O Empreendedor Viável

André Telles, Carlos Matos · Capítulo 21 de 60

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O Empreendedor Viável

Qual o seu objetivo?

O movimento de empreendedores hoje se tornou algo bastante semelhante. Centenas, talvez milhares de empreendedores têm ideias, desembolsam algum dinheiro criando um produto ou plataforma, por vezes até mesmo pagando por soluções prontas, desenvolvem um modelo Canvas e passam a correr atrás de investimento em uma espécie de jogo na roda da fortuna.

A criação e proliferação de startups virou uma forma “garantida” de enriquecer e passou a ganhar mais e mais páginas da mídia, sem que, no entanto, se descrevam com clareza aqueles casos com os quais, provavelmente, temos mais a aprender – os fracassos.

A infinidade de eventos para startups, aceleradoras, fundos e núcleos de formação de empresas levou estudantes e empreendedores de primeira viagem à conclusão de que o negócio próprio é o “caminho fácil” rumo ao sucesso.

As etapas de criação e desenvolvimento de modelos de negócio e empresas nascentes hoje são claras, mas empreendedores ainda esperam por seus badges – querem juntar apenas o maior número possível de medalhas, as quais acreditam ser a razão de se botar em prática um modelo idealizado.

Enquanto tivermos uma cultura na qual o empreendedorismo é apenas a opção mais “rápida” em contraposição a um emprego em uma multinacional, não caminharemos com tanta rapidez quanto sugere o script. Ressaltamos mais uma vez nosso conceito de MVE (Minimum Viable Entrepreneur). Você está realmente preparado para se tornar um empreendedor viável? Ou melhor, depois desta fase de empreendimento, você está disposto a se tornar um empresário? Ter uma empresa com CNPJ, enfrentar a burocracia, correr riscos trabalhistas, recolher impostos? Não queremos parecer pessimistas − e não somos −, queremos somente alertar que o caminho para se tornar um MVE não é fácil, mas a realização como empresário e empreendedor é algo que em geral compensa as agruras do caminho para chegar até lá.

 

Qual o seu objetivo?

 

Comecemos repensando os objetivos propostos pela maioria dos modelos apresentados hoje em competições de startups e empreendedores. Qual o objetivo deles? Se colocarmos a coisa em panos limpos, descobriremos que a maioria tem como fim o recebimento de um investimento ou aporte, e não a criação de uma empresa sustentável e lucrativa.

O “ficar rico” tornou-se sinônimo do que tempos atrás seria somente a conquista de uma linha de crédito para uma empresa. Uma vez conseguido o investimento, é só sentar e gozar a vida numa boa.

É bem verdade que o capital disponível para investimento em novas empresas e startups, nos últimos anos, alcançou um volume jamais pensado antes, mas a abundância dessas linhas de crédito (o que de fato são) decorre da redução de posições de investimento em outros segmentos, especialmente nos países desenvolvidos, deteriorados pelas crises europeia e americana. Investidores dos mercados de alto risco chegaram simplesmente à conclusão de que o risco versus o retorno para investir em startups é menor do que o risco ao qual estavam expostos investindo em papéis, derivativos e outras opções do mercado financeiro. O problema? Isso pode tornar a mudar.

Startups com objetivos claros e modelos que facilmente se convertem em planos de negócio sustentáveis e eficazes possuem hoje uma oportunidade adicional junto a investidores – mas não a única. Fundos de VC e investidores-anjo proporcionam a essas empresas saltos em algumas etapas de seu desenvolvimento, porém, ainda que “o mar não estivesse para peixe”, tais empresas provavelmente prosperariam de igual modo, levando mais tempo até alcançar seus objetivos, no entanto.

Infelizmente, essa não é a regra para startups. Frequentando eventos do setor, é possível ouvir dezenas de jovens falando em “validar” seus modelos de negócio e conseguir um investimento, mas raramente se ouve algo como “o modelo é bom, agora precisamos de um plano”. Em alguns casos, a posterior ação de mentores ou profissionais de apoio acaba trazendo esses empreendedores para a realidade dos fatos, mas isso nem sempre ocorre. Como um empreendedor viável, você deve pensar em primeiro lugar no modelo, no plano, nas contingências e na viabilidade econômica, para depois buscar por aportes de capital, caso os mesmos se façam necessários.

Assim sendo, antes de seguir em frente, fazemos a pergunta: você está criando e desenvolvendo o seu negócio ou um modelo bom o suficiente para ganhar na “loteria” do investimento-anjo?

Se o seu caso é este último, talvez seja melhor você dar alguns espaços atrás no tabuleiro e começar outra partida, pois seu jogo certamente não irá muito longe. Mas, se o seu caso é o primeiro, talvez seja a hora de, como diz o próprio jargão entre empreendedores, “pensar fora da caixa” e oferecer valor não apenas a seus clientes, mas também a seus futuros acionistas, hoje genericamente apelidados por você mesmo de investidores.

Como citamos antes, partindo do pressuposto de que o “produto” que investidores e fundos desejam adquirir não é aquele que você pretende oferecer ao cliente, mas sua empresa ou projeto em si, desenvolveremos neste livro um pouco mais o conceito de MVE, saindo um pouco da “cartilha” e tentando enxergar de modo sistemático e objetivo os requisitos mínimos que levam uma pessoa ou empresa a injetar capital em um novo negócio que, até por sua definição formal, é algo duvidoso.

 

PONTO DE VISTA:

 

WAGNER MARCELO MIRANDA

 

MACHADO

Coordenador de Startups da PUC-SP

Diretor Executivo da Intellecta

Membro do Comitê de Investimento e Inovação da FIESP/CJE

Diretor atuante e engajado da Intellecta, um centro de estudos na área de ciências

exatas, computação e empreendedorismo, Wagner também coordena o núcleo de

startups da PUC-SP e atua junto a investidores na Fiesp, promovendo empreendedores

e startups e auxiliando no desenvolvimento de novas empresas e produtos inovadores, a

partir da própria Intellecta, de alunos da PUC e também da promoção e participação em

eventos do segmento.

 

Perfil pouco discutido

Wagner concorda que, apesar das palavras “startup” e “empreendedorismo” estarem

em voga, pouco se discute e questiona a respeito do perfil dos empreendedores e líderes

que encabeçam essas empresas nascentes. “Muito se fala hoje em dia sobre

empreendedorismo, mas pouco se questiona sobre o perfil necessário para

empreender.”

Ele enxerga um conjunto mínimo de qualidades e características que perfazem um

bom perfil empreendedor, embora defenda que a ausência dele não é necessariamente

um problema. “Existem pessoas que focam em resultados no curto prazo.”

“Ser empreendedor é ter um estilo de vida próprio. É não se importar quando

questionado sobre suas ações ou quando indagado sobre o que tem feito nos últimos

anos. É entender que você sempre será julgado pelo que tem e não pelos seus projetos

(ou pelo que pode vir a realizar)”, discorre Wagner.