O Exterminador do Futuro
Bairro Palms Jasmine Street, 656 6:57 p.m.
■ BAIRRO PALMS
JASMINE STREET, 656
6:57 P.M.
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Elas estavam se preparando para a batalha, apertando-se no pequeno banheiro do apartamento após se
acotovelarem para usar o chuveiro. Ginger, lutando seriamente por espaço no espelho, estava vestida
com seu robe de náilon até os quadris, enquanto Sarah usava calcinha de algodão e uma camiseta dos
Jetsons, sete tamanhos maior. Suas imagens no espelho foram borrifadas com desodorante e spray de
cabelo. Suas armas estavam enfileiradas em cima da pia: rímel, blush, lápis de olho, escovinha de
sobrancelha. Ginger estava passando um batom rosa brilhante na boca.
Ginger percebeu a dificuldade de Sarah com o delineador e bravamente intercedeu. O efeito foi
chocante. Ela não ficou nada mal. Nada mal.
Após fazer sua boa ação, Ginger voltou-se para si mesma, colocando os fones de seu walkman
invertidos sob o queixo para poder fazer o cabelo. Ela aumentou o volume até ter um show de rock de
cento e vinte decibéis martelando seus ouvidos.
Sarah conseguia ouvir cada batida, mesmo de onde estava, e disse: “Ginger, você vai ficar surda”.
“O quê?”, gritou Ginger, começando a balançar as pernas com a música.
Sarah enroscou o fio de seu babyliss no fio dos fones de Ginger e acidentalmente os arrancou do
pescoço dela. “Desculpa”, disse Sarah. Enquanto desembaraçavam seus aparelhos, Ginger perguntou:
“Conta mais desse cara misterioso”.
“O nome dele é Stan Morsky. Conheci no trabalho. Ele estuda cinema na USC e o pai dele é produtor de
televisão. E sim, ele tem um Porsche preto novo.”
Ginger fingiu babar e depois quis saber como ele era.
“Um pouco estranho. Tipo um cruzamento entre Tom Cruise e... Pee Wee Herman.”[3]
Aquilo arrancou uma gargalhada de Ginger. “Mas o Porsche é bonito, né?”, sugeriu ela.
“Ginger”, respondeu Sarah, “Hitler também tinha um Porsche.”
“Ah, é? Aposto que o dele não tinha teto solar.”
O telefone tocou novamente e Sarah foi atender. Ginger recolocou os fones e aumentou o volume até o
limiar da dor, balançando-se com as batidas.
Sarah retirou o fone do gancho e disse “Alô”.
Era um homem. Ele estava arfando em uma voz gutural, como se fosse asmático. Ele disse: “Primeiro
vou arrancar os botões da sua blusa, um por um. Depois vou puxá-la de seus ombros e passar a língua em
seu pescoço...”
Sarah ficou petrificada. Seu primeiro telefonema obsceno. Até que era legal. Ela continuou ouvindo o
homem, que se esforçava para que a voz se mantivesse grave. “Depois vou lamber seus seios nus e
reluzentes...”
Foi aí que Sarah teve outra decepção, além de todas as outras que tivera naquele dia. A ligação
indecente não se destinava a ela, como começou a perceber quando reconheceu a voz do outro lado. Era
para Ginger.
Ela pôs a mão em cima do bocal e gritou para sua colega. “É o Matt!” Ele ainda estava falando, sem
saber que era a garota errada. Ela decidiu que pelo menos podia se divertir um pouco com a situação e
continuou a escutar.
“E aí, quando você estiver no chão, eu vou tirar lentamente sua calça, bem devagar, e lamber sua
barriga em círculos, descendo cada vez mais. Depois eu vou arrancar sua calcinha com os dentes...”
A garganta de Sarah estava engasgada, prendendo a risada. Ela pigarreou e tentou soar irritada ao dizer
“Quem está falando?”.
Após um delicioso momento de silêncio, chocado, Matt reapareceu na linha: “Sarah? Ah... Desculpa...
Meu deus, eu...”
Sarah soltou a risada.
“...sinto muito. Pensei que fosse a... Eu... posso falar com Ginger?”
“Claro, amorzinho”, respondeu Sarah, alegremente.
Enquanto Ginger e Matt brincavam sobre o que planejavam fazer um com o outro mais tarde, Sarah
mostrou várias blusas para Ginger aprovar.
