O Empreendedor Viável
Cultura: o “software” da comunidade startup
Vejamos o caso do Instagram; seus fundadores, o brasileiro Mike Krieger e o americano Kevin Systrom, atual CEO da empresa, em fevereiro de 2010 criam primeiramente o Burbn, aplicativo que daria origem ao Instagram. O Burbn era muito “complicado”, segundo seus fundadores, já que era possível fazer fotos, check-ins e planos para o final de semana. Já em outubro de 2010 o Burbn sofre um pivot e acaba se transformando no Instagram, com o apelo principal da possibilidade de aplicação de filtros às imagens, filtros esses que apenas fotógrafos profissionais ou designers tinham habilidade para aplicar, e ainda com a possibilidade de compartilhar as imagens tiradas na câmera de um smartphone com filtros e molduras no Facebook e no Twitter. O Instagram buscou aportes, se mudou para São Francisco, na Califórnia, e se aproximou do atual maior ecossistema para startups do mundo, resultando em uma venda para o Facebook no valor de US$ 1 bilhão em abril de 2012, logo após o lançamento da versão do aplicativo para Android, o que aumentaria de fato a escala do aplicativo, que já contava com 30 milhões de usuários.
Toda comunidade, qualquer que seja seu tamanho, representa um microcosmo onde podem ser encontrados praticamente todos os grandes problemas que atingem a humanidade como um todo. Em outras palavras, para que fique claro aos fundadores de startups: o seu bairro tem problemas, assim como Palo Alto no Vale do Silício, na Califórnia. Pensando assim, o que torna o vale californiano o benchmark mundial do empreendedorismo? A resposta é simples: sua cultura e o ecossistema que foi criado na região.
Cultura: o “software” da comunidade startup
Muito se fala e teoriza a respeito das razões por detrás do sucesso no polo tecnológico do Vale do Silício na criação e incubação de novas empresas. Nós pesquisamos diversos autores, mas nossa filosofia, como autores deste livro, se aproxima mais da visão do investidor e especialista norte-americano Victor Hwang. Em seu livro The rainforest, Victor detalha as razões que fizeram, e fazem, da região californiana a mais bem-sucedida do mundo na formação e alavancagem de empreendedores.
Hwang diz que a cultura startup em si é constituída de um “hardware” e um “software”. O hardware seriam os talentos, organizações sérias, políticas públicas e de mercado bem desenhadas e a infraestrutura física. Isso, no
entanto, muitos lugares possuem. O segredo do Vale, acredita Hwang27, e estamos com ele nessa, depende do “software” envolvido. Aqui se encontra a comunidade e a cultura que o Vale do Silício possui e que muitas outras regiões tentam desenvolver, algumas com maior, outras com menor sucesso. Esse software inclui diversos fatores, entre eles:
> A DIVERSIDADE: indivíduos com diferentes formações, histórias de vida
diversas, nacionalidades distintas e culturas e costumes completamente diferentes e novos;
> A MOTIVAÇÃO: que leva os membros dessa comunidade a compartilhar
uma cultura que vai além de “mais um trabalho” ou uma mera “opção de carreira”;
> A CONFIANÇA: o desprendimento para formação de alianças e parcerias
com base em objetivos comuns, mesmo quando se trata de pessoas completamente estranhas entre si;
> ÉTICA: princípios éticos tácitos, nos quais a comunidade acredita e se pauta
para conduzir seus negócios, independentemente de normas ou leis impostas por governos ou reguladores;
> COLABORAÇÃO E EXPERIÊNCIA: é impossível construir uma cultura
sem a colaboração mútua. Todos possuem experiências a compartilhar;
> REGRAS DE CONVÍVIO: mecanismos sociais entre os membros que
permitam reprovar ou até mesmo punir condutas que furem a ética e o grupo, bem como formas de recompensar atitudes que tragam riqueza e agreguem à comunidade.
Neste livro, no tocante ao conceito e às características de uma cultura startup arraigada e bem-sucedida, optamos por observar com maior vigor a visão do investidor. Que tipo de ambiente e atmosfera startup realmente atrai bons investidores e fundos? Assim como Hwang, Greg Gottesman, do
Madrona Venture Group, também possui ideias interessantes28 a respeito dos fatores que levam à formação de comunidades de startups de sucesso:
> AUSÊNCIA DE “PESO POLÍTICO”: a ideia de que todos recebem o crédito
por suas ideias e trabalho. O que importa é atingir o objetivo, e não quem o está atingindo. Começar o desenvolvimento de uma cultura startup com base em nomes e figurões certamente não levará a lugar algum;
> NÃO SE TRATA DE UM EMPREGO, E SIM DE UMA MISSÃO: boas
culturas startup possuem uma série de pessoas que focam seu esforço em um objetivo ou missão comum. Essas pessoas poderiam estar fazendo uma série de outras coisas, mas optam por seguir uma estratégia e concentrar todo seu potencial em um único produto ou ideia;
> INTOLERÂNCIA COM A MEDIOCRIDADE: culturas bem-sucedidas têm
de estar preparadas para recompensar boas atuações, mas isso também significa rejeitar o medíocre. Encorajar desempenhos abaixo de um padrão pode comprometer toda uma comunidade;
> PARTICIPAÇÃO NO CONTROLE: estamos falando de empresas nascentes,
que podem vir a ter um grande valor de mercado, mas não o ostentam em um primeiro momento. Culturas bem-sucedidas permitem que todos compartilhem o controle das empresas em formação e, por essa razão, atraem profissionais de alto calibre, dispostos a empregar seu tempo e seu potencial na criação de grandes valores;
> ALINHAMENTO PERFEITO: boas culturas startup possuem alinhamento.
É claro que compreenderão empresas totalmente diferentes, com objetivos diversos, mas a orientação é uma só – promover o desenvolvimento da cadeia e encontrar sinergias entre todos os seus participantes;
> BOA COMUNICAÇÃO: o intercâmbio de informações entre os membros de
uma comunidade, mesmo em tempos difíceis ou em face de grandes dilemas, é o que promove o fortalecimento de uma cultura. Será mesmo que a comunidade do Vale do Silício só passou por bons momentos até hoje? Ou tempos difíceis e situações adversas também ocorreram?
> LIDERANÇAS FORTES: a cultura startup exige lideranças fortes – em cada
uma das empresas e também na comunidade que as une. O poder de barganha e a representatividade desses líderes refletirão em benefícios para toda a comunidade e no crescimento e proliferação da cultura desse grupo, do mesmo modo que líderes fracos levarão à destruição da cultura e criarão dificuldades e barreiras para toda uma comunidade em seu entorno;
> RESPEITO MÚTUO: gestores não são melhores que desenvolvedores, que
não são melhores que designers ou profissionais de comunicação e marketing. Qualquer criação de “níveis de importância” entre os membros de uma comunidade de startups levará a uma cultura fraca e praticada apenas por alguns;
> OBSESSÃO PELO CLIENTE: grandes culturas entre startups são criadas a
partir da identificação de necessidades da sociedade e, por conseguinte, do cliente. Essa obsessão pela busca de respostas a problemas enfrentados pelo cliente deve prosseguir e ser compartilhada entre todas as empresas que formam uma comunidade;
> ENERGIA E ESPÍRITO: é possível “sentir” quando se caminha em um local