que se chegue a

uma startup que realmente engrene no mercado4.

 

“Como ditam as forças de mercado, quando há excessiva abundância de certo recurso, o valor desse recurso cai. Eventualmente, um recurso abundante atinge um ponto no qual ele se torna mais barato em sua compra, substituição ou mesmo reparo. E, para muitas incubadoras, os empreendedores atingiram esse ponto”, explica Dao.

 

Seguindo tal pressuposto, podemos considerar que, sob a visão do investidor ou mesmo do mercado, uma startup, assim como o produto ou serviço que a mesma busca introduzir, deve possuir algumas características mínimas que a tornem viável. Aplicando a curva de MVP de Gronsund às variáveis “apelo junto a investidores” e “características da startup” teríamos um ponto da curva no qual o MVE se manifesta. Nesse ponto, um mínimo capital investido na recém-formada empresa a levaria ao sucesso, gerando o máximo retorno ao investidor (veja Figura 2).

Mas de que modo é possível atingir esse ponto ou ao menos aproximar sua startup dele?

Esse é o ponto atacado pela infinidade de métodos, estratégias para construção de modelos de negócio, teorias envolvendo a formação de startups e todo tipo de arma empresarial que cerca hoje o cenário do empreendedorismo. Abordaremos algumas delas ao longo deste livro e também o papel da principal figura responsável pela facilitação e introdução de todas essas metodologias e estratégias nessas novas empresas: as pessoas! Sejam os empreendedores ou os mentores responsáveis pela condução dos processos.