Ela acenou positivamente para todas.
“Nossa, me ajudou muito”, resmungou Sarah.
Ginger pôs a mão sobre o bocal, com metade de sua mente ouvindo Matt continuar a murmurar
promessas que jamais poderia cumprir, enquanto a outra se concentrou na minicrise atual de Sarah. “Ok”,
ela finalmente sussurrou, “a bege.”
“Eu odeio a bege.”
“Então não vá com a bege.”
Irritada, Sarah juntou todas as blusas e disse: “Não sei por que tanta preocupação. Esse cara não vale
esse trabalho todo. Ele é apenas um ser humano que vai ao banheiro como todo o mundo. Ainda assim,
provavelmente a gente não tem nada em comum. Ele deve gostar de Barry Manilow ou Twisted Sister, ou
coisa parecida”.
Ginger estava às gargalhadas quando Sarah saiu enfezada.
No momento seguinte, Sarah virou a cabeça. “Então você acha que é a bege, né?”
Pouco tempo depois, as meninas foram para a sala esperar seus respectivos acompanhantes. Sarah
começou a procurar Pugsly, que havia arrancado a tampa de plástico de seu terrário e saído para caçar
insetos sem permissão.
Ginger se sentou no sofá e pegou a lixa de unha enquanto seu show particular continuava nos fones de
ouvido. Seus olhos perceberam, no entanto, a luz de mensagens piscando na secretária eletrônica. Ginger havia ligado o aparelho após encerrar a ligação com Matt para que ela e Sarah pudessem terminar de se
arrumar.
“Deve ser sua mãe”, disse Ginger enquanto foi apertar o botão para escutar.
Era mesmo.
Sarah escutou distraidamente sua mãe matraqueando sobre ter se esquecido de pedir a ela para trazer
uma receita de lasanha de salsicha quando aparecesse no domingo: evidentemente sua mãe não vira o
noticiário sobre o assassinato de Sarah Anne Connor. Ela estava feliz por não ter de ligar de volta e
explicar.
Ela queria colocar Pugsly de volta em seu terrário antes de sair. Finalmente o localizou em cima da
estante perto da janela. Quando ela o pôs em seus braços, cantando para ele suavemente como se fosse
um gato ou um cachorrinho, Ginger fez um esgar e disse: “Que nojo. Reptofilia. Realmente repugnante”.
Em seguida a secretária eletrônica fez um clique para outra mensagem.
“Oi, Sarah”, disse a máquina alegremente com o entusiasmo de um DJ de rádio AM. “É Stan Morsky.
Escuta, aconteceu uma coisa e acho que não vou conseguir ir hoje. Não dá pra escapar. Eu sinto muito
mesmo. Prometo que vou me redimir. Talvez na semana que vem, ok? Eu te ligo em breve. Tchau.”
Sarah ficou ali parada, segurando o lagarto.
Ginger estava furiosa. “Que vagabundo. Vou quebrar os joelhos dele. E daí que ele tem um Porsche?
Ele não pode fazer isso com você. É sexta-feira, caramba.”
Sarah percebeu que estava secretamente esperando por isso. Não apenas porque o dia parecia ter sido
esculpido por mãos poderosas e invisíveis para terminar com esse pequeno desastre final, mas porque
Stan na verdade havia marcado esse encontro de maneira muito casual. Ele deve ter ficado tão
entusiasmado que simplesmente esqueceu e quando foi chegando perto das 20h tirou essa desculpa
esfarrapada do fundo do seu... Porsche. Mesmo assim, aquela sensação de vazio da rejeição a atingiu
com força. Por reflexo, ela tentou não demonstrar, como Ginger faria. “Bem, eu vou sobreviver”, disse
ela. Só que saiu como um suspiro, em vez de sarcasmo.
Ela olhou para Pugsly e seus olhos membranosos e úmidos. “Pelo menos Pugsly ainda me ama.” Ela se
abaixou para dar um beijo suave no focinho do bicho. A única resposta do lagarto foi piscar em sua
paciente tolerância com a afeição humana.
