O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 5 de 52

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O Exterminador do Futuro

Bairro Palms Jasmine Street, 656 8:28 a.m.

■ BAIRRO PALMS

 

JASMINE STREET, 656

8:28 A.M.

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Sarah Jeanette Connor andou do seu apartamento no segundo andar até a entrada. Ela havia se esquecido

de olhar a correspondência na tarde do dia anterior e não dava para confiar em sua colega neste quesito.

Em todas as outras coisas talvez desse, mas a correspondência não estava no topo da lista de prioridades

de Ginger. Com Sarah, era como se fosse uma obrigação. Era uma coisa rara receber uma carta. Ela

nunca escrevia para ninguém, então isso não era surpresa. Mas havia contas. Contas que pagava

religiosamente em dia, sempre acabando com sua magra conta bancária no início do mês e vivendo de

gorjetas nas semanas restantes, satisfeita e segura de que todas as suas dívidas estavam pagas.

Sua colega era o oposto disso. Mas felizmente Sarah e Ginger haviam conseguido encontrar muitas

coisas em comum nos últimos oito meses dividindo apartamento, como sua exuberância e seu gosto por

diversão simples e descomplicada, embora Sarah tivesse de admitir que fosse um pouco mais

conservadora que Ginger – talvez bem mais. Apesar de Ginger ter 24 anos e Sarah apenas 19, às vezes

era difícil dizer quem era a mais nova.

Sarah parou perto do portão de segurança. Alguém o havia aberto com uma pedra. Uma pequena e fraca

raiva se agitou dentro dela. Alguém não se deu ao trabalho de usar a chave.

Ao chegar ao recanto da entrada, onde ficavam as caixas de correio, ela foi tomada de assalto pelo sol

brilhante e pelo cheiro de grama molhada sob o calor da manhã. A tempestade havia passado. Seria um

ótimo dia para andar em sua Honda. O céu a fez se lembrar de um anel de turquesa que seu primeiro

namorado lhe dera no colégio. Qual era mesmo o nome dele? Charlie... Não importava. Ela ainda tinha o

anel em algum lugar da sua caixa de joias, junto com outras lembranças das poucas relações que se

importava de lembrar.

Palms era uma comunidade tranquila de condomínios de apartamentos, com uma mistura saudável de

jovens e velhos, negros e brancos, judeus e protestantes. Cercada por todos os lados pelos respeitáveis

de Los Angeles – Beverly Hills, Santa Mônica e Culver City –, era a concentração não oficial de um

mosaico eclético de demografias improváveis que confundia a cabeça dos pesquisadores. Devido à

existência de tantos condomínios com numerosos apartamentos, as ruas estavam sempre cheias de carros

estacionados. Um dos motivos por que Sarah escolheu aquele condomínio era a garagem subterrânea. E o

fato de ter um portão de segurança.

Ao abrir sua caixa de correspondência, ela analisou o grosso punhado de envelopes que caiu em suas

mãos – duas contas, uma carta de sua mãe e o resto para Ginger.

Nada de cartas de amor de homens apaixonados e ricos, cheios de mágoa por terem sido rejeitados por

ela. Sem problema. Quem se importa? Estava tudo bem, porque à noite Sarah tinha um encontro. Era um

dia pelo qual ela esperou a semana toda. Um dia que ela se lembraria pelo resto de sua vida. Bem, Sarah

riu para si mesma, não se empolgue tanto. Ele não era um príncipe encantado, nem um homem

especialmente maravilhoso, mas tinha ingressos para o show de Julian Lennon no Bowl.

Sarah se perdeu em um devaneio diáfano, cheio de ardor, que começou educadamente com uma

possibilidade romântica, depois cresceu até um êxtase...

Ginger Ventura apareceu, correndo pela calçada, e bateu na fantasia de Sarah, sorrindo como se a

realidade fosse de fato mais divertida.

A morena alta estava sem fôlego, mas não sem energia. Ela continuou a correr parada enquanto

conversavam, com seus cachos de ébano balançando eletrizados sobre os ombros enquanto pulava de

uma perna para outra. Os fones que tocavam Bruce Springsteen no ouvido de Ginger em uma altura que

Sarah podia facilmente escutar eram presos por uma alça encharcada de suor. Sarah deu um largo sorriso

para sua colega. Se Ginger pudesse atuar e elas estivessem fazendo um teste para a Mulher-Maravilha,

Sarah não tinha dúvidas de que estaria morando com uma estrela. Ginger tinha 1,70 m sem um pingo de

gordura ou flacidez. Ela nunca conseguia ficar estática, mas mesmo parada chamava atenção. Ela era um

fio de alta-tensão serpenteando e se enrolando ao redor de uma bateria inesgotável de entusiasmo.

