O Exterminador do Futuro
Faculdade West Los Angeles 11:53 a.m.
■ FACULDADE WEST LOS ANGELES
11:53 A.M.
_
_
O pneu furado foi a gota d’água. Sarah caminhou até sua scooter e balançou a cabeça de forma fatalista
para o pneu traseiro furado. Aquilo estava longe de ser justo. Não havia motivo para isso ter acontecido
com ela. Ok, talvez encontrasse um prego na banda de rodagem, claro. Mas por que hoje? Por que não
amanhã? Ou ontem? Nos dois últimos casos, ela estava com a agenda livre e poderia facilmente se
adaptar ao desastre. Mas hoje? Por quê?
As coisas haviam começado bastante bem. Depois de sair de seu apartamento, ela fez um trajeto
rotineiro e cheio de devaneios até a faculdade. O trânsito estava surpreendentemente tranquilo e os
motoristas haviam sido atentos e graciosos, o que não era comum. Ela então se permitiu fazer algo bem
suicida quando se pilota um veículo de duas rodas no trânsito de Los Angeles: sonhar.
Ela estava pensando em Stan Morsky e em seu encontro naquela noite. Não planejou fazer isso, mas as
imagens brotaram por cima da visão da estrada diante dela e simplesmente mandaram a realidade
embora. Lembrou-se dos olhos azul-escuros e do sorriso dele. Não era particularmente sincero, mas
suave e havia sido inspirado por ela. Tudo bem, ela precisava admitir, não era nada parecido com a
expressão que Ginger inspirava em Matt. Mas aquilo a fez se lembrar de um sorriso que havia
conseguido inspirar dois anos antes. No terceiro ano da escola. Parada no corredor com Rich Welker
depois da aula. Um sorriso superdoce estragado apenas de leve por um dente quebrado, que ele
rapidamente lembrava a todos que havia conquistado em um inesperado jogo vitorioso contra os antigos
campeões da liga de futebol americano. Ele fazia parte do time do colégio, era presidente de turma e
tinha as roupas mais bacanas. Seus pais eram ricos, lógico. Ela conseguira entrar no grupo das líderes de
torcida só para ficar perto dele. Durante meses, ele foi educado e acessível com todo o mundo – menos
com ela. Um dia, enfim, no corredor, ele a viu pela primeira vez, emoldurada por seu armário aberto.
Ninguém estava por perto. Ele a beijou. E depois sorriu para ela.
Tiveram três encontros antes de ele lhe contar que se casaria com a rainha do baile.
Sarah rapidamente apagou aquele pensamento e voltou a Stan. Ele era bem parecido com Rich.
Elegante, bonito, dirigia um Porsche, com uma expressão sonhadora e um sorriso deslumbrante. Era
engraçado e educado. E quando a convidou para sair ela ficou surpresa. Não houve aviso. Sarah estava
atendendo a mesa dele. Stan fazia comentários divertidos de tempos em tempos e ela se certificava de
que ele estava sendo bem-tratado. Quando um cliente da mesa ao lado começou a tratá-la com
implicância, ele a socorreu com uma piada que atenuou a situação. Enquanto o agradecia pela atitude, ele a chamou para ir a um show. O único grande problema que ela enfrentava agora era que roupa vestir. O
cara era realmente chique. Talvez Ginger a ajudasse a se decidir.
Foi então que sua scooter começou a engasgar e a balançar. A Honda estava morrendo bem debaixo de
Sarah. Rolou até parar na pista do meio. Carros de todos os lados começaram a buzinar. Os motoristas já
haviam ultrapassado o limite da paciência e agora, hostis, encontraram um alvo conveniente.
De alguma forma, ela não parecia surpresa e foi isso que de fato a surpreendeu ao empurrar a scooter
até o meio-fio. Foi então que percebeu por que não estava surpresa. Ela então lembrou de não ter
abastecido a Honda na noite anterior, quando foi para casa depois de sair da biblioteca. Idiota.
Ok, só alguns minutos atrasada até agora, nada demais. Ela andou com a scooter por uma quadra até um
posto de gasolina e pronto.
Sua primeira aula às sextas-feiras era uma aventura e tanto. Linguística. A professora Miller a segurava
após as aulas por conta de seus atrasos cada vez mais frequentes.
A outra grande crise de Sarah era em Psicologia 104.
Rod Smith era um dos poucos homens do campus a discernir que as mulheres mais lindas tinham aulas
de psicologia. O tarado vinha dando em cima de todas as garotas, menos de Sarah. Hoje foi seu dia de
sorte.
Ele estava a duas cadeiras de distância, olhando pelo canto do olho para suas pernas à mostra. Sarah se
puniu por não ter ido de jeans, mas estava um dia tão bonito, e ela adorava a sensação do vento em sua
pele quando andava de short na scooter.
Rod estava lembrando a ela, inconscientemente, claro, da lei implícita da selva civilizada. Se você usar
algo sexy, os homens têm o direito de olhar. Ela decidiu ignorar Rod e, embora não tenha exatamente
desaparecido, ele ficou encolhido em sua mente como um pequeno aborrecimento. Até a aula acabar.
Ele a seguiu até a área externa e andou ao seu lado até o pátio, puxando uma conversa amistosa. Sarah
não estava prestando atenção no que ele dizia; ouvia apenas o tom da voz, urgente e ávido. Ele
provavelmente também não estava se escutando. Rod terminou dizendo: “A gente nunca conversou muito.
Acho que deveríamos. Tem muita coisa que poderíamos aprender um com o outro”.
Sarah parou de andar e o encarou. Não havia o menor sinal nos olhos dele de que ele era capaz de
distingui-la de qualquer outra mulher do campus. Ela não era Sarah, mas apenas mais um alvo romântico.
Seria especialmente bom se ele desaparecesse e então ela disse: “A única coisa que quero aprender com
você, Rod, é sua aparência quando está se afastando”.
Ela se surpreendeu ao ver o efeito que isso causou. Repentinamente humilhado, seu rosto enrubesceu e,
com muita vergonha, ele saiu. Devia ser fingimento, pensou. Não era? Ai, meus Deus, ela não teve a
intenção de ser tão grossa. Talvez esse pobre cara realmente gostasse um pouco dela.
Depois ela foi até sua Honda e viu o pneu furado.
Sarah ligou para Rod. Foi um impulso que a assombraria mais tarde. Ela deu aquele sorriso bonito e
Rod se derreteu. Em poucos minutos, ele estava grunhindo aos pés dela, remendando e consertando o
pneu.
Ela sabia que teria de compensá-lo por sua generosidade – e ele também sabia disso. Quando Rod
terminou, limpou as mãos no jeans e pôs o braço em volta da cintura de Sarah. Ele a puxou em sua
direção e disse: “Eu sabia que você ia mudar de ideia”.
E lá estava o Olhar, transformando seu rosto naquilo que imediatamente pareceu ser um exemplo
clássico daquele tesão de cair o queixo. Sarah não conseguiu se segurar: ela riu.
Enquanto observava Rod sair pisoteando de raiva, percebeu que havia feito um inimigo. Maravilha,
pensou Sarah, subindo na scooter. Nada mal pra um dia só, até agora. E enquanto ia para o trabalho ela
se permitiu ter a esperança vã de estar apenas alguns minutos atrasada. Certamente aquela manhã, que
entraria para a história, era suficiente para apaziguar os deuses.
Mas às vezes os deuses nunca ficam satisfeitos.