O Empreendedor Viável
O mentor e seu papel
Na definição clássica, que pode ser encontrada em qualquer dicionário, um mentor é aquele que “aconselha, ensina ou guia”. Embora no contexto de empreendedorismo e startups essa figura passe a ter um caráter um pouco mais complexo, seu papel não foge em muito de tal definição.
Quando falamos em mentor, automaticamente nossos cérebros remetem à imagem do executivo mais velho e experiente, que no auge ou final de sua carreira pode conceder conselhos valiosos para que possamos construir nossas próprias carreiras – uma espécie de apadrinhamento.
Porém, o conceito de mentor mudou muito nas últimas décadas, com destaque para os últimos dez anos. Ainda que o atual estágio do empreendedorismo e o fenômeno das startups tenham modificado e aberto um pouco o perfil do “mentor ideal”, alguns mitos ainda prevalecem,
segundo discute Amy Gallo, editora da 5 Harvard Business Review.
A editora destaca quatro mitos que ainda prevalecem, embora estejam sendo, dia após dia, derrubados por uma nova geração de empreendedores e companhias:
> VOCÊ TEM DE ACHAR O MENTOR PERFEITO. É muito difícil hoje em
dia desenvolver toda uma carreira ou empreendimento recebendo suporte de um único mentor. A velocidade das mudanças e a inconstância da economia e da sociedade atuais tornam cada vez mais valiosa a variedade de opiniões de pontos de vista, e isso demanda mentores específicos para cada área atacada ou período considerado;
> A “MENTORIA” É UMA RELAÇÃO FORMAL DE LONGO PRAZO.
Partindo do pressuposto de que um mentor atende a necessidades de aprendizado e apoio de empreendedores e empresas, tal necessidade, assim como o relacionamento com um mentor, pode ser uma questão de horas ou dias, embora também de meses ou anos;
> MENTORES SERVEM A INICIANTES. Em geral, um mentor justifica seu
papel atuando em momentos nos quais as mudanças ocorrem rápido demais para que o empreendedor possa se acostumar ou lidar com elas, e isso não depende da idade ou tempo de maturação desse empreendedor;
> MENTOR É UMA POSIÇÃO DE RESPEITO E HONRA. Pode até ser uma
honra assumir o papel de mentor de um jovem empreendedor, mas, em geral, as novas relações empresariais concedem também ao mentor uma compensação, seja ela financeira ou não.
É claro que ainda é comum que mentores possuam mais experiência e sejam, em geral, mais velhos que seus aprendizes, mas, de qualquer modo, esse tipo de relacionamento hoje está muito mais ligado às necessidades e desafios que se apresentam aos fundadores ao longo da trajetória de uma startup do que uma mera relação de admiração e respeito. Certamente a figura do mentor ou de mentores auxilia na construção do MVE – o empreendedor minimamente viável.
Respeito e admiração, sem dúvida, tendem a crescer à medida que os laços entre mentor e empreendedor se reforçam e resultados idealizados por ambos são alcançados, como é o caso de alguns dos mais famosos empresários do segmento na atualidade. Vejamos alguns exemplos de empreendedores que se tornaram viáveis:
> MARK ZUCKERBERG, FACEBOOK. Um dos principais mentores de
Zuckerberg em seu aprendizado para assumir o papel de CEO na empresa que ele mesmo fundara foi o CEO do Washington Post, Don Graham. O fundador do Facebook chegou até mesmo a acompanhar a rotina diária de seu mentor, para conseguir insights a respeito da postura e figura de um CEO. Ambos foram apresentados em 2005 por um colega de Graham, que também lançou mão do auxílio de Zuckerberg nas áreas de mídias sociais e compartilhamento de notícias.
> LARRY PAGE, GOOGLE. A Apple pode ser o principal rival do Google,
mas um dos grandes mentores do fundador do site de buscas, Larry Page, foi ninguém menos que Steve Jobs. “Enquanto Jobs esteve doente, nos encontramos para falar de negócios. Jobs tinha insights muito interessantes sobre como tocar uma empresa, e foi exatamente sobre isso que conversamos”, disse Page, em entrevista para a Bloomberg. “Jobs me deu coragem para que o Google pudesse se desfazer de tudo aquilo que não estava indo bem, concentrando esforços naquilo em que é o melhor, como as buscas.” Outro que influenciou Page foi Michael Bloomberg, fundador da Bloomberg L.P., por seu uso de vastas áreas abertas sem divisórias em escritórios, o que na visão de Page torna os negócios mais eficientes.