“Alguma coisa para mim?”, bufou Ginger.

Sarah entregou a Ginger a maior parte dos envelopes. Ela arregalou os olhos ao ler um deles.

“Ah, meu Deus, hoje é o dia!”

Ginger agarrou o braço de Sarah e a conduziu de volta ao apartamento delas, chutando distraidamente a

pedra sob o portão.

“O que é isso aí?”, perguntou Sarah.

“O resultado do exame. Vixe!”

“Resultado do exame? De quê?”

“De gravidez, boba. Eu não contei?”

Sarah parou a amiga em frente à porta do apartamento.

“Ginger! Claro que não contou.”

“Devo ter esquecido”, disse Ginger de modo irreverente ao entrar pela sala. Sarah estava estupefata,

tentando cegamente fechar a porta enquanto ia atrás de Ginger pelo apartamento.

Sarah gaguejou: “Mas você usa anticoncepcional, Ginger. Como pode estar grávida?”

Ginger começou a abrir a carta da clínica e depois hesitou. “Você sabe como sou orgânica. Detesto

pílula. E o espermicida tem vinte por cento de chance de dar errado. E minha menstruação não veio mês

passado. Então...”

Sarah olhou para a carta. “Bem, e qual é o veredicto?”

Ginger disfarçou a preocupação com um sorriso malicioso. “Aposto cinco pratas que é negativo.”

“Ginger, abre logo!”

Ginger olhou para o papel. “Certo”, disse ela, soando corajosa, valente, decidida – e se cagando de

medo. Ela abriu a carta. Sarah observou os olhos da amiga lendo rapidamente o conteúdo. Em seguida,

eles se ergueram na direção dela com uma espécie de aceitação resignada. “De qual nome você gosta?

Talvez só Júnior, né?”

Sarah sentiu um aperto no peito. “Ah, não, Ginger. Meu Deus... O que você vai... quer dizer... Você

vai... Ginger...”

Ginger fez uma careta, depois amassou a carta e a jogou na mesa de centro. “Você quer saber o que eu

vou fazer? Tomar uma bebida.” E Ginger levantou-se como uma criminosa prestes a fazer sua última

caminhada e marchou até a cozinha.

Sarah a observou sair, chocada. Que confusão. Ginger nunca se metia em confusões assim. Ela sabia

todos os macetes do mundo. Ginger tinha uma vida de sorte. Ginger era...

(Sarah apertou os olhos com uma repentina desconfiança que crescia a cada instante e andou até a

mesinha. Ela desamassou a carta e leu o resultado.)

...uma garota muito engraçada.

Sarah balançou a cabeça, simultaneamente ardendo de vergonha e de raiva. Ela adentrou a cozinha

botando fogo pelas ventas.

“Ok, Ginger, muito engraçado...”

Ginger saltou de trás da geladeira e molhou Sarah com uma garrafa agitada de Perrier. Sarah gritou e

estapeou cegamente o ar à sua frente.

“Sua puta!”, gritou Sarah, mas agora estava rindo contra sua vontade.

“Por que eu deixo você fazer isso comigo?”

Ginger piscou para Sarah. “É uma pergunta de verdade?”

Sarah assentiu.

“Resposta de verdade. Porque você ama isso, gatinha.”

“Vai à merda”, disse Sarah, sorrindo.

Sarah mudou o tom, fazendo um bico quase sério.

“Você sabia o tempo todo que era resultado de papanicolau, não é, sua bandida?”

“Com certeza não achei que estivesse grávida. Nunca atrasei uma menstruação sequer desde que eu

tinha 13 anos.”

“Tudo bem. Então por que você faz isso comigo?”

“Você é um alvo fácil.”

“Eu posso te surpreender qualquer dia desses.”

“Seria ótimo.”

As brincadeiras de Ginger estavam começando a ter aquele tom de fundo de verdade. Sarah balançou a

cabeça de irritação. Ginger achava que sua obrigação cármica na vida era guiar Sarah pelas turbulências

de cada dia. O que Ginger e a mãe de Sarah e praticamente todo o mundo não percebiam era que a

pequena Sarah estava indo muito bem. Ela estava trabalhando, indo à faculdade e até conseguindo

guardar uns trocados.

