O Empreendedor Viável
Empreendedores viáveis para uma comunidade viável
tecnologia, para setores como vendas e atendimento ao cliente, por exemplo;
> CULTURA: coworkings já vêm proliferando em diversas cidades médias e
grandes, porém não são o único foco de proliferação de cultura em uma comunidade startup. Normas tácitas de conduta e ética, tolerância ao risco, valores de criatividade e, principalmente, o aparecimento e promoção de autores e difusores do conhecimento garantem a criação de uma cultura e uma identidade próprias ao novo cluster que se forma.
Empreendedores viáveis para uma comunidade viável
Em meio a essa série de stakeholders, está o grupo de empreendedores que integrará a comunidade startup que se forma. Mesmo o relacionamento eficiente com todos esses atores não garante a criação de um cluster eficaz, é preciso acima de tudo que os empreendedores que formam essa comunidade possuam interesses e visão comuns e que a maioria deles seja “viável”, segundo os atributos do MVE já discutidos neste livro. A comunidade de startups, por fim, visa gerar um ciclo – no qual empreendedores que já demonstraram sua qualidade e viabilidade auxiliem na formação de novos MVEs.
Isso não significa que todas as novas startups que surgem nesse cluster alcançam o sucesso, a exemplo do Vale do Silício, onde 75% das empresas formadas continuam a não passar pela “prova dos nove” nos anos que se seguem à sua criação. Uma comunidade de MVEs aprende com sucessos e fracassos de modo indistinto, e cada falha é apenas um novo ensinamento, que será compartilhado por todos dentro desse grupo de empreendedores.
Qualquer que seja, a formação de comunidades viáveis implica não apenas bons fatores infraestruturais, cidades inteligentes e condições emblemáticas. Para se formar uma comunidade eficiente, é preciso haver uma orientação geral em torno dos mesmos valores.
Com comunidades tecnológicas, a história não é diferente. O surgimento do Vale do Silício como é hoje remonta à invenção do próprio microprocessador, porém o emblemático ponto de partida não levaria à formação do polo hoje existente na região, não fossem as sucessivas ondas de empreendedorismo e inovação que ali tomaram lugar. Berço de grandes startups desde a década de 1970, o Vale continua a cultuar os valores de inovação e pioneirismo e atrai empreendedores de todo o mundo – não em busca da tecnologia ali presente, mas sim de uma conjunção de ferramentas e valores que proporcionam um ambiente mais fértil para a criação de novas empresas.
O ambiente certo depende, claro, de circunstâncias físicas ligadas à mobilidade, padrão socioeconômico e alguns fatores que estão além do controle dos empreendedores locais, porém a viabilidade dessa comunidade está muito mais relacionada a valores compartilhados entre os membros da comunidade, entre eles:
> APOIO: criar uma startup já é uma tarefa difícil. Empreender sabendo que, ao
menos em 75% dos casos, as chances de sucesso são quase inexistentes é algo que não pode ser feito sem suporte. Tal apoio não é apenas financeiro, mas também motivacional. Uma comunidade viável oferece ao empreendedor perspectivas, mesmo diante do fracasso, e oportunidades de recompensa a seu trabalho;
> COLABORAÇÃO: as comunidades empreendedoras mais bem-sucedidas do
mundo possuem um ponto em comum: são colaborativas. Isso não quer dizer “trabalhar de graça”. O que de fato ocorre é a troca de informações e experiências, além do intercâmbio de serviços e conhecimento entre as empresas que constituem esse cluster. A “troca de favores” entre startups facilita não apenas a realização da missão de cada uma dessas empresas, mas também promove a comunidade como um todo, interna e externamente;
> TRANSPARÊNCIA: não há lugar para informações sigilosas, negociatas e
acordos por baixo do pano em comunidades viáveis. Tudo é feito às claras e, em geral, após passar pelo crivo da comunidade como um todo;
> TOLERÂNCIA: tolerar falhas não é um favor, e sim um sinal de sabedoria. A
recriminação do fracasso só leva indivíduos a mantê-lo fechado para si. Ao permitir aos membros da comunidade o compartilhamento de seus insucessos e erros, a comunidade poderá aprender com tais falhas, criando estratégias e armas para evitá-las no futuro;
> SEM “BAIRRISMO”: não foi fechando as portas para empreendedores de
fora que as grandes comunidades do mundo prosperaram. É preciso estar aberto para novas culturas e ideias. O sucesso de um polo ou cluster se mede principalmente por seu nível de atração de novos talentos e seu prestígio junto ao público externo;
> EVANGELISMO: os membros mais proeminentes de uma comunidade
acabam atraindo para si a responsabilidade de propagar os ideais e valores fora do cluster. Empreendedores de peso formados no Vale do Silício, por exemplo, levam ao mundo notícias sobre o que ocorre ali;
> PACIÊNCIA: comunidades viáveis são resultado de um amplo trabalho de
mudança e consolidação de valores, coisa que não ocorre em meses ou mesmo
anos. Paciência e perseverança são fundamentais.
Assim, a formação de comunidades viáveis está intrinsecamente ligada a atração, retenção e desenvolvimento de empreendedores viáveis. Além das características particulares de empreendedores, clusters tecnológicos e de empreendedorismo moderno vêm cada vez mais abraçando os valores de sustentabilidade e empregando de forma contundente o conceito de smartcities. A resolução dos problemas da comunidade e a modernização e adequação regional aos valores pregados pelo conceito de “cidades inteligentes”, em muitos casos, representarão uma enorme janela de oportunidades para os empreendedores que ali se encontram. Temos centenas de inovações que podem ser aplicadas em cidades – por exemplo, aplicativos de soluções para problemas de transporte urbano, ligados ao uso de táxis, automóveis, ônibus, bicicletas, além da popularização de sistemas de geolocalização.
Mais de 50% da humanidade vive hoje em ambientes urbanos e metrópoles, enfrentando problemas similares em segmentos como o de energia, saneamento, comunicações, habitação e serviços em geral. No conceito de comunidade viável, empreendedores viáveis despontam como precursores na adoção e desenvolvimento de soluções inteligentes, que possam melhorar a qualidade de vida em suas cidades e ser repetidas em outras metrópoles ao redor do globo.
Daí a importância das lideranças locais nesses clusters. O conhecimento dos problemas enfrentados por uma comunidade é, sem dúvida, o primeiro passo rumo a soluções e produtos inovadores e viáveis tanto do ponto vista econômico quanto da resolução de problemas.
Uma estratégia de comunicação da comunidade se faz necessária para atrair novos talentos e reter talentos locais. Qual o posicionamento estratégico que determinada comunidade pretende adotar para passar a imagem do movimento que ocorre naquele determinado local? Estas questões devem ser pensadas pelos líderes locais. A qualidade dos cursos, eventos e universidades promove o desenvolvimento dessa comunidade e auxilia na sua comunicação. Mais uma vez é todo o ecossistema interligado que vai promover a comunidade viável. Diversas cidades vêm comunicando e aplicando a cultura da formação de clusters com sucesso, sejam clusters de economia criativa, de energia e sustentabilidade, de tecnologia, de empreendedorismo ou de vários segmentos ao mesmo tempo – podemos citar Seul, Tel Aviv, Berlim, São Francisco, Sidney, Nova York, Tóquio e Londres.