Sarah rapidamente tirou sua saia e a blusa. Ela também ia tirar a maquiagem quando decidiu, de raiva e
de provocação, não desperdiçá-la. Pôs uma calça jeans, botas, um suéter e pegou sua jaqueta. Após uma
rápida busca dentro da bolsa para conferir as finanças, ela anunciou que estava indo ao cinema ver um
filme no qual estava de olho havia um bom tempo, antes que saísse de cartaz. Procurou um título qualquer
na memória e o lançou no ar, mas viu que Ginger não estava acreditando nela, pela cara que fez. Sarah
com certeza não queria ficar em casa assistindo à televisão, tentando abafar os sons que Matt e Ginger
estariam fazendo no quarto ao lado quando voltassem do jantar.
“Vejo você mais tarde. Divirtam-se, você e Matt.”
Sarah estava olhando para baixo, procurando as chaves em sua bolsa, e não viu o sujeito de porte
poderoso de pé diante dela. Ele andou em sua direção como um pedaço de aço no escuro e estendeu o braço.
Sarah levantou o rosto e se debateu quando ele a envolveu em seu braço, rosnando e dizendo
roucamente: “Vem cá, garotinha!”
Ela socou seu ombro, mas sem efeito. “Que droga, Matt!”
Ele sorriu como um irmão mais velho devasso. Sarah começou a se afastar, mas Matt a agarrou e lhe
deu um beijão molhado na bochecha, deixando-a sair com um meio sorriso nos lábios.
A garagem subterrânea estava escura, iluminada de forma intermitente por lâmpadas frias acima. A
lâmpada sobre a sua scooter estava queimada. Normal, pensou ela. Seus passos ecoavam de maneira
sinistra. O local estava quase deserto. A maioria dos inquilinos já estava fora, se divertindo.
Ela se ajoelhou ao lado da Honda e mexeu no segredo do cadeado. Depois parou. Será que ouviu um
som? Ela examinou o interior da garagem. Seis carros e uma moto. Mal conseguia ver um dos carros,
estacionado em um ponto escuro perto da saída. Deve ter sido seu próprio eco.
Lembranças de Theresa Saldana e Sal Mineo[4] se arrepiaram em sua espinha e se alojaram em sua
nuca. Com pressa, ela guardou a corrente e subiu na Honda. Isso sim seria uma maneira idiota de morrer.
Assassinada em sua própria garagem. E considerando este dia... Ela tremeu, fechou o zíper de sua jaqueta
e deu a partida na scooter. O motor roncou, tranquilizador.
Ela relaxou e apertou o guidão. O jornal daquela tarde a fez pensar em sua própria mortalidade, em
como sua morte seria insignificante. “Sarah Jeanette Connor, garçonete, morta aos 19 anos.” Outro nome
na tela, sem impacto ou significado para ninguém, já esquecido antes de mostrarem os resultados dos
jogos de basquete. Ela sabia que aquele pensamento a estava rondando a noite toda, alimentando sua
apreensão normal sobre o estacionamento vazio, elevando-a a um medo irracional. Surgiu uma sensação
de estar sendo vigiada, analisada por uma presença maligna.
Ela levantou o apoio e saiu lentamente em direção aos carros. Ao passar pelo sedã cinza empoeirado,
espiou dentro do veículo e viu que não havia ninguém. Ao chegar na entrada, ela parou e verificou o
tráfego cruzado. Se tivesse olhado para trás, teria visto alguém sentado no banco da frente, deslizando as
mãos marcadas no volante.
Kyle Reese.
Quando ela saiu pelo portão de segurança, exatamente às 20h19, os olhos dele haviam se fixado nela e
registrado o alvo. Sarah Jeanette Connor. Igual à foto. Bem na hora. Era ela. Ele sabia disso, mas ainda
assim não acreditou totalmente. Emoções conflitantes se agitaram em seu peito e ele teve de se forçar a
tirar os olhos de cima dela e se abaixar antes que fosse visto. Reese ouviu a scooter dar a partida e
passar por ali, certo de que ela podia sentir as batidas de seu coração martelando alto em seus ouvidos.
Quando se sentou, Sarah estava prestes a virar à direita. Ele remexeu nos fios para ligar seu próprio
carro. Deixando a obrigação falar mais alto, suas mãos trêmulas se firmaram ao concentrar o pensamento
apenas no que era necessário para completar a missão. Alvo. Siga. Intercepte. Quando ela saiu para a
rua, ele não estava muito atrás.