Claro que tinha alguns problemas, mas nada avassalador ou fora de controle. Coisas que todo o mundo

também passa. Menos Ginger. Ginger parecia rebater os tempos ruins como se estivesse ganhando ainda

mais impulso para cair de cabeça nos bons. E Sarah teve um pensamento incomum. Será que Ginger

alguma vez sofreu algum baque?

“Ei, Ginge”, começou Sarah, sem saber o que iria dizer, mas tomada pelo impulso mesmo assim. “O

que você faria se estivesse grávida?”

Ginger riu. “Teria rido bastante da cara que Matt faria quando eu contasse a ele.”

As poucas vezes que Sarah realmente considerou ser mãe lhe trouxeram arrepios. Aquilo a fazia se

lembrar dos anos todos, após a morte de seu pai, que sua mãe teve de improvisar para si um livro de

regras: guie sem dominar, ame sem sufocar. Deve ter sido como cruzar os Himalaias em uma cabra

bêbada. Além do mais, Sarah não era exatamente uma fã de si mesma. Ela era normal, como a maioria

das pessoas, mas não fora feita naquela forma especial que moldara grandes homens e mulheres.

Mas para Ginger ela apenas disse: “É, bem, eu vou me contentar com visitar os seus”.

Ginger deu um tapinha no joelho dela. “Não se iluda. Você também tem esses instintos maternais.”

“Eu posso reprimi-los, vai por mim.”

É, Sarah estava pensando, eu sei amar. Se alguém me der uma chance. Se eu souber que ele vai me

amar também.

Mas encontrar um homem no qual pudesse confiar era como encontrar um milk-shake de baunilha no

meio do deserto de Mojave. E agora todo aquele círculo confortável de amigos com quem ela crescera

fora estudar em outros lugares ou havia se casado. Tinha de se virar sozinha. Encontros. Conhecer alguém

na faculdade. De algum modo, os que ela queria já tinham dona ou simplesmente não estavam

interessados.

Com um sorrisinho, Ginger estava observando sua amiga entrar no mundo estático de si mesma. Sarah

era uma das meninas mais doces. Talvez um pouco doce demais. Às vezes, ela usava aquela inocência

como escudo para o mundo real. Então Ginger gostava de dar uns sustos em Sarah de vez em quando.

Acordá-la do sonho que a maioria das pessoas tinha. O sonho do que deveria ser em vez do que era.

Então, em vez de abraçar Sarah como ela queria, Ginger usava sua terapia de choque usual, como havia

feito com a carta da clínica.

Ginger estava olhando hesitantemente para a sola de seu tênis de corrida.

“Acho que eu pisei no Pugsly.”

Sarah rapidamente olhou para o outro lado da sala. Pugsly estava parado como um dinossauro de couro

empalhado em seu terrário de plástico, olhando para ela com aqueles olhos que não piscavam, com a

calma desenvoltura de um réptil em marcha lenta. Ele era uma iguana verde de noventa centímetros que

Sarah havia ganhado de seu último namorado. Ela e Pugsly formavam uma relação duradoura de amor e

respeito mútuo – muito mais longa do que a que teve com o antigo dono dele.

Sarah pôs as mãos nos quadris e fez uma cara enfezada para Ginger, que estava piscando para ela com

um sorrisinho maroto. “Ficou tensa agora, né?”

“Acabou! Você vai morrer, Ventura.” Ela pulou em cima da outra e foi direto no ponto mais fraco de

Ginger: o umbigo.

O barulho do interfone assustou as duas com seu som agudo.

Ginger deu um pulo e apertou o botão.

“Notícia boa ou dinheiro?”, disse ela entusiasticamente.

A resposta veio pelo minúsculo alto-falante como um rato passando pelo buraco de uma agulha – um

pouco diminuída.

“Que tal sexo?”

Ginger sorriu para Sarah e deu uma piscadela. Depois falou novamente pelo interfone. “Claro, cara.

Sobe aí. Deixa as roupas do lado de fora.” Ela apertou para abrir o portão.

Matt Buchanan não tirou as roupas do lado de fora. Não que estivesse usando muitas roupas também.

Apenas uma regata e um short cortado que deixavam seu corpo sarado bem à mostra. Ele não era

arrogante por causa de seu físico poderoso ou por nenhum outro motivo, aliás. Sarah sempre ficava

impressionada – o cara parecia poder levantar um trailer e ainda assim tinha uma personalidade muito

doce e era menos babaca do que qualquer cara que tivesse conhecido.