Os dois exemplos selecionados não são os únicos nem ao acaso e mostram que a natureza do relacionamento com mentores é inerente à própria natureza humana e atende a necessidades e adversidades enfrentadas por todos nós, empreendedores ou não.
A partir daí, é possível dizer que o papel prioritário do mentor é o de fornecer as bases e o conhecimento para que empreendedores possam desenvolver e aplicar novos conceitos e paradigmas a seus negócios. As proporções desses conceitos irão variar de negócio a negócio, bem como seu grau de especificidade. Para uma startup, é tão importante possuir um mentor que possa fornecer orientações e know-how em áreas corriqueiras, como direito, marketing ou contabilidade, quanto em áreas extremamente especializadas, como o desenvolvimento de aplicativos mobile e geolocalização.
Outra quebra de paradigma em “mentorias” a ser considerada é a que diz respeito ao relacionamento e escolha do mentor. A antiga figura do mentor, tido como uma autoridade em determinada disciplina, era sempre procurada por potenciais aprendizes, que manifestavam seus desejos e aspirações, por vezes acolhidos pelo tutor, que aceitava a posição de mentor.
Hoje, com a velocidade da informação e a enorme quantidade de disciplinas envolvidas no cotidiano, além de programas de graduação e aceleração de startups, muitos mentores se prontificam a “apadrinhar” entrantes no mercado. Qualquer que seja seu interesse em fazê-lo, o resultado permanece o mesmo: o compartilhamento de conhecimento e a colaboração na construção de modelos de negócio promissores e inovadores.
PONTO DE VISTA:
TALLIS GOMES
Sócio-fundador e CEO da Easy Taxi
Tallis foi, ao longo de 2012, uma das grandes sensações entre os empreendedores
digitais brasileiros com o Easy Taxi. Ainda criança, o empresário precisou de dinheiro
para comprar equipamentos para sua banda e assim resolveu vender celulares de
segunda mão no Mercado Livre.
Perguntamos a Tallis sobre a importância de um mentor, ou mentores, na construção
de sua carreira, caráter e, principalmente, dessa startup que o levou às luzes da ribalta
do empreendedorismo brasileiro. O jovem CEO começou sua resposta com uma
curiosa proposta: “Vou separar essa resposta em dois estágios — o nascimento do
negócio e o amadurecimento desse negócio. Só posso falar desses dois estágios, pois
foram os únicos que vivi com um real business enquanto empreendedor.”
O nascimento do negócio
Tallis reconhece o peso de um bom mentor nesta fase do desenvolvimento de uma
empresa. “Todos sabemos que os pilares de um negócio são um bom produto, ‘flawless
execution’ (uma execução sem falhas) e networking.”
O empresário vai além — ele acredita que, nos primeiros dias de uma empresa, a
importância de uma boa cadeia de relacionamentos supera a necessidade de um bom
produto para sua constituição. Ele comenta que, se você executa um modelo e um plano
sem falhas, isso implica em um bom time, que certamente irá desenvolver o produto de
modo a atender corretamente às necessidades e apontamentos de seu “chefe”, ou seja, o
próprio cliente.
“Porém, se você não possui um bom networking (o que é a realidade da maioria dos
empreendedores de primeira viagem), você não conseguirá quebrar as primeiras
barreiras de entrada do seu negócio”, admite ele.
Tallis teve como mentores, ainda na fase preliminar de seu negócio, Felipe Matos
(que veio a coordenar o programa Start-UP Brasil, do governo brasileiro) e João Ávila
(coordenador da rede de investidores Anjos do Brasil para o estado de Minas Gerais). O
CEO do Easy Taxi diz que ambos foram essenciais na abertura de relacionamentos
importantes para a empresa e até mesmo para conquistar rodadas iniciais de
investimento-anjo.
O amadurecimento
Com o negócio já validado pelo mercado, a empresa começa a gerar uma
considerável receita e caminha em direção à escalabilidade. “Nessa fase, ter um mentor