Sarah estava pegando os livros da faculdade em seu quarto quando os ouviu desabando sobre o sofá.

Ela pegou a bolsa e andou até o tumulto.

“Já é a terceira queda, cara!” Ginger estava gemendo ao se desvencilhar de baixo de Matt, puxando seu

dedo indicador para trás e girando-o para se sentar. “Sarah, me ajuda aqui com este animal!”

“Desculpe, já tive o bastante para uma manhã”, disse Sarah, sentando-se no sofá enquanto escovava

seus cabelos castanho-claros na altura dos ombros e os amarrava com um elástico em um rabo de cavalo.

Ginger e Matt estavam se abraçando agora, sorrindo um para o outro daquele jeito momentâneo e muito

particular das pessoas apaixonadas. Havia tanta adoração nos olhos de Matt, como um cachorrinho, que

Sarah sentiu a inveja tomar conta de si. Ela não teve muitos namorados. Alguns deles realmente gostaram

dela. Mas ela nunca havia conseguido despertar o tipo de paixão que estava nos olhos de Matt. Sarah

sabia que um dia conseguiria. Talvez até mesmo mais tarde, naquela noite.

Enquanto andavam até a garagem subterrânea, Matt passou os braços em volta da cintura de Ginger e de

Sarah e abraçou as duas.

Sarah se ajoelhou ao lado de sua scooter Honda Elite. Depois de soltar a corrente, ela se virou para sua

colega. “Pego você depois do trabalho?”

Ginger assentiu. “Ei, por que não vamos todos para o Stoker’s e comemos uma pizza mais tarde?”

Sarah só conseguiu reprimir um pouco a ansiedade em sua voz. “Desculpem. Tenho um encontro hoje.”

Matt fingiu dar um soco no braço dela. “É isso aí, Sarah!”

“Não é nada, Matt. Só um cara que conheci no trabalho.”

“Aquele cara do Porsche preto?”, quis saber Ginger.

Sarah fez que sim, mas depois fez uma careta. “Ah, sei lá. Ele provavelmente faz parte do ‘Clube

Babaca do Mês’.”

Matt pôs o braço ao redor do pescoço de Sarah e a conduziu por alguns passos. “Você precisa de

alguma coisa, Sarah?”

Sarah estava genuinamente confusa. “Tipo o quê?”

“Você sabe. Um dinheirinho de emergência. Para o caso de esse cara ficar querendo passar a mão em

você antes de saírem para jantar. O que nós sabemos sobre o camarada? Ele pode te largar em algum

lugar horroroso tipo... Anaheim. Hein?”

Sarah deu-lhe um sorriso torto e tirou o braço dele de seus ombros. “Não, obrigada, papai. Já tive

encontros antes.”

Sarah chamava aquelas vozes da razão, fracas e distantes, de “Sarinhas”, só de brincadeira, porque é

assim que elas se pareciam – versões pequenas dela mesma que ficavam lá dentro, observando e

reprovando toda vez que ela começava a ter uma emoção que desconfiava ser inadequada. Às vezes,

confiava nas Sarinhas. Outras vezes, queria estrangulá-las. Agora elas a lembraram de que Matt e Ginger

gostavam dela e Sarah sorriu, relaxando. “Eu sei cuidar de mim mesma.”

Matt foi para cima dela e mordeu bem de leve a ponta de seu nariz. “Tá, mas o que você faria se ele

fizesse isso?”

Sem hesitar, Sarah deu um soco na barriga dura de Matt. Não deve ter doído, mas ele cambaleou para

trás, ofegante, e se amparou em Ginger.

Enquanto ele se contorcia teatralmente, Ginger o ignorou e deu um beijo na bochecha de Sarah. “Até de

noite.”

Sarah subiu na scooter e apertou o botão de ignição. O motor de 125 cilindradas reclamou. Sarah olhou

para trás para dar adeus e viu Matt ficar de pé, com um salto, como um bailarino.

“Tchau, Sarah”, disse ele, sorrindo.

Que palhaço. Ela o amava. E a Ginger também. Ela acenou um adeus e subiu com a Honda pela rampa

de concreto em direção ao calor do sol.

Sua mente não detectou nada fora do lugar, nenhuma pista sequer de que seria o último dia normal de

sua vida.